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| Faye Hall, Grieving Woman |
CAPÍTULO
II
Da
Tristeza
Sou dos
que menos sentem essa disposição de espírito[1];
não a aprecio nem a valorizo, embora de um modo geral, e preconceituosamente,
os homens a respeitem e estimem. Com ela enfeitam a sabedoria, a virtude, a
consciência, mas o adorno é pobre e feio. Os italianos com muito mais razão
deram seu nome à maldade[2],
pois ela é sempre nociva, sempre insensata, e também covarde e desprezível: os estoicos
a proíbem aos sábios.
Diz-nos
a história[3]
que Psamético, rei do Egito vencido por Cambises, rei da Pérsia, vendo passar a
filha, como ele próprio cativa, e que ia buscar água vestida de serva,
permaneceu mudo, olhos voltados para o chão, enquanto choravam todos os seus
amigos. Vendo logo depois o filho, que conduziam entanto, diante de um criado
que levavam à tortura, juntamente com outros prisioneiros, pôs-se a golpear a
cabeça demonstrando extrema aflição.
Pode-se
comparar esse fato ao que ocorreu recentemente com um de nossos príncipes, o
qual recebeu em Trento a notícia da morte do irmão mais velho, sustentáculo da
honra e da manutenção da família. Logo depois sabia do falecimento do segundo
irmão para o qual, desaparecido o primeiro, voltavam todas as esperanças. Ambas
as desgraças ele as suportou com coragem exemplar. Eis que dias mais tarde vem
a morrer um dos seus amigos[4],
ao que não pôde resistir. Sua resolução o abandona e ele se desfaz em lágrimas
e lamentações, a ponto de observarem que somente ao último acontecimento se
mostrava realmente sensível. Na verdade a medida estava cheia e uma coisa de
nonada bastara para abater-lhe a energia e provocar um transbordamento de tristeza.
Poder-se-ia, creio, assim explicar igualmente a atitude de Psamético, se não
acrescentasse a história que Cambises, tendo-lhe perguntado por que motivo ele,
que tão pouco se mostrara perturbado com a infelicidade da filha e do filho,
tanto se afetara ante a de um amigo, recebeu esta resposta: “É que só esta
última tristeza é suscetível de se exprimir por lágrimas; a dor sofrida nos
dois primeiros casos está além de qualquer expressão.”
A propósito,
vem-me à memória o caso daquele pintor antigo[5]
que, no sacrifício de Ifigênia, teve de representar o sofrimento dos diversos
personagens segundo o grau de interesse que cada um votava à bela e inocente
jovem, e que ao chegar ao pai da virgem já havia esgotado todos os recursos de
sua arte. Diante da impossibilidade de dar-lhe uma atitude em relação com a intensidade
da dor, pintou-o de rosto coberto, como se nenhuma expressão pudesse ilustrar
semelhante desespero. Eis por que os poetas imaginam a miserável Niobé, que
depois de perder seus sete filhos viu morrerem as sete filhas, transmudada em
rochedo pela sobrecarga de desventura: “petrificada pela dor”[6],
a fim de exprimir essa espécie de embrutecimento sombrio, surdo e mudo que se
apodera de nós quando as ocorrências nos esmagam ultrapassando o que nos é dado
suportar. E, efetivamente, uma dor excessiva, exatamente porque excessiva, deve
estupidificar a alma a ponto de paralisar qualquer gesto, como acontece quando
recebemos inesperadamente uma péssima notícia. Somos tomados de espanto,
penetrados de pavor ou de aflição e como tolhidos em nossos movimentos até que
à prostração suceda o relaxamento. Surdem então as lágrimas e os lamentos que
aliviam a alma e como que lhe permitem mover-se mais à vontade: “é com
dificuldade que afinal recupera a voz e pode exprimir sua dor”[7].
