![]() |
| Ilustração alemã de uma mãe sem-teto e seus filhos na rua, antes de 1883 |
Este ano, quando o Natal estava
próximo, passava muitas vezes na rua diante de um menino talvez de uns sete
anos de idade, que eu via sempre acocorado no mesmo canto. Ainda o encontrei
mais uma vez na véspera da festa. Debaixo de um frio terrível estava vestido
como se fosse verão, trazendo, à guiza de xale, um pedaço de pano velho
enrolado em roda do colo. Pedia esmolas, apresentava a mão,
conforme costumam fazer os pequenos mendigos de São Petersburgo. São muitos os
pobres meninos enviados dessa maneira a implorar a caridade dos transeuntes, a
gemer algum estribilho que aprendem de cor. Aquele, porém, não gemia:
falava ingenuamente, como qualquer novato na profissão. O olhar dele tinha um
quê de franco, o que me confirmou na convicção de tratar-se de principiante.
Às perguntas que lhe fiz respondeu que tinha uma irmã doente, que não podia
trabalhar; pareceu-me verdadeiro o que dizia. Além disso, somente mais tarde
fiquei sabendo do número enorme de crianças que mandam mendigar daquela
maneira, quando o frio é mais rigoroso. Se nada arranjarem poderão ter a
certeza de serem espancados ao voltar para casa. Quando conseguir juntar alguns
copeques, o pirralho dirige-se, com as mãos roxas e intumescidas, para o buraco
em que um bando de vendedores de roupas usadas e de operários folgados, que
deixaram a fábrica no sábado para aparecer somente na terça-feira seguinte,
fartam-se a comer e beber conscientemente. Nesses buracos as mulheres
magras e surradas bebem álcool em companhia dos maridos, enquanto choramingam á
porfia, as criaturinhas ainda de peito. Aguardente, miséria, sujeira, corrupção,
e, antes de tudo e sobretudo, aguardente!
Apenas chegado, manda-se o menino
à venda com o dinheiro mendigado, e quando chega com o álcool, divertem-se com
ele fazendo-o beber uma dose que lhe corta a respiração e, subindo-lhe à
cabeça, o faz rolar pelo chão, para grande gáudio de todos os presentes.
Quando o menino atinge quatorze ou
quinze anos, colocam-no logo em uma fábrica, com a obrigação de entregar à
família tudo quanto ganha, gastando-o os pais em aguardente. Antes,
porém, de atingirem a idade em que possam trabalhar, esses meninos se
transformam em estranhos vagabundos. Andam à solta pela cidade, acabando por
descobrir onde possam meter-se para passar a noite sem terem que voltar para
casa. Um desses rapazolas dormiu durante algum tempo em casa de um empregado
subalterno da Corte: tinha feito a cama em uma cesta, sem que o dono da casa
percebesse. É claro que não demoram muito para começar a roubar. E, muitas
vezes, o roubo chega a converter-se em paixão, em pequenos de oito anos que
dificilmente se julgam culpados por terem os dedos demasiadamente ágeis.
Cansados dos maus-tratos dos que
os exploram, fogem e não voltam mais aos buracos em que os maltratavam;
preferem sofrer fome e frio e ter a liberdade de vagabundar por conta própria.
Frequentemente esses pequenos
selvagens não sabem nada de nada; ignoram a que nação pertencem, não sabem onde
vivem e jamais ouviram falar de Deus ou do Imperador. Muitas vezes sabe-se a respeito
deles o que há de mais inverossímil, mas que, entretanto, é verdade.
Fonte: Dostoiévski.
Diário de um Escritor. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, págs. 73-74, Ano 1876. Tradução de E. Jacy Monteiro
