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28 fevereiro 2025

O pobre de direita se liberta

 

Por que os truques populistas de Lula funcionam cada vez menos. Rodolfo Borges e Deborah Sena para a Crusoé:

A intelectualidade brasileira se iludiu durante décadas com a ideia de que uma pessoa pobre não poderia — e nem deveria — ter valores de direita.


A base do raciocínio é humilhante: quem passa por dificuldade econômica deveria esperar — implorar? — pela ajuda do Estado.

Os resultados das últimas eleições no Brasil deixaram claro que essa lógica não existe, e o principal partido de esquerda do país sente os efeitos dessa realidade nas urnas — e na popularidade de seu maior expoente.

As últimas pesquisas de institutos como Quaest, AtlasIntel, Datafolha e CNT/MDA mostraram que a decadente popularidade de Lula perdeu força entre o eleitorado de baixa e média renda, alvo histórico do PT.

E isso mesmo após o governo petista aquecer a economia brasileira com gastos irresponsáveis, o que levou ao crescimento artificial do PIB e à redução recorde do desemprego.

Mais pobres

A pesquisa CNT/MDA divulgada na terça-feira, 25, indicou desaprovação de 35% de Lula no eleitorado mais pobre, que ganha até dois salários mínimos, onze pontos percentuais a mais desde novembro de 2024.

Em maio de 2023, no início do governo, a desaprovação entre os mais pobres era de apenas 19%.

O mesmo levantamento diz que a maior qualidade de Lula para 20,1% dos brasileiros é "cuidar dos pobres" — outros 36,5% não enxergam nenhuma qualidade no petista e 21,7% dizem que seu maior defeito é ser "desonesto".

Quer dizer, o discurso do presidente ainda reverbera em parte do país, mas parece perder força eleitoral.

O fato é que o truque de distribuir benesses não funcionou desta vez.

E nada foi mais eloquente sobre esse descolamento entre um governo que alega defender os pobres e a população mais humilde do que a reação nas redes sociais de trabalhadores informais que se viram na mira da sanha arrecadatória de Lula ao saber da ampliação do monitoramento do Pix.

Aplicativos

A distância entre os trabalhadores e o petismo, criado sob a alegação de defendê-los, já tinha se manifestado de forma contundente na tentativa da regulamentação do trabalho por aplicativo.

Entregadores e motoristas protestaram Brasil afora contra a pretensão de burocratizar seu oficio, e restou ao ministro do Trabalho, Luiz Marinho, fantasiar com a possibilidade de os cambaleantes Correios substituírem o Uber no caso de a plataforma estrangeira deixar o Brasil por falta de condições de atuar.

Os aplicativos deram uma alternativa de liberdade — ainda que sem segurança nenhuma — aos brasileiros, que têm demonstrado, desde a reforma trabalhista do governo Michel Temer, em 2017, repúdio aos sindicatos, formando filas todo ano para pedir dispensa da contribuição, que deixou de ser obrigatória.

Os evangélicos

O filósofo Luiz Felipe Pondé, que trata do assunto "pobre de direita" há quase uma década, definiu esse perfil de brasileiro na expressão “ter que ir atrás do prejuízo e trabalhar”.

Esse seria uma contraponto à perspectiva esquerdista de aguardar — ou proporcionar — o auxílio estatal.

Essa perspectiva de autonomia e liberdade proporcionadas pela desburocratização — e o consequente barateamento — das contratações e das possibilidades de trabalho parece ter encontrado em certo ideário evangélico o ambiente perfeito para se disseminar.

"O ambiente de muitas das igrejas evangélicas estimula a disciplina pessoal e a resiliência dos fiéis, promove a cultura do empreendedorismo, fortalece a atuação de redes de ajuda mútua e incentiva o investimento em instrução profissional", diz o antropólogo Juliano Spyer em Povo de Deus (Geração).

Spyer, que promove outro livro sobre o mesmo assunto, intitulado Crentes: pequeno manual sobre um grande fenômeno (Record), diz que a igreja ajuda a promover o "fim do alcoolismo e consequentemente da violência doméstica, fortalecimento da autoestima, da disciplina para o trabalho e aumento do investimento familiar em educação e nos cuidados com a saúde", o que "geralmente conduz à ascensão socioeconômica".

