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15 setembro 2014

O Brasil pode bater no muro (03/09/2014, Páginas Amarelas de VEJA)

 O presidente da FIESP, que já classificou de pessimistas os críticos do governo Dilma Rousseff, explica por que decidiu se juntar a eles e diz que só um louco investe no país

Entrevista de Benjamin Steinbruch a Pedro Dias Leite

Quando Benjamin Steinbruch assumiu o comando da CSN depois da privatização, na década de 90, a empresa perdia o equivalente a 1 milhão de dólares por dia. Hoje, o conglomerado abarca uma das maiores siderúrgicas da América Latina, opera portos e ferrovias e é o segundo maior exportador de minério de ferro no Brasil. Em abril do ano passado, Steinbruch, que é amigo do ministro mais próximo da presidente Dilma Rousseff, Aloizio Mercadante (Casa Civil), e já teve cadeira garantida em todas as reuniões do governo com o setor, escreveu em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo um texto cujo título era “Xô, mau humor!”. Nele, dizia que os críticos do governo Dilma só “enxergam o lado negativo do mundo”. Nesta entrevista, o atual presidente da Fiesp explica por que mudou de ideia.

O senhor disse que “só um louco investe no Brasil”. O que estão fazendo então os sãos como o senhor? Essa frase repercutiu porque revela aquilo que todos gostariam de falar e ninguém diz. O mais louco de todos sou eu. Só no ano que vem, a CSN vai investir 6,5 bilhões. Mas, se houvesse boas condições, é claro que estaríamos investindo muito mais. O Brasil hoje é um país caro. Quando se compara o custo do Brasil com o de qualquer outro país, aqui é pelo menos o dobro.

O senhor era, até não muito tempo atrás, um empresário próximo do governo. O que o levou a distanciar-se dele? Não é questão de ser próximo ou não. Vivemos uma situação em que estamos tentando há bastante tempo uma interlocução com o governo para alertá-lo sobre os problemas de vários setores. A interlocução tem sido muito difícil. O governo não está ouvindo os alertas dos empresários.

Quais são os principais? São vários. Estamos presos a uma lei trabalhista do tempo de Getúlio Vargas. É preciso modernizar esse modelo, torná-lo mais ágil, de forma a dar mais flexibilidade ao empregador e ao empregado. Poderia haver períodos de contratação menores, por exemplo, jornadas de trabalho mais flexíveis. Só com os encargos, o empregado custa o dobro do salário dele. Hoje, quando você vai contratar, tem de pensar muito bem. O custo de demitir é igualmente muito alto. Além disso, há a carga fiscal absurda.

Mas, todas as vezes que os empregados reclamam da carga fiscal, o governo rebate com o argumento da desoneração. Sim, desoneraram, só que do outro lado há agências reguladoras aplicando multas incríveis. No setor de telecomunicações, no setor elétrico. A Receita também penaliza as empresas de maneira brutal.

Ele dá com uma mão para tirar com a outra? Dá com um dedo para tirar com as duas mãos, porque o discurso da desoneração é um, mas a prática da autuação das agências e da Receita é muito maior. Isso incomoda não só os empresários que estão aqui no Brasil – cria uma desconfiança muito grande para o mercado investidor lá de fora. As agências têm de regular de modo transparente, de forma a dar tranquilidade às partes. Hoje, ninguém tem essa avaliação.

A medida provisória que taxava os lucros das empresas brasileiras no exterior também foi alvo de muitas reclamações. Claro, a medida criaria um passivo enorme para as empresas. Mas o governo em seguida aprovou um Refis para as empresas que seriam afetadas. Ou seja, colocou o bode na sala e os empresários ficaram apavorados. Aí, tirou o bode e os empresários ficaram aliviados. Mas ficou aquele cheiro ruim. Essas situações desestimulam o investimento. Provocam uma instabilidade enorme e uma desconfiança maior ainda. Criam incerteza, má vontade.

É isso que explica a hesitação dos empresários em investir no país? É essa falta de segurança em relação ao futuro. Qualquer país tem um plano de investimento de vinte anos: a China, o Japão, a Coreia. O Brasil não tem. Ou pelo menos a gente não conhece. Porque são tantas medidas paliativas tomadas no dia a dia que acabam distorcendo o plano maior. Se você perguntar hoje qual é a política industrial brasileira, eu duvido que alguém saiba responder. E estamos vivendo uma desindustrialização absurda. Nos últimos 25 anos, a participação da indústria no PIB caiu de 25% para 12,5%. Não é o empresário que está chorando, são os números que dizem isso. Como é que você pode conviver com uma desindustrialização tão violenta num país continental como o Brasil? A indústria está abandonada. Ela já passou até da UTI, está moribunda.

Como empresário, como o senhor avalia os governos de Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff? O governo Fernando Henrique Cardoso foi liberal, teve a visão de diminuir a participação do Estado na economia. O Estado não tem de ser um bom gastador, tem de ser regulador e cobrador. A estabilidade do Real permitiu que o Brasil crescesse. Aí veio o governo Lula, que aproveitou essa boa onda e teve uma percepção muito positiva de não ir contra o mercado. E trouxe para o universo do consumo quase 40 milhões de pessoas que estavam completamente fora dele. Junto a isso, tivemos a sorte de ver o crescimento da China. Exportamos minério de ferro, carne, soja. Durante o governo Lula os mercados interno e externo eram fortes, uma combinação perfeita. Lula soube aproveitar esses dois bons momentos, fez um bom governo.  

