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das Páginas Amarelas
Entrevista com
Joffre Dumazedier, sob o título A defesa da
preguiça, reportagem de
Marília Pacheco Fiorillo, há 32 anos, nas Páginas Amarelas, da Revista Veja, do
dia 1º de outubro de 1980.
Professor da Sorbonne há vinte anos,
Dumazedier acha que o futuro será traçado não pelo trabalho, mas, sim, pelo
lazer
Por Marília Pacheco Fiorillo
Na Antiguidade clássica, o trabalho era
tido como tão pouco nobre que praticamente só os escravos se ocupavam dele.
Continuou assim pela Idade Média e Renascimento, quando o filósofo Thomas Morus
acenou pela primeira vez com o sonho de reduzi-lo a apenas seis horas diárias,
em sua "Utopia". Foi só com o surgimento das primeiras chaminés e
estradas de ferro, na aurora da sociedade industrial, que o trabalho conquistou
pela primeira vez o título de cidadania – para, depois, ir sendo
progressivamente tratado, como um dos valores mais respeitados da atividade
humana. Joffre Dumazedier, 64 anos, há vinte titular da cadeira de Sociologia
do Lazer na Sorbonne de Paris, começou a se interessar pelo tema em seus tempos
de partisan durante a II Guerra Mundial, quando se
dedicava a "grupos de educação popular" entre a população simples do
interior da França. Foi então que acredita ter feito uma dupla
descoberta.
A primeira é que o lazer, desde a redução
da jornada fabril a oito horas, após a I Guerra Mundial, se tornou "mais
importante para o trabalhador que qualquer outro aspecto de sua vida". A
segunda é que há um século e meio toda a civilização está mergulhada em uma
avassaladora mística do trabalho, mais forte que qualquer fronteira ideológica
ou nacional. Desde a primeira metade do século XIX, observa Dumazedier, as
sociedades vêm sendo regidas por um verdadeiro culto de adoradores da labuta,
que hoje se difunde dos saguões das empresas privadas aos cartazes desenvolvimentistas
dos países socialistas.
Para Dumazedier, a sociedade caminha rumo
a uma civilização do lazer, em que o tempo livre das obrigações profissionais
tende a ser “o tempo estratégico” da vida da coletividade. Um tempo estratégico
que ele, pessoalmente, parece utilizar muito pouco, pois trabalha
compulsivamente – em sua passagem por São Paulo, há poucos dias, andou sempre
numa roda-viva, entre idas e vindas de conferências ao quarto do hotel, onde a
TV sempre ligada se mistura a dezenas de livros e rascunhos espalhados sobre a
mesa.
A mística do
trabalho
já não tem razão
Veja – O senhor costuma dizer que o
lazer, hoje em dia, ocupa o lugar anteriormente reservado ao trabalho, do ponto
de vista de um sistema de valores. Como é isso?
Dumazedier – O trabalho é ainda a primeira
necessidade humana, mas uma necessidade puramente objetiva. O que está mudando
é a importância do valor “trabalho” na vida das pessoas – sejam operários,
colarinhos brancos
ou executivos. Aquela antiga mística do trabalho, endossada de Adam Smith e
Marx, do pensamento católico a Max Weber, já não tem razão de ser. A ideia do
trabalho como a essência da humanidade correspondia a uma sociedade industrial
nascente.
Veja
– Mas o lazer não é ele mesmo um filho da sociedade industrial?
Dumazedier – Sem dúvida, mas ele é o filho de um paradoxo miraculoso dessas
sociedades, um paradoxo com que nossos ancestrais não ousavam sequer sonhar – o
de que se pode produzir cada vez mais trabalhando cada vez menos. E esse
milagre diz respeito não só às sociedades de economia privada como àquelas de
economia coletivizada, como a União Soviética. Por exemplo, há um século
e meio atrás, o trabalho operário médio era de cerca de 4.000 horas anuais –
hoje, em qualquer sociedade de
economia avançada, e mesmo nas zonas mais urbanizadas das sociedades em via de
desenvolvimento, trabalha-se a metade, cerca de 2.000 horas por ano. Isso fez
com que as pessoas passassem a dar uma importância inédita, em suas vidas, ao
tempo livre.
Veja
– O trabalho não continua a ser o grande elemento civilizatório, do qual depende inclusive a riqueza necessária para se poder consumir o lazer?