"Os ressentidos"

O sociólogo Jessé Souza lançou, em 2024, um livro um pouco mais carregado na tinta ideológica para tratar diretamente do Pobre de Direita (Civilização Brasileira).

O subtítulo da obra fala em "vingança dos bastardos" e questiona: "O que explica a adesão dos ressentidos à extrema direita?".

Souza parte do princípio de que as classes populares "não têm nada a ganhar com Bolsonaro, só a perder, especialmente sob o ponto de vista econômico objetivo".

O sociólogo ignora que Jair Bolsonaro não apenas distribuiu benefícios aos mais pobres, por ocasião da pandemia de Covid, como colheu frutos eleitorais disso, ainda que insuficientes para vencer Lula em 2022.

O autor de Pobre de Direita parte daquela premissa clássica da intelectualidade nacional, de que apenas a esquerda sabe "cuidar" dos pobres — ignorando, também, que, enquanto concede um benefício com uma mão, Lula aumenta a dívida pública, a inflação e os juros com a outra —, e aposta na moralidade como fator para explicar por que os "ressentidos" estariam votando contra seus próprios interesses.

"Há um abismo"

Seja por valores morais ou econômicos, a batalha pelos corações dos mais pobres está sendo travada dentro de igrejas evangélicas.

Nos últimos meses, Lula sancionou leis pera criar o Dia Nacional da Pastora Evangélica e do Pastor Evangélico e o Dia Nacional da Música Gospel, sempre com muitas orações e poses para a posteridade.

O presidente também incorporou expressões como "graças a Deus" em seus discursos e enviou emissários, como o advogado-geral da União, Jorge Messias, à Marcha para Jesus.

Mas a estratégia de aproximação não parece estar surtindo efeito — os evangélicos são a parcela da população que mais reprova seu governo —, e isso é admitido até por quem se dispôs a ajudar o petista na missão.

"Há um abismo entre o que nós evangélicos pensamos e o que o PT pensa", disse a Crusoé o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), que esteve com Lula na sanção da lei do Dia Nacional da Música Gospel e acabou virando alvo de protesto dos evangélicos depois de tentar ajudar o petista.

Otoni perdeu nesta semana a disputa pelo comando da Frente Parlamentar Evangélica para Gilberto Nascimento (PSD-MG), apoiado pelos aliados de Bolsonaro.

"Se Lula quiser pelo menos ser ouvido por nós, precisa se afastar do identitarismo do seu partido e começar a governar sem que essas pautas progressistas pautem seu governo. Ele é presidente de uma nação majoritariamente conservadora", disse o deputado.

"Nossos valores são mais caros que qualquer benefício que recebamos do governo. Nenhum governo vai comprar os evangélicos com comida ou programas sociais", completa.

"Vai na fé"

O fator "evangélicos" se tornou tão relevante para a política e a economia brasileiras que levou uma gestora de recursos a elaborar um relatório para mapear a influência eleitoral da religião no país.

"A gente estava tentando entender por que a popularidade do Lula estava baixa numa conjuntura que era amplamente favorável", diz Paulo Coutinho, um dos autores do relatório "Vai na fé! O impacto eleitoral do crescimento dos evangélicos", da Mar Asset Management, que chamou a atenção dos investidores do país em janeiro.

"Se você pegar a foto hoje, é muito favorável: um PIB que cresce mais de 3%, menor taxa de desemprego, massa salarial não para de crescer, a renda ampliada cresce num ritmo de 5% nos últimos dois anos. Se você me falasse isso há dois anos, eu diria que o Lula ia estar com a popularidade lá em cima", diz Coutinho.

O relatório afirma o seguinte: "Observamos uma relação robusta entre a presença de igrejas evangélicas e o perfil de votação. O PT e partidos de esquerda recebem menos votos em municípios com maior presença evangélica. Essa tendência é consistente entre estados e regiões".

O CNPJ das igrejas

Diante da defasagem de números do Censo sobre os evangélicos (os últimos são de 2010), os analistas da Mar Asset Management tentaram quantificar o crescimento desse segmento social por meio da abertura de igrejas.

E descobriram que "entre 2010 e 2024 o número de igrejas de denominação evangélicas com CNPJ ativo dobrou, chegando a mais de 140 mil templos em 2024".

