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01 janeiro 2024

Uma Critica ao Intervencionismo – Ludwig Von Mises


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Descrição do livro

Quando Ludwig von Mises, o grande economista da Escola Austríaca, escreveu os seis ensaios desta obra, ele se referia às teorias e políticas que permeavam os programas sociais e econômicos da infortunada República de Weimar dos anos de 1920, na Alemanha. Mas esses escritos clássicos são tão importantes hoje como o foram há quase um século. Os nomes e os lugares mudaram, mas as mesmas noções estatistas ainda existem. E as críticas incisivas de Mises, firmemente baseadas em princípios econômicos imutáveis, são ainda válidas. 
O conjunto destes ensaios destrói a noção de que pode haver um meio termo intervencionista entre uma ordem social livre, baseada na propriedade privada, e uma sociedade totalitária de propriedade governamental ou de gerenciamento da produção e distribuição. Mises não deixa duvida quanto ao fato de que não pode haver meio termo democrático entre o liberalismo clássico e o comunismo.

144 páginas
Autor: Ludwig von Mises



01 dezembro 2023

Por aqui, a liberdade não avança.

 


A Direita, vergonhosa e covardemente, evita posicionar-se sobre o fenômeno Milei e refugia-se em epítetos difamatórios que ilustram a sua néscia preguiça intelectual e o seu oportunismo tático. Alexandre Mota para o Observador.


“Para corromper um indivíduo basta chamar direitos aos seus anseios e abusos aos direitos dos demais.” (Nicolás Gomez Dávila)

12 de Novembro de 2023, último debate para as eleições presidenciais na Argentina, frente a frente estavam os dois candidatos que tinham passado à 2ª volta. De um lado, Sergio Massa, figura impecável, elegante, fato azul-escuro, gravata a condizer com um nó imaculado, pin alvi-celeste cuidadosamente incrustado na lapela, postura firme, serena e afável. Se nos desligássemos do sentido das palavras ditas, vislumbraríamos tranquilidade, segurança e bom senso. Em suma, fiabilidade.

Do outro lado estava Javier Milei e o seu inacreditável penteado (neste caso, despenteado). A similitude era óbvia com Trump, que também tem um penteado estranho, e até com Hitler. O nosso software mental na versão “pensar depressa” diz-nos que deve haver uma ligação: este Milei é provavelmente como os outros! Ademais, tal como os outros dois, também ele tem olhos azuis e um ar alucinado. É também um incontinente verbal que, fora do âmbito político, tem no seu currículo umas quantas bizarrias. Em suma, um louco.

E no entanto…

Sergio Massa é o mais recente representante das políticas que, eleição após eleição, levaram a Argentina à ruína. Tranquilo, ele argumenta, como se desta vez pudesse ser diferente, que é nele e na mão protectora do estado que os argentinos devem confiar, convocando todos para uma “remontada” em nome da pátria, de um mundo melhor e mais inclusivo, que combata todas as desigualdades e as alterações climáticas, promova a justiça social e o bem comum em geral. Quase verti uma lágrima de emoção com o “don`t cry for me Argentina” em loop no meu subconsciente.

Curiosamente, Massa ocupou parte do seu tempo no debate a fazer perguntas a Milei. O intuito era evidente. Ao apertar com “o louco”, as respostas deste acabariam por penalizá-lo. Parecia bem visto, mas foi um falhanço retundo. Milei respondeu a todas as questões, inclusive com detalhes que podia e deveria ter evitado. O penteado de Milei pode não estar em ordem, mas as ideias estão.

Javier Milei é, na sua autodefinição, um liberal libertário. A necessidade de apor o termo libertário ao termo liberal exige uma clarificação, que decorre da confusão em volta do termo “liberalismo” consoante as diferentes geografias e contextos políticos. A origem etimológica de “Liberal” vem do latim “Liber”, que significa Livre. Se ser livre é ter liberdade, então o que é a liberdade? Para os liberais clássicos, a raiz do conceito é a ausência de coerção sobre os indivíduos e sobre os seus direitos naturais: direito à vida, à liberdade e à propriedade. No entanto, o termo foi capturado pelas ideologias social-progressistas que entendem a liberdade como a libertação do indivíduo pelo estado. Assim, por exemplo nos EUA, os liberals são aqueles que defendem esta segunda versão de liberdade, a tal corrupção a que aludia na citação que inicia este artigo. Por cá, o exemplo mais recente pode ser encontrado no último artigo de Rui Tavares no Público, fazendo uso do truque mais velho do mundo em política: a demagogia. “A liberdade de Milei não tem nada a ver com a libertação da fome, da pobreza, da dominação e da ignorância que constitui desde a Antiguidade o cerne mais profundo da ideia e da filosofia da liberdade.”

Se é verdade que as esquerdas americana e europeia se apropriaram do termo “liberal”, não é menos verdade que o termo “libertarian”, outrora usado por anarquistas de esquerda, foi cooptado pelo campo dos velhos liberais clássicos americanos, e depois reinventado por figuras como Murray Rothbard, o pai espiritual desta escola de pensamento. E foi desta forma que, apesar de algumas dissensões importantes quer no campo económico quer no campo da filosofia política, o encontro entre as ideias do liberalismo clássico e do libertarianismo não é uma mera coincidência.