Dumazedier – Que o trabalho cria riqueza, e com isso
paga o lazer, é um lugar-comum. Agora, dizer que ele é
ainda a base da civilização é outra história. Se se entende a civilização como
um sistema de valores, como uma maneira de realizar a personalidade individual
e coletiva, então qual é a função civilizatória de uma atividade que, para a
grande maioria das pessoas, interessa muito pouco? Posso dizer que o lazer é
fruto do trabalho da mesma maneira que um filho é fruto do pai. O pai, na vida
do filho, é sempre um elemento de conflito, de rejeição.
Veja
– Há certos economistas, Alvin Toffler, por exemplo, que creem que trabalho e lazer são atividades que tendem a mudar no futuro e exemplificam isso com o aumento do trabalho profissional realizado em casa.
Dumazedier – Toffler, na verdade, é mais um
desses profetas que falam demais, um tipo, aliás, que prolifera na atualidade –
uma espécie de McLuhan da economia, que teve um
dia uma bela ideia, mas só uma ideia, e dela tirou um sistema. Não digo que ele
não seja um sujeito sério, mas tem a seriedade dos poetas. Deve-se procurar em
seus textos não o argumento científico, que não existe, mas o prazer da
fantasia. Deve-se ler Toffler como se liam os
testemunhos de Jeová ou como se leem as homilias de João Paulo II.
Veja
– E, quando se trata de um indiscutível homem de ciência, como J. K.
Galbraith, para quem essa ideia de uma sociedade tendente ao lazer não passa de pura piada?
Dumazedier – Conheço bem Galbraith e tive chance de discutir
isso com ele numas férias que passamos juntos. A questão é que existem três
Galbraith: o embaixador kennediano, o ensaísta que escreve maravilhosamente e,
em último lugar, o economista. Agora, resta saber qual desses três egos se
pronunciou assim.
A esquerda
deveria
refletir mais
Veja
– De que maneira se poderia pensar numa sociedade do lazer nos países
subdesenvolvidos que precisam trabalhar duramente para sair do
subdesenvolvimento?
Dumazedier – Não acredito em lazer nacional, mas em
hábitos de recreação que variam de classe para classe, de ambiente para
ambiente. Eu, por exemplo, estou muito mais próximo de meus amigos paulistanos
que de um camponês da Normandia. Dá-se o mesmo entre
países socialistas e capitalistas. Se você toma um país como os Estados Unidos
e outro como a Bulgária, os Estados Unidos ganham
a parada unicamente porque estão mais bem equipados culturalmente. O que conta
não são questões de regime, de ideologias, mas o nível de desenvolvimento das
forças produtivas. É impossível falar de Brasil, por exemplo. O que é o Brasil?
É uma cidade como São Paulo ou um vilarejo nordestino? De qualquer maneira, se
comparamos duas sociedades de desenvolvimento tecnológico análogo, uma socialista
e outra capitalista, a socialista tende a ter uma política cultural mais
autoritária. Pode-se mesmo dizer que há um abismo entre a política oficial do
regime e as práticas culturais de certos grupos, como a juventude. Tanto que se
vê como um jovem russo acaba afrontando as autoridades por vestir um jeans ou
ouvir rock, e não se tem notícia de que algum universitário paulista ou
parisiense tenha logrado efeito semelhante ao sair pelas ruas fantasiado de
moscovita.
Veja
– O tempo liberado para o lazer aumentou nos
países comunistas na mesma proporção dos países capitalistas?
Dumazedier – Insisto em dizer que isso depende do grau
de desenvolvimento das economias em cada país. Na Polônia, por exemplo, que não
é o país socialista de economia mais arejada, uma das grandes reivindicações
desta última greve foi a semana de quarenta
horas – mesmo quando se sabe que estado atual da economia polonesa exigiria um
trabalho médio de sessenta horas.
Veja
– E, nas chamadas “sociedades socialistas
avançadas”, o tempo livre aumentou?
Dumazedier – Há uma fabulosa enquete, realizada em 1966
por um húngaro, Alexander Szalai, que havia sido preso por quatro anos no
período estalinista e que levou cerca de dez anos levantando dados sobre o
tempo livre em doze países, de Cuba ao Peru, da Checoslováquia à URSS: uma das
conclusões dessa pesquisa é que a mulher trabalhadora que dispõe de menos tempo
livre, no mundo inteiro, em países socialistas ou capitalistas, é a mulher
russa. Ela trabalha duas horas a mais por dia que sua companheira francesa e
americana, em profissão semelhante. Agora, se você se lembra de que cerca de
90% das russas trabalham, cifra que nos Estados Unidos é de 40% e na França nem
chega a isso, você se vê diante de um fato surpreendente. A esquerda deveria
refletir mais sobre isso – e falo dessa maneira porque me considero um homem de
esquerda, a esquerda sempre foi minha família espiritual.
