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29 agosto 2024

IRENEU, EUSÉBIO E AS CONSTITUIÇÕES APOSTÓLICAS AFIRMAM QUE O PRIMEIRO BISPO DE ROMA FOI LINO

 






Na sua «História Eclesiástica», Eusébio de Cesareia afirma o seguinte:

Livro III

II

[Quem foi o primeiro que presidiu a Igreja de Roma]

1. Depois do martírio de Paulo e de Pedro, o primeiro a ser eleito para o episcopado da Igreja de Roma foi Lino. Ele é mencionado por Paulo quando escreve de Roma a Timóteo, na despedida ao final da carta (2 Tm 4:21)."

Note-se que Eusébio de Cesareia nunca menciona Pedro como tendo sido alguma vez Bispo de Roma.

Isto porque Eusébio seguia uma lista dos doze primeiros bispos de Roma, dada por Ireneu de Lyon no século II, em que o primeiro bispo de Roma mencionado era Lino.

Eusébio cita então a lista de Ireneu, onde o bispo de Lyon classifica Lino como o primeiro bispo de Roma:

Livro V

VI

[Lista dos bispos de Roma]

1. "Os bem-aventurados apóstolos, depois de haverem fundado e edificado a Igreja, puseram o ministério do episcopado em mãos de Lino. Este Lino é mencionado por Paulo em sua carta a Timóteo ..."

As Constituições Apostólicas, um documento cristão do século IV, também indicam que Lino, tendo sido ordenado por Paulo, foi o primeiro bispo de Roma, sendo o seu sucessor Clemente, que foi ordenado por Pedro (cfr. Constituições Apostólicas 7.4).

Anacleto é considerado o sucessor de Lino por Ireneu.


A BÍBLIA E A HISTÓRIA FORNECEM EVIDÊNCIA DEFINITIVA DA NATUREZA VÁCUA E ESPÚRIA DAS PRETENSÕES ROMANISTAS

«As listas mais antigas de papas começam, não com Pedro, mas com um homem chamado Lino. A razão pela qual o nome de Pedro não foi listado foi porque ele era um apóstolo, que era uma super-categoria, muito superior a papa ou bispo... A comunidade cristã em Roma, bem dentro do segundo século operava como uma coleção de comunidades separadas sem qualquer estrutura central... Roma era uma constelação de igrejas domésticas, independentes umas das outras, cada uma das quais era livremente governada por um ancião. As comunidades, portanto, basicamente seguiam o padrão das sinagogas Judaicas das quais se desenvolveram.» (John O'Malley, A History of the Popes, Sheed & Ward, 2009, p. 11)

«É certo que a posição católica, que os bispos são os sucessores dos apóstolos por instituição divina, está longe de ser fácil de estabelecer... O primeiro problema tem a ver com a noção de que Cristo ordenou apóstolos como bispos... Os apóstolos eram missionários e fundadores de igrejas; não há nenhuma evidência, nem é de todo provável, de que qualquer um deles alguma vez tenha fixado residência permanente numa igreja em particular como seu bispo... A carta dos Romanos aos Coríntios, conhecida como I Clemente, que data de cerca do ano 96, fornece boas evidências de que cerca de 30 anos após a morte de São Paulo a igreja de Corinto estava sendo liderada por um grupo de presbíteros, sem indicação de um bispo com autoridade sobre toda a igreja local... A maioria dos académicos são da opinião de que a igreja de Roma, muito provavelmente também era liderada nesse tempo por um grupo de presbíteros... Existe um amplo consenso entre os académicos, incluindo muitos católicos, que igrejas como Alexandria, Filipos, Corinto e Roma, muito provavelmente, continuaram a ser lideradas durante algum tempo por um colégio de presbíteros, e que só no segundo século a estrutura tríplice tornou-se a regra geral, com um bispo, assistido por presbíteros, presidindo a cada igreja local.» (Sullivan F.A. From Apostles to Bishops: the development of the episcopacy in the early church. Newman Press, Mahwah (NJ), 2001, pp. 13,14,15).

«De acordo com Ireneu, Pedro e Paulo, não somente Pedro, nomearam Lino como o primeiro na sucessão de bispos de Roma. Isto sugere que Ireneu não pensava em Pedro e Paulo como bispos, ou em Lino e aqueles que se seguiram como sucessores de Pedro mais do que de Paulo.»  (Sullivan F.A. From Apostles to Bishops: the development of the episcopacy in the early church. Newman Press, Mahwah (NJ), 2001, p. 148).