Coincidência terá sido o facto de este terramoto político se ter dado na Argentina. Em 1959, o liberal clássico Ludwig Von Mises, economista da escola austríaca, visitou este país para ministrar um conjunto de palestras que passaram depois a livro: As Seis Lições – o capitalismo, o socialismo, o intervencionismo, a inflação, o investimento estrangeiro e a política e ideias. O sucesso editorial não foi acompanhado pelo sucesso económico da Argentina, que continuou paulatinamente a destruir a sua economia com políticas exatamente inversas às preconizadas por Mises, aqui resumidas pelo Professor Ubiratran Iorio: “Mostra Mises que a melhor política económica é aquela que limita o governo a criar as condições que permitem aos indivíduos perseguirem seus próprios objetivos e viverem em paz e que a obrigação do governo é simplesmente proteger a vida e a propriedade para permitir que as pessoas desfrutem da liberdade e da oportunidade de cooperar e de efetuar trocas entre si. Assim, o governo deve criar o ambiente que permita que o capitalismo possa florescer.”

Eis o testemunho Miseano que, mais de 60 anos depois, está nas mãos de Javier Milei. Ao rever grande parte das suas entrevistas percebe-se que tem a lição bem estudada, pelo que nenhum liberal clássico ou libertário deveria estar incomodado, bem pelo contrário. A preocupação é, aliás, exatamente inversa: conseguirá fazer tudo o que promete? Provavelmente e infelizmente, não.

E o que deveria fazer Milei?

Antes de mais, eis o legado peronista de forma resumida: déficit orçamental de cerca de 5% do PIB; dívida pública gigantesca; risco país de 24 pontos percentuais; 40% de pobres.

Perante este cenário sombrio quase apocalíptico provocado pelo socialismo argentino, não pode haver meias medidas. A Argentina terá de ter imediatamente um deficit zero ou mesmo um superavit orçamental. Se o estado recebe 100 de impostos não pode gastar mais de 100. Segundo alguns analistas, a despesa pública política é cerca de 25%, pelo que, a fazer fé nestes números, o corte de despesas poderá ser exequível em pouco tempo sem grande impacto nas despesas sociais. Estancado a desvario da despesa, a emissão monetária deixa de ser tão necessária e a inflação é controlada, assim como é restaurada a confiança dos vários agentes económicos. Seguem-se cortes de impostos, abertura da economia, privatizações, desregulamentação e, por último, o fim do Banco Central e da moeda própria, passo polémico embora coerente com a vontade de cortar pela raiz a plutocracia fiscal e monetária que corrói a Argentina.

Claro que, em Portugal, a direita dita moderada e civilizada está a sinalizar suposta virtude traçando linhas vermelhas com este novo desafio ao seu posicionamento. Esta é a mesma direita que fez coro com o PS nos atropelos aos direitos dos cidadãos durante a Covid-19 e que quer dar mais uma estocada nesses direitos numa revisão constitucional; é a mesma direita que dança a música apocalíptica dos fanáticos do clima, sem sequer ousar levantar a discussão sobre estratégias alternativas mais lúcidas e menos empobrecedoras; ou, no caso da direita “liberal”, esta é a direita que subscreve toda a agenda social do bloco de esquerda, uma agenda de libertação do indivíduo das amarras da sua história, das suas raízes familiares e da sua natureza e que vergonhosa e cobardemente evita posicionar-se sobre o fenómeno Milei ou se refugia em epítetos difamatórios, os quais só servem para ilustrar publicamente a sua néscia preguiça intelectual e o seu oportunismo táctico.

Dessas direitas não teremos surpresas positivas nem esperança alguma que vão além de umas migalhas pomposamente anunciadas e frequentemente impregnadas de uma tibieza que lhes está no sangue. Foram completamente engolidas pelas causas da moda e não se dão conta de que a discussão democrática segue nos termos da esquerda, começando na definição primacial de liberdade. É neste contexto que ouvir alguns líderes partidários e de opinião à direita é um exercício de masoquismo só ao alcance dos mais valentes amantes da liberdade de expressão.

Restaria eventualmente o Chega para agitar as águas. Mas há alguma semelhança, mesmo que remota, entre uma proposta económica corajosa como a de Milei e os ziguezagues do Chega ao som do bombo de Ventura?! Nenhuma. A verdade nua e crua é que o Chega é um partido infantilmente inconsistente e tendencialmente estatista. Embora coloque o dedo na ferida em muitas questões relevantes, não vislumbro em André Ventura a loucura corajosa de um Javier Milei. Pelo contrário, vejo um oportunista igual a tantos outros, que não hesitará, como já o fez, em deitar fora princípios sobre os quais tinha jurado fortes convicções, substituindo-os por outros com mais mercado eleitoral.

Dito isto, claro que não é absolutamente indiferente a composição da futura Assembleia. Seria muito grave um novo governo PS, especialmente se liderado por Pedro Nuno Santos. Contudo, a alternativa, com Chega ou sem Chega, não seria um avanço assinalável para a causa da liberdade.

Por aqui, a Liberdade, quando avança, fá-lo muito devagarinho.


16 março 2023

O erro fatal de Marx e Smith: o lucro não é deduzido do salário; o salário é que é deduzido do lucro

 Este erro mudou o mundo para sempre


O que Karl Marx e Adam Smith, tidos como pensadores opostos, têm em comum? 

Smith cometeu um erro extremamente básico e Marx criou toda sua teoria em cima deste erro — um erro que possui monumentais consequências e que mudou o mundo para sempre.

Em seu famoso tratado sobre a riqueza das nações, Adam Smith afirmou que, em condições primitivas ou em cidades pequenas, aqueles indivíduos que vão ao mercado para vender seus produtos (sejam eles produtos agrícolas, parte do seu rebanho ou mesmo produtos manufaturados) ganham, nesse processo de venda, um salário. 

Isto é, a renda auferida por esses indivíduos autônomos que vendem bens no mercado é o seu salário.

Tanto Marx quanto Adam Smith (que veio antes de Marx) presumiram erroneamente que, "no estado rude e primitivo da sociedade" (para utilizar as palavras de Smith), todas as rendas obtidas eram salários. 

