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03 março 2025

Livro: Comunicação em Prosa Moderna




Neste livro, Othon Moacyr Garcia apresenta ao leitor as sutilezas da moderna terminologia semântica e discute problemas lingüísticos e lógicos com os quais se defrontam todos aqueles que se dedicam à escrita, profissionalmente ou não. Com sua vasta experiência, o autor ensina o leitor não somente a escrever com clareza e objetividade mas, sobretudo, a pensar de forma coerente, aguçando seu senso crítico. As 80 páginas de exercícios permitirão ao leitor testar seus conhecimentos e aprimorar seu estilo.







FONTE: Lê Livros



15 novembro 2022

Dumazedier e a preguiça (1º/10/1980, Páginas Amarelas de VEJA)

Download em PDF das Páginas Amarelas

Entrevista com Joffre Dumazedier, sob o título A defesa da preguiça, reportagem de Marília Pacheco Fiorillo, há 32 anos, nas Páginas Amarelas, da Revista Veja, do dia 1º de outubro de 1980.

Professor da Sorbonne há vinte anos, Dumazedier acha que o futuro será traçado não pelo trabalho, mas, sim, pelo lazer
Por Marília Pacheco Fiorillo[1]


Na Antiguidade clássica, o trabalho era tido como tão pouco nobre que praticamente só os escravos se ocupavam dele. Continuou assim pela Idade Média e Renascimento, quando o filósofo Thomas Morus acenou pela primeira vez com o sonho de reduzi-lo a apenas seis horas diárias, em sua "Utopia". Foi só com o surgimento das primeiras chaminés e estradas de ferro, na aurora da sociedade industrial, que o trabalho conquistou pela primeira vez o título de cidadania  para, depois, ir sendo progressivamente tratado, como um dos valores mais respeitados da atividade humana. Joffre Dumazedier, 64 anos, há vinte titular da cadeira de Sociologia do Lazer na Sorbonne de Paris, começou a se interessar pelo tema em seus tempos de partisan durante a II Guerra Mundial, quando se dedicava a "grupos de educação popular" entre a população simples do interior da França. Foi então que acredita ter feito uma dupla descoberta. 
A primeira é que o lazer, desde a redução da jornada fabril a oito horas, após a I Guerra Mundial, se tornou "mais importante para o trabalhador que qualquer outro aspecto de sua vida". A segunda é que há um século e meio toda a civilização está mergulhada em uma avassaladora mística do trabalho, mais forte que qualquer fronteira ideológica ou nacional. Desde a primeira metade do século XIX, observa Dumazedier, as sociedades vêm sendo regidas por um verdadeiro culto de adoradores da labuta, que hoje se difunde dos saguões das empresas privadas aos cartazes desenvolvimentistas dos países socialistas.
Para Dumazedier, a sociedade caminha rumo a uma civilização do lazer, em que o tempo livre das obrigações profissionais tende a ser “o tempo estratégico” da vida da coletividade. Um tempo estratégico que ele, pessoalmente, parece utilizar muito pouco, pois trabalha compulsivamente – em sua passagem por São Paulo, há poucos dias, andou sempre numa roda-viva, entre idas e vindas de conferências ao quarto do hotel, onde a TV sempre ligada se mistura a dezenas de livros e rascunhos espalhados sobre a mesa.

