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08 maio 2022

Estrangeiros fogem de Xangai e Pequim pode ficar engessada |(04/05/2022)

 Fonte

Estrangeiros migram, prateleiras vazias e fábricas paradas:
economia cotidiana na China


Por volta da metade dos estrangeiros que moram em Xangai se sentem expulsos pelas ditatoriais normas socialistas contra o Covid-19 e pensam abandonar a cidade, revelou reportagem de “China in focus”.

Em abril uma enquete encomendada pelo Hong-Kong Focus entrevistou 950 estrangeiros que vivem na cidade e calculou que 48% deles abandonarão a cidade em um ano e 37% pensa nessa opção.


Em Xangai vivem 215.000 estrangeiros 55% dos quais têm algum tipo de Master constituindo parte vital da cúpula diretiva das empresas radicadas na metrópole.

O governo socialista flexibilizou as restrições pela pandemia para as empresas estrangeiras. Mas essas dizem que encontram muita dificuldade para conseguir novos funcionários por causa das ordens de confinamento na cidade.

Segundo o Instituto de Finanças Internacionais os inversores estrangeiros estão retirando seus capitais da China num ritmo sem precedentes. Não houve retiradas comparáveis em outros mercados prejudicados pela pandemia.

A gravidade desta fuga provém do fato que Xangai é o centro financeiro da China.

A Quanta Computer Co, um gigante de capital taiwanês, grande produtor de peças para Apple e Tesla revelou que milhares de empregados em suas fábricas estão infectados e que seus apelos a auxílios do exterior foram silenciados pelo governo ansioso de cortar a epidemia até com recursos irreais.

Foxconn fechou duas fábricas fornecedoras de Apple e Tesla


Testemunhos de operários falam de milhares de colegas trabalhando com a doença, controles nos dormitórios dos operários-escravos que na realidade servem para evitar saídas, falta de higiene num contexto caótico em que ficou até proibido falar. Ninguém responde o telefone na enorme Quanta Computer.

A Qualcomm, outro gigante provedor de Apple, fechou duas de suas fábricas nas vizinhanças de Xangai. No interior da região se multiplicam as infecções detectadas, supostamente espalhadas desde a cidade.

Os temores de um fechamento drástico atingiram Pequim. O pavor dos residentes se revela no esvaziamento das prateleiras nos supermercados.

Cenas de pânico incontrolado se desataram em Chaoyang, o maior distrito econômico de Pequim, onde vivem 3,45 milhões de pessoas.

Os residentes dizem estar preocupados por outro possível bloqueio total como em Xangai para frenar a propagação do vírus.

As filas para os testes se estendem por vários quarteirões e os cidadãos devem passar pelo teste três vezes. Se o governo achar alguns milhares de casos, o pior é a se temer.

Pânico não deixa alimentos à venda em Pequim


A população disputa nos supermercados para se abastecer em função de uma futura carência de alimentos. As plataformas de compras online estão sendo desbordadas pelos pedidos. O pânico foi acrescido pelas cenas assustadoras dos moradores de Xangai sem alimentos.

Os controles socialistas já estão instalando muros de fechamento de ruas e bairros que poderão ser assumidos pela polícia de um momento a outro.

O influencer Wang Sicong, filho de um magnata do entretenimento dono do Wanda Group, foi banido da rede social Weibo – que substituiu a Twitter, banida do país junto com Google e Facebook – pelo muito difuso e confuso delito de “violação de leis e regulamentos relacionados”.

Foi achada a causa em WeChat – o WhatsApp da China – : Wang teria enviado mensagens em que “parece se queixar” do insistente acosso de testes de Covid-19 na China.

Wang disse que a imposição dos testes deixa a população ante a opção entre servilismo e coragem.

Lockdown deixou supermercados de Xangai sem suprimentos


Wang já sofria problemas porque criticou um remédio baseado em ervas com que são tratados os membros do Partido Comunista.

Depois o produto passou a ser entregue em todas as moradias de Xangai e Hong Kong.

É o Lianhua Qingwen que teria sido concebido segundo a medicina tradicional chinesa com sete componentes naturais, mas cujo resultado é ignoto.