"O ritmo de expansão permaneceu surpreendentemente constante. Em todos os ciclos presidenciais desde 2010, foram registradas, em média, cerca de 5 mil novas aberturas de templos por ano", diz o relatório.



O futuro

Com base nesse cenário, os autores do relatório se aventuram a projetar o futuro:

"Em 2022, a conversão de votos entre a população não evangélica em Lula foi a maior da história. Mesmo assumindo que isso se repetisse, o maior número de evangélicos no país já seria suficiente para garantir a vitória de um candidato de direita em 2026."

Os autores do relatório estimam que a proporção da população evangélica no Brasil aumentará de 22% em 2010 para 35,8% em 2026.
Direita

Uma vitória da direita dependerá, contudo, do candidato que se apresentar em 2026.

Bolsonaro está inelegível até 2030 e, enquanto tenta reverter a condenação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também batalha para impedir que alternativas cresçam à sua sombra.

O desentendimento entre os opositores de Lula é a melhor chance — talvez a única — de o petista se manter no poder apesar de boa parte do país mostrar que já está farta de sua forma de governar.






01 junho 2022

A Infelicidade do Século – Alain Besançon (2000)

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Descrição do livro

Abordando duas questões vinculadas entre si, o nazismo e o comunismo, o especialista em Ciências Sociais, Alain Besançon, traça, em ‘A Infelicidade do Século’, um painel detalhado sobre a tomada do poder pelo comunismo do tipo leninista e pelo nazismo do tipo hitlerista, explicitando suas diferenças e semelhanças, sem abrir mão das análises histórica e política de ambos os regimes.

FONTE: Lê Livros


08 julho 2021

As Boas Mulheres da China – Xinran

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Descrição do livro

A jornalista Xinran coletou inúmeros relatos sobre a vida da mulher chinesa contemporânea durante os oito anos em que comando o programa de rádio “Palavras na brisa noturna”, entre 1989 e 1997. Mostra a história de mulheres onde predomina a memória da humilhação e do abandono: casamentos forçados, estupros, desilusões amorosas, miséria e preconceito.


FONTE: Lê Livros


05 novembro 2019

PMJP proibiu Igreja de distribuir alimentos aos moradores de rua



A Prefeitura Municipal de João Pessoa, através da Sedurb, impediu  que integrantes da pastoral Nossa Senhora das Neves distribuíssem comidas a pessoas em situação de rua no bairro do Centro, em João Pessoa, na noite dessa segunda-feira (04).
De acordo com as informações dos voluntários, a Sedurb alegou que a proibição visa manter a ordem no Centro da Capital e manter os moradores afastados por causa do turismo.
Ainda segundo os integrantes da Pastoral a ação é realizada há 5 anos no Centro da Capital.
Em nota, a prefeitura confirmou a intervenção porém informou que as medidas foram ocasionadas por conta do vandalismo, exploração sexual e tráfico de drogas que vem ocorrendo na Praça João Pessoa.
Ainda na nota, a Prefeitura afirmou que no local foram encontradas armas brancas, objetos perfurantes.
Confira:
Nota 
Sobre a ação preventiva realizada na noite de ontem (04/11), na Praça João Pessoa, a Prefeitura esclarece:
– A administração reforça o apoio às medidas que  fortalecem a segurança alimentar de pessoas em situação em vulnerabilidade social, a exemplo da distribuição de sopas realizada por grupos como a Pastoral da Solidariedade da Arquidiocese e de iniciativas municipais como as cozinhas comunitárias e os restaurantes populares.
– A recomendação feita excepcionalmente na última segunda-feira, no momento da distribuição da sopa, restringiu-se apenas à Praça João Pessoa, espaço onde foi realizada uma Operação da Guarda Municipal e da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb), depois de recorrentes denúncias de vandalismo, tráfico de drogas e de exploração sexual.
– No local, foram encontradas armas brancas, objetos perfurantes e fogareiros que poderiam colocar em risco a integridade de quem circula na área, cuja revitalização foi realizada pela atual gestão. Na manhã desta terça-feira (05), uma equipe já retomou os serviços de reparos e manutenção dos espaços recentemente degradados. 
– Em função das denúncias recebidas e do material apreendido, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) se reúne com a Pastoral, na próxima sexta-feira (08), para definir um novo espaço de doação, suspendendo apenas a Praça João Pessoa como ponto de distribuição. As demais áreas de entrega de sopa – como o entorno da Caixa Econômica Federal, Praça Dom Adauto e Rodoviária -, permanecem liberadas para a ação dos grupos da Igreja.
– A política de assistência social da Capital dispõe de 10 casas de acolhida (para adultos, idosos, famílias, inclusiva e para crianças e adolescentes). As pessoas em situação de rua têm acesso ao Centro Pop – onde podem comer, tomar banho e participar de atividades de reinserção e retomada dos vínculos familiares -, além do Serviço Especializado em Abordagem Social (Ruartes), que também prestam atendimento às pessoas em condição de vulnerabilidade social.

