“Nós temos que dizer aqui o que é uma verdade conhecida, que temos expressado sempre diante do mundo: fuzilamentos, sim! Fuzilamos, estamos fuzilando e seguiremos fuzilando até que seja necessário. Nossa luta é uma luta até a morte. Nós sabemos qual seria o resultado de uma batalha perdida e os vermes também têm de saber qual é o resultado da batalha perdida hoje em Cuba. E vivemos nessas condições por imposição do imperialismo norte-americano. Isso, sim, mas assassinatos não cometemos, como comete neste momento a polícia política venezuelana que, creio, recebe o nome de Digepol se não estou mal informado. Essa polícia cometeu uma série de atos de barbárie, de fuzilamentos, ou melhor, de assassinatos, e depois atirou os cadáveres em alguns lugares (…)”
Na tarde da última quarta-feira Pedro Collor tomou um avião em Maceió e chegou a São Paulo após uma escala no Recife. Em companhia da mulher. Maria Tereza, e de uma irmã, Ana Luiza, Pedro Collor deu uma entrevista de duas horas a VEJA. A seu pedido, o encontro ocorreu nas dependências da revista. A mulher e a irmã de Pedro Collor foram testemunhas de suas declarações, e chegaram a colaborar em algumas respostas. Além de fazer novas denúncias sobre a atividade de PC Farias no governo, Pedro Collor diz que ele é “testa-de-ferro” do presidente Fernando Collor. Diz que o jornal Tribuna de Alagoas, que PC Farias quer lançar em Maceió, na verdade pertence a seu irmão. Também garante que um apartamento de Paris que se supunha ser propriedade do empresário na realidade pertence a Fernando Collor. Para Pedro Collor, existe uma “simbiose profunda” entre os dois. Os principais trechos da entrevista:
VEJA – O senhor se considera louco? Pedro Collor – Não, de jeito nenhum.
VEJA – Se a sua própria mãe está falando isso, é o caso de perguntar. Já fez algum tratamento psiquiátrico? Pedro Collor – Não, nunca fiz tratamento psiquiátrico ou psicanálise. Essa pressão toda tem um objetivo claro. O objetivo foi passar para a opinião pública a sensação de que não tenho credibilidade, que estou sob forte comoção. Convenceram mamãe a assinar aquela carta. Ela é muito ingênua nesse sentido.
VEJA – As suas afirmações e denúncias, os documentos que o senhor levantou contra Paulo César Farias e as críticas que vem fazendo ao Presidente colocam o governo e o país numa situação delicada. O senhor está ciente disso? Pedro Collor – Absolutamente consciente.
VEJA – O senhor tem dito que suas revelações podem acabar com o governo do seu irmão. É isso que o senhor quer? Pedro Collor – Não, mas qual foi o principal mote da campanha do Fernando? Quem roubava ia para a cadeia. Na prática, estou vendo uma coisa completamente diferente. Ninguém pode enrolar todo mundo o tempo todo.
VEJA – Essa briga começou em torno do lançamento de um novo jornal, que concorreria com a Gazeta de Alagoas, das organizações Arnon de Mello? Pedro Collor – Em janeiro de 1991, levei ao Fernando, no Palácio do Planalto, o plano de se montar um novo jornal em Alagoas. Seria um jornal vespertino. Já houve no passado vespertinos no Estado, e que pararam por um motivo ou outro, agora não há nenhum. Como achei que havia uma brecha no mercado, e a gráfica do nosso grupo estava ociosa, fiz a proposta ao Fernando. Expliquei que o novo jornal não faria parte do grupo da Gazeta, seria uma iniciativa à parte.
VEJA – O que o presidente achou da ideia? Pedro Collor – Ele me disse o seguinte: “Não, não leve a ideia do jornal adiante porque eu vou montar uma rede de comunicação paralela em Alagoas com o Paulo César, e essa rede terá um jornal”. O Fernando falou que o jornal iria se chamar Tribuna de Alagoas. Disse também que a Tribuna seria impressa na imprensa oficial do Estado. Então perguntei por que ele não imprimia esse novo jornal na gráfica do nosso grupo. O Fernando respondeu: “Não”.
VEJA – A rede de comunicação seria de PC Farias? Pedro Collor – O PC seria o testa-de-ferro. Era uma empresa de testa-de-ferro, que teria o jornal e de doze a catorze emissoras de rádio.
VEJA – Qual foi a sua reação a essa rede? Pedro Collor – Raciocinei que, se o novo jornal ia ser impresso na imprensa oficial, seria em preto-e-branco, um jornal para ocupar espaço, evitar que grupos adversários na política entrassem na área. Dizia-se que não era um jornal para concorrer efetivamente com a Gazeta e, de repente, compraram um maquinário exatamente igual ao nosso, e me tomam funcionários pagando três ou quatro vezes mais do que eles ganham conosco. Então é um negócio para destruir o nosso, certo? Foi aí que a coisa começou. Houve também um problema corri a instalação de rádios. Na mesma reunião em que falei do novo jornal com o Fernando, eu disse que precisávamos também de duas rádios, FMs pequenas ou médias, na periferia de Maceió.
VEJA – Como o senhor conseguiria essas rádios? Pedro Collor – Pelas vias normais. Essas duas rádios já existiam no plano traçado pelo governo.
VEJA – E obteve as rádios? Pedro Collor – Obtive duas negativas. Simultaneamente, eles mexeram no plano, a ponto de contemplar todas as cidades que até então não estavam com rádios FM.
VEJA – Isso foi feito por quem? Pedro Collor – Por solicitação do deputado Augusto Farias, irmão do PC. Vejam bem: converso com ele tentando montar um jornal, falo das rádios que podem entrar. Negam para mim. E viabilizam para eles umas doze rádios que nem estavam cogitadas no plano.