Salário? Grave erro. Aquilo que é obtido por alguém que sai da autossuficiência agrícola para vender seus produtos no mercado não é um salário, mas, sim, um lucro. Ou um prejuízo

Para Smith e Marx, porém, não havia lucro neste modelo. O lucro, segundo eles, só passou a existir com o surgimento do capitalismo.  

Mais ainda: segundo eles, o lucro ocorre à custa dos salários. Outro erro. E grave. Foi daí que surgiu toda a teoria da exploração e da mais-valia.

O surgimento dos salários

Imagine um criador de ovelhas, autônomo, em algum lugar das estepes do Cazaquistão, cem anos atrás. 

Suponha que esse criador de ovelhas não seja autossuficiente, de modo que ele precisa adquirir roupas, pães e uma variedade de outras coisas que ele pode comprar no mercado da cidade mais próxima. Ademais, suponha que a economia do Cazaquistão é desenvolvida o suficiente a ponto de utilizar moedas de ouro como dinheiro.

Quando precisa adquirir bens, esse criador de ovelhas vai ao mercado e vende algumas de suas ovelhas por, digamos, dez moedas de ouro. 

Aqui vem a pergunta crucial: podemos dizer que essas dez moedas de ouro que ele recebe pela venda de suas ovelhas representam seu salário? Não, não podemos.  

Por definição, um assalariado é alguém que não é o proprietário de nenhum meio de produção exceto seu próprio corpo e quaisquer outras habilidades excepcionais que ele porventura possua. Logo, as dez moedas de ouro não podem ser consideradas seu salário porque, para receber um salário, um indivíduo precisa antes de tudo ser o empregado de alguém. 

Esse criador de ovelhas é o seu próprio patrão e pode decidir o que fazer com sua propriedade (o rebanho de ovelhas). O dinheiro que ele recebe após vender algumas ovelhas é apenas a receita das vendas de seu produto

Se ele considera que o propósito de sua atividade produtora — criação de ovelhas — é o de lhe propiciar receitas de venda, então ele é um empreendedor. Da perspectiva dele, a receita das vendas de seu produto é um meio em potencial para sua sobrevivência — ou, alternativamente, é a sua renda.

Desta renda, se ele subtrair todos os custos incorridos na produção e no transporte do produto, ele terá o lucro.

Supondo que não há custos de produção para este criador de ovelhas, temos que toda a sua receita já é o seu lucro.

Portanto, temos que este empreendedor não aufere um salário, mas sim um lucro.

Agora, se ele decidir investir uma parte deste lucro empregando um trabalhador e pagando a ele uma quantia definida de dinheiro — em termos mensais, por exemplo —, então ele estará agora tendo novos custos empresariais.  

Esse seu investimento na forma de salários mensalmente pagos diminui regularmente a fração da receita que antes era considerada lucro — ou seja, o salário pago diminui a diferença entre a receita da venda de produtos (que continua a mesma) e os custos (que aumentam).

Observe que, quando o agricultor não está incorrendo em custos na forma de pagamentos salariais mensais, a receita total obtida com a venda de seus produtos é o seu lucro. Já quando os salários passam a ser pagos, estes advêm do lucro. 

Esta análise abstrata mostra que os lucros, e não os salários, são a forma original de renda.

O salário é uma forma de pagamento que surge apenas  quando um capitalista entra em cena. 

Surge o assalariado

Para compreender a questão mais claramente, vamos ampliar nosso exemplo inicial e supor que nosso criador de ovelhas contrata seu vizinho de nome Murat, que não é proprietário de nada, para ajudá-lo a cuidar de suas ovelhas, protegendo-as contra eventuais ataques de lobos famintos.  

Eles voluntariamente acordam que Murat receba uma moeda de ouro por mês de serviços. 

Agora, o cenário ficou totalmente diferente. Há um assalariado e um empreendedor/capitalista.

Será que podemos dizer que, nesse caso, Murat tem o direito de ser o dono de todas as ovelhas apenas porque ele cuidadosamente as protege contra o ataque de lobos? É evidente que não.  

É verdade que a produtividade marginal do rebanho aumentou desde que Murat foi contratado, mas esse fato por si só não significa que Murat tem agora o direito de reivindicar o produto marginal (ovelhas salvas dos lobos) para si próprio só porque ele foi contratado.

O que ele recebe como salário não é o produto marginal de seus serviços de vigília, mas apenas uma moeda de ouro. 

Observe o papel crucial desempenhado aqui pelo proprietário do rebanho: o salário de Murat — a moeda de ouro que ele recebe — existe unicamente porque o dono das ovelhas é sábio e prudente o bastante para poupar uma moeda de ouro de sua receita de vendas e utilizá-la para pagar Murat.

Ao empregar Murat, o criador de ovelhas espera, naturalmente, ganhar mais moedas de ouro do que ele gasta como salário de Murat. Entretanto, ainda assim, a verdade é incontestável: Murat só ganha a moeda e só contribui para uma maior produtividade marginal — o que justifica seu salário — por causa da poupança e das sábias decisões empresariais do criador de ovelhas.  

Não há aí nenhuma exploração. Não há aí nenhuma mais-valia.

Tivesse o criador de ovelhas consumido essa moeda — digamos, comprando frutas deliciosas para sua esposa —, Murat teria permanecido desempregado e em pior situação. E, como consequência, haveria menos ovelhas para os humanos consumirem.

O erro que se perpetua

No mundo primitivo, portanto, as receitas de venda representavam o lucro total. Não havia custos com terceiros a serem deduzidos das receitas.

Foi posteriormente, com o surgimento do capitalismo, que surgiram os salários dos trabalhadores, os quais são deduzidos dos lucros dos capitalistas.