A mística do trabalho
já não tem razão

VejaO senhor costuma dizer que o lazer, hoje em dia, ocupa o lugar anteriormente reservado ao trabalho, do ponto de vista de um sistema de valores. Como é isso?
Dumazedier – O trabalho é ainda a primeira necessidade humana, mas uma necessidade puramente objetiva. O que está mudando é a importância do valor “trabalho” na vida das pessoas – sejam operários, colarinhos brancos[2] ou executivos. Aquela antiga mística do trabalho, endossada de Adam Smith e Marx, do pensamento católico a Max Weber, já não tem razão de ser. A ideia do trabalho como a essência da humanidade correspondia a uma sociedade industrial nascente.
Veja – Mas o lazer não é ele mesmo um filho da sociedade industrial?
Dumazedier – Sem dúvida, mas ele é o filho de um paradoxo miraculoso dessas sociedades, um paradoxo com que nossos ancestrais não ousavam sequer sonhar – o de que se pode produzir cada vez mais trabalhando cada vez menos. E esse milagre diz respeito não só às sociedades de economia privada como àquelas de economia coletivizada, como a União Soviética[3]. Por exemplo, há um século e meio atrás, o trabalho operário médio era de cerca de 4.000 horas anuais – hoje[4], em qualquer sociedade de economia avançada, e mesmo nas zonas mais urbanizadas das sociedades em via de desenvolvimento, trabalha-se a metade, cerca de 2.000 horas por ano. Isso fez com que as pessoas passassem a dar uma importância inédita, em suas vidas, ao tempo livre.
Veja – O trabalho não continua a ser o grande elemento civilizatório, do qual depende inclusive a riqueza necessária para se poder consumir o lazer?
Dumazedier – Que o trabalho cria riqueza, e com isso paga o lazer, é um lugar-comum[5]. Agora, dizer que ele é ainda a base da civilização é outra história. Se se entende a civilização como um sistema de valores, como uma maneira de realizar a personalidade individual e coletiva, então qual é a função civilizatória de uma atividade que, para a grande maioria das pessoas, interessa muito pouco? Posso dizer que o lazer é fruto do trabalho da mesma maneira que um filho é fruto do pai. O pai, na vida do filho, é sempre um elemento de conflito, de rejeição[6].
Veja – Há certos economistas, Alvin Toffler[7]por exemplo, que creem que trabalho e lazer são atividades que tendem a mudar no futuro e exemplificam isso com o aumento do trabalho profissional realizado em casa.
Dumazedier – Toffler[8], na verdade, é mais um desses profetas que falam demais, um tipo, aliás, que prolifera na atualidade – uma espécie de McLuhan[9] da economia, que teve um dia uma bela ideia, mas só uma ideia, e dela tirou um sistema. Não digo que ele não seja um sujeito sério, mas tem a seriedade dos poetas. Deve-se procurar em seus textos não o argumento científico, que não existe, mas o prazer da fantasia. Deve-se ler Toffler[10] como se liam os testemunhos de Jeová ou como se leem as homilias de João Paulo II.
Veja – E, quando se trata de um indiscutível homem de ciência, como J. K. Galbraith[11]para quem essa ideia de uma sociedade tendente ao lazer não passa de pura piada?
Dumazedier – Conheço bem Galbraith[12] e tive chance de discutir isso com ele numas férias que passamos juntos. A questão é que existem três Galbraith: o embaixador kennediano, o ensaísta que escreve maravilhosamente e, em último lugar, o economista. Agora, resta saber qual desses três egos se pronunciou assim.
A esquerda deveria
refletir mais