«Devemos concluir que o Novo Testamento não fornece nenhuma base para a noção de que antes dos apóstolos morrerem, eles ordenaram um homem para cada uma das igrejas que eles fundaram... "Havia um Bispo de Roma no primeiro século?"... A evidência disponível indica que a igreja em Roma era liderada por um colégio de presbíteros, e não por um único bispo, por pelo menos várias décadas do século II.» (Sullivan F.A. From Apostles to Bishops: the development of the episcopacy in the early church. Newman Press, Mahwah (NJ), 2001, p. 80,221-222).

«Fontes primitivas, incluindo Eusébio, afirmam que Lino ocupou o cargo por cerca de 12 anos, mas elas não são claras sobre as datas exatas ou o seu exato papel pastoral e autoridade. Deve ser lembrado que ao contrário da piedosa crença católica, a estrutura episcopal monárquica de governo da igreja (também conhecida como o episcopado monárquico, em que cada diocese era liderada por um único bispo) ainda não existia em Roma neste tempo.» (McBrien, Richard P. Lives of the Popes: The Pontiffs from St. Peter to Benedict XVIHarper, San Francisco, 2005 updated ed., p. 34).

«Para começar, na verdade, não havia 'papa', nem bispo como tal, pois a igreja em Roma foi lenta a desenvolver o cargo de presbítero ou bispo chefe... Clemente não fez nenhuma reivindicação de escrever como bispo... Não há nenhuma maneira de definir uma data em que o cargo de bispo dirigente surgiu em Roma... mas o processo estava certamente completo pelo tempo de Aniceto, por volta do ano 150.» (Duffy, Eamon. Saints & Sinners: A History of the Popes, 2nd ed. Yale University Press, London, 2001, pp. 9, 10,13).

«O fracionamento em Roma favoreceu um sistema de governo presbiteral colegial e impediu durante muito tempo, até à segunda metade do século II, o desenvolvimento de um episcopado monárquico na cidade. Vítor (c. 189-99) foi o primeiro que, após tímidas tentativas de Eleutério (c. 175-89), Sotero (c. 166-75) e Aniceto (c. 155-66), avançou energicamente como bispo monárquico e (por vezes, apenas porque era incitado do exterior) tentou colocar os diferentes grupos da cidade sob a sua supervisão ou, quando tal não era possível, estabelecer barreiras através da excomunhão. Antes da segunda metade do século II, não havia em Roma nenhum episcopado monárquico nos círculos mutuamente unidos em comunhão.» Peter Lampe, From Paul to Valentinus: Christians at Rome in the First Two Centuries, trans. Michael Steinhauser (Minneapolis: Fortress Press, 2003) p. 397.



23 abril 2024

Do infanticídio cometido por Herodes e o final catastrófico de sua vida

Giotto di Bondone Masacre dos Inocentes Scrovegni Pádua XIV seculo
Fonte: http://goo.gl/oHZ5dl




VIII
[Do infanticídio cometido por Herodes e o final catastrófico de sua vida]

1.            Nascido Cristo em Belém de Judá, conforme as profecias[1] no tempo men­cionado, Herodes, ante a pergunta dos magos vindos do Oriente que queriam saber onde se achava o nascido rei dos judeus - porque tinham visto sua estrela, e o motivo de sua viagem tão longa era seu empenho em adorar como Deus ao recém-nascido -, bastante perturbado pelo assunto, como se estivesse em perigo sua soberania - ao menos era o que ele realmente pensava -, depois de informar-se com os doutores da lei dentre o povo onde esperavam que haveria de nascer o Cristo, assim que soube que a profecia de Miquéias indicava Belém, ordenou mediante um edito matar os meninos de peito de Belém e redondezas, de dois anos para baixo, segundo o tempo exato indicado pelos magos, pensando que também Jesus, como era natu­ral, teria certamente a mesma sorte que os outros meninos de sua idade.

2.            Mas o menino, levado para o Egito, adiantou-se ao plano: um anjo apareceu a seus pais indicando-lhes de antemão o que iria acontecer. Isto é o que nos ensina a Sagrada Escritura do Evangelho[2].

3.            Mas, além disso, é conveniente dar uma olhada na resposta pelo atrevimento de Herodes contra Cristo e os meninos de sua idade. Imediatamente depois, sem a menor demora, a justiça divina o perseguiu quando ainda transbordava de vida e lhe mostrou o prelúdio do que o aguardava para depois de sua saída desta vida.

4.            Não é possível resumir agora as sucessivas calamidades domésticas com que se enevoou a suposta prosperidade de seu reino: os assassinatos de sua mulher, de seus filhos e de outras pessoas muito próximas a sua família por parentesco e por amizade. O que se pode supor a respeito disso deixa à sombra qualquer representação trágica. Josefo o explica extensamente em seus relatos históricos.

5.            Mas sobre como um flagelo divino o arrebatou e ele começou a morrer já desde o momento em que conspirou contra nosso Salvador e contra os demais meninos, será bom escutar as palavras do próprio escritor, que no livro XVII de suas Antiguidades judaicas descreveu o final catastrófico da vida de Herodes como segue:

"A doença de Herodes fazia-se mais e mais virulenta. Deus vingava seus crimes.