Adam Smith errou sobejamente quando chamou de salários aquilo que empreendedores obtêm quando comercializam bens nas cidades. E Marx errou quando construiu toda a sua teoria tendo por base essa tese de que o ganho original de qualquer indivíduo é o salário, e que os lucros só passam a existir quando são deduzidos deste salário.  

A realidade é que um salário só passa a existir quando uma pessoa contrata uma outra, pagando-lhe regularmente uma quantia fixa. E este salário, por definição, será deduzido das receitas desta pessoa.

E isso altera toda a análise econômica.

O surgimento de assalariados ocorre somente porque existem, e continuam existindo, empreendedores/capitalistas que estão dispostos a pagar salários com recursos retirados de suas poupanças.

Empregados assalariados não têm possibilidade de auferir lucros, porém — e ainda mais importante — estão livres de prejuízos. Com efeito, os empregados têm mais chance de receber renda do que o capitalista. O fazendeiro, por exemplo, deve pagar os salários de seus empregados mesmo que tenha havido uma geada no dia anterior à colheita. Os empregados, por sua vez, estão isentos do ônus do prejuízo. Tampouco pode o fazendeiro, para sermos justos, compartilhar com eles seus lucros.  

Uma empresa farmacêutica irá vender seus produtos somente quatro ou cinco anos após a ideia inicial de se criar esses novos produtos. Nesse meio tempo, ela terá de pagar salários para centenas, talvez milhares, de pessoas. O salário é pago hoje independentemente de como serão as vendas futuras.

De maneira geral, pode-se dizer que os salários auferidos pelos trabalhadores representam uma antecipação das receitas futuras esperadas pelo capitalista com a eventual venda dos produtos finais. Para que um operário de uma fábrica possa fabricar mercadorias, o capitalista investiu uma montanha de dinheiro na fábrica. Ele investiu, digamos, $ 100 milhões (construiu a fábrica, comprou maquinários e paga os salários) para recuperar, na forma de fluxo de caixa anual, aproximadamente $ 10 milhões. Serão necessários 10 anos apenas para recuperar todo o capital adiantado. (Fora a inflação do período).

Ou seja, o capitalista abriu mão de $ 100 milhões em consumo presente para receber, anualmente, uma receita de $ 10 milhões. Tudo dando certo, daqui a uma década o principal será recuperado (e desvalorizado pela inflação).

Já os trabalhadores que este capitalista emprega não precisam esperar até que os bens sejam produzidos e realmente vendidos para receberem seus salários. O capitalista adianta um bem presente e garantido aos trabalhadores (salário) em troca da expectativa de receber um bem futuro (o retorno do investimento). 

Por tudo isso, os lucros dos capitalistas não representam uma dedução daquele valor que, segundo Marx, pertence por direito aos trabalhadores na forma de salários. Os lucros representam aquilo que o capitalista ganhou em decorrência principalmente de seu trabalho intelectual, de seu planejamento e de suas decisões. O capitalista produz um produto próprio, feito com seus investimentos e com seus bens de capital, embora utilize a ajuda de terceiros cuja mão-de-obra ele emprega com o propósito de implementar seus planos e consequentemente produzir seus produtos.

Salários são deduzidos dos lucros, e não ao contrário

Lucros (ou prejuízos), portanto, são a forma original de receita; são obtidos apenas por empreendedores. Já o salário é uma forma de pagamento que surge apenas quando um capitalista entra em cena. 

O erro compartilhado por Smith e Marx gerou a ideia de que, para obter lucros — a famosa "mais-valia" exploradora —, os capitalistas tinham de manter para si parte do salário de cada empregado. Mas a realidade é outra: a riqueza é criada por aquele indivíduo que sabe como transmitir suas visões, arriscar recursos e reconhecer oportunidades — tudo isso ao mesmo tempo em que ele cria uma renda regular para terceiros durante esse processo.

O surgimento do capitalismo, portanto, não foi o responsável nem pela dedução dos salários e nem pelo surgimento do lucro. Ele foi o responsável pela criação dos salários.  

O lucro do capitalista não ocorre à custa dos salários dos empregados. Ao contrário: os salários dos empregados são deduzidos do lucro do capitalista. 

Primeiro surgiu o lucro; só depois é que surgiu o salário. É o salário que é deduzido do lucro dos capitalistas, e não o lucro que é deduzido do salário dos trabalhadores.

Concluindo com uma provocação

No que concerne à relação entre capitalistas e assalariados, a verdade é exatamente o inverso daquilo que é alegado pela teoria da exploração. 

Os capitalistas não deduzem seus lucros dos salários dos trabalhadores; os capitalistas são os responsáveis pelo surgimento dos salários. Sendo um custo de produção, os salários são deduzidos das receitas, as quais, na ausência de capitalistas, representariam o lucro total.

Antes dos capitalistas, todos tinham de assumir por completo todo o risco de uma dada atividade. Já hoje, podemos delegar os riscos para aqueles que são mais ambiciosos e mais capacitados para atividades empreendedoras, já sabendo que, no final do mês, receberemos nossos contracheques.  

Tal arranjo é infinitamente mais produtivo e eficaz. Em última instância, é ele quem elimina a pobreza.

O que nos leva à pergunta derradeira: quem de fato "explora" quem? Os empreendedores e capitalistas exploram os trabalhadores, ou os trabalhadores basicamente vivem da inteligência, produtividade e prudência dos empreendedores e capitalistas?



22 dezembro 2020

Karl Marx e a diferença entre comunismo e socialismo (David Gordon)

 A teoria comunista é ainda mais bizarra que a socialista

FONTE




Nota do Editor

Considerando-se que o tema nunca morre, e dado que a discussão recorrentemente volta à tona nas redes sociais, é sempre válido o esforço para esclarecer os conceitos.