Por causa disso foram apagados todos os comentários de Wang nas redes sociais.

Em Xangai a população continua denunciando a falta de mantimentos. O governo revidou publicando vídeos de prateleiras cheias em 1.000 centros de comercialização de alimentos que teriam reaberto.

Filas para teste em Pequim


Entretanto um cameramen publicou nas redes sociais que ele era o autor dos vídeos e que esses foram feitos antes de começar a atual onda paranoica do governo contra o Covid-19.

Outras incongruências denunciaram a enganação: os clientes aparecem com pesadas roupas de inverno que não são necessárias nos meses cálidos da atual repressão.

Em certas cenas se vem legumes nas prateleiras em primeiro plano, mas no fundo as prateleiras estão vazias.

Entretanto, a economia mundial já sofre desabastecimento de produtos feitos nas fábricas chinesas, e os mais previdentes se preparam para algo muito pior, inclusive no Brasil.


13 fevereiro 2022

Drastic: o jornalismo investigativo que a imprensa "profissional" se recusou a fazer (parte 2)

 

Antes de entrevistar os membros do Drastic, a imprensa deveria era pedir-lhes perdão de joelhos. Flavio Gordon para a Gazeta do Povo via OTambosi:


“Depois disso tudo, já não vejo a ciência como um domínio exclusivo. Todo mundo poder fazer a diferença.” (The Seeker, jovem indiano membro do Drastic)

“Foi fascinante observar, no curso da minha investigação ao longo do último ano, como esse grupo de ativistas – em parceria com alguns poucos bravos cientistas – arrancou das sombras a hipótese de origem laboratorial.” (Ian Birrell, jornalista britânico)


23/06/2021



Os leitores desta coluna já haviam tomado conhecimento do “Drastic” – acrônimo para Decentralized Radical Autonomous Search Team Investigating Covid-19 (“Equipe descentralizada, radical e autônoma de investigação da Covid-19”) – no artigo do dia 9, que desnudava a vergonhosa atuação da imprensa autoproclamada “profissional” na cobertura (ou, antes, na ocultação) da origem da pandemia. Aquela foi, possivelmente, a primeira vez que o nome do grupo deu as caras num veículo de imprensa brasileiro.

No artigo da semana passada, por sua vez, comecei a descrever mais detalhadamente a atuação desses detetives diletantes que, por meio de um mutirão virtual para a coleta de dados e evidências, conseguiu romper a espiral de silêncio midiática, driblar a censura das Big Techs e forçar o ingresso da hipótese de origem laboratorial do novo coronavírus no debate público mundial. Qual não foi, então, a minha surpresa ao topar no último domingo, dia 20, com uma reportagem no programa Fantástico, da Rede Globo, intitulada “Polêmica sobre origem da Covid esquenta após imagens de morcegos no que seria laboratório de Wuhan”?

Como num passe de mágica, e contrariando toda a orientação editorial da emissora nos últimos 15 meses, a origem laboratorial do Sars-CoV-2 passava a ser descrita como uma possibilidade legítima e não mais como “teoria da conspiração” (embora o repórter trêmulo de insegurança tenha feito questão de enfatizar, pausadamente: “pos-si-bi-li-da-de”). Com impressionante cinismo, o tipo de fonte até então tratada com deboche, por supostamente veiculada por malucos, paranoicos e extremistas políticos desautorizados pela “ciência”, era agora usada como referência – a começar, inacreditavelmente, pelos próprios integrantes do Drastic, alguns dos quais entrevistados para a matéria. Antes de entrevistá-los, contudo, a imprensa deveria era pedir-lhes perdão de joelhos.

