O jornalista italiano Carmelo Abbate é especializado em produzir
matérias investigativas sobre temas de relevância social, tais como trabalho
clandestino, as agruras da imigração, os descalabros no sistema de saúde, o
comércio do sexo e outras ciladas e sinucas que afetam os pobres, desvalidos e
incautos em seu país. Muitas vezes Abbate se disfarça de objeto de seu estudo,
virando imigrante marroquino, paciente da rede pública, trabalhador
clandestino, ator pornô, e por aí vai, para melhor escarafunchar os dramas que
pretende revelar ao público. Seu último trabalho, o livro-reportagem Sex and the Vatican — viaggio segreto nel regno dei casti (O
sexo e o Vaticano — viagem secreta ao reino dos castos), que tem provocado não
pouco buchicho nos meios católicos, traz revelações desconfortáveis sobre o
comportamento sexual dos servos da Igreja num país ainda muito carola e
conservador, pelo menos de fachada, como a Itália.
Abbate
se infiltrou no mundo íntimo do Vaticano através de um amigo homossexual que
tinha lhe contado uma história curiosa iniciada numa sauna gay, em Roma. Ali, o
amigo trepou com um francês radicado na Itália que, logo a seguir, se revelaria
padre, e não qualquer padreco, e sim um dos sacerdotes que rezavam missa de
manhã na Basílica de São Pedro, templo magno do catolicismo no Ocidente. E
quando esse amigo gay do Abbate contou-lhe que planejava ir a uma festinha de
embalo no apê do tal padre francês, o jornalista não teve dúvida: pediu pra ir
junto, posando de namorado liberal do amigo. Foi e levou a fatídica câmera
oculta com a qual, sabe-se lá como, gravou uma bela suruba clerical. Ele só não
conta o seu grau de participação na suruba, se ajoelhou e rezou, etc. e tal. O
que interessa é que “lá estavam muitos prelados”, em suas palavras. Prelados e
de mão no bolso, eu diria, no meu irrefreável trocadilhismo. Ali tinha início
uma investigação sobre a vida sexual dos supostos castos da Igreja católica,
que iria durar um ano inteiro.
E
o que apurou, no geral, a bisbilhotice jornalística do Abbate, que deixou mais
de um prelado em palpos de aranha pelado dentro da batina? Nada de muito novo
ou original, ao meu ver. Basicamente que tem um monte de padre que faz sexo à
vontade, gays e héteros, dentro e fora dos muros do Vaticano, sendo que muitos
levam vida dupla, mantendo mulher e filhos em alguma quebrada mais ou menos
discreta. Há relatos de surubas rotineiras também, como aquela da qual o autor
participou. E não é raro, diz Abbate, que os servos de Cristo, ao gerarem
rebentos indesejados em seus relacionamentos com mulheres, acabem batendo às
portas dos aborteiros pra se livrar do estorvo, não raro por insistência do
bispo ao qual devem obediência. E, claro, não faltam sacerdotes que se atolam
no crime hediondo da pedofilia, como lemos a toda hora nos jornais. Ou seja, a
turma da batina tende a agir segundo seus desejos carnais, da mesma forma que
nós outros, integrantes do rebanho laico e por vezes ateu do Senhor.
Uma
das fontes secundárias de Abbate é um estudo do psiquiatra Richard Sipe,
ex-monge beneditino, apontando que 25% dos padres americanos tiveram relações
com mulheres e outros 20% praticaram o amor que não ousa dizer seu nome. Quer
dizer, tirando uns 5% de bissexuais, que estão cá e lá nas estatísticas,
concluímos que pelo menos uns 40% do clero americano já botou a genitália e a
anália pra rockar e rollar fora da batina.
Na
Alemanha, outro pesquisador do assunto, ex-padre excomungado, aponta que, dos
dezoito mil servidores da Igreja atuantes no país, um terço vive com uma
mulher. Difícil resistir ao impulso de deduzir que pelo menos outro terço ande
às voltas com homens na cama. Já no Brasil, como informa a matéria que eu li no
UOL, o Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) apontou
que 41% dos clérigos confessaram já ter tido relações não canônicas com membros
e membranas dos incautos fiéis que se aproximaram demais da conta deles.
A
espada moralista do Abbate pende, enfim, sobre uma instituição que prega a
castidade como virtude cristã para todos e valor absoluto para os servos de
Deus, e que sempre condenou o homossexualismo, o sexo fora do casamento e o
aborto. As revelações sobre a vida privada dos castos, já se vê, não combinam
muito com tal ideário. Castos um cazzo! E se necessário fosse dar mais uma
voltinha no parafuso, o autor poderia acrescentar, numa próxima edição do seu
livro, um dado curioso que em tudo combina com as revelações bombásticas que
estão lá. É que o Instituto do Vinho da Califórnia acaba de publicar uma
pesquisa apontando o país com maior consumo per capita de vinho do mundo.
Qual
você acha que é? A França? Não, essa vem em quinto lugar. Também não é a Itália
nem Portugal, e sim o Vaticano, cidade-estado situada dentro de Roma. Os
oitocentos castos que ali vivem consomem nada menos que setenta e quatro litros
de vinho por pessoa ao ano, o que dá uma média de cento e cinco garrafas de 750
ml. A Itália vem apenas em nono lugar, com 37,6 litros per capita, a metade do
vinho consumido no Vaticano. De fato, nada como um vinhozinho pra acompanhar uma
boa sacanagem. O velho Baco já sabia disso alguns séculos antes de Cristo.
