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15 novembro 2022

Theodore Dalrymple: "As universidades fazem lavagem cerebral".

 

Para o psiquiatra britânico Anthony Daniels, enquanto o Estado fomenta o paternalismo, a liberdade do indivíduo depende de seu grau de ação e participação na sociedade. Entrevista a Paula Leal, da Oeste via Otambosi:



Theodore Dalrymple é apenas um dos pseudônimos que o psiquiatra britânico Anthony Daniels utiliza para escrever suas obras e seus artigos. Colunista de Oeste e autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas, Daniels atuou profissionalmente na periferia de grandes cidades, em prisões e países como o Zimbábue e a Tanzânia, além de outros do Leste Europeu e da América Latina. A partir de sua experiência como médico, tornou-se um observador sagaz do comportamento humano. Seu nome é referência quando o assunto é o pensamento conservador contemporâneo.

Em entrevista à Revista Oeste, o médico conversou sobre as reações da população diante da pandemia de covid-19, as políticas públicas adotadas para conter a doença e avaliou possíveis desdobramentos da crise sanitária. Para o psiquiatra, as mudanças nas relações de trabalho podem aumentar ainda mais a disparidade social. “A segregação social será ainda pior, com mais privilégios para alguns”, disse. Avesso ao conceito de Estado de bem-estar social, ele acredita que programas assistenciais “criam uma mentalidade dependente” e iludem o cidadão. “O Estado afirma que cuida de você, quando na verdade nada mais faz do que cumprir com suas metas sociais.”

Direto da França, onde mora atualmente, Daniels conversou por telefone com a reportagem de Oeste. Confira os principais trechos da entrevista.

O mundo vive há dois anos os efeitos da pandemia de covid-19. Como o senhor avalia as reações da população, principalmente dos mais jovens, diante da crise sanitária?

A maior parte das pessoas nunca havia atravessado uma catástrofe de larga escala. Então, não havia referências nem algum evento para efeito de comparação. Os jovens foram muito impactados na pandemia justamente porque, dada a pouca idade, não têm uma bagagem mais ampla que lhes permita relativizar esses eventos e entender que essas coisas são momentâneas dentro de um processo histórico maior. Portanto, a reação emocional deles acaba sendo potencializada. Os jovens, hoje, se sentem pressionados por temas como aquecimento global e temem a extinção do planeta. Veja o caso da Greta Thumberg. Ela disse algo como: ‘Vocês roubaram a minha infância’. Isso é uma infantilidade. Ela é uma menina mimada que não tem ideia sobre o sofrimento humano e o que realmente acontece no mundo.

O mundo pós-pandemia será diferente?

As coisas permanecerão iguais, só que piores (risos). Muitas pessoas ficarão relutantes em voltar ao trabalho. Quem em São Paulo quer enfrentar o trânsito todos os dias? Mas os pobres terão de continuar como antes, voltar ao trabalho, se deslocar. Muitos trabalhadores foram fundamentais nesse período de isolamento. São pessoas com empregos humildes que trabalham em supermercados, são entregadores, motoristas, eles continuaram a trabalhar. Sem eles, seria impossível sobreviver à pandemia. No entanto, outros poderão trabalhar de casa. Se esse for o caso, a segregação social será ainda pior, com mais privilégios para alguns.

As políticas públicas adotadas pelos governantes para conter os efeitos da pandemia foram adequadas?

Tenho alguma simpatia pelos governantes. Ainda que a maior parte das políticas públicas tenha se tornado promotora de instabilidade, a verdade é que, se você está no governo e precisa decidir com urgência, acaba por tomar algumas medidas drásticas. Ainda mais sabendo que, mais à frente, você corre o risco de ser julgado por não ter tomado todas as medidas cabíveis. Nesse sentido, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. O problema é que algumas das medidas tomadas não tinham evidências de que poderiam funcionar. Por exemplo, durante a pandemia, viajei da França para a Holanda para participar de um simpósio. Na Holanda, todas as lojas e restaurantes estavam abertos, enquanto na França estava tudo fechado. Por qual razão as lojas estavam abertas em um país e em outro fechadas? Mas, como todos agiram na ignorância, na verdade não tinha como saber o que iria acontecer.

No Brasil e no mundo, há uma discussão sobre a obrigatoriedade de um passaporte de vacina. O senhor é favorável à vacinação obrigatória?