Veja – De que maneira se poderia pensar numa sociedade do lazer nos países subdesenvolvidos que precisam trabalhar duramente para sair do subdesenvolvimento?
Dumazedier – Não acredito em lazer nacional, mas em hábitos de recreação que variam de classe para classe, de ambiente para ambiente. Eu, por exemplo, estou muito mais próximo de meus amigos paulistanos que de um camponês da Normandia[13]. Dá-se o mesmo entre países socialistas e capitalistas. Se você toma um país como os Estados Unidos e outro como a Bulgária[14], os Estados Unidos ganham a parada unicamente porque estão mais bem equipados culturalmente. O que conta não são questões de regime, de ideologias, mas o nível de desenvolvimento das forças produtivas. É impossível falar de Brasil, por exemplo. O que é o Brasil? É uma cidade como São Paulo ou um vilarejo nordestino? De qualquer maneira, se comparamos duas sociedades de desenvolvimento tecnológico análogo, uma socialista e outra capitalista, a socialista tende a ter uma política cultural mais autoritária. Pode-se mesmo dizer que há um abismo entre a política oficial do regime e as práticas culturais de certos grupos, como a juventude. Tanto que se vê como um jovem russo acaba afrontando as autoridades por vestir um jeans ou ouvir rock, e não se tem notícia de que algum universitário paulista ou parisiense tenha logrado efeito semelhante ao sair pelas ruas fantasiado de moscovita.
Veja – O tempo liberado para o lazer aumentou nos países comunistas na mesma proporção dos países capitalistas?
Dumazedier – Insisto em dizer que isso depende do grau de desenvolvimento das economias em cada país. Na Polônia, por exemplo, que não é o país socialista de economia mais arejada, uma das grandes reivindicações desta última greve[15] foi a semana de quarenta horas – mesmo quando se sabe que estado atual da economia polonesa exigiria um trabalho médio de sessenta horas.
Veja – E, nas chamadas “sociedades socialistas avançadas”, o tempo livre aumentou?
Dumazedier – Há uma fabulosa enquete, realizada em 1966 por um húngaro, Alexander Szalai, que havia sido preso por quatro anos no período estalinista e que levou cerca de dez anos levantando dados sobre o tempo livre em doze países, de Cuba ao Peru, da Checoslováquia[16] à URSS: uma das conclusões dessa pesquisa é que a mulher trabalhadora que dispõe de menos tempo livre, no mundo inteiro, em países socialistas ou capitalistas, é a mulher russa. Ela trabalha duas horas a mais por dia que sua companheira francesa e americana, em profissão semelhante. Agora, se você se lembra de que cerca de 90% das russas trabalham, cifra que nos Estados Unidos é de 40% e na França nem chega a isso, você se vê diante de um fato surpreendente[17]. A esquerda deveria refletir mais sobre isso – e falo dessa maneira porque me considero um homem de esquerda, a esquerda sempre foi minha família espiritual.
Veja A que se deve essa situação da trabalhadora russa?
Dumazedier – Minha hipótese é de que os regimes políticos podem promover algumas mudanças, mas dificilmente mudam certos hábitos. E o patriarcado, na Rússia, malgrado os discursos oficiais, continua fortíssimo. A mulher que trabalha fora, lá, provavelmente carrega o mesmo antigo fardo das tarefas domésticas. Mas esse não é o único fato chocante. Outro, ainda maior, é o de que a sociedade soviética ainda esteja fundada na velha mística da devoção ao trabalho, na doutrina do amor ao trabalho. Ora, numa enquete recente entre trabalhadores russos, na qual se perguntava qual o aspecto de suas vidas que eles consideravam prioritário, apenas 7% apontaram o trabalho em primeiro lugar. É isso que a esquerda não vê. A esquerda parisiense, por exemplo, fica opondo discurso contra discurso, maoistas versus leninistas, mas jamais se debruça sobre o real.
O ócio fundamental[18]
para a política

Veja Nos países socialistas esse tempo livre é utilizado com mais frequência para práticas políticas?
Dumazedier – Há muita gente, creio que a maioria, que participa de reuniões sistemáticas. Agora, o lazer é uma atividade voluntária. A única coisa que posso afirmar com segurança é que, trate-se da Bulgária ou Peru, Cuba ou França, mais de 95% do tempo liberado do trabalho profissional e doméstico é gasto exclusivamente em recreação – nada de política, só lazer.
Veja Então, esse tempo de lazer seria “o tempo-chave” na vida das pessoas?
Dumazedier – O lazer é o tempo estratégico da modernidade. Enquanto não se fizer a revolução do lazer, a mudança dos costumes continuará sendo uma questão abstrata. De que adiantam discursos inflados de civismo, patriotismo, socialismo, se a pessoa sai do trabalho ou escola e entra em uma outra vida? É um pouco como o mito de Penélope, que teria um manto de dia para descosturá-lo à noite. O lazer é a noite, que tem o poder de desfazer tudo o que foi tecido durante o dia.
Veja O lazer, em sua visão, é sobretudo uma questão política?
Dumazedier – Só os ingênuos ainda acham que o tempo dedicado à recreação, ao ócio, ao descanso, não é fundamental para a política. Porque nesse espaço da vida dos indivíduos não só se criam valores e relações sociais específicas como também podem ser criados valores em conflito aberto com os do mundo do trabalho. Aliás, onde é que os trabalhadores fazem seu maior investimento afetivo? Nunca é no trabalho, nem mesmo em países onde se tentaram experiências autogestionárias, como na Iugoslávia. Sabe-se hoje que a autogestão – praticada por uma geração e meia de socialistas e estudada por centenas de especialistas – nunca interessou mais que 20% da classe operária iugoslava. E todos continuam a preferir a palavra “autogestão” como se ela tivesse poderes mágicos. Eu mesmo me considero um autogestionário, mas sem ilusões.