VEJA – O senhor tentou chegar a um acordo sobre o jornal antes de começar a recolher documentos sobre os negócios de PC? Pedro Collor – Houve tentativas que não deram certo, porque a intenção não era montar um jornal assim ou assado, mas montar um jornal para destruir o nosso. Em fevereiro passado, saiu aquela reportagem do Eduardo Oinegue, em VEJA, sobre o assunto, em que eu chamava o PC de lepra ambulante. Eu estive então com o Cláudio Vieira (secretário particular de Collor, afastado do governo na reforma ministerial). O Cláudio me disse que há cinco dias o Fernando não despachava com ele, nem com o general Agenor, nem com o Marcos Coimbra. O Cláudio Vieira me contou que no dia anterior o Fernando havia se reunido, durante uma hora e meia. com o procurador-geral da República, Aristides Junqueira. Segundo o Cláudio me contou, o procurador disse ao Fernando que, se eu não desmentisse a reportagem de VEJA, o Junqueira iria instaurar um inquérito, e que isso derrubaria o governo. Eu respondi ao Cláudio que não tinha intenção de derrubar o governo de ninguém, que minha intenção era me preservar e alertar que o PC era uma bomba atômica ambulante, independentemente de jornal ou coisa que o valha. Esclareci que não poderia desmentir a reportagem pura e simplesmente, e pedi um compromisso firme de que o PC não iria tentar acabar com nossa organização. Sugeri que a Gazeta arrendasse a gráfica da Tribuna, pagasse, e nós imprimíssemos o jornal. Cheguei a conversar depois sobre essa proposta com o PC, e ele disse que adorou. Na hora de formalizar o acordo, sumiu. O Cláudio Vieira então me disse que o Paulo César estava com outras idéias e ia me procurar. Estou esperando até hoje.
VEJA – Por que o presidente Collor, se é ele que está por trás dessa rede de comunicações montada pelo PC, estaria interessado em prejudicar e até destruir os negócios da família? Pedro Collor – É uma questão que só Freud explica. (Tereza, mulher de Pedro Collor. pede para falar) Tereza – O Fernando Collor faz isso porque o Pedro não se submete a ele. O Fernando viu que não podia tirar o Pedro da administração dos negócios da família. Foi o Pedro quem geriu, e bem, as empresas durante esses anos todos. O Fernando quer o meio de comunicação e instrumento político, enquanto o Pedro tem a responsabilidade de administrá-lo como empresa. É daí que nasceu a divergência.
VEJA – O senhor acha mesmo que o PC é um testa-de-ferro do presidente nos negócios? Pedro Collor – Eu não acho, eu afirmo categoricamente que sim. O Paulo César é a pessoa que faz os negócios de comum acordo com o Fernando. Não sei exatamente a finalidade dos negócios, mas deve ser para sustentar campanhas ou manter o status quo
VEJA – De quem é o apartamento de Paris onde funciona a S.CI . de Guy des Longchamps e Ironildes Teixeira? Pedro Collor – É dele.
VEJA – Dele, quem? Pedro Collor – Dele. Do Fernando, claro.
VEJA – O senhor não tem dúvidas? Pedro Collor – Não tenho a menor dúvida.
VEJA – De quem é o jatinho Morcego Negro? Pedro Collor – Acho que é do Paulo César, mas não posso afirmar.
VEJA – O presidente Collor sairá mais rico do governo? Pedro Collor – Em patrimônio pessoal, sai. Sem dúvida nenhuma.
VEJA – O presidente está envolvido na sua denúncia de que o Paulo César recebeu unta comissão de 22% sobre os negócios entre a empresa IBF e o governo para a implantação da raspadinha federal? Pedro Collor – O Fernando não entra no varejo da coisa. Ele apenas orienta o negócio.
VEJA – O que acontece com o dinheiro? Pedro Collor – O Paulo César diz para todo mundo que 7O% é do Fernando e 3O% é dele.
VEJA – O senhor acredita nisso? Pedro Collor – Eu não sei se a porcentagem exata é essa.
VEJA – Mas o senhor sustenta que existe uma sociedade entre os dois? Pedro Collor – Tenho certeza de que é assim. Existe urna simbiose aí. Eu não estendo as acusações ao Fernando diretamente. Uma coisa é você concordar. Outra coisa é operacionalizar. São duas coisas distintas. Operacionalizar, no sentido do dolo, no sentido do ilícito, isso é muito do temperamento do PC. Ele tem prazer nisso. O Fernando é incapaz de sentar em uma mesa e dizer assim: “O negócio é o seguinte: preciso de uma grana para a minha campanha. Me ajuda”. Pode estar nu e sem sapato que não pede ajuda. Já o PC toma. Deixa você nu se for possível.
VEJA – O senhor já ouviu do Paulo César que ele tem essa associação com o seu irmão? Pedro Collor – Sim, já ouvi dele.
VEJA – E do presidente? Pedro Collor – Não, do Fernando, não.
VEJA – O PC é uma pessoa digna de crédito? Pedro Collor – Se ele foi o tesoureiro de duas campanhas do Fernando, se age com age publicamente, se ele mesmo fala isso, eu só posso concluir que é verdade.
VEJA – Qual foi a última vez em que o senhor e o presidente conversaram sobre as atividades de PC Farias? Pedro Collor – Em janeiro deste ano. Eu tinha acabado de chegar do exterior e o Fernando me chamou para almoçar. Foi uma conversa afável, embora o Fernando, tenha se mostrado cuidadoso ao mencionar o nome do PC. Pisava em ovos. Eu reclamei da maneira como o PC vinha tentando destruir o nosso jornal em Alagoas, chamando nossos funcionários. Foi uma conversa sobre os problemas com o jornal.
VEJA – O senhor mencionou as denúncias de corrupção sobre PC? Pedro Collor – Com o Fernando, exatamente, não. Falei “n” vezes com os meus irmãos Leopoldo e Leda, com o Cláudio Vieira e o Marcos Coimbra.
VEJA – Por que nunca falou diretamente com o presidente? Pedro Collor – Eu sentia que, se eu falasse, ele iria ter uma explosão violentíssima. O Fernando não gosta de escutar críticas.
VEJA – Por que o senhor passou a envolver o presidente Collor nas suas denúncias contra o PC? Pedro Collor – Eu comecei a receber ameaças de morte dos irmãos do PC através de interlocutores comuns. Cheguei a falar com o Cláudio Vieira sobre tudo o que estava acontecendo. Concluí que o PC não estava agindo por conta própria. É o estilo típico do Fernando usar instrumentos. Ele não ataca de frente.
VEJA – O senhor não acredita que exista uma vontade política real do presidente em investigar as atividades de PC Farias. Afinal, a Receita Federal foi acionada para vasculhar o imposto de renda de PC? Pedro Collor – Não acredito nisso. Acho que a investigação ia ser empurrada com a barriga e seria apenas retórica.