_______________________________

No dia 10 de setembro de 1990, o multimilionário escritor, economista e socialista Robert Heilbroner publicou um artigo na revista The New Yorker intitulado "Após o Comunismo".  A URSS já estava em avançado processo de colapso.

Neste artigo, Heilbroner recontou a história de como Ludwig von Mises, ainda em 1920, havia provado que o socialismo não poderia funcionar como sistema econômico.  Neste artigo, Heilbroner disse essas três palavras: "Mises estava certo".

Mas aí vem a dúvida: qual a diferença entre comunismo e socialismo?  Mises havia concluído que o socialismo não poderia funcionar, mas o que realmente entrou em colapso foi um sistema rotulado comunismo.  Há alguma diferença?

História

Quando Karl Marx e Friedrich Engels começaram a escrever conjuntamente, no ano de 1843, Marx era a figura dominante.  Engels era um melhor escritor, e era ele quem sustentava Marx financeiramente.

Marx passou toda a sua carreira se opondo àquilo que ele chamou de "socialismo utópico".  Ele nunca interagiu com nenhum grande economista ou teórico social.  Você pode procurar, mas jamais encontrará qualquer refutação sistemática feita por Marx a Adam Smith, por exemplo.  Marx gastou suas energias criticando verbalmente vários autores de esquerda, cujos escritos praticamente não tiveram nenhuma influência sobre a Europa em geral.

Dado que ele estava constantemente atacando autores socialistas, Marx criou uma teoria própria sobre o comunismo.  Ele chamou essa sua teoria sobre o comunismo de "socialismo científico".  Marx argumentou que, inerente ao desenvolvimento da história, há uma inevitável série de etapas.  Isso significa que ele era um determinista econômico.  Ele acreditava que o modo de produção é fundamental em uma sociedade e que o socialismo seria historicamente inevitável porque haveria uma inevitável transformação do modo de produção da sociedade.

Todos os aspectos culturais da sociedade, sua filosofia e sua literatura formariam, segundo Marx, a superestrutura da sociedade.  Já a subestrutura — ou seja, seus fundamentos — seria o modo de produção.

Segundo Marx, sua análise econômica revelava uma inevitável linearidade dos vários modos de produção.  O comunismo primitivo levou ao feudalismo.  O feudalismo levou ao capitalismo.  O capitalismo levará a uma bem-sucedida revolução do proletariado.  O proletariado irá impor o socialismo.  E, do socialismo, surgirá o comunismo.

Esse processo linear fecha o círculo.  Tudo começou com o comunismo primitivo, e tudo levará ao comunismo supremo.  Com o comunismo supremo, toda a evolução histórica estará completa. 

Só que Marx nunca explicou por que a evolução das etapas seria dessa maneira.  Ele nunca explicou por que não haveria outra revolução após a chegada do comunismo supremo, a qual levaria a um modo de produção maior que o comunismo.  Era mais conveniente apenas finalizar esse processo linear no comunismo.

A União Soviética jamais alegou ter chegado ao estágio comunista do modo de produção.  Ela sempre se disse socialista.  O nome do país era União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.  Os líderes supremos da União Soviética jamais alegaram que a URSS havia alcançado a etapa final do modo de produção.  Stalin promoveu o conceito de socialismo em apenas um país.  Ele diferia de Trotsky nesse quesito.  Trotsky queria uma revolução do proletariado em nível global.  Stalin era mais esperto.  Ele queria o poder e, sendo assim, ele sabia que, antes de tudo, teria de consolidar o poder em um país. 

Logo, Trotsky teve de fugir do país, e Stalin enviou o agente Ramón Mercader, do Comissariado do Povo para Assuntos Internos, para matá-lo na Cidade do México.  O agente matou Trotsky com um golpe de picareta em seu crânio.  Foi um ato cheio de simbolismo.  A picareta havia sido um dos ícones da história da Rússia.

O socialismo é a propriedade estatal dos meios de produção.  Mas Marx profetizou que o estado desapareceria sob o comunismo.  Pior: ele nunca explicou como ou por que isso iria acontecer.  Sua teoria era bizarra.  Ele dizia que, para abolir o estado, era necessário antes maximizá-lo.  A ideia era que, quando tudo fosse do estado, não haveria mais um estado como entidade distinta da sociedade; se tudo se tornasse propriedade do estado, então não haveria mais um estado propriamente dito, pois sociedade e estado teriam virado a mesma coisa, uma só entidade — e, assim, todos estariam livres do estado.

O raciocínio é totalmente sem sentido.  Por essa lógica, se o estado dominar completamente tudo o que pertence aos indivíduos, dominando inclusive seu corpo e seus pensamentos, então os indivíduos estarão completamente livres, pois não mais terão qualquer noção de liberdade — afinal, é exatamente a ausência de qualquer noção de liberdade que o fará se sentir livre.

Igualmente, Marx nunca mostrou como o sistema de produção poderia ser organizado nessa etapa suprema do comunismo, na qual não haveria nem um livre mercado e nem um planejamento centralizado pelo estado.  Ele nunca forneceu qualquer detalhe sobre como seria uma sociedade comunista, exceto em uma breve passagem que foi publicada em um livro escrito conjuntamente com Engels e com o homem que os havia apresentado em 1843, Moses Hess.  O livro foi intitulado A Ideologia Alemã (1845).  Só foi publicado em 1932.  Hess jamais ganhou créditos por sua co-autoria, mas parte do manuscrito aparece em sua coletânea de escritos.

