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27 janeiro 2023

O capitalismo de Estado da "pobreza menstrual"

 

A Bolsa Modess da Dona Tabata merece ser chamada de retrocesso. O Bolsa Família deu certo apostando na liberdade do pobre em escolher como gastar o próprio dinheiro, ao tempo que reduzia a burocracia. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo via OTambosi

  • 08/10/2021 12:03

Guardei o papelzinho do absorvente Always. Aquele papelzinho que puxamos para colar o absorvente na calcinha. Nele, para a minha surpresa, vinha um monte de florezinhas e escritos motivacionais: “Força”, “Meu jeito/ Nossa vitória”, “Seja o lado bom”, “#TamosJuntas”, “Não desista”, “Meninas Podem!”, “Acredite” e “Permita-se!”. Algum publicitário idiota acha perfeitamente normal e sadia a ideia de receber motivação impessoal e anônima de um absorvente. É mal generalizado; vemos um monte de frases piegas e anônimas espalhadas por placas. Eu não quero viver numa sociedade em que todos presumem que sou uma órfã que precisa de empatia, e muito menos numa sociedade em que a empatia venha de coisas inanimadas como um papelzinho de absorvente.

Mas ao ver a montanha de florezinhas me ocorreu também que o produto hoje é voltado para uma faixa etária baixa, para adolescentes em vez de mulheres feitas. Com a pílula, é provável que os absorventes descartáveis tenham visto sua receita despencar ao longo dos anos. Qual a solução? Lobby! Basta emplacar uma compra bem grandona com governos.

Triste história contada pela Always

Você na certa viu a tristíssima estatística de que um quarto das meninas faltam às aulas por não poderem comprar absorventes descartáveis. Essa estatística é repetida sem que se fale sempre na sua origem: um estudo da Always. Tem hora que o Brasil é pior que o mundo no que concerne ao tratamento dado a homossexuais, graças aos dados do GGB (Grupo Gay da Bahia). E tem hora que é pior que o mundo, graças aos dados da Always: “A ONU estima que 1 em cada 10 meninas falte a escola durante a menstruação, e no Brasil esse índice é ainda pior. Segundo a pesquisa, 1 em cada 4 mulheres já faltou a aula por não poder comprar absorventes. Quase metade destas (48%) tentaram esconder que o motivo foi a falta de absorventes e 45% acredita que não ir à aula por falta de absorventes impactou negativamente o seu rendimento escolar.

Empresas privadas se comportam como ongueiros – aliás, arranjam até uma ONG de fachada para mascarar o seu lobby. Como mostrou a cientista política Marize Schons em suas redes sociais, a P&G, dona da Always, é uma financiadora da ONG Girl Up. E essa ONG é a responsável por criar um projeto para usar o seu dinheirinho para “combater a pobreza menstrual” – termo que ninguém conhecia e que de repente parece um problema urgentíssimo.

A jornalista Paula Schmitt comparou a conduta dos lobistas à dos cracudos que pedem para pessoas decentes comprarem o leite das crianças. Ela tem razão; afinal, um jeito bem eficaz de tirar dinheiro dos outros é dizer que é para ajudar criancinha pobre. Depois o cracudo revende o leite e o lobista faz a festa com a licitação.

E os movimentos liberais, hein?

Nas redes sociais, políticos do Novo, do MBL e a conta oficial do Livres têm defendido que Bolsonaro é mau como um pica-pau por não ter apoiado a Bolsa Absorvente da Dona Tabata. A Bolsa Modess seria super compatível com o liberalismo porque absorvente não é privilégio. E comida? Comida é mais importante que absorvente. Será então que o governo deveria abrir licitação de feijão pra distribuir?

Isso lembra o debate do início dos anos 2000 em torno do Bolsa Família. Quando Lula assumiu, queria implementar o Fome Zero, que coletava alimentos e os distribuía aos necessitados. O projeto acabou abandonado. Com a introdução dos economistas liberais por Palocci, Lula largou os economistas da Unicamp e adotou figuras como Marcos Lisboa, que cito: “José Márcio Camargo e Francisco Ferreira fizeram então a proposta de unificar todos os programas de transferência de renda [do governo FHC, tais como Bolsa Escola e Vale Gás] e distribuir os recursos para as famílias mais pobres com filhos na escola. No lugar de variados programas que subsidiavam o consumo de bens específicos [tais como a novidade da vez, que é o absorvente descartável], seria preferível transferir renda, dinheiro, diretamente às famílias extremamente pobres. Caberia a elas, então, decidir como melhor utilizar esses recursos para atender às suas necessidades. Foi esse o caminho afinal tomado pelo governo – o da unificação e focalização dos programas de transferência de renda –, apesar da oposição feita por muitos economistas e intelectuais ligados ao PT. O mérito por essa guinada é do presidente Lula, com o apoio decisivo do ministro Antonio Palocci. Eles souberam reformular a política social – e abraçar a agenda liberal – quando ficou claro o fracasso das propostas originalmente defendidas pelo PT, como Fome Zero e Primeiro Emprego. Nascia assim o Bolsa Família.”

A Bolsa Modess da Dona Tabata merece ser chamada de retrocesso. O Bolsa Família deu certo apostando na liberdade do pobre em escolher como gastar o próprio dinheiro, ao tempo que reduzia a burocracia. Desde a época do PT, as meninas pobres têm o dinheiro do Bolsa Família para comprar absorventes. É claro que a mãe da menina vai saber melhor do que o Estado quantos pacotes a filha usa por mês e qual modelo é o seu preferido. (Com abas? Sem abas? Precisa de absorvente noturno ou o fluxo é pouco?) Agora, a menina pobre tem uma outra receita para comprar absorventes: o Auxílio Brasil, que Bolsonaro quer unificar com o Bolsa Família mantendo a filosofia liberal.