VEJA – Qual a diferença entre o PC Farias e o Pedro Paulo Leoni Ramos, o PP? Ou entre o PC e o Cláudio Vieira? Ou entre eles e o Claudio Humberto? Pedro Collor – São os métodos. O PC é o erudito do roubo, da corrupção, da chantagem. Os outros têm uma aspiração, mas também têm um teto. O PC não tem limites.
VEJA – Mas o PC vai até onde? Pedro Collor – Ele é capaz de matar para extorquir.
VEJA – O senhor apresentou o PC Farias ao Fernando Collor. Quando começou a afastar-se dele? Por quê? Pedro Collor – Na época eu não o via como hoje. Ele era um sujeito enrolado com negócios, mas apenas isso. Não pagava as contas. Mas era um sujeito jeitoso, muito insinuante, muito simpático. Ele é muito envolvente em negócios. Comecei a me afastar quando o Fernando se tornou governador do Estado.
VEJA – O senhor tem alguma coisa contra o cidadão Fernando Collor, seu irmão? Pedro Collor – Pessoalmente, o Fernando é um sujeito extremamente talentoso, carismático, magnético e, em alguns momentos, é uma criatura fantástica, cheia de energia. Ao mesmo tempo, é rancoroso, vingativo e adora manipular as pessoas. Ele gosta das pessoas subservientes.
VEJA – O senhor chegou a falar que o seu irmão Fernando tentou se insinuar junto a sua mulher, Tereza. Como foi isso? Pedro Collor – Não foi exatamente isso. Eu e Tereza tínhamos passado por uma crise conjugal, o que acontece muitas vezes entre casais. Isso foi em 1987, quando Fernando era governador de Alagoas. Nesta ocasião, eu estava no Canadá. Tive a informação de que ele chamou Tereza para conversar no palácio. Conversaram durante um bom tempo. Ali era o lugar onde ele tinha intercurso, com algumas moças. Houve fofocas sobre isso e eu fui informado. Tereza foi depois para Paris e Fernando me chamou para dizer que havia conversado com ela e que eu me preparasse porque ela iria se separar de mim. Disse que eu havia pisado muito na bola e que me preparasse. Em paralelo, eu sabia que ele estava telefonando para ela em Paris, naturalmente utilizando a fragilidade da relação para telefonar e talvez até fazer a cabeça dela. Eu consegui as contas telefônicas do palácio que comprovaram essas ligações.
VEJA – Houve uma tentativa explícita de sedução? Pedro Collor – Eu acredito que implicitamente ele tentava mapear a situação, diante de uma pessoa fragilizada emocionalmente pela perspectiva de uma ruptura de casamento. Uma voz simpática. um ombro amigo…
VEJA – Tereza, houve uma tentativa de sedução? Pedro Collor – Não, ele tem esse jeito de falar que é meio fraternal, meio conselheiro.
VEJA – Apesar de sua suspeita de paquera por que continuou freqüentando seu irmão? Por que esteve na posse dele como presidente? Pedro Collor – Porque não se deve sair arrebentando portas. Tive controle emocional.
VEJA – Pelo que se deduz, o senhor coloca esse episódio como um entre vários através dos quais seu irmão tenta atingi-lo. É isso? Pedro Collor – O que ele quer é me ver distante do comando administrativo das empresas que temos. Para colocar uma pessoa dele lá dentro, por uma questão política.
VEJA – O senhor nomeou alguém para o governo federal? Pedro Collor – Nem para a prefeitura de Maceió nem para o governo de Alagoas nem para o governo federal.
VEJA- Por quê? Pedro Collor – Não é do meu feitio.
VEJA – O que o senhor acha das nomeações do Leopoldo (irmão mais velho de Collor)? Pedro Collor – Eu não conheço as nomeações do Leopoldo. Não converso sobre esse assunto com ele.
VEJA – O senhor já admitiu que consumiu drogas na juventude. Como foi isso? Pedro Collor – Quando eu era jovem, era uma coisa que estava na moda, lá por 1968,1969,197O.
VEJA – Em 1968, o senhor estava com 16 anos de idade. Pedro Collor – Mas é isso.
VEJA – Que tipo de droga? Pedro Collor – Cocaína.
VEJA – Seu irmão Fernando também? Pedro Collor – Sim.
VEJA – Foi ele que o induziu a experimentar cocaína? Pedro Collor – Não é que induziu, nem apresentou nem nada. As pessoas, por serem de faixa etária um pouco acima, naturalmente têm mais acesso a esse tipo de coisa. Foi assim que aconteceu.
VEJA – LSD também tinha? Pedro Collor – Teve também LSD, umas duas ou três vezes.
VEJA – O senhor largou isso quando? Pedro Collor – Logo depois. Senti que me fazia mal. Emagreci muito.
VEJA – Quanto ao presidente, o senhor tem notícia de que ele tenha consumido drogas após essa época na Juventude? Pedro Collor – Não, depois dessa época. não.
VEJA – O senhor já ouviu falar em Allan Mishai Fauru? Pedro Collor – Conheço desde menino do Rio. Um belo dia, o Fernando já governador, me parece, o Allan o convidou para ser padrinho do casamento dele. Depois ele se mudou para Maceió, anos mais tarde, e montou um boteco. Soube depois que ele tinha ligações com traficantes, vendia, repassava. Mas ele não tem qualquer relação com o Fernando, absolutamente.
VEJA – O senhor não acha que as instituições brasileiras correm algum risco com assuas denúncias? Pedro Collor – Acho que nossas instituições aguentam o tranco. Se eu começar a entrar muito em considerações a respeito do governo, eu não dou um passo. Tenho de fazer aquilo que acho correto. Que os outros façam as partes deles.
VEJA – O senhor acredita que, com as últimas mudanças no ministério, o PC é menos influente no governo? Pedro Collor – Sim. Ele perdeu toda ou quase toda a sustentação.
A cantora
da Alemanha Oriental usa a força e as vibrações do rock para espalhar pelo
mundo sua música exótica e forte
Por
Roberto Garcia
Bonita como uma atriz de cinema,
explosiva como uma estrela de ópera, a cantora Nina Hagen, aos 29 anos, é a
última grande diva que surgiu em Berlim. Com suas canções de letras irônicas,
possantes efeitos vocais e inesperados arranjos, ela já vendeu mais de 1 milhão
de discos na Alemanha Ocidental e conseguiu vender 2 milhões de exemplares de
um único LP, Angstlos (Sem Medo),
cantado em alemão, nos Estados Unidos. Quando Nina surgiu, em 1976, engatinhava
na Europa o movimento punk. Ela aproveitou o visual dos punks, usou a sua
sólida formação de canto de anos em academias alemãs, fez uma mistura básica de
rock, jazz, soul americano e até sons dançantes de new wave. Resultado:
transformou-se numa artista original, com surpresas a cada disco e a cada novo
show, tornando-se uma das presenças mais exóticas dos palcos mundiais.