Durante a guerra do Rei Fernando contra o rei da
Hungria perto de Buda[8]
um dos guerreiros mostrou-se particularmente valente nos combates que se
verificaram. Ninguém o reconhecera e todos o elogiavam e lhe lamentavam a sorte
porquanto sucumbira na refrega. E ninguém mais do que um Senhor de Raisciac,
fidalgo alemão, o engrandecia, entusiasmado com tão rara coragem. Recolhido o
corpo, Raisciac aproximou-se como os demais para ver quem era, e ao lhe tirarem
a armadura reconheceu o filho. A emoção dos presentes aumentou mais ainda; só
ele permaneceu impassível, sem dizer palavra, sem pestanejar, de pé,
contemplando fixamente o corpo até que a violência da dor tendo atingido o
próprio princípio da vida o derrubasse para sempre. “Quem pode dizer a que
ponto arde, arde bem pouco”[9], dizem
os amantes que querem exprimir insuportável paixão ou: “Quão
miserável sou! O amor perturba-me os sentidos. À tua vista, ó Lésbia, perco a
razão. Falar está acima de minhas forças, minha língua engrola, uma chama sutil
percorre-me as veias, mil ruídos confusos soam-me aos ouvidos e o véu da noite
estende-se sobre os meus olhos.” [10]
Não
é no auge de nossos transportes quando nos ferve o sangue nas veias que somos
mais capazes de encontrar o tom que comove e persuade. Nesses momentos a alma
está por demais absorvida em seus pensamentos, o corpo demasiado abatido e lânguido
de amor; daí, por vezes, a inesperada e fortuita impotência que surpreende o
amante tão fora de propósito; daí esse gelo que o envolve, em virtude do
extremo ardor, na própria fonte de seu gozo. A paixão que se deixa saborear e
digerir mal merece ser assim nomeada. “Os
prazeres leves são loquazes, as grandes paixões silenciosas [11].”
Da mesma forma nos comove a surpresa de um
prazer inesperado: “Logo
ao ver-me, ao perceber de todos os lados as armas de Troia, fora de si, como
golpeada por pavorosa visão, se imobiliza. Seu sangue gela, desmaia e só muito
tempo depois pode enfim falar [12].”
Além daquela romana que morreu de alegria ao ver
o filho escapar da derrota de Canes; além de Sófocles e Dionísio, o tirano, que
também morreram de alegria ao receberem uma boa notícia; e Talma que faleceu na
Córsega ao saber das honras que o Senado de Roma lhe conferira; vimos neste
século o Papa Leão X que, ao ter notícia da tomada de Milão, tão ardentemente desejada,
experimentou tal carga de alegria que a febre o assaltou, levando-o à morte. E
mais um testemunho comprovador da fraqueza humana tirado dos antigos: Deodoro,
o dialético, vendo-se em suas aulas públicas incapaz, de repente, de responder
às objeções que lhe faziam, sentiu tamanha vergonha que morreu na hora. Quanto
a mim, sou pouco predisposto a essas paixões violentas; tenho uma sensibilidade[13]
naturalmente grosseira e a torno mais espessa ainda e empedernida mediante
raciocínios diários.
FONTES:
1. Coleção Os Pensadores: Montaigne, São Paulo: Abril Cultura, 1980, págs. 11 e 12.
2. https://www.passeidireto.com/arquivo/19397640/ensaios-michel-de-montaigne-livro-i Acesso em 05/10/2017, 14:49
3. https://ebooks.adelaide.edu.au/m/montaigne/michel/essays/book1.2.html Acesso em 05/10/2017, 14:50
NOTAS
[1] No texto “paixão”. O dicionário de Hatzfeld e Darmesteter assinala entretanto o sentido do “sofrimento”, tirando o exemplo do próprio Montaigne. Pareceu-nos melhor tradução “disposição de espírito”, adotada por Michaut. (Nota do tradutor Sérgio Milliet).
[1] No texto “paixão”. O dicionário de Hatzfeld e Darmesteter assinala entretanto o sentido do “sofrimento”, tirando o exemplo do próprio Montaigne. Pareceu-nos melhor tradução “disposição de espírito”, adotada por Michaut. (Nota do tradutor Sérgio Milliet).
[2]
Malignité – no original, o que significa na linguagem arcaica – disposição para
fazer o mal. Quanto à palavra italiana a que alude Montaigne, há confusão. Trata-se
não de “tristezza” mas de “tristizia” para a qual o dicionário
de Petrocchi consigna o sentido de “ignomínia”. (N. do T.)
[3]
Heródoto.
[4]
No texto “domestiques”, palavra que tinha então o sentido de amigo da casa. (N.
do T.)
[9]
Petrarca.
“Chi puo dir com’ egli arde, a in picciol fuoco.” (Soneto 137)
[10]
Catulo. “Misero
quod omneis
Eripit sensus mihi: nam simul te,
Lesbia, aspexi, nihil est super mi,
Quod loquar amens.
Lingua sed torpet: tenuis sub artus
Flamma dimanat; sonitu suopte
Tintinant aures; gemina teguntur
Lumina nocte.” (Catulo, Epig. LI. ad Lesbiam)
[12]
Virgílio. “Ut me conspexit venientem, et Troja circum
Arma amens vidit, magnis exterrita monstris,
Diriguit visu in medio, calor ossa reliquit,
Labitur, et longo vix tandem tempore fatur.” (Eneida
III, 306)
[13]
“Apprehension” tanto pode ser compreensão (faculdade de entender), como
sensibilidade (faculdade de sentir). (N. do T.)