O que se deve questionar é se quem se vacinou pode transmitir a doença. Se pessoas vacinadas não transmitem a covid, há argumentos a favor da vacinação. No entanto, há um artigo na Lancet dizendo que estar vacinado não impede a transmissão. Se for esse o caso, não vejo por que exigir passaporte da vacina. Mas é claro que o conhecimento científico é mutável. Estou completamente vacinado, mas não quero frequentar lugares com aglomerações. A decisão é minha. Jovens sem problemas de saúde têm menor risco de complicações pela doença. É uma decisão individual. Se pessoas vacinadas transmitem a doença, não há justificativa para obrigá-las a tomar a vacina.

Recentemente, o senhor publicou um artigo em Oeste que aborda o tema da decadência do Ocidente. Em comparação com a ditadura chinesa, o que está acontecendo com a democracia no Ocidente?

Com a derrocada da União Soviética, acabaram-se as ideologias políticas. Mas, de fato, o que aconteceu é que elas se desmembraram em ideologias identitárias sobre gênero, sexualidade, feminismo e racismo. Isso tem acontecido muito nas universidades. Eles fazem uma verdadeira lavagem cerebral nos alunos, especialmente na área de humanas. E são pessoas que depois também vão assumir cargos na administração pública. Já os chineses não estão preocupados com essas questões, na medida em que o que acontece lá, em um formato aprendido com os russos, é uma ditadura que não dá espaço para essas discussões. Eles mantiveram a estrutura ditatorial oriunda do período comunista, mas adotaram a economia de livre mercado. A população é livre para trabalhar e ganhar dinheiro, mas não para pensar. Não sei se é sustentável a longo prazo. Mas, certamente do ponto de vista de se tornar rico e poderoso, essa política funcionou e está funcionando.

No mesmo artigo, o senhor afirma que a China sabe explorar seus interesses nacionais. Por que o Ocidente enfrenta dificuldade para fazer o mesmo?

De certo modo, há ainda uma ressaca da Segunda Guerra Mundial. Qualquer um que fale sobre interesses nacionais pode ser considerado um admirador de Hitler. Até mesmo entre os mais jovens. Eles aprenderam que qualquer discussão que não seja de direitos humanos universais é fascista.

O senhor aborda o tema da vitimização e da dificuldade do ser humano em assumir responsabilidades na vida em vários de seus livros. Por que esse sentimento é tão presente na sociedade?

Historicamente, há uma tendência das pessoas ao escapismo individual. Isto é, pode-se dizer que é da natureza humana não querer assumir responsabilidades. No entanto, mais recentemente, quando passamos a pensar em termos sociológicos, antropológicos, econômicos e até mesmo criminológicos, esse movimento vem se atenuando, já que as pessoas estão entendendo que sua liberdade depende diretamente do grau de ação e participação em sociedade. Há, de todo modo, uma parcela da população — em sua maioria oriunda de classes menos abastadas — que é levada a esse tipo de pensamento de dependência, porque não precisa se preocupar com educação nem com aposentadoria ou plano de saúde. É alimentada por benefícios como programas sociais.

Em sua obra A Faca Entrou, o senhor aborda, entre outros temas, a questão da vitimização fomentada pelo assistencialismo governamental. Como a atuação do Estado colabora para desencorajar a autonomia individual?

Acredito que a situação no Brasil seja diferente da que temos no Reino Unido. O Brasil não é um país que eu conheça muito. Mas uma coisa é certa: os programas de seguridade social criam uma mentalidade dependente. Não que eu acredite que membros de algum governo tenham se proposto a — ou mesmo tenham conspirado para — tornar as pessoas dependentes. Não é isso. Mas a verdade é que tudo, de programas de seguridade social a até mesmo divórcios, vem tornando as pessoas dependentes. Tome como exemplo o caso hipotético de uma mulher que se divorciou e tem um filho. Ela diz que não quer ter de assumir também o papel de pai da criança e quer ser independente. O que ela quer dizer com ser independente, contudo, nada mais é que receber um subsídio do governo. Isso alimenta a formação de uma mentalidade dependente.

O senhor pode explicar melhor como funciona essa mentalidade dependente?

As pessoas que dependem de programas sociais vivem um duplo jogo de mentira. Elas sabem que, quando lhes dizem que são independentes, porque têm uma casa e uma renda, na verdade, tudo isso não lhes pertence de fato. Tome o exemplo real de uma mulher nessa situação, que, inclusive, tive a oportunidade de visitar. Ela morava em uma casa simples, dada a ela pelo governo. Observei que não cuidava da casa e não limpava o jardim. Quando lhe indaguei a respeito, sua resposta foi que já havia solicitado que o serviço social providenciasse a limpeza. Em resumo, vive-se uma mentira de ambas as partes. O Estado afirma que cuida de você, quando na verdade nada mais faz que cumprir com suas metas sociais. A burocracia não se importa de fato com quem você é enquanto pessoa nem vai cuidar de você como você cuidaria de seu próprio filho. O que a burocracia quer são números para apresentar. Já o cidadão aceita o discurso paternalista, enquanto alimenta uma falsa sensação de autonomia e independência. Como no exemplo que citei, ainda que diga que a casa é do cidadão, na verdade, para ele não é — pertence ao Estado — e, portanto, quem deve cuidar e limpar é o Estado.