Mas, sobretudo, Nina Hagen é a primeira
cantora de rock nascida e criada em um país comunista a se tornar estrelíssima
no mundo ocidental. Filha de uma atriz, Eva Maria Hagen, e do escritor Hans
Hagen, logo separados, ela acompanhou na adolescência a turbulenta ligação de
sua mãe com o astro da canção de protesto da Alemanha Oriental, Wolf Biermann.
Foi para acompanhar seu padastro, expulso para Berlim Ocidental, que Nina
renunciou à sua cidadania, passou também para o outro lado do muro e então, em
1976, conseguiu gravar seu primeiro disco pela CBS.
Nina não tem preconceitos quanto a
repertório. Relembra antigas cantoras como a alemã Zarah Leander ou a francesa
Édith Piaf, interpreta músicas de David Bowie e tem um formidável arsenal de
suas próprias composições. Atualmente ela mora em Los Angeles, só com a filha Cosma Shiva Hagen, de 3 anos e meio – fruto de sua rápida união com o holandês
Ferdinand Karmelk, guitarrista do conjunto que costumava acompanhá-la em suas
apresentações. Nina explica com a maior naturalidade ter escolhido o nome da
filha depois que viu um disco voador. Também conta que após o nascimento da
menina ela sentiu necessidade de fazer uma limpeza espiritual, raspou o cabelo
multicolorido e fez vários videoteipes vestida de homem. Aos poucos, porém, a
cantora voltou ao seu exótico normal.
Cosma Shiva e uma babá búlgara,
naturalizada austríaca, também acompanham Nina Hagen em todas as suas viagens,
inclusive ao Brasil, e assistem a todos os shows dos camarins. Logo após o Rock
in Rio[1],
aliás, Nina também virá a São Paulo para duas apresentações. Nos dias 22 e 23,
ela se apresentará numa danceteria em forma de caravela – a Latitude 3001 –
para um público de 600 pessoas (com ingressos a 100 000 e 120 000 cruzeiros)[2],
antes de seguir para mais duas noites em Buenos Aires. Nina Hagen viaja com uma
equipe de dezesseis pessoas, exige comida vegetariana e faz questão de não ter
bebidas alcoólicas no seu camarim. Foi em Los Angeles, entre músicos e técnicos
de efeitos especiais que preparavam o que trazer na excursão ao Brasil, que
falou a VEJA:
Eu quero que me olhem
VEJA
– Por que você usa tranças de plástico verde na cabeça?
NINA
– São um
símbolo de esperança. E são longas simplesmente porque também é grande minha
esperança de que não morreremos numa guerra nuclear, de que nossos animais,
peixes e pássaros não vão morrer asfixiados por enormes nuvens de poluição. Mas
veja que não tenho só o verde. A parte de trás de meus cabelos é pintada de
vermelho-púrpura, cor muito espiritual. Sempre achei muita graça em ter uma
retaguarda espiritual. E combina, fica bonito.
VEJA
– A calça colante, esta sainha de gaze, os sapatos de salto alto,
tudo vermelho, são para chamar a atenção?
NINA
– Alguma
coisa de errado nisso? Os homens das cavernas pintavam-se com exuberância. Os
papas e cardeais usam cores fortes para se diferenciar dos outros e chamar a
atenção. Os presidentes das nações usam ternos caros, andam cercados de
bandeiras e têm até bandinhas para saudá-los. Não é para mostrar um status
diferente, para atrair atenções que fazem isso? Será que só eles podem e eu
não?
VEJA
– E por que você quer chamar a atenção?
NINA
– Eu tenho
algo a dar. Quero que me olhem, que ouçam o que eu tenho a dizer, que entrem em
contato comigo, tanto pessoalmente quanto por intermédio de minha música e de
minha arte.
VEJA
– Qual a sua mensagem para as pessoas?
NINA
– Entre os
cantores de rock, apenas eu falo diariamente com Jesus. Depois conto essas
conversas em minhas músicas. Falo sobre discos voadores e habitantes de outros
mundos que nos vêm ensinar a viver de mãos dadas e em paz. Cada música minha é
diferente, como cada voz, cada dia e cada existência.
Também sei cantar de
modo carinhoso
VEJA
– Se a sua mensagem é o resultado de conversas com Deus, por que
você não faz música religiosa?
NINA
– Minha
música é uma ode a Deus. Meu peito é uma caixa de ressonância para a nova
igreja do amor. A igreja tradicional desencontrou-se da vida. Queimava
feiticeiras antes, benze canhões agora. Acho que precisamos de algo diferente,
de mais luz e compreensão. Escolhi o rock como veículo para difundir minha
mensagem. Se for preciso dizer isso gritando, no som rápido e agressivo do
rock, vou fazê-lo. Mas também sei soprar docemente nos ouvidos das pessoas e
cantar de forma suave e carinhosa.
VEJA
– O rock é um bom veículo para essa mensagem?
NINA
– Ele é
irrequieto, clama por atenção, atrai, induz a cantar e dançar, leva as pessoas
ao êxtase. É uma sensação deliciosa. Deve ser parecido com o que se sente no
sétimo céu.
VEJA
– O que os discos voadores têm a ver com tudo isso?
NINA
– Eu vi um,
da janela do meu quarto, na praia de Malibu, em 1981, quando estava grávida da
minha filha Cosma. Vi seus tripulantes, embora não tenha falado com eles, vi os
raios de luz de todas as cores que ele emitia. Fiquei maravilhada e paralisada.
As cores, fluorescentes, eram muito fortes, moviam-se em volta do disco,
cor-de-rosa, turquesa e amarelo. Esse disco voador me deu uma energia nova.
Descrevi essa visão numa de minhas músicas[3].
Ela fez um grande sucesso.
VEJA
– Já encontrou pessoas que gostaram da música mas duvidaram da
visão?
NINA
– Muitas. Mas
se ouvem a música já é um bom começo. Eu também já duvidei de muitas coisas nas
quais passei a acreditar depois.
VEJA
– Dê um exemplo.
