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04 janeiro 2022

Pais paranoicos (Luiz Felipe Pondé)

 

Convenhamos, o mundo já foi muito mais perigoso do que é hoje, e esses pais paranoicos teriam inviabilizado a sobrevivência da espécie alguns milhares de anos atrás. Luiz Felipe Pondé via Gazeta do Povo, via OTambosi:



Em 2002, o sociólogo húngaro-britânico Frank Furedi lançou um livro, sem tradução no Brasil: "Paranoid Parenting", pela Chicago Review Press. Esse livro deveria ser lido por todos esses pais paranoicos que habitam nosso mundo.

São muitas as frentes de paranoia. A profusão de informação de hoje só piora as coisas. Mas a paranoia parental recente é fruto mesmo do gozo em torturar as crianças. Venhamos e convenhamos, o mundo já foi muito mais perigoso do que é hoje, e esses pais paranoicos teriam inviabilizado a sobrevivência da espécie alguns milhares de anos atrás.

Muitos pais de hoje sentem que suas crianças são um ônus injusto nas suas vidas, que deveriam estar sendo vividas com felicidade nas praias do Vietnã em vez de ter de lidar com os pentelhos o tempo todo. Não é outro o sentido do caráter de "ordeal" (provação) da condição dos pais descrito por Furedi.

O culto da criança vulnerável veio pra ficar. Isso leva os pais, por exemplo, a atormentar as escolas e, creiam, as universidades, com suas demandas infinitas de aumento da autoestima dos seus poucos filhos.

Antes, você tinha dez filhos, morriam cinco, e você nem sabia os nomes deles. Agora, você tem apenas um e chega a programar o nascimento dele para ter o signo certo. Por exemplo, ninguém quer um filho de áries porque será uma pessoa violenta e cruel. Será que os arianos vão protestar?

E a paranoia com as castanhas? Escola "nut free"! Agora, se seu filho tem alergia, ninguém mais tem direito a respirar. Alergias sempre existiram, mas nenhuma mãe aterrorizava a escola com as alergias do filho.

A politização da atividade parental cresce. A crença de que todos os problemas que a criança tiver na vida serão consequência da incompetência dos pais é uma constante no discurso das políticas públicas.

Outra forma de politização do cotidiano da relação entre pais e filhos é a crença de que você deve ser o mais politicamente correto do mundo na educação dos filhos: a meta é a produção em série de Gretas Thunberg. Se seu filho não tiver um ataque histérico diante de um canudo de plástico, se não fizer um discurso irado contra comer carne aos três anos, há algo de terrivelmente errado na forma como você o está educando.

Os mais afoitos creem mesmo que se seu filho assumir uma identidade masculina ou feminina antes dos 40 anos é porque você o oprimiu nesse sentido. Ele ou ela deve amar todas as cores do arco-íris.

Mas há formas mais prosaicas de essa paranoia se manifestar. Pais jovens disputam com as mães a condição de melhor mãe. É uma questão de honra. Não fossem os homens maus a priori, eles, seguramente, teriam o direito de protestar diante da injustiça social de terem nascido sem útero e mamas.

Ouvir os gritos dos pais no banheiro masculino quando levam seus filhos ao shopping no final de semana é um espetáculo para qualquer um com uma sensibilidade antropológica mínima: "Não toque em nada!", berram os pais com seus filhos. A criança deve pensar que está diante da "Coisa" a sair da privada a qualquer momento.

Mas, se essa criança jogar um caco de vidro, "sem querer", na cara do garçom, logo será abraçada pelos pais. Esses morrerão de medo que o corte no rosto do garçom poderá ferir a frágil autoestima da vulnerável criança.

Grande parte da paranoia parental é projeção dos pais sobre os filhos. Esses devem ser mais evoluídos do que os pais. Pobres miseráveis são essas crianças.

Os psicólogos (que, muitas vezes, são parte do problema, e não da solução) deveriam avisar aos pais que uma das formas mais seguras de fazer do seu filho um desgraçado tomador de ansiolítico aos cinco anos de idade são as altas expectativas de que ele venha a se tornar um ser humano fofo.

Confesso, não sei como adultos ainda se dedicam à atividade de ensino de crianças diante de pais tão insuportavelmente pentelhos e invasivos do cotidiano das escolas. As escolas, por sua vez, incentivam essa invasão como forma de fidelização dos pais pagadores. Enfim, essas crianças ficarão cada vez mais zoadas da cabeça.







25 abril 2021

Política identitária e guerra cultural são sintomas da velha estupidez humana

 


Todo idiota que crê no caráter revolucionário da juventude deveria ler 'Pais e Filhos', de Turguêniev. Luiz Felipe Pondé via FSPpor Otambosi.


Em breve, workshops no mundo corporativo, comandados por consultores “mini-Gretas” de 12 anos, farão com que os colaboradores —nome chique para funcionários— tomem consciência de que são racistas, machistas, misóginos, estupradores e afins.

Sim. E, se você se recusar, confirmará o diagnóstico a priori, além, claro, de assinar sua sentença de morte na empresa, ainda mais se já estiver com o prazo de validade vencido, ou seja, perto dos 40 anos.

Claro que existe gente cheia de preconceitos, violenta e que devemos combater —hoje em dia, quando a sociedade assimilou o auto de fé como ethos da inteligência pública, faz-se necessário qualquer herege contumaz deixar claro que é contra o que todo mundo de bom senso é. Feito o disclaimer, sigamos em direção ao que não é tão óbvio.