E a presidente Dilma? A presidente Dilma não encontrou o mesmo ambiente favorável e adotou uma política mais intervencionista. Não vejo nela nada que não seja trabalho e vontade de acertar. Mas ela parece não confiar na capacidade da iniciativa privada no Brasil de assumir suas responsabilidades, o que a leva a colocar o Estado para competir onde ele não é necessário. Por isso, começou a intervir de maneira muito determinada em alguns setores, distanciando-se da interlocução com o setor produtivo. O Brasil continua o mesmo, os empresários continuam os mesmos, as oportunidades continuam as mesmas. Agora, faltam confiança, proximidade, convergência, determinação.

Os empresários estão decepcionados? Têm um sentimento de angústia. Todos querem ajudar a presidente Dilma a acertar. Agora, ela tem de se deixar ajudar, tem de ter essa boa vontade. Mas existe esse distanciamento. O Brasil ainda vive um bom momento. Se for comparado com outros países, está melhor do que muitos. Mas o risco deixou de ser o Brasil não crescer 1%. O risco agora é ele regredir.

Mantido o atual rumo, que futuro o senhor antevê para o Brasil? Se não houver mudança, o país vai bater contra o muro. O desemprego está na porta, o desaquecimento econômico chegou, assim como o aumento da inadimplência e a falta de crédito. As variáveis são todas desfavoráveis, e isso em ano eleitoral. Normalmente, em ano eleitoral, o que se faz é soltar um pouco a economia para que o empregado, o empregador e até o governo arrecadador fiquem satisfeitos. O que está havendo hoje é o contrário. Se já há graves problemas de segurança na situação atual de quase pleno emprego, imagine com o desemprego; se já existe a questão do déficit fiscal com a economia aquecida, imagine com uma recessão. Vale para tudo, educação, saúde. Fazemos o alerta: está piorando, está ficando ruim, tem risco de desemprego. E nada acontece. As medidas que foram tomadas, embora positivas, são paliativas.

Mas os números de emprego ainda estão robustos. Pesquisas recentes mostram que a população não teme o desemprego. Já estamos com uma tendência de diminuição do número de empregos. Hoje, o incômodo maior que existe na população é a inflação, e o governo está jogando muito pesado, porque sabe que perde a eleição se ela sair do controle. Mas as variáveis não são as corretas. Câmbio e juros estão causando muito mais malefícios à economia do que benefícios. Quando se segura o aumento de combustível, o câmbio valorizado, ou quando se elevam demais os juros, você começa a sair para uma irrealidade que não vai ser, com certeza, a solução para o país.

O que poderia ser feito já para melhorar a situação? Mexer no câmbio. Baixar os juros e, consequentemente, desvalorizar o real, o que criaria um clima propício para a exportação. Alguma porta precisa ser aberta, porque hoje não se tem para onde ir. O câmbio era usado como instrumento de combate à inflação, só que todos os índices estão baixando. Acho que 10% de desvalorização funcionaria muito bem.

Em vez de mexer no câmbio, um dos tripés da estabilidade econômica, não seria melhor o governo melhorar as condições de competitividade para a indústria brasileira? Minha sugestão é que o câmbio flutue. Hoje, ele está sendo mantido artificialmente baixo porque o governo quer segurar a inflação por meio do câmbio. Se deixar flutuar, ele vai se desvalorizar naturalmente.

O senhor falou em uma solução “agressiva” para os problemas. Qual seria ela? Fazer as reformas. Seja quem for que vá ganhar a eleição, terá de fazer aquilo que é necessário. Se não houver as reformas imediatamente após a eleição – política, fiscal, trabalhista –, o país não vai sair do lugar. Se você olha o Orçamento, os números são muito robustos. Nós temos dinheiro. A questão é gastar bem esse dinheiro, é investir bem. A máquina pública não precisa crescer, ela tem de diminuir. Quanto menor for, melhor será.

Como o senhor avalia a candidatura de Marina Silva? É uma candidata fortíssima. E, se tomar a medida certa neste momento, que é apontar nomes fortes para a Fazenda, para o Ministério do Desenvolvimento e para o agronegócio, ficará numa posição muito competitiva. Se trouxesse nomes como Roberto Rodrigues (ex-ministro da Agricultura), Henrique Meirelles (ex-presidente do Banco Central), pessoas reconhecidas aqui e no exterior, isso a tornaria muito, muito forte. Marina, assim como Eduardo Campos, tem uma visão que contempla o mercado como produtor de riquezas. Tem visão social e ambiental muito incisiva, mas isso não incomoda. O empresariado moderno tem de ter uma preocupação social e ambiental forte também, senão não sobrevive.

O senhor não teme que um governo Marina Silva dificulte a execução de projetos de infraestrutura ao obliterar a concessão de licenças ambientais? Não. O país precisa avançar e, para isso, é imperativo ter uma visão racional das coisas. Ela tem.

O senhor já avaliou o que seriam os governos Dilma e Marina. E um governo Aécio Neves? Ele já se mostrou um bom gestor em Minas Gerais, porque sabe delegar. Tem uma equipe boa trabalhando e um papel de coordenador. Tem uma visão ampla de mundo, sabe o que é o Brasil e tem condições de fazer um grande governo. O candidato que vai me encantar mais será o que tiver a proposta de reformas mais abrangente. A oportunidade de salvar o Brasil está nas nossas mãos.

A revista EXAME escreveu que seu medo não é de falir, errar o alvo ou perder o mercado, mas de que lhe passem a perna. É verdade? Acho que ninguém gosta de que lhe passem a perna, mas esse não é o meu maior medo, até porque já passei por essa situação várias vezes. A gente cai e se levanta outra vez. Tenho vontades, não medos. Medo mesmo, só de andar de avião.


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