O senhor votou a favor do Brexit. Dois anos depois, como está a situação no Reino Unido?

Nem melhor, nem pior. Temos nossos problemas, nossa burocracia infernal. Deixarmos de estar integrados à União Europeia em nada mudou nosso baixo nível educacional, por exemplo. A ideia de sair do grupo, pelo menos na teoria, era muito mais para resgatar nossa autonomia, trazer o controle de volta para o ambiente doméstico. Além disso, acredito que, no longo prazo — provavelmente não estarei vivo para ver —, a União Europeia caminha para uma guerra civil nos moldes da Guerra Civil americana. A ideia política de povos unidos sem algo que de fato os vincule pode ser desastrosa.


01 maio 2022

Me deixem falar uma coisa

 

Eu também não confio em bilionários. Mas confio mais em bilionários que em milionários. A crônica de Alexandre Soares Silva para a Crusoé via OTambosi:

“Não confio em bilionários”, estão dizendo todos, agora que Elon Musk comprou o Twitter.

Bom, eu também não confio em bilionários. Mas confio mais em bilionários que em milionários, e confio mais em milionários que na classe média alta, e mais na classe média alta que na média, e mais na média que na baixa, e mais na baixa que em mendigos, e mais em mendigos que em crackudos, e mais em crackudos que em presidiários queimando colchões, decapitando colegas e contrabandeando maços de cigarros enfiados nos seus derrières.

Não é que eu confie em quem tem dinheiro. É só que eu desconfio mais de quem não tem. Como vou confiar que alguém cuide dos meus interesses, se ele é tão ruim em cuidar dos seus? Qual a chance que isso aconteça? Mas ainda confio mais em crackudos e presidiários que em políticos, estudantes de todas as espécies, e professores da USP. Achei importante frisar isso, para que não achem que sou maluco.

Suponho que sou um defensor da liberdade de expressão não tanto por motivos racionais, que existem, e que posso enumerar se você pedir e se nós dois conseguirmos ficar acordados enquanto enumero, mas porque instintivamente associo a falta de liberdade de expressão com o fato de que não consigo dormir com as pernas presas pelo lençol. Assim que estou sem lençol, nem penso em mexer as pernas, tudo está bem, e durmo tranquilo; mas assim que me meto, por exemplo, nos lençois opressivamente justos de um hotel (por que sempre fazem assim em hotéis?), preciso mexer as pernas compulsivamente.

É assim que me sinto quando falam que não posso dizer isso ou aquilo ou vou ter o meu perfil apagado. Eu nem queria dizer aquilo, não penso nada daquilo, acho horrível aquilo (vamos fingir), mas agora preciso dizer aquilo. Dá até uma angústia se não disser, e acabo enchendo meus amigos com mensagens moralmente horrorosas de WhatsApp só porque não me deixaram falar a mesma coisa no Twitter. É uma espécie de Tourette das opiniões. Suponho que o número de pessoas sofrendo do mesmo mal deve estar crescendo pelo mundo inteiro, à medida em que a liberdade de expressão diminui.

“Não há nenhuma exceção legítima ao direito da livre expressão”, escreveu o economista libertário Walter Block, em um livro de 1976, chamado Defendendo o Indefensável. É um livro muito divertido em que ele defende o direito de chantagistas, proxenetas, publicitários e pessoas desse tipo. Tem também um capítulo em que ele defende o direito das pessoas gritarem fogo num cinema lotado. Eu aprecio a coragem (o que os judeus chamam de “chutzpah”) necessária pra escrever essas coisas. Mas nenhum dos seus argumentos me convence muito, e ainda prefiro o meu argumento “mas-eu-fico-aflito-quando-não-posso-dizer-uma-coisa”.

Há, claro, o argumento do filósofo inglês John Stuart Mill. Vou explicar o argumento, tentando ser breve e bem didático, e fingindo que li John Stuart Mill. O argumento é que se as coisas boas que existem na sociedade (deve haver algumas) não forem submetidas ao ataque contínuo das ideias ruins que querem destruí-las, vamos aos poucos esquecer por que essas coisas são boas, e em uma ou duas gerações seremos completamente incapazes de defendê-las de qualquer ataque retórico. Acho o argumento bem razoável.