01 dezembro 2017

Vida Maria



Gênero: Animação 
Diretor: Márcio Ramos 
Duração: 9 min     Ano: 2006     Formato: 35mm 
País: Brasil     Local de Produção: CE 
Cor: Colorido 
Sinopse: Maria José, uma menina de 5 anos de idade, é levada a largar os estudos para trabalhar. Enquanto trabalha, ela cresce, casa, tem filhos, envelhece.

"VIDA MARIA" é um projeto premiado no "3o. PRÊMIO CEARÁ DE CINEMA E VÍDEO", realizado pelo Governo do Estado do Ceará.

Produzido em computação gráfica 3D e finalizado em 35mm, o curta-metragem mostra personagens e cenários modelados com texturas e cores pesquisadas e capturadas no Sertão Cearense, no Nordeste do Brasil, criando uma atmosfera realista e humanizada.
 


Ficha Técnica
Produção: Joelma RamosMárcio Ramos
Co-produção: Trio FilmesVIACG
Roteiro: Márcio Ramos
Edição: Márcio Ramos
Direção de Arte: Márcio Ramos
Edição de som: Márcio Ramos
Computação grafica: Márcio Ramos
Produção Executiva: Isabela Veras (Trio Filmes)
Finalização: Link Digital
Apoio: ColorgrafSilicontech do BrasilSoftimage Cat
Mixagem: Érico Paiva "Sapão"
Patrocínio: 3º. Prêmio Ceará de Cinema e VídeoGoverno do Estado do CearáSecretaria Da Cultura
Música: Hérlon Robson
Storyboard: Michelângelo AlmeidaRoberto Fernandez
Contador: Silvério Neto
Transcrição ótica: Rob Filmes
Tradução: Laura Lee
Efeitos Sonoros: Danilo Carvalho
Site: www.viacg.com
Vozes: Márcio Ramos
Revelação: Labo Cine
Cópias: Labo Cine 

Fonte: Porta Curtas

13 maio 2017

O bicho - Manuel Bandeira



Vi ontem um bicho 
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


BANDEIRA. Manuel. Estrela da vida inteira. 4. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1973, p. 196.