E por que o mundo corporativo vai assimilar essa prática? Porque, à semelhança das instituições de ensino, o mundo corporativo assimila qualquer moda de comportamento que apareça no horizonte. Hoje, o branding serve ao ridículo. E a moda no âmbito do pensamento é sempre signo de pobreza de espírito.

Em segundo lugar, porque serão ministrados por mentores —outro nome chique para nada— de 12 anos. O frisson com a juventude já fora diagnosticado nos anos 1860 na Rússia por Ivan Turguêniev no seu essencial “Pais e Filhos”. Todo idiota da cultura que crê no caráter revolucionário da juventude deveria ler esse livro.

E, claro, nosso maior crítico da cultura, Nelson Rodrigues, nos anos 1960 e 1970, fizera o mesmo diagnóstico com seu conceito de “razão da idade”. Portanto, o fetiche com o infeliz jovem é já uma coisa de velhos infelizes.

Essa moda no mundo corporativo segue de perto a moda do mundo acadêmico, descrita pelo sociólogo húngaro-britânico Frank Furedi como “to raise our awareness” —“elevar nossa consciência”, numa tradução simplista.

Hoje todo mundo quer fazer de você uma pessoa “consciente”. A saturação dessa forma de ativismo é uma maravilhosa fantasia para a velha estupidez no seio da inteligência. Não confio em ninguém que queira me fazer mais consciente de nada.

Já que falamos em estupidez, para além dessas razões, há uma menos evidente mas não menos clara para quem usar os olhos de forma distinta: a pauta identitária serve a estupidez travestindo-a de justa causa (vale dizer, ela é em si uma causa justa).

Polarização, políticas identitárias, guerra cultural, supremacistas brancos —no Brasil este é o mais ridículo de todos— e similares são sintomas da velha estupidez humana, agora, mais ruidosa do que tudo. Esse diagnóstico já fora feito por Umberto Eco.

A estupidez é um processo. Você não nasce assim, necessariamente. Entre as várias etapas do processo, há aquela na qual ocorre um estreitamento do entendimento na linguagem. Difícil? Quer dizer o seguinte: tudo que você ouve, vê ou lê sempre quer dizer a mesma coisa a seus ouvidos empobrecidos. Todo militante é um estúpido em potencial.

Claro, existem exceções de que não podemos tratar aqui, como o revolucionário russo Vladimir Ilitch Ulianov, conhecido como Lênin. De qualquer forma, a militância sempre implica alguma forma de deformação cognitiva ou moral.

A humanidade nunca foi uma espécie excepcionalmente inteligente, e Lênin sabia disso. O equívoco de achar que sempre fomos inteligentes nasceu do fato de termos adquirido a linguagem. Mas o uso desta não atesta nenhuma inteligência a priori. Pelo contrário, a preferência por viver com animais pode ser uma reação a esse diagnóstico negativo.

O mundo contemporâneo e suas redes, sim, fizeram da estupidez uma enciclopédia pública de horrores. O ruído agora é enorme. Hoje, mais do que nunca, o contrário da estupidez tende ao silêncio.

Isso significa que de nada servem as redes? Claro que não. Aviões transportam pessoas e jogam bombas.

E, por falar em aviões, há quem diga que empresas áreas americanas pensam em selecionar seus pilotos reservando 50% das vagas levando em conta “minorias” e não mérito. Você ainda duvida de que a estupidez tem o comando do mundo?




29 abril 2019

Devassa (Luiz Felipe Pondé)





De quatro, ela gemia. Por trás, ele a penetrava e doía. O amor anal é sempre selvagem e mais íntimo do que todos os outros. Gemia de dor, as lágrimas escorriam pelos lábios. Ele puxava seus cabelos loiros com força. Sentia-se uma cadela, momento supremo, pedia que a tratasse por cachorra. Um filósofo diria: eis a mulher. 

Finalmente sentindo-se objeto, como sempre quis. Finalmente alguém que não a respeitava. Espécie em extinção, homem que não pede licença. As mulheres ainda vão sonhar com o tempo que faltavam com o respeito com elas nas ruas. 

Ao final, veste-se. A roupa branca trai sua função social: médica. Já no hospital, sorri para seus pequenos pacientes indefesos. Pediatra bem-sucedida. 

Na TV, uma entrevista com uma chatinha condena o comercial da cerveja “Devassa” como sendo exploração da mulher. Nossa médica gostosa, do alto de seu salto e de sua roupa branca, sonha em ser de novo objeto no dia seguinte. O amor anal a deixa ali onde ela quer estar: no lugar do objeto. Nenhuma mulher é mais amada do que a que é objeto de alguém. E ela pensa: “como essas chatinhas atrapalham minha vida”. Escondida por baixo das roupas brancas, uma espécie caçada: a devassa. A mulher que gosta de homem e não é histérica. 

A lembrança ainda escorria em suas pernas. Criada num mundo ignorante sobre sexo, porque o confunde com província da “biopolítica”, nossa heroína do amor anal demorou a descobrir o que se sabe desde a Pré-história. Fala-se “penetrar uma mulher” porque a anatomia imita a vida do afeto: o amor é invasão da vida. 

Dedico esses aforismos imorais a ela.



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