Mas a desonestidade não parou por aí, e atingiu o paroxismo quando, numa inversão perfeitamente simétrica da realidade, os autores da reportagem acusaram o ex-presidente americano Donald Trump e seus “imitadores” (uma referência pouco sutil a Jair Bolsonaro) de haver atrapalhado, com suas “teorias conspiratórias”, a discussão sobre o possível vazamento do vírus de um laboratório em Wuhan. Sim, por incrível que pareça, a tese central da reportagem era esta: aqueles que aventaram desde o início a possibilidade de origem laboratorial do Sars-CoV-2 eram justamente os responsáveis por interditar essa hipótese, que, do contrário, caso não fora esposada por leprosos sociais, teria circulado livremente na imprensa e na rede. Já veículos como a Globo, que passaram os últimos 15 meses afirmando peremptoriamente a existência de um “consenso científico” sobre a origem natural, e estigmatizando a hipótese alternativa como “teoria da conspiração”, estariam apenas exercendo o seu trabalho de bem informar. Em suma: a culpa não fora da Globo e de seus jornalistas “gente como a gente”, que mentiram – pois nunca houve “consenso científico” algum sobre a origem natural do vírus –, mas de Donald Trump e “imitadores”, que falaram a verdade, pois a hipótese de origem laboratorial sempre esteve ancorada em evidências robustas.

Mas deixemos de lado, por ora, o descaramento da imprensa autoproclamada “profissional” em conter os danos e apagar as pistas do antijornalismo praticado – um gesto moralmente equivalente ao do homicida que, no velório, chora abraçado aos parentes de sua vítima. Voltemos ao Drastic, cujas informações cruciais sobre a origem do vírus resultaram de uma notável independência de pensamento e resiliência diante de falsos consensos, e que jamais teriam vindo a público se dependêssemos de grupos de comunicação como a Globo, que, em conluio com as agências de checagem de fatos e as Big Techs, tudo fizeram para censurá-las.

No artigo anterior, vimos como a turma do Drastic descobriu que o RaTG13 – o parente mais próximo conhecido do Sars-CoV-2, revelado ao mundo em fevereiro de 2020 num artigo de Shi Zhang-li, a “mulher-morcego” – proviera de uma mina abandonada no condado de Mojiang, na província de Yunnan, onde, em 2012, seis mineiros contraíram pneumonia, tendo três deles vindo a óbito. Diante dessa descoberta, o grupo passou a especular se seriam esses os primeiros casos de seres humanos infectados por um precursor do Sars-CoV-2, talvez o próprio RaTG13 ou algum coronavírus aparentado.

Em junho de 2020, Shi admitiu à revista Scientific American ter trabalhado na mina em Mojiang na qual três homens haviam morrido de pneumonia. No entanto, tratando de evitar qualquer associação do RaTG13 às mortes, atribuiu-as não ao vírus, mas a um fungo. A evasiva não convenceu o pessoal do Drastic, que àquela altura já suspeitava que um coronavírus havia sido o patógeno causador das mortes, e que o Instituto de Virologia de Wuhan (IVW) estava, de algum modo, tentando esconder o fato.

Foi então que um membro do Drastic de quem falamos na semana passada, o indiano de codinome The Seeker, encontrou uma peça chave do quebra-cabeça. Bisbilhotando na rede sobre as mortes em Mojiang, ele acabou descobrindo um vasto banco de dados de publicações acadêmicas chinesas, intitulado CNKI. Trabalhando incansavelmente nos seus smartphone e laptop, e recorrendo ao Google Tradutor para compreender algo dos textos em chinês, o jovem nerd já estava por desistir diante da multidão de dados quando, finalmente, esbarrou numa preciosidade: uma dissertação de mestrado de 60 páginas escrita em 2013 por um estudante da Universidade Médica de Kunming (capital da província de Yunnan), cujo título era “Análise de seis pacientes com pneumonia grave causada por vírus desconhecidos”. A dissertação descrevia detalhadamente o passo a passo do tratamento dos mineiros infectados, e nomeava o culpado pela doença: “causada por um coronavírus de tipo Sars proveniente de morcegos”.

Em 18 de maio de 2020, The Seeker postou o link do trabalho numa thread de membros do Drastic, seguido pelo link de uma tese de doutorado de um estudante do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, que basicamente confirmava as informações contidas na dissertação. Pouco tempo depois da postagem, a China alterou o controle de acesso à plataforma CNKI, impedindo que uma pesquisa como aquela fosse feita novamente.