Eis a descrição do comunismo:

Assim que a distribuição do trabalho passa a existir, cada homem tem um círculo de atividade determinado e exclusivo que lhe é imposto e do qual não pode sair; será caçador, pescador, pastor ou um crítico, e terá de continuar a sê-lo se não quiser perder os meios de subsistência

Na sociedade comunista, porém, onde cada indivíduo pode aperfeiçoar-se no campo que lhe aprouver, não tendo por isso uma esfera de atividade exclusiva, é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar da manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico.

Esta fixação da atividade social, esta petrificação do nosso próprio trabalho num poder objetivo que nos domina e escapa ao nosso controlo contrariando a nossa expectativa e destruindo os nossos cálculos, é um dos fatores principais no desenvolvimento histórico até aos nossos dias.

Não obstante o fato de que há aproximadamente 70 volumes das obras de Marx e Engels, essa é a passagem mais longa que descreve o funcionamento de uma sociedade comunista e de como seria a vida sob esse arranjo.

Conclusão

Socialismo foi o sistema que realmente foi colocado em prática.  Comunismo pleno nunca existiu e não passa de uma utopia cujo funcionamento jamais foi explicitado em trechos maiores do que um parágrafo.

Sem uma economia monetária — ou seja, sem uma economia em que os cálculos de lucros e prejuízos são possibilitados pelo dinheiro — é impossível haver uma ampla divisão do trabalho. 

E sem um livre mercado para todos os bens, mais especificamente para bens de capital, é impossível haver um planejamento econômico racional.

A propriedade comunal dos meios de produção (por exemplo, das fábricas) impede a existência de mercados para bens de capital (por exemplo, máquinas).  Se não há propriedade privada sobre os meios de produção, não há um genuíno mercado entre eles.  Se não há um mercado entre eles, é impossível haver a formação de preços legítimos.  Se não há preços, é impossível fazer qualquer cálculo de preços.  E sem esse cálculo de preços, é impossível haver qualquer racionalidade econômica — o que significa que uma economia planejada é, paradoxalmente, impossível de ser planejada. 

Sem preços, não há cálculo de lucros e prejuízos, e consequentemente não há como direcionar o uso de bens da capital para atender às mais urgentes demandas dos consumidores da maneira menos dispendiosa possível. 

Em contraste, a propriedade privada sobre o capital em conjunto com a liberdade de trocas resulta na formação de preços (bem como salários e juros), os quais permitem que o capital seja direcionado para as aplicações mais urgentes.  Ao mesmo tempo, o julgamento empreendedorial tem de lidar constantemente com as contínuas mudanças nos desejos dos consumidores. 

O arranjo socialista simplesmente impede que esse mecanismo ocorra.  Foi por isso que Mises argumentou, ainda em 1920, que qualquer passo rumo ao socialismo é um passo rumo à irracionalidade econômica.

E foi a isso que Heilbroner se referiu quando ele disse que "Mises estava certo".



11 novembro 2020

Políticos mentem porque a população se sente melhor assim (Thomas Sowell)

Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos demagogos podem satisfazê-las




O fato de muitos políticos de carreira serem mentirosos descarados e compulsivos não é apenas uma característica inerente à classe política; é também um reflexo do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos demagogos podem satisfazê-las.  


No entanto, quando a realidade se impõe e os efeitos econômicos de medidas populistas começam a cobrar seu preço, os eleitores finalmente percebem que foram enganados. E então começam a reclamar que os demagogos os enganaram e venderam ilusões.


Essas pessoas são as mesmas que, no passado, não apenas acreditaram piamente nas promessas dos demagogos, como também ignoraram rispidamente todos os alertas, feitos pelos mais sensatos, de que determinadas políticas populistas eram insustentáveis e cobrariam um preço caro no futuro. 


Pessoas que se recusam a aceitar verdades desagradáveis quando estas são ditas em épocas de bonança não têm direito de, no futuro, reclamar que os políticos mentiram e que elas foram enganadas. Afinal, com essa mentalidade, que outro tipo de candidato essas pessoas elegeriam?


O domínio da arte

Uma das principais mentiras do estado social-democrata é a noção de que o governo pode dar às pessoas coisas que elas desejam, mas não conseguem bancar. 

 

Dado que o governo não produz riqueza, não tem renda própria e se mantém por meio do confisco de recursos das pessoas, então, por uma questão de lógica, se as pessoas como um todo não podem bancar algo, tampouco pode o governo.


Se você vota em políticos que prometeram dar a você benesses pagas com o dinheiro confiscado de terceiros, você não tem nenhum direito de reclamar quando esses mesmos políticos resolverem tomar o seu dinheiro para repassá-lo para terceiros, inclusive para eles próprios.


Existe, é claro, a imortal falácia de que o governo pode simplesmente aumentar os impostos sobre "os ricos" e utilizar tal receita adicional para pagar por coisas que a maioria das pessoas não consegue comprar. O que é incrível nesse raciocínio é a sua implícita suposição de que "os ricos" são todos tão idiotas, que não farão nada para evitar que seu dinheiro seja tributado.


Em nenhum país ocidental os ricos arcam exclusivamente com os impostos; quem realmente fica com o grande fardo é a classe média. Não há, em nenhuma sociedade, um número grande o bastante de ricos que possam custear sozinhos os gigantescos gastos efetuados pelos estados assistencialistas ocidentais. [Para entender em mais detalhes por que aumentar a tributação sobre os ricos gera um efeito contrário ao pretendido, veja este artigo].


Na economia globalizada atual, os ricos podem simplesmente investir seu dinheiro em países onde as alíquotas de impostos são menores. Basta um toque no computador, e as fortunas vão embora para outros países.


Então, se você não pode confiar que "os ricos" irão pagar a conta, em que você pode confiar? Nas mentiras.


Nada é mais fácil para um político do que prometer benefícios governamentais que não poderão ser cumpridos.