Ainda outro argumento é o de Jordan Peterson, que a liberdade de expressão é análoga à terapia freudiana: aquilo que reprimimos cresce e nos infecta; aquilo que expressamos, dominamos e podemos vir a abandonar. Razoável também.

De qualquer forma entendo um pouco o pânico dos progressistas com a notícia da compra do Twitter por Elon Musk. O Twitter para eles sempre foi um clube onde eles podiam se juntar com pessoas parecidas com eles. Conservadores podiam entrar também, mas, assim que incomodavam demais, um progressista fazia um gesto discreto para um segurança e o conservador era levado para um quartinho nos fundos, onde era devidamente espancado. Passado esse contato breve e sórdido com um conservador, o progressista podia relaxar com os seus amigos em volta da piscina do clube. Devia ser muito aconchegante. Quem não quer um clube feito só de pessoas parecidas conosco?

Gosto de fingir que gosto de variedade de opinões. Já devo ter contado essa lorota até aqui na Crusoé. Se menti, menti até para mim, porque é gostoso pensar em mim mesmo como alguém civilizado que gosta de debater com os outros enquanto bebe uma taça de vinho do porto e oferece um charuto. Mas a verdade é que, embora ache que o mundo é melhor com muitas opiniões diferentes, prefiro que as opiniões diferentes das minhas fiquem longe de mim.

Como os progressistas, gosto de viver numa bolha. Mas sempre podemos viver em bolhas, já que escolhemos quem seguimos na internet. O que incomoda os progressistas não é tanto que não possam viver numa bolha, porque podem. É a existência de outras bolhas ao lado da bolha deles. É o fato de que nessas outras bolhas as pessoas estão falando uns negócios lá. E esse é um incômodo do qual não compartilho e do qual me parece monstruoso compartilhar.



07 dezembro 2015

EUA: Porte de armas cresce 178% em 7 anos; criminalidade despenca

"Mais permissões [para porte de armas] significa que está ficando mais difícil para os criminosos atacarem as vítimas".

De 2007 até o presente momento, o número de americanos com licença para portar armas cresceu 178% (fonte, página 9).
Só no ano passado, foram emitidas mais de 1,7 milhão de novas licenças, um crescimento de 15,4% num único ano — o maior já registrado —, totalizando 12,8 milhões de autorizações de porte de armas (fonte, página 6).
Essa estatística despertou a preocupação de diversas organizações desarmamentistas, que temiam que as armas elevassem as taxas de homicídio no país.
Mas o que os dados recentes revelaram foi justamente o contrário: ao mesmo tempo em que o número de cidadãos armados cresceu, a taxa de crimes violentos despencou no país inteiro.
Segundo estatísticas oficiais do governo, citadas neste estudo do Centro de Pesquisa para a Prevenção de Crimes, a taxa de crimes violentos caiu 25% no período e a taxa de homicídios por 100 mil habitantes saiu dos 5,6 para os 4,2, apesar do crescimento massivo do porte de armas. Os números são os mais baixos desde 1957, quando a taxa de homicídios atingiu 4,0 por 100 mil habitantes.
Um dado interessante encontrado pelos pesquisadores foi o de que as mulheres estão se armando mais do que os homens: entre 2007 e 2014, o número de mulheres com porte de arma cresceu 270%, enquanto entre os homens o número foi elevado em 156% (fonte, página 10).
Além das mulheres, a população negra também está se armando mais. Uma análise, citada no estudo, revelou que entre 2012 e 2014, o grupo que mais mudou de opinião em relação aos benefícios do armamento foram os negros (fonte, página 14).
De acordo com a pesquisa, conduzida pelo Pew Research Center, a proporção de afro-americanos que responderam que armas contribuem mais para a autodefesa do que para crimes saltou dos 29% para 54% — um crescimento de 86% —, no sentido contrário do estereótipo de que armamentistas são, em geral, brancos. Além de terem se tornado mais favoráveis, a população negra também tirou mais licenças para porte de armas (fonte, página 10).
"Mais permissões [para porte de armas] significa que está ficando mais difícil para os criminosos atacarem as vítimas", afirma John Lott, autor do estudo. "A composição de pessoas que estão ganhando as novas permissões também está mudando. Estamos vendo um grande aumento entre minorias e mulheres tirando essa autorização. Ter esses grupos mais armados contribui muito para reduzir a criminalidade."
Para Lott, além da visão da população sobre o armamento ter mudado, outro fator que contribuiu para o crescimento do número de licenças para porte de armas foi a redução do custo dessas licenças, que varia de estado para estado.
Como destaca o economista, os estados que reduziram o custo dessa autorização — que varia de US$ 10 a US$ 450 (fonte, páginas 5 e 6) — ou ainda os que já praticavam preços mais baixos, tiveram maiores crescimentos no número de cidadãos negros registrando o porte.
Atualmente, 5,2% da população adulta possui licença para portar armas nos Estados Unidos (fonte, página 4). Apesar disso, em 5 estados (Alabama, Dakota do Sul, Indiana, Pensilvânia e Tennessee), a taxa de porte de armas por adulto está acima dos 10% (fonte, página 5).
O gráfico abaixo (fonte, página 5) mostra a evolução do porte de armas nos EUA em porcentagem da população adulta (eixo Y, linha contínua) e a evolução da taxa de homicídios por 100 mil habitantes (também eixo Y, pontos azuis):