27 julho 2016

Doistoiévski - O Menino Mendigo

Ilustração alemã de uma mãe sem-teto e seus filhos na rua, antes de 1883



Este ano, quando o Natal estava próximo, passava muitas vezes na rua diante de um menino talvez de uns sete anos de idade, que eu via sempre acocorado no mesmo canto. Ainda o encontrei mais uma vez na véspera da festa. Debaixo de um frio terrível estava vestido como se fosse verão, trazendo, à guiza de xale, um pedaço de pano velho enrolado  em roda do colo. Pedia esmolas, apresentava a mão, conforme costumam fazer os pequenos mendigos de São Petersburgo. São muitos os pobres meninos enviados dessa maneira a implorar a caridade dos transeuntes, a gemer  algum estribilho que aprendem de cor. Aquele, porém, não gemia: falava ingenuamente, como qualquer novato na profissão. O olhar dele tinha um quê de franco, o que me confirmou  na convicção de tratar-se de principiante. Às perguntas que lhe fiz respondeu que tinha uma irmã doente, que não podia trabalhar; pareceu-me verdadeiro o que dizia. Além disso, somente mais tarde fiquei sabendo do número enorme de crianças que mandam mendigar daquela maneira, quando o frio é mais rigoroso. Se nada arranjarem poderão ter a certeza de serem espancados ao voltar para casa. Quando conseguir juntar alguns copeques, o pirralho dirige-se, com as mãos roxas e intumescidas, para o buraco em que um bando de vendedores de roupas usadas e de operários folgados, que deixaram a fábrica no sábado para aparecer somente na terça-feira seguinte, fartam-se a comer e beber conscientemente. Nesses buracos  as mulheres magras e surradas bebem álcool em companhia dos maridos, enquanto choramingam á porfia, as criaturinhas ainda de peito. Aguardente, miséria, sujeira, corrupção, e, antes de tudo e sobretudo, aguardente!
Apenas chegado, manda-se o menino à venda com o dinheiro mendigado, e quando chega com o álcool, divertem-se com ele fazendo-o beber uma dose que lhe corta a respiração e, subindo-lhe à cabeça, o faz rolar pelo chão, para grande gáudio de todos os presentes.
Quando o menino atinge quatorze ou quinze anos, colocam-no logo em uma fábrica, com a obrigação de entregar à família  tudo quanto ganha, gastando-o os pais em aguardente. Antes, porém, de atingirem a idade em que possam trabalhar, esses meninos se transformam em estranhos vagabundos. Andam à solta pela cidade, acabando por descobrir onde possam meter-se para passar a noite sem terem que voltar para casa. Um desses rapazolas dormiu durante algum tempo em casa de um empregado subalterno da Corte: tinha feito a cama em uma cesta, sem que o dono da casa percebesse. É claro que não demoram muito para começar a roubar. E, muitas vezes, o roubo chega a converter-se em paixão, em pequenos de oito anos que dificilmente se julgam culpados por terem os dedos demasiadamente ágeis.
Cansados dos maus-tratos dos que os exploram, fogem e não voltam mais aos buracos em que os maltratavam; preferem sofrer fome e frio e ter a liberdade de vagabundar por conta própria.
Frequentemente esses pequenos selvagens não sabem nada de nada; ignoram a que nação pertencem, não sabem onde vivem e jamais ouviram falar de Deus ou do Imperador. Muitas vezes sabe-se a respeito deles o que há de mais inverossímil, mas que, entretanto, é verdade.


Fonte: Dostoiévski. Diário de um Escritor. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, págs. 73-74, Ano 1876. Tradução de E. Jacy Monteiro