6.            Com efeito, era um fogo suave que não denunciava ao tato dos que o apal­pavam um abrasamento como o que por dentro aumentava sua destruição; e logo uma vontade terrível de comer algo, sem que nada lhe servisse, ulcerações e dores atrozes nos intestinos, e sobretudo no ventre, com inchaço úmido e reluzente nos pés.

7.     Em torno do baixo-ventre tinha uma infecção parecida; mais ainda, suas partes pudendas estavam podres e criavam vermes. Sua respiração era de uma rigidez aguda e extremamente desagradável pela carga de supuração e por sua forte asma; em todos os membros sofria espasmos de uma força insuportável.

8.      O certo é que os adivinhos e os que têm sabedoria para predizer estas coisas diziam que Deus estava fazendo-se pagar pelas muitas impiedades do rei." Isto é o que o autor citado anota na mencionada obra.

9.      E no livro segundo de seus relatos históricos nos dá uma tradição parecida acerca do mesmo assunto, escrevendo assim:

"Então a enfermidade se apoderou de todo o seu corpo e foi destroçando-o com variados sofrimentos. A febre na verdade era fraca, mas era insuportável a comichão em toda a superfície do corpo, as dores contínuas do ventre, os edemas dos pés, como de um hidrópico, a inflamação do baixo-ventre e a podridão verminosa de suas partes pudendas, ao que se deve acrescentar a asma, a dispnéia e espasmos em todos seus membros, ao ponto de os adivinhos dizerem que estes sofrimentos eram um castigo.

10.     Mas ele, mesmo lutando com tais padecimentos, ainda se aferrava à vida, e
esperando salvar-se imaginava curas. Atravessou o Jordão e utilizou as águas termais de Calirroe. Estas vão desaguar no mar do Asfalto[3], e como são doces são também potáveis.

11.     Ali os médicos decidiram aquecer com azeite quente todo seu purulento corpo em uma banheira cheia de azeite; desmaiou e revirou os olhos, como se estivesse acabado. Armou-se grande alvoroço entre os criados, e com o ruído voltou a si. Renunciando desde então à cura, mandou distribuir a cada soldado 50 dracmas e muito dinheiro aos chefes e a seus amigos.

12.     Regressou então e chegou a Jericó, já vítima da melancolia e ameaçado pela morte. Pôs-se a tramar uma ação criminosa. De fato, fez reunir os notáveis de cada aldeia de toda a Judéia e mandou encerrá-los no chamado hipódromo.

13.     Chamando depois sua irmã Salomé e seu marido Alexandre, disse: Sei que os judeus festejarão minha morte, mas posso ainda ser pranteado por outros e ter uns funerais esplêndidos se vocês atenderem minhas ordens. Assim que eu expirar, fazei com que cada um dos homens aqui detidos seja imediatamente cercado por soldados e fazei com que os matem, para que a Judéia inteira e cada casa, ainda que à força, chore por mim."

14.     E um pouco mais adiante diz:

"Depois, torturado também pela falta de alimento e por uma tosse espasmódica e abatido pelas dores, tramava antecipar a hora fatal. Pegou uma maçã e pediu uma faca, pois tinha o costume de cortá-la para comê-la. Depois, olhando em volta por medo de que houvesse alguém para impedi-lo, levantou sua mão direita com a intenção de ferir-se."

15.     Além destes detalhes, o mesmo escritor refere que, antes de morrer de todo, mandou que matassem outro de seus filhos legítimos, terceiro que somou aos outros dois já assassinados anteriormente[4], e no mesmo momento, de repente e entre enormes dores, expirou[5].

Assim foi o final de Herodes, justo e merecido pelo infanticídio perpetrado em Belém por atentar contra nosso Salvador. Depois disto, um anjo se apresentou em sonhos a José, que vivia no Egito, e ordenou-lhe partir com o menino e sua mãe para a Judéia, explicando-lhe que estavam mortos os que buscavam a morte do menino, ao que acrescenta o evangelista: Porém, ouvindo que Arquelau reinava no lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá, mas avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galiléia[6].



[1] Mq 5:l (5:2); Mt 2:5-6.
[2] Mt 2:1-7; 16:13-15.
[3] O Mar Morto.
[4] No ano 29 a.C. Herodes matou sua segunda esposa, Mariana; em 7 a.C. os filhos que teve dela, Alexandre e Aristóbulo, e apenas cinco dias antes de sua morte, em 4 a.C. matou Antípatro, filho de sua primeira mulher, Doris.
[5] Aos setenta anos, provavelmente em março ou abril de 4 a.C.
[6] Mt 2:22.
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