Em contraste, no Brasil, apenas 0,00185% da população possui autorização para portar armas, segundo o Instituto Defesa— aqui, a UF com a maior taxa de porte de armas é a do Distrito Federal, que tem 7,2 vezes mais autorizações para porte que a média nacional.
O estudo ainda destaca que o policiamento não pode ser tomado como responsável pela queda na criminalidade: mesmo após isolar dados de policiamento per capita e de prisões, o crescimento do número de licenças para porte de armas continuou associado com a redução no número de crimes violentos e homicídios. (fonte, páginas 4 e 19)
Apesar do alto crescimento nos últimos anos, o número de licenças para porte de armas emitidas nos Estados Unidos pode diminuir nas próximas décadas, mas por uma outra razão: atualmente, em 6 estados, o ato de portar armas visíveis em público não requer nenhuma autorização. Apesar do número ainda pequeno, a cada ano mais estados se juntam a esse grupo — em 2010, 3 estados permitiam o porte sem autorização.
Maine, que no início deste mês anunciou a nova lei, foi o último estado a entrar para a lista. Com a mudança na legislação, que entra em vigor em outubro, o estado se junta ao grupo de estados mais liberais em relação ao porte de armas, ao lado de Alasca, Arizona, Wyoming, Kansas e Vermont. Além destes, outros cinco estados também possuem uma legislação similar em relação ao porte sem necessidade de autorização, embora apenas para casos especiais.
O mapa abaixo mostra a distribuição de assassinatos em massa praticados com armas de fogo (mass shootings) em cada estado americano:
Tiroteios em massa desde 2012.
Fonte: Vox.com
Já este mapa mostra o número de armas de fogo por habitante.

Uma imagem vale mais que mil palavras. Os estados costeiros, por exemplo, possuem uma taxa de armas de fogo bem baixa e leis bem restritas com o porte e a posse desses artefatos. Nada disso impediu que 486 inocentes perdessem a vida entre 2000 e 2013 em assassinatos em massa praticados com armas de fogo (mass shootings) exatamente nestes estados.
Por fim, e ironicamente, o controle de armas tem um histórico racista. Nos Estados Unidos, foi usada por diversos estados como forma de evitar que os escravos revidassem os abusos de seus senhores. O medo era tão grande que até cães chegaram a ser considerados uma "arma" e sua posse por negros, proibida.

Publicado no site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

Leônidas Villeneuve é colunista do site Spotniks.




17 janeiro 2015

O real significado da “separação entre a Igreja e o Estado”

Bill Federer revela a verdade por trás das palavras mais distorcidas de Thomas Jefferson.