NINA
– Quando
menina vivia na Alemanha Oriental e recebi uma educação atéia. Fui membro da
Juventude Comunista, como uma boa alemãzinha. Mas à medida que crescia fui
mudando e passei a crer piamente em Deus.
VEJA
– Você saiu da Alemanha Oriental porque não a deixavam cantar rock
lá?
NINA
– Pelo
contrário. O governo alemão oriental aceitou o rock há muito tempo. Chega até a
patrocinar bandas de rock. Há conjuntos de rock ocidentais que vão cantar lá e
conjuntos de lá que vão cantar em países capitalistas. Por muito tempo o
governo me pagou para cantar em festivais da juventude. Mas é claro que nem
sempre foi assim.
VEJA
– Quando mudou?
NINA
– No tempo de
Stálin, os partidos comunistas tinham maior capacidade para impor suas
diretrizes ao povo. Naquela época eles podiam dizer: “Não vista blue-jeans nem
mini-saias, não use cosméticos, não ouça rock-and-roll”. Às vezes toleravam um
pouco, mas depois reprimiam, considerando o ritmo anti-social, alheio às
tradições culturais comunistas. Essas resistências foram se diluindo porque o
povo gostava de rock. Houve um tempo em que o povo, principalmente os jovens,
não ia a festivais se não houvesse alguma banda de rock para animar o ambiente.
Os governantes acabaram descobrindo que a única forma de conseguir gente para
ouvir seus discursos longos e soporíferos era contratando roqueiros.
VEJA
– Por que, então, deixou a Alemanha Oriental?
NINA
– Por causa
da Polícia da Cultura, uma espécie de fascismo socialista, com pessoas que
ganham regiamente para impedir compositores de fazer letras que desviem demais
das receitas do regime. Algum dia isso vai passar e esses governos vão sentir
vergonha por terem proibido músicas que falavam em liberdade ou contavam a vida
de um alcoólatra ou ainda abordavam temas religiosos de uma forma respeitosa.
Por enquanto eles só aceitaram o ritmo do rock, mas a letra tem que ser
enquadrada em seus padrões. Não faz mal. Todo mundo liga as estações de rádio
do Ocidente e ouve as suas músicas.
Há governos parecidos
com meninos arteiros
VEJA
– Basta sintonizar as rádios do outro lado?
NINA
– Às vezes o
governo da Alemanha Oriental interfere nas transmissões do exterior para
impedir que a população ouça versões diferentes da verdade que eles
oficializaram. Eu também ficava muito irritada quando me impediam de ouvir
minhas músicas preferidas, que nada tinham a ver com política.
VEJA
– Como se explica esse tipo de ação do governo comunista?
NINA
– É um bando
de gente chata, insegura, temerosa de que, se a população tiver acesso a
noticiário ou mesmo a propaganda vinda de fora, vai perder a capacidade de
raciocinar. Trata a população como se fossem todos criancinhas. Mas são os
governos comunistas que demonstram, por alguns de seus gestos, que ainda não
saíram da infância.
VEJA
– Que gestos?
NINA
– Basta
contar o que fizeram com uma das pessoas que mais respeito na vida, Wolf
Biermann, meu padrasto. Ele escrevia músicas muito críticas, que eram
rigorosamente censuradas. Num determinado momento proibiram-no de cantar em
público. Mesmo assim, todos os anos ele lançava um disco com suas canções na
Alemanha Ocidental, sempre com muito sucesso de vendas. Com o que ganhava, ajudava
gente do mundo das artes em dificuldades com a polícia. Certa vez, para sua
surpresa, ele recebeu autorização para cantar na Alemanha Ocidental. No dia em
que atravessou a fronteira, o governo anunciou que o seu passaporte estava
cancelado e ele não poderia mais voltar à Alemanha Oriental. Veja só, aquele
governo enorme não teve coragem para expulsá-lo do país. Valeu-se de uma cilada
para livrar-se dele. Fazem caras sérias, posudas, de gente crescida, e
comportam-se como meninos arteiros. Essa foi a gota d’água, para mim.
VEJA
– O que fez, então?
NINA
– A família
de Biermann e seus amigos encaminharam um abaixo-assinado pedindo que o governo
autorizasse a volta dele. As pressões sobre os signatários do documento foram
tantas que, um a um, todos foram pedindo a retirada de suas assinaturas. No fim
ficamos eu e minha mãe. Decidi então ir ao Ministério da Cultura e disse que ou
autorizavam a volta de meu padrasto ou me deixavam sair também. Do contrário,
eu passaria o resto da minha vida escrevendo e cantando sobre o meu drama. Foi
o que bastou para que me dessem um visto num período recorde de quatro dias.
Cresci cercada pelo
muro de Berlim
VEJA
– A mudança fez alguma diferença em sua vida?
NINA
– Eu havia
crescido cercada pelo muro de Berlim. Sempre soube que havia um mundo
diferente, e mais livre, do outro lado. Queria conhecer esse mundo e não apenas
aquela parte confinada pela muralha. Queria ser cantora, ser famosa, fazer
arte, teatro, rock, ópera, tudo. Tinha certeza de que um dia isso iria
acontecer e não estava com muita pressa. Enquanto esperava, fiz tudo o que
podia para aprender, assistia de reuniões da Juventude Comunista a peças de
Bertolt Brecht, que considero magistrais. Brecht é um dos meus grandes gurus. Desde
que vim para o Ocidente não parei mais de trabalhar e descobri esse mundo com
que eu tanto havia sonhado. É claro que minha música é influenciada pelas
experiências novas que fui adquirindo.
VEJA
– O seu rock mudou muito no Ocidente?
NINA
– Acho que
sim, embora eu tenha a impressão de que ele está cada vez mais comportado. No
fundo quero me comunicar, fazer com que as pessoas encontrem coisas
interessantes em suas vidas. Com o tempo deixei de ser uma cantora e passei a
ser uma santa do rock. Acho que meus espetáculos provocam uma reação tão forte
na platéia porque não digo mentiras, nem para mim nem para os que me vão ouvir.
VEJA
– Foi difícil para uma mulher como você encontrar um lugar no mundo
do rock, predominantemente ocupado pelos homens?
NINA
– Não
acredito que tenha sido mais difícil para mim do que foi para Janis Joplin,
para Billie Holliday ou para Ella Fitzgerald entrarem no mundo dos blues e do
jazz. Acho que a chave para tudo nesta vida é o trabalho.
