Os
judeus eram um povo de pastores, e a vida urbana num país
estrangeiro não lhes ia com o genio. Na adaptação ao Egio perderam
a independencia e tornaram-se lavradores comuns, dos que trabalhavam
para o rei e eram tratados como escravos.
Ha
cem anos atrás não podiamos ler a língua dos egipcios, mas logo
que a chave dos seus hierogrifos (ou escritos sagrados) foi
descoberta, defrontamo-nos com grande abundancia de informações
historicas, de modo que hoje não dependemos apenas do Velho
Testamento para o estudo desse periodo.
No
seculo 15 A. C. o Egito fôra conquistado por uma tribu de pastores
arabes, de nome Hyksos. Pertenciam á mesma raça semita dos judeus.
Logo que se senhorearam da terra ergueram nova capital, centenas de
milhas distante da velha cidade de Tebas – e por quasi trezentos
anos permaneceram os senhores absolutos do vale do Nilo.
José
veio ao Egito sob o reinado do Faraó Apepa, o ultimo soberano da
dinastia Hyksos. Depois de muitas tentativas os egipcios conseguiram,
afinal, libertar-se desses opressores. Chefiados por um rei nativo,
de nome Ashmes (de Tebas) expulsaram os Hyksos e voltaram a ser os
donos da terra. Isto veio dificultar a situação dos judeus, que se
havia mostrado muito amigos dos expulsos. José ocupara alta posição
na côrte dos Reis Pastores, e á custa do cargo muito favorecera a
sua gente, com prejuizo dos naturais. Ninguem esquecia esse fato, e
poucos se recordavam de que fôra ele o salvador do país durante o
tempo das calamidades. Os judeus eram olhados com rancor, e
desprezados.
Mas
para os descendentes de Abraão a
longa permanencia nos agradaveis vales do Nilo fôra uma benção.
Até então haviam sido apenas pastores, amigos da vida simples dos
campos. A emigração os pusera em contato com um povo que dava
preferencia á vida urbana. Conheceram o luxo, as comodidades dos
palacios de Tebas, Menfis e Sais. E breve começaram a desprezar as
rudes tendas que por tantos seculos contentaram os seus antepassados.
Por fim venderam os rebanhos e, abandonando as terras de Goshen,
mudaram-se para as cidades.
As
cidades, entretanto, já andavam superlotadas. Os recenvindos não
foram vistos com bons olhos. Eram gente que viria tirar-lhes o pão
da boca.
Não
tardaram os atritos entre os da terra e os judeus, atritos que
continuamente se foram agravando até degenerarem em conflitos. Por
fim foi dada aos judeus a escolha: ou tornavam-se egipcios ou
abandonavam a terra de adoção.
Metidos
naquele dilema, os judeus tentaram um acordo, como qualquer povo o
faria nas mesmas circunstancias. Foi peor. E a situação foi-se
tornando intoleravel de parte a parte.
A
fome determinara a vinda dos irmãos de José para o Egito. Um motivo
de força maior, pois, não simpatia ou afinidade. Daí a ideia do
retorno a Canaã sempre vivedoura na cabeça dos seus descendentes.
Mas era dificil a mudança. Trocar a fartura daquelas terras pela
escassez do deserto? Alem do mais, a vida urbana possue muitas
amenidades amolentadoras. Os judeus mostravam-se indecisos.
Temiam
as incertezas do futuro muito mais que os perigos do presente, e em
consequencia nada fizeram. Deixaram-se ficar nos sordidos pardieiros
das cidades egipcias.
O
tempo se passava – anos, seculos – e tudo ia ficando na mesma. Um
dia um grande chefe apareceu, o qual enfeixou todas as tribus
judaicas numa só nação. Tirou-os dos ferteis vales do Nilo, onde a
vida era tão facil, mas solapadora da fibra racial, e reconduziu-os
novamente ás durezas da terra de Canaã, que Abraão e Isaac
consideravam a verdadeira patria dos judeus.
FONTE:
Hendrik, Willem Van Loon. A
História da Bíblia.
Companhia Editora Nacional, Rio de Janeiro, 1940, págs. 61 a 64.
Tradução de Monteiro Lobato.