Havia agora, então, a possibilidade de um vírus de tipo Sars ter surgido em 2012 e sido acobertado pelo IVW, que, nos anos seguintes, continuou enviando pesquisadores para novas coletas a fim de enriquecer a coleção de seus laboratórios. Diante de uma tal história, era de se esperar que jornais de todo o mundo lhe dedicassem um espaço considerável. Mas, com algumas raras exceções (como, por exemplo, essa matéria no britânico The Sunday Times), a imprensa autoproclamada “profissional” ficou muda.

Dez dias depois de The Seeker ter postado a sua valorosa contribuição, o Drastic conseguiu localizar as coordenadas da misteriosa mina de Mojiang, mas foi só no fim do ano que parte da imprensa “profissional” se interessou pelo caso, dando início a uma verdadeira corrida para chegar até lá. Um dos primeiros a tentar foi o repórter John Sudworth, da BBC, que encontrou o caminho bloqueado por guardas e caminhões, e que mais adiante foi expulso da China por ordem de autoridades comunistas. Depois da BBC, foi a vez da Associated Press, da NBC, da CBS e de outros veículos, cujas tentativas tiveram resultados idênticos – o caminho bloqueado por árvores, caminhões e soldados do ELP. Um repórter do Wall Street Journal até conseguiu furar o bloqueio e se aproximar da entrada da mina, mas acabou detido e interrogado por cinco horas, depois do que a polícia apagou fotos de seu telefone celular. Até o presente momento, portanto, os segredos da mina permanecem intocáveis.

A despeito do desinteresse inicial da imprensa, o Drastic continuou acumulando dados e atraindo novos membros. Um deles foi o cientista de dados madrilenho Francisco de Asis Ribera, que conseguiu garimpar uma vasta quantidade de informações sobre o programa de coleta de vírus do IVW. Ele foi o responsável por demonstrar cabalmente que, ao contrário do que havia declarado Peter Daszak (presidente da ONG americana que financiava as pesquisas com coronavírus do IVW), Shi e seus colegas de laboratório jamais haviam cessado de manipular o RaTG13 ao longo dos sete anos que se seguiram à sua descoberta.

Examinando metadados sobre sequenciamento genético do RaTG13, Ribera notou que os cientistas do IVW trabalharam intensamente com esse coronavírus nos anos de 2017 e 2018. Ao contrário do que disseram Daszak e os seus colegas chineses, o vírus não fora guardado na geladeira e esquecido. Ribera também encontrou registros de que, desde 2012, quando o RaTG13 foi descoberto, os pesquisadores do IVW haviam feito ao menos sete expedições à mina de Mojiang para coletar amostras de vírus. E, numa thread de agosto de 2020, ainda propôs uma hipótese ousada: de que oito vírus de tipo Sars mencionados de passagem numa seção obscura de um artigo do IVW provinham da mesma mina. Portanto, em vez de apenas um parente próximo do Sars-CoV-2, os cientistas chineses teriam, de fato, encontrado nove. Três meses depois, em novembro, a hipótese de Ribera seria confirmada pela própria Shi num adendo ao seu artigo na Nature, de fevereiro de 2020.

The Seeker, que dentro do Drastic formou uma dupla dinâmica com Ribera, fez outras descobertas assombrosas sobre os planos do IVW, que sempre os manteve na obscuridade. Vasculhando a seção de bolsas e prêmios do instituto, o jovem indiano encontrou descrições detalhadas de projetos, que incluíam a testagem da infectividade de novos coronavírus de tipo Sars em células humanas e animais de laboratório, a fim de observar as mutações ocorridas nos saltos zoonóticos, e recombinar geneticamente fragmentos de diferentes vírus, criando quimeras virais potencialmente mortíferas. Tudo isso, recorde-se, sendo operado em níveis inadequados de biossegurança, uma verdadeira senha para a catástrofe.