VEJA
– Você trabalha muito?
NINA
– Depois de
tomar café com minha filha e levá-la para o jardim da infância eu passo o tempo
todo trabalhando. Ensaio horas a fio, sem parar. Sempre há músicas novas para
tentar ou um novo projeto – um disco, um vídeo, um filme. Nunca paro de compor
e sempre é preciso ajustar as músicas, ensaiá-las, gravá-las. Assim, quando vou
fazer um disco novo, já tenho muitas músicas prontas.
VEJA
– Você costuma viajar muito?
NINA
– No ano
passado passei três meses cantando em teatros por toda a Europa e quando chegou
o verão comecei a fazer espetáculos ao ar livre. Depois da Europa iniciei outra
excursão pelos Estados Unidos. Nesse período a vida é show numa cidade, viagem,
show em outra cidade, ensaios, mais viagem. No fim das excursões tenho vontade
de ficar na cama por várias semanas, descansando.
VEJA
– Quanto tempo você gasta para pintar o rosto ou planejar a sua
roupa, antes de um show?
NINA
– Essa é uma
das partes mais relaxantes de todo o dia. Não levo muito tempo. Às vezes 10
minutos, às vezes 1 hora. Adoro me pintar, mas não planejo nada. Acho que isso
nasceu comigo, é parte da minha arte, uma forma natural de me expressar.
VEJA
– De que tipo de música você gosta mais?
NINA
– De tudo. De
ópera a rock e tudo o que está entre esses dois extremos. Atualmente meus
favoritos são David Bowie, Iggy Pop, Hanoi Rocks e Mahalia Jackson.
VEJA
– E da sua vida, gosta?
NINA
– Não pode
haver vida melhor. Estou ajudando a mudar o mundo, a torná-lo melhor. Não posso
fazer as superpotências abandonarem suas armas atômicas, mas posso dizer o que
penso delas em minhas canções. Posso falar no amor e sentir o calor que minhas
vibrações causam na audiência. Não é por outra razão que meu último disco se
chama In Ecstasy.
VEJA
– Ainda há muita droga no rock?
NINA
– Acho que há
muita droga no mundo. Há alcoólatras e toxicômanos por todos os lados. Alguns estão
nos hospitais, outros vão para instituições de saúde mental, muitos morrem nas
ruas. Basta abrir os olhos e perceber que há muita droga nas empresas, nas
escolas, nos bancos. Quantas pessoas exigem que servem chefes exigentes, que
precisam responder a expectativas acima de suas possibilidades, que trabalham
mais do que devem? É para se libertar dessa carga excessiva que se refugiam nas
drogas ou no álcool. Ligar as drogas apenas ao mundo das artes é um erro. E não
esqueçamos também os tranqüilizantes, as pílulas para dormir, que criam uma
dependência grande quanto as drogas ou o álcool.
Quem cuida do dinheiro
é minha empresária
VEJA
– Você bebe?
NINA
– Só
champanhe, nas grandes comemorações, e às vezes passo da conta. Mas é errando
que se aprende, não é?
VEJA
– Por que você passou a cantar em inglês?
NINA
– Porque
grande parte da minha audiência fala inglês. Mas meus discos sempre têm uma
versão inglesa e outra alemã. Na França sempre procuro cantar em francês e de
vez em quando ataco até em russo. Em todos os países a que vou eu quero ser
compreendida. Não se surpreenda se eu sair do Brasil cantando um rock em
português.
VEJA
– Como você recebeu o convite para cantar no Brasil?
NINA
– Amei! Quero
cantar para o maior número possível e pessoas, quero alcançar todo mundo, quero
ser conhecida, amada e desejada pelo mundo inteiro. Quero que minhas músicas
sejam parte da vida dos brasileiros.
VEJA
– Mas você certamente ganharia mais dinheiro cantando em outros
países, não?
NINA
– O dinheiro não
importa, dele cuida minha empresária. Estou mais interessada em arte, música,
amor. Canto de graça nas prisões, nos parques para os jovens de Berlim e
Copenhague. Há lugares onde canto de graça com meus amigos e sou muito bem
tratada, com muito champanhe.
[1] Nina Hagen se apresentou no
dia 13 de janeiro de 1985, no primeiro Rock in Rio, ainda na Cidade do Rock, para
110 mil pessoas. Naquela noite se apresentaram, pela ordem: Os Paralamas do
Sucesso, Lulu Santos, Blitz, The Go-Go´s, Nina Hagen e Rod Stewart. Nina Hagen
também se apresentou no dia 20 de janeiro de 1985, para 200 mil pessoas. Pela
ordem, se apresentaram naquela noite: Barão Vermelho, Gilberto Gil, Blitz, Nina
Hagen, The B-52’s e Yes.
À maneira de Maquiavel, o pensador florentino, ACM
diz que, entre ser respeitado e ser querido, fica com a primeira opção
Thaís Oyama
"Vou voltar com mais força do que tinha antes, porque os meus adversários fracassarão"
Só
há um assunto do qual o senador Antonio Carlos Magalhães entende mais do que
política, e esse assunto é poder. Seja por usufruir dele há mais de meio
século, seja por ter convivido com quem o teve em abundância, ACM lida com
naturalidade com o tema – e o aprecia também. "Tenho gosto pelo exercício
do mando", diz. Nas últimas eleições, o mando do senador sofreu um baque
histórico. Além de assistir a seu grupo perder a hegemonia de dezesseis anos na
Bahia, viu-se, pela primeira vez, cercado de adversários por todos os lados: na
prefeitura, no governo estadual, no governo federal. Próximo de completar 80
anos de idade, ele admite a derrota, mas não o fim do jogo. "Voltarei com
mais força do que tinha antes", afirma. ACM, que se orgulha de ser "a
única sigla que pegou no Brasil, além de JK", recebeu VEJA em sua
cobertura em Salvador para uma conversa em que falou de política, presidentes –
e, claro, poder.
Veja –Em
2004, seu grupo já havia perdido a prefeitura de Salvador e, nas últimas
eleições, foi derrotado também no governo estadual. Em 2007, o senhor fará 80
anos. Acha que ainda pode recuperar sua antiga força política?
ACM – Tenho
certeza. Vou voltar com mais força do que tinha antes, porque os meus
adversários fracassarão. E fracassarão porque sabem fazer campanha mas não
sabem governar. De maneira que minha volta não será fruto do meu trabalho, e
sim fruto do erro deles. Como já disse, derrotados não falam, derrotados
esperam. Quantas vezes já disseram que o carlismo havia morrido?