A
questão, em todo caso, é antiga. Gilberto Freyre, em seu Casa-Grande &
Senzala, cravou: “O ambiente em que começou a vida brasileira foi de quase
intoxicação sexual. O europeu saltava em terra escorregando em índia nua; os
próprios padres da Companhia precisavam descer com cuidado, senão atolavam o pé
em carne.”
Na
mesma época, o século XVI, Pietro Aretino (1492-1556), poeta (Sonetos
luxuriosos), puxa-saco de papas e reis, chantagista da nobreza e libertino em
tempo integral, escreveu os Raggionamenti (Tertúlias), traduzido no Brasil como
Pornólogos, por J.M. Bortolote (Editora De Gustar), livrinho difícil de achar,
mas uma iguaria para os amantes da boa sacanagem erudita. Nele, a narradora, a
Nanna, conta sua vida como freira, esposa e puta, nessa ordem. Embora obra de
ficção, é difícil supor que um homem esperto e observador como Aretino não
tivesse se inspirado nas práticas correntes nas famílias abastadas e nos
monastérios da Renascença italiana para compor suas historietas safadas.
Nanna
conta como, ainda bela e fresca donzela, foi encaminhada pela família a um
convento para se entregar aos braços de Deus. Depois de acolhida num lauto
banquete de boas-vindas, com padres e freiras mandando ver nas finas viandas e
no generoso vinho, Nanna ganha seu kit de noviça, do qual consta um consolo de
vidro oco, feito em Murano, dentro do qual se injetam líquidos quentes, como a
própria urina da usuária. É com esse cazzo artificial morninho que ela mesma se
desvirgina enquanto espia um animado frade “cravar a vara pelos fundos da
padaria” da abadessa do convento. Logo em seguida, já livre do incômodo da
virgindade, Nanna é abordada por um piedoso vigário “que me fez três vezes, modéstia
à parte, duas à antiga e uma à moderna”, sendo que essa modalidade moderna do
fazer sexual é a mesma que Nanna viu a abadessa experimentar pelos fundos de
sua “padaria”. Aliás, o tempo todo na história de Nanna os ardorosos membros do
clero e demais serviçais do convento, uma vez “satisfeitos com o primeiro
bocado da cabra, queriam ainda o cabrito”. Tá certo. Um cabritinho, de vez em
quando, sempre cai bem.
A
Renascença italiana era mesmo pródiga em putarias clericais e os exemplos
históricos abundam (e abucetam e acaralham). Há não muito tempo, uma editora
brasileira lançou uma (porno)graphic novel desenhada pelo italiano Milo Manara,
com texto do chileno Alejandro Fodorowsky — ops, Jodorowsky —, relatando as
façanhas políticas e sexuais de Rodrigo Bórgia (1431-1503), que virou Alexandre
VI, tido como o papa mais devasso da história. O papa-papão papava de coroinhas
a cardeais, de princesas a criadinhas, com fé inabalável em seu santo taco.
Teve pelo menos sete filhos conhecidos. Um deles era a bela e igualmente
devassa Lucrécia Bórgia, que deixaria qualquer Paris Hilton no chinelo. Dizem
que dava umas comparecidas até debaixo do baldaquim do leito papal. Ou seja,
mandava bala com o próprio papi papa, com quem teve um baby — ao mesmo tempo
filho e neto do sumo pontífice. Não havia ainda paparazzi em Roma naqueles
tempos, mas os satiristas de plantão, um certo Filofila à frente, não lhe davam
trégua. Filofila chegou a escrever que “a filha do papa adora copular. Pode ser
com irmão, pai, poeta, cachorro, bode e até macaco”. E, ao que consta nos anais
(e também nos vaginais) da história, nada disso era nenhum grande exagero ou
novidade.
Não
foi à toa, pois, que Petrarca (1304-1374), o criador da forma soneto, chamava o
Vaticano de “Babilônia infernal, cárcere indecente onde nada é sagrado.
Habitação de gente de peitos de feno, ânimo de pedra e vísceras de fogo”. Que
as coisas não se passem de forma muito diferente por lá, hoje em dia, não
deveria espantar muita gente, a julgar pelo livro do Abbate. Os “castos” do
Vaticano, já se vê, além das aspas, pedem igualmente uma profilática camisinha
benta. Quanto ao Carmelo Abbate, que se declara católico e gostaria de ver a
Igreja modernizada e moralizada, deve ter sido uma experiência catártica
tripudiar sobre a proverbial hipocrisia dos servos de Deus, que praticam o
nobre e laico esporte na vida privada e vomitam virtudes e ameaças aos
pecadores do púlpito. Me senti eu mesmo o meu tanto vingado com o trabalho do
Abbate. De família católica, com uma ala feminina carola composta por mãe, avó
e tias que não perdiam missa aos domingos e dias santos, vivi na infância e
primeira adolescência sob o manto de uma vigilante repressão sexual defumada em
incenso de igreja. Entre o “catecismo” do Carlos Zéfiro e o sem aspas da Santa
Madre Igreja meu pau balançava. Saltei fora dessa masmorra mental aos dezesseis
anos, quando mandei a turma da batina às favas e passei a acreditar piamente em
sexo — e ele em mim, nos melhores dias. Como Aretino, dei uma grossa banana “a
todos os hipócritas, pois não tenho mais paciência para as suas mesquinhas
censuras, para o seu sujo costume de dizer aos olhos que eles não podem ver o
que mais os deleita”.
Ecco!
Delei temo-nos, pois, seguindo o pio exemplo dos catsos, ops, castos do Vaticano.