A mulher pede mais
tempo para si

Veja Que mudanças político-culturais já são visíveis a partir do aumento do tempo de lazer?
Dumazedier – Mais importante que o crescimento estatístico do tempo livre é a mutação de valores que ele traz, como a liberação de certas aspirações antes reprimidas. É o caso da recusa crescente de relações funcionais, como as familiares, e a procura de outro tipo de contato entre os indivíduos, de natureza mais selvagem, antiinstitucional. Temos o movimento feminista, os grupos ecológicos, organizações de velhos – o chamado movimento da “terceira idade”. Veja o caso do movimento feminista: há uma grande diferença entre o feminismo de Simone de Beauvoir, que é da minha geração, e o feminismo de Kate Millet: se antes se reivindicavam direitos iguais de trabalho e participação política, hoje o que se pede é que a mulher tenha mais tempo para si mesma, para os assuntos de seu interesse. E isso está nas ruas: é a mulher de classe média que quer ter seus amigos, e não só amigos do marido, viajar sozinha, ou a mulher de uma camada mais baixa que não abre mão de sua hora e tanto de conversa com a amiga no mercado, à semelhança do que seu marido vem fazendo há decênios nos bares.
Veja Mesmo entre os jovens?
Dumazedier – Presenciei uma greve de estudantes secundários em Montreal, há pouco tempo. Eram garotos de 15, 16 anos, e saíram às ruas para exigir quinze dias de férias a mais. Faziam essa greve contra os professores e os pais – e acabaram ganhando.
Veja Entre os hábitos mais frequentes de lazer, quais o senhor considera os dominantes, atualmente?
Dumazedier – TV e esporte, sem dúvida. As viagens também têm crescido enormemente, os passeios a pé, jornadas de reencontro com a natureza.
Veja Não haveria uma discrepância fundamental, em matéria de lazer, entre os hábitos das camadas populares e os das camadas mais altas?
Dumazedier – Depende. No caso do consumo da televisão, provavelmente um professor universitário não liga o mesmo canal que um operário da Volkswagen – ou, se liga, não recebe a emissão exatamente da mesma maneira. Mas é só isso. Pesquisas do mundo inteiro confirmam que o aparelho de TV fica ligado, no mínimo, quinze horas por semana[19]. E isso vale tanto para as favelas cariocas como para os quarteirões chiques de Paris.
Veja O senhor concorda com as críticas de que a TV promoveu uma falsa democratização da cultura, igualando o consumo entre classes pelo rebaixamento da qualidade do produto?
Dumazedier – Ao contrário. Se antes só um punhado de gente ia ao Ópera, hoje milhares de pessoas podem assistir à “Cármen” pela TV. Não há nada de falso nessa democratização – a música de Bizet é a mesma, o libreto é o mesmo, a única coisa que muda é a presença ou não de audiência. Para os aficionados das noitadas da ópera, faz diferença. Para intelectuais elitistas, como Adorno, também. Talvez para uma centena de pessoas no Brasil. Mas, para a maioria, só pode valer a pena.
Veja Como fica a questão do lazer numa época de crise econômica, como essa, em que o desemprego se acentua?
Dumazedier – Respondo com o resultado de um estudo feito recentemente sobre o consumo de férias por operários europeus desde o início da crise econômica: diminuíram os quilômetros rodados, a distância dos locais de férias e mesmo o número de dias de férias, mas as cifras continuam confirmando que três quartos da classe operária francesa continuam a tirar férias e preferem privar-se de outras vantagens a abrir mão de sua temporada fixa de lazer. Essa história de que hoje é momento de se pensar no pão, e não no sonho, é mais uma das eternas tiradas da esquerda. Como se a necessidade de pão suprimisse aquela de sonho...
Veja A que o senhor atribui o ainda escasso interesse da comunidade intelectual pelo lazer?
Dumazedier – Todos os estudos de economistas e sociólogos sérios confirmam que o lazer cresce em importância e extensão. Na Europa e nos Estados Unidos, em plena crise, os sindicatos continuam a se bater pela semana de 35 horas. E o tempo extra que esses operários reivindicam é para quê? Não será para a instrução popular, como previa Marx, ou para uma formidável participação política de massas, como queria Engels, ou para um incremento na vida espiritual, como pretendem os padres. É apenas para mais lazer. Mas o velho carnaval ideológico continua a encobrir essas questões. Muitas vezes o entusiasmo político nos leva a abandonar a lucidez.