Veja –Algumas.
ACM – Em
1986, quando perdi o governo para Waldir Pires; em 1998, quando o meu filho (deputado
Luís Eduardo Magalhães)morreu; em 2001, quando renunciei; em 2004, quando
João Henrique ganhou a prefeitura. Hoje, se você perguntar sobre João Henrique
em Salvador, ninguém dirá uma palavra simpática. E digo mais: não é justo dizer
que fui derrotado no governo estadual. O próprio Paulo Souto (atual
governador da Bahia, candidato de ACM à reeleição e derrotado no primeiro turno
pelo petista Jaques Wagner) disse à imprensa: "Quem perdeu fui
eu. Até porque o ACM se meteu muito pouco ou quase nada no meu governo".
Veja –Não
foi o senhor que mandou que ele desse essa declaração?
ACM – Não,
eu não tenho conversado muito com ele. Só vou lá para dar carinho a Paulo
Souto, não para chateá-lo. Ele mesmo achou que tinha a obrigação de fazer isso.
Mas que eu estava com vontade de dizer isso, estava.
Veja –O
senhor conheceu dezesseis presidentes da República. Conviveu com diversos deles
e foi íntimo de alguns. Quem, dentre todos, considera o melhor?
ACM – Juscelino,
de quem fui mais próximo (ACM prepara um livro sobre o período em que
ele, jovem deputado udenista, se tornou amigo do presidente bossa-nova).
Juscelino foi o melhor porque tinha gosto pela administração e porque tinha o
dom de não guardar mágoas de ninguém, mesmo daqueles que mais o injuriavam,
mais o atacavam.
Veja –Essa
é uma qualidade positiva num político?
ACM – Para
aqueles que conseguem, sem dúvida é uma boa qualidade. Evidentemente, não é o
meu caso.
Veja –O
senhor é admirador de Napoleão Bonaparte e leu quase todas as suas biografias.
Que características admira nele?
ACM – O
gosto pelo poder é a primeira. Também admiro sua visão de mundo – para alguns,
imperialista. E o fato de que ele sabia mandar. Saber mandar é uma coisa
vocacional. Se você sabe mandar, vai poder mandar em tudo: da sua casa até o
órgão mais importante da República. Se você não sabe mandar, pode assumir
grandes postos e não adiantará nada – acontece o que está acontecendo hoje no
Brasil. Esse problema do controle aéreo, por exemplo: quando isso ocorreu nos
Estados Unidos, o presidente (Ronald) Reagan resolveu em 24
horas. Quem está aí não sabe mandar.
Veja –O
senhor se refere ao presidente Lula ou ao ministro da Defesa?
ACM – O
presidente é o maior responsável, mas o ministro da Defesa* não poderia estar
ali. Ele não conhece o assunto, fica sabendo das coisas por terceiros, e o
resultado é que acha que está tudo na maior normalidade. Um apagão aéreo! Isso
é normal? Se tivesse lá alguém de pulso, isso já teria terminado.
Veja –Dos
presidentes que o senhor conheceu, quem melhor sabia mandar?
ACM – O
presidente mais completo era Juscelino, mas comandava com suavidade. O mais
duro no mando, mas muito competente, era Geisel. A figura dele já impunha
autoridade. Nem por isso deixamos de ter algumas divergências, como no caso da
Light. Quatro ministros já haviam assinado a entrega da Light por uma bagatela,
um negócio que iria beneficiar umas vinte pessoas no Rio de Janeiro. Eu era
presidente da Eletrobrás e resisti. O Geisel chegou a se levantar e dizer:
"Você quer mandar? Sente na minha cadeira, então". Mais tarde, ele me
chamou para uma viagem a Santarém e disse: "Olha, vou lhe dar razão no
caso da Light. Mas, se você sair por aí contando vantagem, eu o demito".
Isso também é saber mandar.
Veja – Qual
dos presidentes não tinha essa vocação?
ACM – Figueiredo.
Figueiredo não sabia mandar. Quando tentava, não era obedecido. Havia uma forte
razão para isso: ele mandava muito errado. Seu fracasso como presidente acabou
apressando o fim do regime militar.
Veja –E
Lula?
ACM – Não
manda. Ele me disse certa feita que havia comprado um carro novo e o partido o
obrigou a vendê-lo. Noutra vez, a Erundina (ex-prefeita de São Paulo,
Luiza Erundina) o convidou para um espetáculo no Teatro Municipal e o
partido achou que ele não devia ir, porque era no Municipal – muito burguês.
Ele me disse isso numa conversa em 18 de dezembro de 1995, na casa de um amigo
comum, o doutor Márcio Thomaz Bastos. Agora, está tentando se livrar do petismo
criando o lulismo. Ele está tentando, não sei se vai conseguir. Sei que, se
conseguir, isso será prejudicial ao país. No momento em que se tenta fortalecer
os partidos, fazer uma reforma política, vem o lulismo? Isso é um retrocesso do
ponto de vista democrático.
Veja –Como
o senhor avalia os primeiros movimentos do presidente depois da reeleição?
ACM – O mal do Lula é que, em seu primeiro mandato, ele fez um
governo fraco com homens fracos. Tudo leva a crer que vai repetir esse erro. Se
você olhar os nomes que estão visitando o Palácio do Planalto nesses últimos
dias, verá que são tão fracos como os que estão aí. Todos com passado ruim.
Lula fez um ministério de derrotados. À exceção do doutor Márcio Thomaz Bastos
– que é a alma deste governo, porque, com a prática da advocacia criminal, o
salvou –, só tem a Dilma Rousseff. No governo Lula, a pessoa que sabe mandar é
Dilma Rousseff. Ela tem capacidade.
Veja –O
que o senhor acha da estratégia de Lula de aproximar-se dos governadores como
forma de driblar a oposição no Congresso?
ACM – É
um grave erro. Mesmo porque, de modo geral, os governadores não têm levado as
suas bancadas. No Senado, temos hoje uma maioria provável para determinadas
votações. Jamais o presidente Lula conseguirá uma reforma constitucional, que
exige 49 votos, se não for acertando conosco. Agora, o campo dessa conversa tem
de ser o Congresso, e não o Palácio do Planalto. O Congresso é para conversar.
O Palácio do Planalto é para cooptar.