Em matéria de liberalismo, Tabata, o Novo, o MBL e o Livres estão mais perto de Maria da Conceição Tavares do que de Marcos Lisboa. Podem ir dar aula de economia na Unicamp e na UFRJ. Ou isso, ou sua atuação política é lobby disfarçado de preocupação com os brasileiros.



09 outubro 2021

Não tenho lugar de fala para escrever sobre absorventes. Mas escrevo mesmo assim

 


Essa é uma daquelas peças que a vida nos prega: nunca imaginei que um dia escreveria um texto sobre absorventes. Via Gazeta, a crônica de Paulo Polzonoff via OTambosi


O absorvente higiênico feminino está na moda. Tudo porque uma deputada ingenuamente acreditou numa pesquisa que dizia que 25% das meninas faltam às aulas por não terem dinheiro para comprar o produto. A deputada, ela própria uma consequência da política-de-slogans que faz a cabeça dos jovenzinhos, passou a ser uma ativista de uma causa improvavelmente batizada de “pobreza menstrual”.

O assunto tomou conta das redes sociais. E o presidente Jair Bolsonaro, antes vilão por causa de um sem-número de declarações infelizes (outro dia mesmo ele disse “bom dia”. Veja só que absurdo!), agora também é vilão por vetar uma lei proposta pela deputada (que, curiosamente, não é filiada ao PCdOB) que previa a distribuição de absorventes a meninas pobres, para que elas não faltassem às aulas.

(Aliás, me permita abrir um parêntese aqui para contar que outro dia vi uma matéria daquelas bem sentimentais, mas bem sentimentais mesmo, com pianinho deprimente e tudo, e que mostrava a miséria em algum rincão do país. Por insondáveis motivos, o jornalista decidiu incluir o termo “pobreza menstrual” na matéria. De tão absurdo, o termo chamou minha atenção. Ergui os olhos para a TV e encontrei na tela a figura de uma moça muito pobre, numa favela. Com os braços cheios de tatuagem e o indefectível celular na mão, ela reclamava da falta de comida e absorventes).

Nessa balbúrdia toda envolvendo absorventes, o antibolsonarismo psicótico deu as caras, provando ser um vírus social que não poupa nem mesmo os mais liberais. Pois não é que teve libertário defendendo a distribuição de absorventes – e ainda por cima dizendo que essa distribuição é gratuita? Na hora de ir contra o presidente, os liberais de ocasião passam por cima de Mises sem a menor vergonha. Afinal, se julgam livres também para isso.

Absorventes e líquido azul

O resultado é que agora todo mundo tem uma opinião sobre menstruação. Até eu, que nunca tive opinião sobre o assunto e sempre me resignei a passar o pacote de absorventes alheio pelo caixa do supermercado com aquele constrangimento típico dos homens nessa situação. De repente, não menos do que de repente, me vi aqui pensando até no vocábulo que, não sabem os novinhos e novinhas, é bem recente.

“Absorvente”, para mim, sempre foi sinônimo de Modess. Ou melhor, modess – a letra minúscula indicando a transição da marca ao vernáculo popular, como acontece com a gilete. Modess era palavra dita entre sussurros, pelas mulheres, e entre o riso e a ignorância constrangida, pelos homens. Era aquela coisa que eu, criança, sabia que existia, mas não tinha a menor ideia de para que servia. Até uma fatídica aula de ciências na escola, quando tudo então ficou mais ou menos esclarecido.

Aliás, a própria palavra “menstruação” é algo que escrevo constrangido. E não porque me falte lugar de fala. Não estou nem aí para lugar de fala. Não acredito em lugar de fala. Enquanto eu tiver coordenação motora para escrever e o São STF permitir, pretendo poder escrever sobre tudo. Nem que seja para falar bobagem. E, se for bobagem, ao menos que desperte o riso em alguém. Mas eu falava sobre o constrangimento de escrever a palavra “menstruação”. O que mesmo eu pretendia falar sobre isso?

Sei lá. Só sei que outro dia mesmo estava me lembrando de uma das poucas aulas que tive na faculdade de Comunicação. Se não me falha a memória falha, era uma aula de Teoria da Comunicação e o professor falava sobre as propagandas de absorventes, digo, modess, que naquela época usavam sempre um líquido azul para demonstrar o poder de absorção do equipamento. “Eles jamais usariam um líquido vermelho, porque as pessoas teriam nojo disso”, disse o professor. Que pode muito bem ter sido uma professora. Realmente não lembro. Qual não foi minha surpresa, então, ao descobrir que em 2017 uma empresa britânica mandou às favas os escrúpulos menstruais e passou a veicular um comercial que usava sangue?!

Deixando as questões cromáticas de lado, resta-nos rir do comunismo ginecológico de Tabata Amaral. Rir do fato de ele se basear em estatísticas suspeitas. Rir da premissa falsa de que o Estado deve prover tudo, inclusive artigos de higiene pessoal. Rir da ideia de que o Estado é capaz de fazer isso de uma forma minimamente eficiente. Rir até da “generosidade” da indústria, sempre disposta a colaborar com causas sociais, desde que elas envolvam dinheiro público. E, por fim, rir da sinalização da virtude dos oportunistas de sempre – os mesmos que correrão para dizer que não tenho lugar de fala para escrever sobre o assunto.


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