Previdência Social é perfeita para essa função. As promessas são feitas com base em um dinheiro que só será pago daqui a várias décadas — sendo que, até lá, outra pessoa estará no poder com a tarefa de inventar o que dizer e fazer quando descobrir que nunca existiu tal dinheiro e a convulsão social começar.


Haverá o calote, sim, mas existem, no entanto, várias formas de postergar o dia do acerto final. O governo pode, por exemplo, começar a restringir vários benefícios previdenciários daqueles grupos que são menos influentes politicamente. Ele irá começar dando pequenos calotes naqueles grupos que têm menos poder político e pouco poder eleitoral. E dali vai começar a aprofundar.


Nos EUA, o governo vai começar a cortar o Medicare (programa de responsabilidade da Previdência Social americana que reembolsa hospitais e médicos por tratamentos fornecidos a indivíduos acima de 65 anos de idade) e o Medicaid (programa financiado conjuntamente por estados e pelo governo federal, que reembolsa hospitais e médicos que fornecem tratamento a pessoas que não podem financiar suas próprias despesas médicas)


[N. do E.: aqui no Brasil, as vítimas serão alguns pensionistas, que irão se aposentar recebendo proporcionalmente menos do que contribuíram. Depois, os cortes provavelmente irão para alguns setores da saúde pública. A faca começará sempre sobre os menos influentes. Haverá gritaria, mas será feito.]


É apenas uma questão de tempo. O fato é que todos esses problemas de longo prazo irão, eventualmente, desafiar as belas e sonoras mentiras que são a força vital das políticas de bem-estar social. Mas ainda irão ocorrer muitas eleições entre hoje e o dia do acerto final — e aqueles que são profissionais na arte da mentira ainda irão vencer muitas dessas eleições.


E, enquanto o dia do ajuste de contas não chega, há diversas maneiras de aparentemente superar esses problemas. Se a arrecadação do governo não estiver conseguindo acompanhar o ritmo do seu aumento de gastos [como é o caso do Brasil], ele pode insistir no aumento do endividamento. Mas mesmo esta política é limitada, pois chegará um momento em que a dívida estará tão alta, que os investidores não mais confiarão na capacidade do governo de honrá-la. E aí os juros subirão.


Outra alternativa é imprimir mais dinheiro. Isso não torna nenhum país mais rico, mas insidiosamente transfere parte do poder de compra da população — bem como a poupança e a renda das pessoas — para o governo e seus protegidos, gerando uma redistribuição de renda às avessas. Imprimir mais dinheiro significa inflação — e a inflação é uma mentira discreta, por meio da qual o governo pode manter suas promessas no papel, mas com um dinheiro cujo poder de compra é muito menor do que aquele que vigorava quando as promessas foram feitas.


Sem surpresa

Promessas sublimes sobre "justiça social" e "igualdade" não passam de estratagemas feitos para aumentar o poder de políticos, uma vez que tais belas palavras não possuem nenhuma definição concreta. Elas nada mais são do que um cheque em branco para criar uma gigantesca disparidade de poder que, em comparação, ofusca completamente as disparidades de renda — e é muito mais perigosa.


Quem não entende o completo cinismo que existe na política não entende nada de política.


De novo: será que é realmente tão surpreendente que eleitores com expectativas fantasiosas e irreais elejam políticos que mentem descaradamente sobre serem capazes de cumprir tais fantasias? 



FONTE


29 outubro 2019

A “exploração dos trabalhadores” é um mito – e é fácil de entender por quê

Para começar, ser um trabalhador é muito menos arriscado do que ser um capitalista

Para mostrar que algo é uma meia-verdade, temos de recorrer a longas e áridas dissertações"
— Frédéric Bastiat