Em 1 de janeiro de 1802, o povo de Cheshire, Massachusetts, enviou um bloco gigante de queijo ao presidente Thomas Jefferson, sendo apresentado pelo famoso pastor batista, John Leland.
John Leland foi então convidado a pregar para o presidente e o Congresso no Capitólio dos Estados Unidos. O tema de sua palestra foi "a separação entre a Igreja e o Estado".
Os batistas tinham sido particularmente perseguidos na Virgínia colonial, como Francis L. Hawks escreveu em História Eclesiástica (1836): "Nenhum dissidente na Virginia experimentou por um tempo tratamento mais severo do que os batistas. Eles eram espancados e presos… A crueldade forçava a criatividade a inventar novas formas de punição e aborrecimento".
Assim, muitos pastores batistas eram perseguidos e seus cultos interrompidos de modo que James Madison introduziu uma lei na Câmara Legislativa da Virginia, em 31 de outubro de 1785, intitulada "Uma Lei para Punir Perturbadores de Culto Religioso", que foi aprovada em 1789.
A Virginia Colonial teve uma lei da Igreja da Inglaterra, ou da "Igreja Anglicana" a partir de 1606 até 1786. A lei significava todos eram obrigados a ser membros dessa igreja e todos tinham de pagar impostos para sustentá-la e ninguém poderia ocupar cargos públicos, a menos que fosse um de seus membros.
Ao longo do tempo, a aplicação frouxa da lei permitiu que grupos religiosos "dissidentes" entrassem na Virginia, sendo os primeiros os presbiterianos e quakers, seguidos pelos luteranos alemães, os menonitas e a Irmandade da Morávia e, então finalmente, os batistas.
John Leland, que considerou concorrer para o Congresso, queria uma alteração na nova Constituição dos Estados Unidos que protegesse a liberdade religiosa.
Leland teria se encontrado com James Madison perto de Orange, Virginia, e com a promessa de Madison de introduzir o que viria a ser a Primeira Emenda, Leland persuadiu aos batistas para o apoiarem.
John Leland escreveu nos inalienáveis Direitos de Consciência de 1791, que eles queriam não apenas tolerância, mas a igualdade: "Todo homem tem de dar contas de si mesmo a Deus e, portanto, cada um deve ter a liberdade de servir a Deus de uma forma que ele possa conciliar melhor com a sua consciência. Se o governo puder responder por indivíduos no dia do juízo, que os homens possam ser controlados por ele em questões religiosas; de outro modo, que os homens sejam livres".
Seguindo o Primeiro Grande Despertamento de Avivamento de George Whitefield, um Segundo Grande Despertamento de Avivamento ocorreu no condado de Albemarle, de Jefferson.
Cultos de avivamento de batistas, presbiterianos e metodistas eram realizados. Até a filha de Jefferson, Mary, participou de um avivamento batista pregado por Lorenzo Dow.
Dolly Madison, esposa de James Madison, informou que, em 1774, Jefferson jantou em Monticello, juntamente um outro convidado, o pastor batista Andrew Tribble.
Depois de questionar o Pastor Tribble sobre como um governo da igreja batista funcionava, Jefferson comentou: "(Essa) era a única forma de democracia pura que existe no mundo… Seria o melhor plano de governo para as colônias americanas".
Durante a Revolução, os pastores anglicanos haviam se aliado ao rei George III, que era o chefe da Igreja Anglicana. Como resultado, os paroquianos patrióticos começaram a sair das igrejas estatais e a entrar nas igrejas "dissidentes".
Embora Jefferson tivesse sido batizado, casado e sepultado pela Igreja Anglicana, conforme registrado em sua Bíblia de família, ele começou uma espécie de igreja dissidente em 1777, chamada de Igreja Reformada Calvinista.
Jefferson redigiu os estatutos da Igreja, que se reunia no Palácio de Justiça do condado de Albemarle. Sua idéia era para que fosse uma igreja "voluntária", sustentada apenas pelas doações voluntárias daqueles que participavam dela, em contraste com o modelo anglicano que contava com o apoio de impostos do governo.
O livro de notas de Jefferson mostra que ele contribuiu para o seu pastor evangélico, o Rev. Charles Clay, bem como para os missionários e outras igrejas: "Eu subscrevi com a construção de uma igreja episcopal, 200 dólares, uma presbiteriana, 60 dólares, e uma batista, 25 dólares".
Depois da Revolução, a Câmara Legislativa da Virginia reescreveu as suas leis para eliminar as referências ao Rei. As Igrejas "dissidentes" pressionaram Jefferson para "desestabilizar" a Igreja Anglicana.
Jefferson respondeu escrevendo a sua Lei para o Estabelecimento da Liberdade Religiosa. Em 1779, o coronel John Harvie, que também era membro da Igreja Reformada Calvinista de Jefferson, apresentou o projeto de lei na Assembléia da Virginia.