03 dezembro 2015

Capitalismo, felicidade e beleza



Os críticos fazem duas acusações ao capitalismo.  A primeira consiste em dizer que a posse de um carro, de um aparelho de televisão e de uma geladeira não faz o homem feliz.  A segunda é que ainda existem pessoas que não possuem nenhum desses objetos.  Ambas as proposições são corretas, mas não conseguem denegrir o sistema capitalista baseado nas transações voluntárias e na cooperação social. 
As pessoas não se esforçam e se afligem a fim de obter a felicidade perfeita, mas a fim de eliminar ao máximo as dificuldades que se apresentam e, assim, tornarem-se mais felizes do que eram antes.  O homem que compra um televisor deixa evidente o fato de que a posse desse aparelho aumentará seu bem-estar e o tornará mais contente do que antes.  Caso contrário, ele não o teria comprado.  
A tarefa do médico não é a de tornar o paciente feliz, mas sim de eliminar a dor e deixá-lo em melhor disposição para que possa atingir o objetivo principal de todo ser humano, qual seja, a luta contra todos os fatores nocivos à sua vida e ao seu bem-estar. 
É verdade que existem entre os monges budistas, que vivem de esmolas, na sujeira e na penúria, alguns que se sentem perfeitamente felizes e não têm inveja de nenhum ricaço.  Todavia, é verdade que, para a grande maioria das pessoas, uma vida assim parece insuportável.  Para elas, o impulso no sentido de incessantemente almejar a melhoria das condições externas de vida é inato.  Quem ousaria apontar um pedinte asiático como exemplo para um norte-americano de classe média?  Um dos maiores sucessos do capitalismo é a queda da mortalidade infantil.  Quem pode negar que este fenômeno, ao menos, removeu uma das causas da infelicidade de muitas pessoas? 
Não menos absurda é a segunda acusação lançada contra o capitalismo: que as inovações tecnológicas e terapêuticas não beneficiam a todos.  As mudanças nas condições humanas são conseguidas pelo pioneirismo dos homens mais inteligentes e mais dinâmicos.  Eles assumem a liderança, e o resto da humanidade os segue pouco a pouco.  A inovação é, no início, um luxo de apenas alguns até que, gradativamente, passa a ficar ao alcance da maioria.  
Não é a objeção consciente ao uso de sapatos ou talheres que faz com que eles se propaguem lentamente e com que ainda hoje milhões de pessoas vivam sem eles.  As delicadas senhoras e os cavalheiros que primeiro se utilizaram do sabonete foram os precursores da produção de sabonetes em larga escala para o homem comum.  Se quem hoje dispõe de meios para adquirir um televisor resolvesse se abster de comprá-lo porque algumas pessoas não têm recursos para isso, não estaria promovendo, mas sim retardando a popularização desse aparelho.
E há também os descontentes que atacam o capitalismo pelo que julgam ser seu sórdido materialismo.  Como eles não podem negar que o capitalismo tem a tendência de melhorar as condições materiais da humanidade, eles apenas recorrem ao argumento de que o capitalismo tem afastado os homens de objetivos mais elevados e nobres.  Segundo eles, o capitalismo alimenta os organismos mas enfraquece os espíritos e as mentes.  Provocou a ruína das artes.  Esquecidos estão os dias dos grandes poetas, pintores, escultores e arquitetos; nossa era produz apenas lixo. 
O problema é que o juízo a respeito dos méritos de uma obra de arte é totalmente subjetivo.  Algumas pessoas estimam o que outras desprezam.  Não existe uma medida para julgar o valor artístico de um poema ou de um edifício.  Quem se encanta com a Catedral de Chartres e com As meninas, de Velásquez, talvez julgue que os que permanecem insensíveis a essas maravilhas são pessoas rudes.  Muitos estudantes se aborrecem ao máximo quando a escola os obriga a ler Hamlet.  Apenas as pessoas tocadas pela centelha da mentalidade artística têm condições de apreciar e de desfrutar da obra de um artista. 
Entre os que se pretendem homens educados existe muita hipocrisia.  Assumem ares de conhecedores e simulam entusiasmo pela arte do passado e pelos artistas falecidos há muito tempo.  Não demonstram a mesma simpatia pelo artista contemporâneo que ainda luta por reconhecimento.  A aparente adoração pelos velhos mestres é para eles um meio de depreciar e ridicularizar os novos artistas que se afastam dos cânones tradicionais para criar os seus próprios.
John Ruskin será sempre lembrado — junto com Thomas CarlyleSydney e Beatrice WebbGeorge Bernard Shaw e outros — como um dos coveiros da liberdade, da civilização e da prosperidade britânica.  Caráter desprezível, tanto na vida particular como na vida pública, ele glorificava a guerra e a carnificina e fanaticamente difamava os ensinamentos da economia política, que não chegava a compreender.  Era um fanático detrator da economia de mercado e um romântico enaltecedor das guildas.  Prestava homenagem às artes dos séculos primitivos.  
Porém, ao defrontar-se com a obra de um grande artista vivo, Whistler, censurou-a numa linguagem tão sórdida e injuriante, que foi processado por difamação e declarado culpado pelo júri.  Foram as composições literárias de Ruskin que popularizaram o preconceito de que o capitalismo, além de ser um péssimo sistema econômico, substituiu a beleza pela feiúra, o esplendor pela trivialidade, a arte pelo lixo. 