Talvez nunca seja possível provar cabalmente que as coisas se passaram desse jeito – uma vez que a China decerto não colaborará com investigação alguma nesse sentido –, mas o trabalho do Drastic foi fundamental para fortalecer essa possibilidade e ligar o sinal de alerta em todo o mundo. E as evidências reunidas pelo grupo apontam todas na direção da origem laboratorial. Hoje sabemos que o IVW passou os últimos anos coletando perigosos coronavírus, alguns dos quais jamais revelados ao público (uma vez que a produção científica na China é estritamente controlada pelo Partido Comunista). Que pesquisadores do instituto, liderados por Shi Zhang-li, vinham fazendo recorrentes testes com esses vírus a fim de avaliar sua capacidade de infectar seres humanos e as mutações necessárias para esse fim. Teoricamente, essas pesquisas em “ganho de função” teriam por objetivo produzir vacinas eficazes contra futuras eventuais pandemias. Mas, diante da obscuridade com que têm sido tratadas por autoridades e pesquisadores chineses, não se pode descartar a priori que as intenções por trás delas sejam perversas. Sobretudo porque, como mostrei em artigo anterior, na China a ciência está inextricavelmente fundida nos assuntos militares, e há documentos do ELP falando abertamente num potencial uso militar de coronavírus.

Mas esse é (mais) um tabu que ainda está por cair, e investigadores persistentes como a turma do Drastic sempre podem acelerar o processo. Por enquanto, tendo o fracasso lhe subido à cabeça, a imprensa autoproclamada “profissional” continuará tratando a hipótese como “teoria da conspiração” e garantindo ao público que um “consenso científico” a descartou. Mas, a esta altura do campeonato, o leitor da Gazeta decerto já sabe o que fazer com essas tentativas ridículas de carteirada midiática...




09 agosto 2020

Guzzo: "O fosso aumenta". (09/08/2020)



A calamidade que mais importa é a do ensino básico na rede pública de educação. J. R. Guzzo, via Estadão:



De todas as tragédias trazidas pela covid-19 ao Brasil uma das mais angustiantes é a devastação que a necessidade de combater o vírus está causando nas escolas. Esqueça um pouco a universidade e os colégios particulares; a calamidade que mais importa é a do ensino básico na rede pública de educação. Estudam ali, hoje, cerca de 50 milhões de crianças e adolescentes. Basicamente, não tiveram aulas em 2020 – e estão simplesmente condenados a perder o ano. É claro que os governos sempre podem assinar um papel fazendo todo mundo passar para o ano seguinte do currículo. Mas é impossível ensinar alguém por decreto. O que esses 50 milhões de garotos não aprenderam em 2020 não será mais aprendido; a matéria que não foi dada pode ser socada em cima dos alunos, em forma de ensino “condensado”, quando as escolas voltarem a funcionar, mas uma hora perdida é uma hora perdida. Não há como criar o tempo de novo.

Tudo o que esses 50 milhões de jovens não precisam, hoje ou em qualquer época, é perder um ano de escola. São os mais pobres – e, portanto, a imensa maioria – e os que mais precisam adquirir conhecimento para ter alguma oportunidade objetiva de levar uma vida melhor que a dos seus pais. Como observou um editorial recente de O Estado de S. Paulo, citando palavras do secretário-geral da ONU, não há nenhuma esperança de se reduzir as desigualdades sociais, econômicas e culturais sem fornecer educação de qualidade aos jovens – é aí que está “o grande equalizador”. Não há distribuição de dinheiro, ou de casas, ou de “quotas” capaz de substituir o avanço que a educação pode trazer para a condição social de um ser humano; não há “programas sociais”, nem “políticas públicas”, com a potência que uma boa instrução tem para possibilitar o acesso ao trabalho mais bem remunerado, às oportunidades de realização pessoal e ao conjunto de condições que compõem uma existência distante da pobreza.

A perda do ano letivo de 2020 é com certeza uma das piores notícias que a questão social poderia receber no Brasil de hoje. Não há nenhum causador mais efetivo de pobreza, desigualdade, concentração de renda e injustiça do que a falta de instrução que castiga a maioria da população brasileira. Num país em que a atividade econômica está sofrendo como nunca, e continuará a sofrer nos próximos meses, a distância entre os brasileiros vai se tornar maior ainda do que já é. Não apenas os jovens das classes mais modestas sofrem um prejuízo real e imediato. Os alunos das escolas particulares, de um jeito ou de outro, vão acabar aprendendo mais durante este período de desgraça – e o fosso, em vez de diminuir, vai crescer.