Só a minoria faz do
trabalho lazer

Veja E os que afirmam que o lazer, na sociedade contemporânea, só tende a aumentar a alienação?
Dumazedier – Era o caso de Marcuse, por exemplo, mas Marcuse sempre foi um pensador utópico, nunca um cientista. Ele imaginava que o trabalho poderia transformar-se em fonte de prazer, na sociedade socialista perfeita... Mas está mais que comprovado que na França nem mesmo 20% dos trabalhadores sentem qualquer espécie de gratificação com as tarefas que executam. Só uma ínfima minoria faz do trabalho seu lazer: uns poucos artistas, criadores, inventores – excetuando-se o equívoco da datilógrafa que pensa amar o trabalho porque está caída pelo chefe.
Veja Então o profeta do futuro seria Paul Lafargue, o genro de Marx que defendia para a classe operária o “direito à preguiça”?
Dumazedier – Embora minha formação seja marxista, sempre estive mais próximo e Lafargue que de seu sogro e companheiro Karl Marx, mesmo porque creio que o futuro do socialismo se decidirá fora do trabalho – e não dentro. Dizem que Lafargue se sentia seduzido pelo ócio porque era um homem das Caraíbas, amante do sol e do dolce far niente. Não creio nessas psicologias dos povos: afinal, Fidel Castro também é um homem das Caraíbas, e trabalha por quatro.