Veja –O
pensador florentino Nicolau Maquiavel dizia que o governante deve ser antes
temido do que amado. O senhor concorda?
ACM – O
ideal é ter as duas coisas, mas, entre ser respeitado e ser querido, prefiro
ser respeitado. O amor é instável. Hoje você é querido, amanhã não é. Já o
respeito é permanente. É fruto da credibilidade que você adquire. O sujeito não
chega batendo em sua barriga. Agora, autoridade não significa autoritarismo. O
autoritarismo é coisa dos incompetentes, dos que querem aparecer pela força.
Veja –Mas
o senhor mesmo já destruiu gravadores de repórteres e agrediu fisicamente
adversários. Não foram manifestações de uma personalidade truculenta?
ACM – Os meus adversários me adjetivam assim, mas não sou. Eu lhe
digo sinceramente: há jornalistas de quem não gosto. Nunca me fizeram nada, mas
não gosto deles. Eu sei que não gostam de mim, por que vou gostar deles? Sou
muito intuitivo: olhando para você, sei o que você pensa de mim. Depois de
cinqüenta anos lidando com pessoas, isso não é nenhum dom sobrenatural.
Veja –Voltando
à questão da autoridade: que atitude é necessária para preservá-la?
ACM – Por exemplo: se você me faz uma pergunta altamente ofensiva,
fecho a cara para você e você não faz a segunda.
Veja –Entendi.
ACM – Não,
não estou falando isso para você. É um exemplo que não precisa servir para um
jornalista, pode ser para um deputado. O que não pode é você deixar passar de
um certo limite. Um limite que você adquiriu com o quê? Com seus três mandatos
de governador, não sei quantos de ministro, com cinqüenta anos de política, com
seus cabelos brancos, tudo isso.
Veja –O
senhor disse que tem "gosto pelo exercício do mando". Quais as boas
coisas que o poder proporciona?
ACM – O
poder tem de ser um instrumento para você realizar, para você servir à
coletividade. O poder pelo poder, pela satisfação pessoal, nunca dá certo. Os
que quiseram fazer isso fracassaram. (Fernando) Collor é um
exemplo.
Veja –Mas
o senhor preza os ritos do poder. Quando era presidente do Senado, fazia
questão de que seus assessores o aguardassem todos os dias na entrada do
Congresso, por exemplo.
ACM – Até
hoje é assim. Quando chego ao Senado, gosto que os meus auxiliares estejam me
esperando na porta. E que me levem à porta na hora de eu ir embora. Meu ritual
é completo. Eu disse uma vez a Luiz Viana Filho (seu antecessor no
primeiro mandato como governador da Bahia) que era muito chato passar
em revista as tropas. Ele me disse: "No início você acha chato, depois se
acostuma e depois sente falta".
Veja – Qual
foi o seu maior erro político?
ACM – Acho
que foi a troca de agressões com Jader Barbalho.
Veja –Por
quê?
ACM – Porque
resultou no meu afastamento do Congresso e no dele.
Veja –O
senhor costumava se aconselhar muito com o seu filho, Luís Eduardo. Desde a sua
morte, qual foi o momento em que mais sentiu falta desses conselhos?
ACM – Eu sinto a falta de Luís Eduardo todos os dias – diria até
que em todos os momentos. Mas dos seus conselhos, da sua ajuda, acho que senti
mais falta em 2000, 2001, quando tive aqueles problemas no Congresso.
Veja –O
senhor se refere à violação do painel de votação do Senado e à descoberta de
que adversários seus e uma amiga haviam sido grampeados? (Ambos os
episódios foram atribuídos a ACM).
ACM – Eu
não tive nada com o painel. Nada com o painel. Eles me puniram exclusivamente
porque não puni o (José Roberto)Arruda (então líder do
governo no Senado) e a dona Regina(Regina Borges, então funcionária
do Senado). Entendeu? A tese era essa: eu tinha de puni-los quando tomei
conhecimento do fato. E não puni porque achava que era muito pior tornar sem
efeito a votação do que consumá-la. A votação era uma vontade do Congresso e
era uma coisa justa.
Veja –Quanto
ao episódio dos grampos, o senhor também o considera uma injustiça?
ACM – Quando eu digo que não tive nada diretamente com o assunto,
as pessoas não acreditam por causa das coincidências que existiram. Mas o fato
é que não tive nada diretamente com isso. Agora, confesso que esse é um assunto
de que, em respeito às pessoas que estiveram envolvidas nele, eu não trato. Se
Luís Eduardo estivesse comigo naquele momento, eu não teria passado por nada
daquilo, tenho certeza. Ele próprio teria atuado em meu favor e resolvido os
assuntos, com certeza absoluta.
Veja –Existe
alguém que o senhor não perdoe?
ACM – Tenho
um caso apenas. É o de uma pessoa que afrontou a memória de minha filha (Ana
Lúcia, que se suicidou em 1986, aos 28 anos). Mas tenho como regra não
declarar o nome dos meus inimigos. Inimigo você deve esquecer. Se você o
esquecer, ele morre por si. Claro que nem sempre você consegue esquecer, mas,
na aparência, tanto quanto possível, deve ignorá-lo – o que não significa que
não deva destruí-lo no tempo certo.
Veja – O
senhor se considera vingativo?
ACM – Não.
Ao contrário do que dizem, não sou vingativo. Meus inimigos se destroem por si
próprios.
Veja –O
senhor tem medo de quê?
ACM – De
nada. De nada, nada, nada. Aquilo que o Schmidt (o poeta e editor
Augusto Frederico Schmidt) disse de Juscelino, podem dizer de mim
também: "Deus o poupou do sentimento do medo". Agora, uma coisa devo
dizer: os homens que têm juízo devem sempre temer o ódio das mulheres.
Veja –O
senhor já perdeu uma filha e um filho. Já adoeceu gravemente, já sofreu grandes
derrotas políticas e já teve de renunciar a um mandato sob a ameaça de tê-lo
cassado. Em todas as ocasiões, pensou-se que o senhor submergiria e isso não
aconteceu. O que lhe dá energia para voltar sempre?
ACM – A
vontade de demonstrar aos meus adversários que eles são bem mais fracos do que
eu. É isso que me move. Se não fossem os meus adversários, talvez eu já tivesse
deixado a vida pública. Eles são o melhor incentivo que tenho para continuar
lutando. Os inimigos nos fustigam, nos chateiam, mas, sem eles, não tem graça.