Ouve-se falar muito, desde o início da paralisação trazida pela epidemia, da utilização de novos métodos de ensino, baseados no computador, que permitam um ensino a distância mais efetivo; fala-se em “inclusão digital”, “escolas virtuais” e outros portentos. Mas isso tudo, na vida real, tem significados diferentes de acordo com o dinheiro que as pessoas têm no bolso. O “ensino remoto” é uma coisa para a moçada que está em escolas particulares onde se cobram mensalidades de R$ 5 mil, ou por aí. Para a massa dos estudantes da rede pública é completamente outra. As duas realidades não têm praticamente nada a ver entre si. Como ensinar por computador alguém que não tem computador? Como dar aulas pela internet onde não há internet? De novo: está se falando de 50 milhões de alunos. Não há a menor possibilidade de que seja mantida a distância, já muito grande, que os separa dos que estudam na rede particular. Ela vai ficar muito pior, e a conta vai aparecer no futuro.


03 agosto 2020

O que esta tragédia traz de bom (31/07/2020)



Aprendi três grandes lições a partir da experiência do lockdown. A principal, a certeza de que é preciso lutar permanentemente pela manutenção da liberdade. Artigo de Jeffrey Tucker para a revista Oeste:




Muitos milhões de pessoas passaram os últimos quatro meses em tristeza e depressão. É difícil ver o mundo despedaçado pelo mau comportamento dos governos — e ver tantos de nós torcer pela destruição — e não ter uma sensação de desespero.


No entanto, a humanidade é algo incrível. Se nos empenharmos, poderemos encontrar uma boa lição em eventos terríveis. Fazer isso — é preciso esforço — pode elevar espíritos e apontar o caminho para sair do pântano.


Eu tirei três coisas positivas dessa experiência.


Primeiro, superei completamente meu vício de décadas no noticiário. Sempre amei acompanhar as notícias, mesmo quando era criança. Por anos, li o Washington Post com meu café matinal. Então, eu pegava o New York Times. Aprendia a obter a verdade da cobertura tendenciosa, mas abrangente, deles. Então acrescentava o Wall Street Journal. Quando os home assistants surgiram, programei o meu para transmitir oito horas de noticiário sem interrupção: BBC, NPR, NYT e tantos outros. Parecia um luxo.


O ponto de virada aconteceu em 28 de fevereiro de 2020, quando o podcast do New York Times (que costumava ser meu favorito) lançou um episódio de pornografia do pânico que previa que o novo coronavírus mataria 8,25 milhões de norte-americanos, ou “seis amigos seus”.


Foi um choque constatar que eles colocaram seu principal podcast para provocar um medo público que estimulasse o lockdown. Explicitamente. Essa era a pauta. E mais ou menos admitiram isso. Soube naquele momento que o jornal tinha aceitado contribuir para essa trama maliciosa de encenar um empreendimento social/político sem precedentes.


O NYT abriu o caminho. Em pouco tempo, a mídia mainstream se tornou universalmente pró-lockdown, provavelmente por razões políticas. Um vírus leve e disseminado, perigoso principalmente para uma população específica com baixa expectativa de vida e quase inofensivo para todos os demais, foi retratado todo dia e toda hora como a nova peste bubônica.


Devo ter ouvido o podcast por mais uns dois dias. Então parei. Tudo ficou claro. Decidi, de maneira súbita e surpreendente para mim, parar de encher a cabeça com bobagens. As “notícias” não estavam trazendo informações para me ajudar a entender o mundo; elas estavam atrapalhando minha habilidade de pensar com clareza. Alguns meses depois, como estava programado, a revolução do New York Times foi concluída quando o diretor de opinião, contratado para diversificar as opiniões do jornal, foi demitido sem a menor cerimônia por diversificar as opiniões do jornal. (O pessoal da teoria crítica descobriu um novo amor pelo direito das instituições de demitir pessoas, contradizendo décadas de oposição da esquerda.)


Comecei a obter minhas informações procurando por elas, buscando perfis confiáveis para seguir no Twitter, dedicando meu tempo às páginas de estatísticas e, fora isso, pesquisando fatos, lendo história e me informando de maneira mais aprofundada, em vez de apenas confiar na mídia.


