De quatro, ela gemia. Por trás, ele a penetrava e doía. O amor anal é
sempre selvagem e mais íntimo do que todos os outros. Gemia de dor, as
lágrimas escorriam pelos lábios. Ele puxava seus cabelos loiros com força.
Sentia-se uma cadela, momento supremo, pedia que a tratasse por cachorra. Um
filósofo diria: eis a mulher.
Finalmente sentindo-se objeto, como sempre quis. Finalmente alguém que
não a respeitava. Espécie em extinção, homem que não pede licença. As
mulheres ainda vão sonhar com o tempo que faltavam com o respeito com elas
nas ruas.
Ao final, veste-se. A roupa branca trai sua função social: médica. Já no
hospital, sorri para seus pequenos pacientes indefesos. Pediatra bem-sucedida.
Na TV, uma entrevista com uma chatinha condena o comercial da cerveja
“Devassa” como sendo exploração da mulher. Nossa médica gostosa, do alto de
seu salto e de sua roupa branca, sonha em ser de novo objeto no dia seguinte. O
amor anal a deixa ali onde ela quer estar: no lugar do objeto. Nenhuma mulher é
mais amada do que a que é objeto de alguém. E ela pensa: “como essas
chatinhas atrapalham minha vida”. Escondida por baixo das roupas brancas, uma
espécie caçada: a devassa. A mulher que gosta de homem e não é histérica.
A lembrança ainda escorria em suas pernas. Criada num mundo ignorante
sobre sexo, porque o confunde com província da “biopolítica”, nossa heroína do
amor anal demorou a descobrir o que se sabe desde a Pré-história. Fala-se
“penetrar uma mulher” porque a anatomia imita a vida do afeto: o amor é
invasão da vida.
Dedico esses aforismos imorais a ela.
