Discurso efetuado por ocasião da Reunião do Clube de Discussão Internacional Valdai, em 24 de outubro de 2014, em Sochi.
Colegas, senhoras e senhores, amigos, é um prazer recebê-los para a
reunião XI do Clube de Discussão Internacional Valdai.
Foi mencionado que o clube tem novos co-organizadores este ano. Elas
incluem as organizações não-governamentais russas, grupos de especialistas e as
melhores universidades. Foi, também, levantada a ideia de ampliar as discussões
para incluir não apenas as questões relacionadas com a própria Rússia, mas
também a política mundial e a economia.
A organização e o conteúdo vão reforçar a influência do clube como um
importante fórum de discussão e de especialistas. Ao mesmo tempo, espero que o
‘espírito de Valdai’ permaneça — essa atmosfera livre e aberta e com a chance
de expressar todos os tipos de opiniões muito diferentes e francas.
Deixe-me dizer a este respeito que eu também não vou desapontar vocês e
vou falar diretamente e com franqueza. Algumas das coisas que eu disser podem
parecer um pouco duras demais, mas se nós não falarmos diretamente e
honestamente sobre o que realmente pensamos, então não vale a pena nos
reunirmos desta forma. Seria melhor, neste caso, apenas manter os encontros
diplomáticos, onde ninguém diz nada de verdadeiro sentido e, recordando as
palavras de um diplomata famoso, você percebe que os diplomatas têm línguas,
mas não para falar a verdade. Ficamos juntos por outras razões. Nós nos
reunimos assim para falarmos francamente um com o outro. Precisamos ser diretos
e francos, hoje, não para trocarmos farpas, mas a fim de tentar chegar ao fundo
do que está realmente acontecendo no mundo, tentar entender por que o mundo
está se tornando menos seguro e mais imprevisível e por que os riscos estão
aumentando em todos os lugares à nossa volta. A discussão de hoje tomou lugar
sob o tema: Novas Regras ou um Jogo Sem Regras. Eu acho que essa fórmula
descreve com precisão o ponto de virada histórico a que chegamos hoje e a
escolha que todos nós enfrentamos. Naturalmente, não há nada de novo na idéia
de que o mundo está mudando muito rápido. Eu sei que isso é algo que vocês têm
comentado nas discussões de hoje. Certamente é difícil não notar as
transformações dramáticas na política mundial e na economia, na vida pública e
na indústria, nas tecnologias de informação e sociais.
Deixe-me perguntar-lhes agora e peço que me perdoem se eu acabar
repetindo o que alguns dos participantes da discussão já disseram. É
praticamente impossível evitar. Vocês já realizaram discussões detalhadas, mas
vou definir o meu ponto de vista. Ele vai coincidir com a opinião dos outros
participantes em alguns pontos e divergir em outros.
Ao analisar a situação de hoje, não esqueçamos as lições da história.
Primeiramente, as mudanças na ordem mundial — e o que estamos vendo hoje são
eventos nessa escala — têm geralmente sido acompanhadas, se não de uma guerra e
conflitos mundiais, por uma cadeia de intensos conflitos em nível local. Em
segundo lugar, a política global é, acima de tudo, sobre a liderança econômica,
questões de guerra e paz e a dimensão humanitária, incluindo os direitos
humanos.
O mundo está cheio de contradições hoje. Precisamos ser francos em
perguntar uns aos outros se temos uma rede de segurança confiável funcionando
direito. Infelizmente, não há nenhuma garantia e não há certeza de que o atual
sistema de segurança global e regional é capaz de nos proteger de convulsões.
Esse sistema tornou-se seriamente enfraquecido, fragmentado e deformado. As
organizações de cooperação internacional e regional políticas, econômicas e
culturais também estão passando por momentos difíceis.
Sim, muitos dos mecanismos que temos para garantir a ordem mundial foram
criados muito tempo atrás, inclusive e, sobretudo, no período imediatamente
após a Segunda Guerra Mundial. Deixe-me enfatizar que a solidez do sistema
criado naquela época não repousou apenas no equilíbrio de poder e os direitos
dos países vencedores, mas no fato de que "os pais fundadores" desse
sistema tiveram respeito um pelo outro, não tentaram colocar pressão sobre os
outros, mas procuraram chegar a acordos.
A principal coisa é que este sistema necessita se desenvolver, e apesar
de suas várias deficiências, precisa pelo menos ser capaz de manter os
problemas atuais do mundo dentro de certos limites e regular a intensidade da
concorrência natural entre os países.
É minha convicção de que não poderíamos tomar este mecanismo de freios e
contrapesos que construímos ao longo das últimas décadas, às vezes com tal
esforço e dificuldade, e simplesmente acabar com eles sem construir qualquer
coisa em seu lugar. Caso contrário, ficaríamos sem nenhum outro instrumento
além da força bruta.
O que precisávamos fazer era realizar uma reconstrução racional e
adaptá-la às novas realidades no sistema das relações internacionais.
Mas os Estados Unidos, tendo se declarado o vencedor da Guerra Fria, não
vê necessidade para isso. Em vez de estabelecer um novo equilíbrio de poder,
essencial para a manutenção da ordem e da estabilidade, eles tomaram medidas
que jogaram o sistema em um desequilíbrio agudo e profundo.
Fonte: Julio Severo