Uma exceção aqui: The Wall Street Journal, que teve um desempenho heroico durante o processo todo.


Neste momento, posso dizer que nunca mais vou voltar. Meu vício nas “notícias” se acabou. Estou melhor assim. Foi doloroso, mas estou feliz.


Alguns leitores agora estão dizendo: até que enfim. O noticiário sempre esteve interessado em atrair olhos e ouvidos e vender anúncios. É apenas entretenimento. Isso se tornou especialmente verdadeiro com o ciclo de 24 horas de notícias.


Não discordo. Eu deveria ter parado há anos. Mesmo agora, sou capaz quase imediatamente de ver a diferença entre uma pessoa que assiste ao noticiário da TV ou ouve rádio mainstream versus aquela que de fato se informa sobre o que está acontecendo.


De todo jeito, considero isso uma vitória real, cortesia do lockdown.


Segundo, economizei uma quantidade enorme de dinheiro não indo a restaurantes, bares e ao cinema. Fico triste por todos os lugares que fecharam. É injusto e ruim. Mas, da minha perspectiva, aprendi a viver uma vida boa gastando provavelmente 30% menos do que antes. Eu me apaixonei de novo por cozinhar, pelos coquetéis caseiros e pela leitura.


É melhor assim. Duvido que volte, agora que sei preparar todas as minhas refeições favoritas por uma fração do que costumava pagar. Agora que as coisas estão abrindo, talvez até vá a alguns restaurantes, mas duvido que volte a como as coisas eram.


Terceiro, aprendi uma lição muito valiosa, a de que uma civilização pode ser desmontada em questão de meses. Pode acontecer de novo se não houver vozes apaixonadas por aí que entendam sua base e sejam capazes de defendê-la com integridade intelectual, fatos e poder retórico. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer. Achei que fosse impossível — com uma Constituição, uma tradição de liberdade, e um povo que nunca permitiria que os direitos humanos fossem retirados de modo tão repentino e cruel. Aconteceu, e saber disso trouxe uma paixão renovada por meu projeto de vida de amar, entender e difundir a ideia de liberdade.


É impressionante como tudo se deu.


Governos e seus defensores tomaram para si um assunto sobre o qual a população é, hoje, bastante ignorante e temerosa — um vírus e a afirmação de que 8,25 milhões de norte-americanos iam morrer — e exploraram essa ignorância para fazer as pessoas abrir mão de seus direitos. Mesmo que a coisa estivesse mapeada 14 anos antes, talvez como forma de encontrar alguma fundamentação para a presença contínua e crescente do governo em nossa vida, apesar de sua irrelevância cada vez maior em outras circunstâncias, muitos do lado pró-liberdade das coisas foram pegos com a guarda baixa e não souberam como reagir.


Muitas pessoas — até mesmo aquelas empregadas no trabalho de “promover a liberdade” — apenas ficaram em silêncio. Por meses. Exatamente quando suas vozes eram mais necessárias. Isso foi uma tragédia. Serei eternamente grato pelo site do American Institute for Economic Research [organização da qual o autor é diretor]. Em algumas ocasiões nestes meses, o site pareceu uma solitária voz de sanidade.


Essa terceira lição — ser grato pelas nossas liberdades e pela nossa civilização, e nunca achar que elas podem ser menosprezadas — talvez seja a mais valiosa. Tenho pensado que, certamente, muitas outras pessoas aprenderam lições semelhantes. Perderam a fé no noticiário, redescobriram a frugalidade e encontraram uma nova forma de se comprometer com a defesa da liberdade e dos direitos humanos. Nos dias vindouros, vamos precisar de mentes mais fortes e mais inteligentes para travar as batalhas do futuro. Esses meses terríveis podem ter sido a preparação de que precisamos para garantir que a verdade e a liberdade prevaleçam no fim.




Jeffrey Tucker é economista norte-americano, defensor da Escola Austríaca e do libertarianismo, associado do Action Institute e autor do livro Coletivismo de Direita (2017), publicado no Brasil pela LVM Editora.



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