Veja
– A que se deve essa situação da
trabalhadora russa?
Dumazedier – Minha hipótese é de que os regimes
políticos podem promover algumas mudanças, mas dificilmente mudam certos
hábitos. E o patriarcado, na Rússia, malgrado os discursos oficiais, continua
fortíssimo. A mulher que trabalha fora, lá, provavelmente carrega o mesmo
antigo fardo das tarefas domésticas. Mas esse não é o único fato chocante.
Outro, ainda maior, é o de que a sociedade soviética ainda esteja fundada na
velha mística da devoção ao trabalho, na doutrina do amor ao trabalho. Ora,
numa enquete recente entre trabalhadores russos, na qual se perguntava qual o
aspecto de suas vidas que eles consideravam prioritário, apenas 7% apontaram o
trabalho em primeiro lugar. É isso que a esquerda não vê. A esquerda
parisiense, por exemplo, fica opondo discurso contra discurso, maoistas versus
leninistas, mas jamais se debruça sobre o real.
para a política
Veja
– Nos países socialistas esse tempo livre é
utilizado com mais frequência para práticas políticas?
Dumazedier – Há muita gente, creio que a maioria, que
participa de reuniões sistemáticas. Agora, o lazer é uma atividade voluntária.
A única coisa que posso afirmar com segurança é que, trate-se da Bulgária ou
Peru, Cuba ou França, mais de 95% do tempo liberado do trabalho profissional e
doméstico é gasto exclusivamente em recreação – nada de política, só lazer.
Veja
– Então, esse tempo de lazer seria “o tempo-chave” na vida das
pessoas?
Dumazedier – O lazer é o tempo estratégico da
modernidade. Enquanto não se fizer a revolução do lazer, a mudança dos costumes
continuará sendo uma questão abstrata. De que adiantam discursos inflados de
civismo, patriotismo, socialismo, se a pessoa sai do trabalho ou escola e entra
em uma outra vida? É um pouco como o mito de Penélope, que teria um manto de
dia para descosturá-lo à noite. O lazer é a noite, que tem o poder de desfazer
tudo o que foi tecido durante o dia.
Veja
– O lazer, em sua visão, é sobretudo uma questão política?
Dumazedier – Só os ingênuos ainda acham que o tempo
dedicado à recreação, ao ócio, ao descanso, não é fundamental para a política.
Porque nesse espaço da vida dos indivíduos não só se criam valores e relações
sociais específicas como também podem ser criados valores em conflito aberto
com os do mundo do trabalho. Aliás, onde é que os trabalhadores fazem seu maior
investimento afetivo? Nunca é no trabalho, nem mesmo em países onde se tentaram
experiências autogestionárias, como na Iugoslávia. Sabe-se hoje que a autogestão
– praticada por uma geração e meia de socialistas e estudada por centenas de
especialistas – nunca interessou mais que 20% da classe operária iugoslava. E
todos continuam a preferir a palavra “autogestão” como se ela tivesse poderes
mágicos. Eu mesmo me considero um autogestionário, mas sem ilusões.
A mulher pede
mais
tempo para si
Veja
– Que mudanças político-culturais já são visíveis a partir do
aumento do tempo de lazer?
Dumazedier – Mais importante que o crescimento estatístico
do tempo livre é a mutação de valores que ele traz, como a liberação de certas
aspirações antes reprimidas. É o caso da recusa crescente de relações
funcionais, como as familiares, e a procura de outro tipo de contato entre os
indivíduos, de natureza mais selvagem, antiinstitucional. Temos o movimento feminista,
os grupos ecológicos, organizações de velhos – o chamado movimento da “terceira
idade”. Veja o caso do movimento feminista: há uma grande diferença entre o
feminismo de Simone de Beauvoir, que é da minha geração, e o feminismo de Kate
Millet: se antes se reivindicavam direitos iguais de trabalho e participação
política, hoje o que se pede é que a mulher tenha mais tempo para si mesma,
para os assuntos de seu interesse. E isso está nas ruas: é a mulher de classe
média que quer ter seus amigos, e não só amigos do marido, viajar sozinha, ou a
mulher de uma camada mais baixa que não abre mão de sua hora e tanto de
conversa com a amiga no mercado, à semelhança do que seu marido vem fazendo há
decênios nos bares.
Veja
– Mesmo entre os jovens?
Dumazedier – Presenciei uma greve de estudantes
secundários em Montreal, há pouco tempo. Eram garotos de 15, 16 anos, e saíram
às ruas para exigir quinze dias de férias a mais. Faziam essa greve contra os
professores e os pais – e acabaram ganhando.