Depois que três dos filhos de Jefferson morreram, sua esposa faleceu em 1782. Após o seu funeral, Jefferson sofreu de depressão e se retirou da política. Em sua dor, ele queimou todas as cartas que ele teve com sua esposa e se isolou em seu quarto por três semanas, apenas se aventurando a andar a cavalo pelas colinas de sua propriedade.
A filha de Jefferson, Martha "Patsy" Jefferson, descreveu como ele chorava por horas: "Nesses passeios melancólicos eu era sua companheira constante ... uma testemunha solitária para as muitas explosões de violenta tristeza ... a violência de sua emoção ... até hoje eu não posso descrever de mim mesma".
Tentando ajudar, o Congresso pediu para Jefferson, em 1784, ir para a França como embaixador. A França estava passando por um período de "infidelidade francesa", antes de sua sangrenta Revolução Francesa e Reino de Terror.
Ao voltar para a América, Jefferson se inclinou em direção de liberalismo "deísta-cristão", embora mais tarde na vida ele fosse descrito simplesmente como um "anglicano liberal".
A Lei de Jefferson, que ele anotou em sua lápide como "Estatuto da Virgínia para a Liberdade Religiosa", passou na Assembléia da Virginia, em 16 de janeiro de 1786: "O Deus Todo-Poderoso criou a mente livre. ... Todas as tentativas de influenciá-la por punições temporais ... são um afastamento do plano do Santo Autor da religião que, sendo Senhor tanto de corpo como da mente, ainda assim escolheu não propagá-lo pela coerção de ambos, como estava em seu poder Todo-Poderoso para o fazer. ... Seja decretado ... que nenhum homem deve ... sofrer por conta de suas opiniões religiosas".
O desestabelecimento da Igreja Anglicana da Virginia nunca teria sido aprovado se não fosse pelo bispo metodista Francis Asbury, separando o movimento metodista popular para longe da Igreja Anglicana em sua própria denominação em 1785.
Havia líderes notáveis que resistiram ao "desestabelecimento" da Igreja Anglicana, ou como agora era chamada, a Igreja Episcopal, pessoas tais como o Governador Patrick Henry. Esse movimento foi mais tarde chamado de "anti-desestabelecimentismo".
A Virginia construiu a sua primeira sinagoga judaica em 1789 e a sua primeira Igreja Católica em 1795.
John Leland, em seguida, ajudou a iniciarem várias igrejas batistas em Connecticut, que era um estado que tinha um estabelecimento da Igreja Congregacional desde a sua fundação em 1639 até 1818.
Os batistas em Connecticut formaram a Associação Batista de Danbury e enviaram uma carta ao presidente Jefferson, em 7 de outubro de 1801: "Senhor ... Nossos sentimentos são uniformemente no lado da liberdade religiosa — que a religião é para todo o tempo e coloca um assunto entre Deus e os indivíduos — que nenhum homem deve sofrer em nome, pessoa ou efeitos por conta de suas opiniões religiosas — que o poder legítimo do governo civil não vai além de punir o homem que faz o mal ao próximo: Mas senhor ... nossa carta antiga (em Connecticut ), juntamente com as leis feitas com isso ... são coincidentes; que ... quaisquer privilégios religiosos que desfrutamos (como batistas) ... nós apreciamos como favores concedidos, e não como direitos inalienáveis.
A carta continua: "Senhor, nós estamos cientes de que o presidente dos Estados Unidos não é o legislador nacional e também cientes de que o governo nacional não pode destruir a legislação de cada Estado; mas nossas esperanças são grandes de que os sentimentos de nosso amado Presidente, os quais já tiveram um efeito genial, como as vigas radiantes do Sol, vão brilhar e prevalecer por todos esses Estados e todo o mundo até que a Hierarquia e Tirania sejam destruídas da Terra".
"Senhor", continua a carta, "nós temos razão para acreditar que o Deus da América elevou-o para ocupar a direção do Estado. ... Que Deus o fortaleça para a árdua tarefa que a Providência e a voz do povo vos têm chamado ... e que o Senhor vos conserve a salvo de todo o mal e traga-lhe, enfim, o seu reino celestial por meio de Jesus Cristo, nosso Mediador Glorioso".
Em 1 de janeiro de 1802, Jefferson respondeu com a sua famosa carta, concordando com os batistas de Danbury: "Senhores ... Acreditando como vocês que a religião é um assunto que é da competência exclusiva entre o homem e o seu Deus, que ele não deve dar contas a ninguém pela sua fé ou pelo seu culto, que os poderes legislativos do governo atingem apenas as ações, e não opiniões, eu contemplo com reverência solene que o agir de todo o povo americano que declararam que a sua legislatura ‘não deve fazer nenhuma lei considerando o estabelecimento de uma religião, ou proibindo o seu livre  exercício’, construindo um muro de separação entre a Igreja e o Estado".