Ainda é bastante dominante a idéia de que patrões estão, de alguma forma, explorando os empregados que trabalham para eles quando sua empresa aufere um lucro.
Curiosamente, logo de início já se ignora o fato de que o patrão está claramente fazendo mais pelas finanças dos empregados do que todas as outras pessoas que criticam o arranjo mas que não estão dando emprego a ninguém — postura essa muito comum entre aqueles "guerreiros sociais da internet", que afirmam que dar emprego a alguém significa explorá-lo.
É verdade que trabalhadores recebem como salário menos que o valor total daquilo que eles produzem, mas é assim porque aquilo que eles produzem foi:
a) feito com recursos que tiveram de ser comprados pelos patrões capitalistas,
b) em uma fábrica, indústria ou local de trabalho que teve um custo para ser construído e que requer várias despesas para ser operado;
c) e com o capitalista sendo também responsável por bancar os custos de anunciar, propagandear e comercializar o produto fabricado, com o intuito de conectar o produto aos consumidores potenciais.
E, no final,
d) se o produto não vender, todos aqueles que trabalharam em sua fabricação já foram pagos, exceto o capitalista, que arca com os prejuízos.
Em termos práticos, houve uma volumosa quantia de dinheiro investido naquela fábrica ou local de trabalho, dinheiro este que não será recuperado tão cedo. Todos os gastos investidos na construção do local de trabalho, na compra de bens de capital, e na contratação de mão-de-obra ainda não foram recuperados pelo capitalista.
Uma empresa que investe, suponhamos, $10 bilhões — na construção da fábrica, comprando maquinários e pagando os salários dos trabalhadores — com o intuito de recuperar, na forma de fluxo de caixa anual, aproximadamente $1 bilhão (10% de retorno), terá de esperar 10 anos apenas para recuperar todo o capital adiantado (fora a inflação do período).
Neste caso, o capitalista  se endividou em $10 bilhões (ou, caso seja capital próprio, ele abriu mão deste valor e seu equivalente em bens de consumo que ele poderia ter adquirido no presente) para receber, anualmente, uma receita de $1 bilhão.
Ele age assim porque acredita que será capaz de atender aos desejos e necessidades das pessoas (consumidores) de uma maneira melhor do que elas estão sendo atendidas no presente. Tal atitude requer uma habilidade e uma competência que, por si sós, representam uma contribuição trabalhista acima daquela dos empregados. Estas características são exclusivas de um empreendedor.
Se sua visão estiver correta, ele auferirá lucros futuros. Se estiver errado, ele irá arcar com prejuízos.
Vale ressaltar que, ao agir assim, ou seja, se endividando ou colocando seu próprio capital em risco, ele está incorrendo em um risco que pode ser considerado desnecessário. Afinal, não fosse a busca pelo lucro, o rico capitalista poderia simplesmente comprar uma casa maior ou sair em um cruzeiro. No entanto, o capitalista assume um risco agora, e abre mão do consumo presente, na esperança de que irá obter um benefício no futuro. Isso é uma parte da sua remuneração.  
Outra parte da sua remuneração é o tempo entre o investimento feito e as receitas trazidas por esse investimento. Tudo o mais constante, se tivermos de escolher entre ter recursos agora, no presente imediato, ou apenas a hipótese de ter esses mesmos recursos apenas no futuro, é claro que ficamos com a primeira opção, pois o futuro é incerto. É por isso que emprestadores de dinheiro (capitalistas) cobram juros no dinheiro que emprestam: eles estão abrindo mão da certeza do consumo presente pela hipótese de um consumo maior no futuro. Não há certeza nenhuma; apenas expectativas.
Já os trabalhadores recebem seus salários hoje, independentemente de como serão os lucros futuros dos capitalistas (com efeito, eles são pagos hoje mesmo se não houver lucros futuros).
Ou seja, os trabalhadores são pagos hoje, já o capitalista será remunerado:
a) apenas no futuro,
b) apenas se o produto fabricado for vendido, e
c) apenas se ele for vendido com lucro — isto é, se for vendido a um preço maior do que os custos de fabricação, o que inclui os salários dos trabalhadores.
O economista austríaco Eugen von Böhm-Bawerk explicou que, ao contrário de explorar os trabalhadores, o capitalista remove dos trabalhadores o fardo de ter de esperar pela renda. Se os trabalhadores quisessem produzir bens por conta própria, eles teriam de esperar até encontrar um comprador que lhes garantisse um salário estável.
Mais ainda: eles primeiro teriam de poupar (ou então se endividar) para acumular os recursos necessários para comprar uma fábrica ou construir um local de trabalho sem a ajuda do capitalista.
O capital aumenta o valor do trabalho
Vale também mencionar que o capitalista aumenta o valor da mão-de-obra do trabalhador.
Se um indivíduo decidir tentar fazer no campo o mesmo trabalho que faria em uma fábrica especializada, ele dificilmente terá um produto com a mesma qualidade. Certamente, não terá uma produção com o mesmo volume, o que significa que suas receitas seriam muito baixas.
O capitalista, portanto, aumenta o valor da mão-de-obra ao fornecer ao trabalhador as máquinas e ferramentas que aumentam a qualidade do produto e a quantidade produzida. Não fosse o capital disponibilizado pelos capitalistas (maquinário, ferramentas, matéria prima, insumos, instalações etc.), a mão-de-obra não teria como produzir estes bens de qualidade altamente demandados pelos consumidores. Consequentemente, os trabalhadores nem sequer teriam renda.
Logo, a conclusão óbvia é que trabalhadores claramente podem ganhar mais trabalhando para capitalistas do que por conta própria — caso contrário, todos os trabalhadores iriam simplesmente se declarar autônomos e daí passariam a ter uma renda maior.
Talvez alguns deles poderiam ganhar mais ao se tornarem autônomos, mas não querem assumir as responsabilidades concomitantes, as quais são atualmente arcadas pelo capitalista que os emprega. Isso também é evidência de que os capitalistas estão acrescentando valor ao trabalho dos trabalhadores.
Mais-valia
Os marxistas afirmam que os capitalistas exploram os trabalhadores ao simplesmente extraírem seus lucros dos salários dos trabalhadores sem estarem fornecendo nenhum valor ao processo produtivo — ou seja, os capitalistas estariam "extraindo uma mais-valia" dos trabalhadores.
Além de esta idéia ser infundada, como mostrado acima, vale também dizer que, se ela fosse verdade, organizações sem fins lucrativos rapidamente entrariam em cena, contratariam todos os trabalhadores, eliminariam o "peso morto" de se remunerar o capitalista e quebrariam todas as empresas voltadas para o lucro.
Mas isso não acontece simplesmente porque elas não conseguem. Os capitalistas estão claramente fornecendo alguma competência ou visão que beneficia seus empregados. Cada lado se beneficia desta transação mútua, o que é evidenciado pelo fato de que se o trabalhador pudesse conseguir um arranjo melhor, ele rapidamente o arrumaria, e se o empregador pudesse arranjar empregados melhores, ele os contrataria.
Em última instância, os salários não são um número arbitrário, mas sim um reflexo de quanto valor um empregado é capaz de criar para os consumidores do seu trabalho (no caso, os consumidores são o capitalista que paga por sua mão-de-obra, e os clientes que pagam pelo produto produzido).
Se um indivíduo quer abrir mão de ter um patrão e ficar com 100% das receitas de seu trabalho, ele pode perfeitamente fazê-lo: basta aprender uma habilidade, desenvolvê-la, acumular capital (ou se endividar), comprar equipamentos, alugar um local de trabalho, tornar-se autônomo e encontrar clientes que valorizem seu trabalho ao ponto de lhes providenciarem uma renda fixa mensal.
Mas aí ele próprio teria de se tornar um empreendedor capitalista.



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