Veja
– Entre os hábitos mais frequentes de lazer, quais o senhor
considera os dominantes, atualmente?
Dumazedier – TV e esporte, sem dúvida. As viagens também têm crescido
enormemente, os passeios a pé, jornadas de reencontro com a natureza.
Veja
– Não haveria uma discrepância fundamental, em matéria de lazer,
entre os hábitos das camadas populares e os das camadas mais altas?
Dumazedier – Depende. No caso do consumo da televisão, provavelmente um
professor universitário não liga o mesmo canal que um operário da Volkswagen –
ou, se liga, não recebe a emissão exatamente da mesma maneira. Mas é só isso. Pesquisas
do mundo inteiro confirmam que o aparelho de TV fica ligado, no mínimo, quinze
horas por semana.
E isso vale tanto para as favelas cariocas como para os quarteirões chiques de
Paris.
Veja
– O senhor concorda com as críticas de que a TV promoveu uma falsa
democratização da cultura, igualando o consumo entre classes pelo rebaixamento
da qualidade do produto?
Dumazedier – Ao contrário. Se antes só um punhado de gente ia ao Ópera, hoje
milhares de pessoas podem assistir à “Cármen” pela TV. Não há nada de falso
nessa democratização – a música de Bizet é a mesma, o libreto é o mesmo, a
única coisa que muda é a presença ou não de audiência. Para os aficionados das
noitadas da ópera, faz diferença. Para intelectuais elitistas, como Adorno,
também. Talvez para uma centena de pessoas no Brasil. Mas, para a maioria, só
pode valer a pena.
Veja
– Como fica a questão do lazer numa época de crise econômica, como
essa, em que o desemprego se acentua?
Dumazedier – Respondo com o resultado de um estudo feito recentemente sobre o
consumo de férias por operários europeus desde o início da crise econômica:
diminuíram os quilômetros rodados, a distância dos locais de férias e mesmo o
número de dias de férias, mas as cifras continuam confirmando que três quartos da
classe operária francesa continuam a tirar férias e preferem privar-se de
outras vantagens a abrir mão de sua temporada fixa de lazer. Essa história de
que hoje é momento de se pensar no pão, e não no sonho, é mais uma das eternas
tiradas da esquerda. Como se a necessidade de pão suprimisse aquela de sonho...
Veja
– A que o senhor atribui o ainda escasso interesse da comunidade
intelectual pelo lazer?
Dumazedier – Todos os estudos de economistas e sociólogos sérios confirmam que
o lazer cresce em importância e extensão. Na Europa e nos Estados Unidos, em
plena crise, os sindicatos continuam a se bater pela semana de 35 horas. E o
tempo extra que esses operários reivindicam é para quê? Não será para a
instrução popular, como previa Marx, ou para uma formidável participação
política de massas, como queria Engels, ou para um incremento na vida
espiritual, como pretendem os padres. É apenas para mais lazer. Mas o velho
carnaval ideológico continua a encobrir essas questões. Muitas vezes o
entusiasmo político nos leva a abandonar a lucidez.
Só a minoria faz
do
trabalho lazer
Veja
– E os que afirmam que o lazer, na sociedade contemporânea, só
tende a aumentar a alienação?
Dumazedier – Era o caso de Marcuse, por exemplo, mas Marcuse sempre foi um
pensador utópico, nunca um cientista. Ele imaginava que o trabalho poderia
transformar-se em fonte de prazer, na sociedade socialista perfeita... Mas está
mais que comprovado que na França nem mesmo 20% dos trabalhadores sentem
qualquer espécie de gratificação com as tarefas que executam. Só uma ínfima
minoria faz do trabalho seu lazer: uns poucos artistas, criadores, inventores –
excetuando-se o equívoco da datilógrafa que pensa amar o trabalho porque está
caída pelo chefe.
Veja
– Então o profeta do futuro seria Paul Lafargue, o genro de Marx
que defendia para a classe operária o “direito à preguiça”?
Dumazedier – Embora minha formação seja marxista, sempre estive mais próximo e
Lafargue que de seu sogro e companheiro Karl Marx, mesmo porque creio que o
futuro do socialismo se decidirá fora do trabalho – e não dentro. Dizem que
Lafargue se sentia seduzido pelo ócio porque era um homem das Caraíbas, amante
do sol e do dolce far niente. Não
creio nessas psicologias dos povos: afinal, Fidel Castro também é um homem das
Caraíbas, e trabalha por quatro.
●
lugar-comum.
s. m. 1. Trivialidade.
2. Ideia já muito batida. 3. Expressão ou frase usada vulgarmente. 4. Frase
feita.