Jefferson terminou: "Aderindo a esta expressão da vontade suprema da nação em nome dos direitos da consciência, vou ver com satisfação sincera o progresso desses sentimentos que tendem a restaurar o homem a todos os seus direitos naturais, convencido de que ele não tem nenhuma direito natural em oposição aos seus deveres sociais. Retribuo suas orações amáveis para a proteção e bênção do Pai e Criador do homem comum".
Os batistas estavam familiarizados com a metáfora de Jefferson, "muro de separação", como o fundador batista de Rhode Island, Roger Williams, a usou em seu sangrento Princípio de Perseguição por Causa de Consciência, de 1644: "Os judeus sob o Velho Testamento ... e ... os cristãos sob o Novo Testamento ... foram ambos separados do mundo; e que, quando eles abriram uma lacuna na barreira, ou no muro de separação, entre o jardim da Igreja e o deserto do mundo, Deus já derrubou a parede em si ... e que, portanto, se ele alguma vez vai se agradar a restaurar o Seu jardim e paraíso novamente, ele deverá ser, necessariamente, murado peculiarmente para Si do mundo".
Jefferson via o "muro", como a limitação do governo federal de "inter-intromissão" no governo da igreja, como explicou em sua carta a Samuel Miller, de 23 de janeiro de 1808: "Eu considero o governo dos Estados Unidos como interditado (proibido) pela Constituição de inter-intromissão com instituições religiosas, suas doutrinas, a sua disciplina, ou seus exercícios. Isto resulta não só da prestação de que nenhuma lei deve ser feita respeitando o estabelecimento ou o livre exercício da religião, mas de que também reserva para os estados os poderes não delegados aos Estados Unidos (décima emenda)".
Jefferson continuou: "Certamente, nenhum poder de decretar qualquer culto religioso, ou de assumir a autoridade na disciplina religiosa, foi delegado ao governo (federal) geral. ... Toda sociedade religiosa tem o direito de decidir por si os horários para esses cultos e os objetos adequados para eles, de acordo com os seus próprios dogmas particulares".
O governo federal não se limitou, porém, de espalhar a religião em territórios ocidentais, como em 26 de abril de 1802, o governo de Jefferson estendeu a lei do Congresso de 1787, onde as terras eram designados: "Para uso exclusivo dos índios cristãos e dos missionários da Irmandade da Morávia por civilizarem os índios e promoverem o cristianismo".
E, novamente, em 3 de dezembro de 1803, durante a administração de Jefferson, o Congresso ratificou um tratado com os índios Kaskaskia: "Considerando que a maior parte da referida tribo foi batizada e recebida na Igreja Católica ... os Estados Unidos vão dar anualmente, por sete anos, cem dólares para o apoio de um padre dessa religião, que vai se envolver em realizar para a referida tribo os deveres do seu cargo, e também para instruir a muitos de seus filhos quanto for possível ... e os Estados Unidos vão dar ainda mais a soma de três centenas de dólares, para ajudar a tribo na construção de uma igreja".
Quando a esposa de John Adams ", Abigail, morreu, Thomas Jefferson escreveu-lhe, em 13 de novembro de 1818: "O tempo não está muito distante, em que veremos depositados na mesma mortalha, nossas tristezas e corpos que sofrem, e ascenderemos na sua essência para uma reunião em êxtase com os amigos que temos amado e perdido, e a quem ainda devemos amar e nunca perder de novo. Deus abençoe a você e o apoie sob a sua pesada aflição".
Doze anos antes de sua morte, Jefferson compartilhou as suas visões pessoais para Miles King, em 26 de setembro de 1814: "Nós temos ouvido dizer que não há um quaker, ou um batista, um presbiteriano ou um episcopal, um católico ou protestante no céu; que ao entrar naquele portão, deixamos esses crachás de cisma para trás. ... Vamos ser felizes na esperança de que por estes caminhos diferentes vamos todos nos encontrar no final. E que eu e você possamos nos encontrar e nos abraçarmos, é a minha oração sincera".
Ao longo do tempo, as brilhantes mentes jurídicas usaram as palavras de Jefferson para proibir as crenças de Jefferson.
Jefferson escreveu na Declaração: "Todos os homens são dotados por seu Criador", mas em 2005, o juiz distrital John E. Jones, em Kitzmiller versus Dover Area School District, determinou que os alunos não podem ser ensinados que há um Criador: "Para preservar a separação entre a Igreja e o Estado".
Grupos usam a frase de Jefferson "separação entre a Igreja e o Estado" para remover o reconhecimento nacional de Deus, apesar da advertência de Jefferson contra essa mesma coisa, como está inscrito no Memorial de Jefferson, em Washington, DC: "Deus que nos deu a vida, nos deu liberdade. Podem as liberdades de uma nação estar seguras quando nós removemos a convicção de que essas liberdades são um presente de Deus?"
Tradução: Dionei Vieira 

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