Como há muita discordância na apreciação das obras artísticas, e dado que esse tema é totalmente subjetivo, não é possível refutar os rumores sobre a inferioridade artística da era do capitalismo da mesma maneira irrefutável com que se pode contestar os erros num raciocínio lógico ou na apresentação dos fatos da experiência.  Assim mesmo, nenhum homem normal seria capaz de depreciar o esplendor das realizações artísticas da era do capitalismo. 
A mais proeminente arte desta época de "sórdido materialismo e enriquecimento" foi a música.  Wagner e Verdi,Berlioz e BizetBrahms e BrucknerHugo Wolf e MahlerPuccini e Richard Strauss, que ilustre desfile!  Que período notável em que mestres como Schumann e Donizetti foram ofuscados por gênios ainda maiores! 
Foi aí que surgiram os grandes romances de BalzacFlaubertMaupassantJens JacobsenProust, e os poemas deVictor HugoWalt WhitmanRilke e Yeats.  Como seriam pobres nossas vidas se não tivéssemos conhecido as obras desses gigantes e as de muitos outros autores não menos importantes. 
Não podemos esquecer os pintores e escultores franceses que nos ensinaram novas maneiras de olhar para o mundo e de apreciar a luz e a cor. 
Ninguém jamais contestou que essa era incentivou todos os ramos da atividade científica.  Porém, afirmam os descontentes, tudo isso era apenas um trabalho de especialistas ao qual faltava "síntese".  Não é possível distorcer de modo mais absurdo os ensinamentos da matemática moderna, da física e da biologia.  E o que dizer dos livros de filósofos como CroceBergsonHusserl e Whitehead
Cada época tem caráter próprio em suas realizações artísticas.  A imitação das obras-primas do passado não é arte; é repetição.  O que valoriza uma obra são as características que a tornam diferente de outras.  Isto é o que se chama o estilo de uma época. 
Em certo sentido, os enaltecedores do passado parecem estar certos.  As últimas gerações não nos legaram monumentos tais como as pirâmides, os templos gregos, as catedrais góticas, as igrejas e palácios da renascença e do barroco.  Nos últimos cem anos, muitas igrejas e até mesmo catedrais foram construídas, assim como palácios do governo, escolas e bibliotecas.  Mas não apresentam qualquer concepção original; refletem velhos estilos ou mistura de vários estilos antigos.  Apenas nos prédios de apartamentos, nos edifícios comerciais e nas casas particulares notou-se uma evolução que poderá ser considerada como um estilo arquitetônico de nossa era.  Embora pareça pedante deixar de admirar o esplendor peculiar de espetáculos como a silhueta da cidade de Nova York, pode-se admitir que a arquitetura moderna não alcançou o destaque da dos últimos séculos. 
Os motivos são muitos.  No que diz respeito às construções religiosas, o acentuado conservadorismo das igrejas afasta qualquer inovação.  Com o passar das dinastias e das aristocracias, o estímulo para construir novos palácios desapareceu.  A riqueza dos empresários e capitalistas, por mais que os demagogos anticapitalistas possam fantasiar, é tão inferior à dos reis e príncipes, que eles não podem se permitir tão luxuosas construções.  Ninguém hoje é suficientemente rico para planejar palácios como os de Versailles ou o Escorial.  
As autorizações para a construção dos edifícios do governo não mais emanam de déspotas que tinham a liberdade — a despeito da opinião pública — de escolher um arquiteto por quem tinham alta estima e para patrocinar um projeto que escandalizava a grande maioria. Comissões e juntas administrativas não estão dispostas a adotar as idéias dos ousados pioneiros.  Elas preferem situar-se do lado seguro. 
Jamais houve uma época em que a maioria estivesse preparada para fazer justiça à arte contemporânea.  O fato de reconhecer os grandes autores e artistas sempre foi limitado a pequenos grupos.  O que caracteriza o capitalismo não é o mau gosto das multidões, mas o fato de que essas mesmas multidões, tornadas prósperas pelo capitalismo, passaram a ser "consumidoras" de literatura — obviamente da literatura de baixa qualidade.  O mercado de livros está invadido pela literatura banal destinada aos semibárbaros.  Mas isso não impede que grandes autores criem obras imortais.
Os críticos derramam lágrimas pela suposta decadência das artes industriais.  Comparam, por exemplo, as mobílias antigas preservadas nos castelos das famílias aristocratas europeias e nas coleções de museus, com as peças baratas geradas pela produção em larga escala.  Não percebem que esses artigos dos colecionadores foram feitos exclusivamente para os abastados.  As arcas entalhadas e as mesas marchetadas não poderiam ser encontradas nas miseráveis choupanas das camadas mais pobres.  
Quando a indústria moderna começou a suprir as massas com todos os instrumentos e parafernália que melhoraram a qualidade de vida destas massas, seu principal objetivo era produzir o mais barato possível, sem qualquer preocupação com os valores estéticos.  Mais tarde, quando o progresso do capitalismo elevou o padrão de vida das massas, a indústria voltou-se pouco a pouco para a fabricação de coisas mais refinadas e bonitas.  
Somente uma predisposição romântica pode induzir um observador a ignorar o fato de que cada vez mais os cidadãos dos países capitalistas vivem num meio que não pode ser simplesmente tido como feio.

Texto originalmente publicado em 1954

Ludwig von Mises  foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico.  Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política.  Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico.  Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de "praxeologia".



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