[1] Quer fazer o download da Entrevista, nas 3 páginas amarelas da Revista Veja? Pegue AQUI, AQUI e AQUI.
[2] Colarinho branco é um termo informal que se refere a um profissional assalariado ou a um profissional ensinado a executar tarefas semi-profissionais. Estas tarefas são administrativas, burocráticas ou de gerenciamento, opondo-se às do "colarinho azul", cujo trabalho requer emprego de mão-de-obra física.
Fonte: Wikipedia, acesso em 02/08/2013, 13h21 (de João Pessoa, Paraíba, Brasil).
[3] Dissolvida oficialmente em 31 de dezembro de 1991. Usávamos, no Brasil, a sigla URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, para nos referir ao país.
Fonte: Wikipedia, acesso em 02/08/2013, 13h48.
[4] Isto é: 1º de outubro de 1980.
[5] lugar-comum. s. m. 1. Trivialidade. 2. Ideia já muito batida. 3. Expressão ou frase usada vulgarmente. 4. Frase feita.
Fonte: Dicionário PRIBERAM da Língua Portuguesa. Acesso em 02/08/2013, 13h54.
[6] Dumazedier estaria se referindo ao livro Totem e Tabu de Freud, ao tratar do Complexo de Édipo? Sei lá. Já diz o jornalista Tião Lucena: “Eu aumento, mas não amamento”. O jornalista Nelson Rubens diz “Eu aumento, mas não invento”.
[7] Alvin Toffler, que escreveu no seu livro O Choque do Futuro que “O homem tem uma capacidade biológica limitada para mudança. Quando essa capacidade é ultrapassada, ele entra em choque com o futuro”.
[8] Alguma coisa dele na Wikipedia, acesso em 02/08/2013, 14h25.
[9] Alguma coisa dele na Wikipedia, acesso em 02/08/2013, 14h26.
[10] Entrevista de Alvin Toffler à Revista Veja, em 15 de outubro de 2013. Download Folha 01, Folha 02 e Folha 03.
[11] Alguma coisa dele na Wikipedia, acesso em 02/08/2013, 14h50.
[12] Entrevista de John Kenneth Galbraith à Revista Veja, em 15 de dezembro de 2004. Download Página 01, Folha 02 e Folha 03.
[13] Região do NO da França, próxima ao Canal da Mancha. A Normandia foi palco de uma grande batalha na 2ª Guerra Mundial. Vídeo: A Invasão da Normandia.
[14] O Governo comunista terminou em 1990.
[15] Greve que teve como um dos principais líderes Lech Walesa.
[16] Em 1º de janeiro de 1993, a Checoslováquia foi dividida em duas por decisão parlamentar, no que foi conhecido por Separação de Veludo, por seu caráter pacífico. Surgiram dois novos países da fusão: República Tcheca e Eslováquia.
[17] No Brasil, a população feminina ativa no mercado de trabalho passou de 32,9% em 1981 para 52,7% em 2009. Em 1980 era de 27% da população. Fonte: IPEA.
[18] Para o ÓCIO, há o livro “O Ócio Criativo”, de Domenico de Masi. Ele também palestrou no Programa Roda Viva, em 1999 (AQUI) e em 2013 (AQUI).
[19] Levantamento do IBOPE informa que o brasileiro ficou, em 2011, 5h28’ diante do televisor. O que dá 38h16’ por semana. Fonte: Notícias R7.

09 agosto 2020

Guzzo: "O fosso aumenta". (09/08/2020)



A calamidade que mais importa é a do ensino básico na rede pública de educação. J. R. Guzzo, via Estadão:



De todas as tragédias trazidas pela covid-19 ao Brasil uma das mais angustiantes é a devastação que a necessidade de combater o vírus está causando nas escolas. Esqueça um pouco a universidade e os colégios particulares; a calamidade que mais importa é a do ensino básico na rede pública de educação. Estudam ali, hoje, cerca de 50 milhões de crianças e adolescentes. Basicamente, não tiveram aulas em 2020 – e estão simplesmente condenados a perder o ano. É claro que os governos sempre podem assinar um papel fazendo todo mundo passar para o ano seguinte do currículo. Mas é impossível ensinar alguém por decreto. O que esses 50 milhões de garotos não aprenderam em 2020 não será mais aprendido; a matéria que não foi dada pode ser socada em cima dos alunos, em forma de ensino “condensado”, quando as escolas voltarem a funcionar, mas uma hora perdida é uma hora perdida. Não há como criar o tempo de novo.

Tudo o que esses 50 milhões de jovens não precisam, hoje ou em qualquer época, é perder um ano de escola. São os mais pobres – e, portanto, a imensa maioria – e os que mais precisam adquirir conhecimento para ter alguma oportunidade objetiva de levar uma vida melhor que a dos seus pais. Como observou um editorial recente de O Estado de S. Paulo, citando palavras do secretário-geral da ONU, não há nenhuma esperança de se reduzir as desigualdades sociais, econômicas e culturais sem fornecer educação de qualidade aos jovens – é aí que está “o grande equalizador”. Não há distribuição de dinheiro, ou de casas, ou de “quotas” capaz de substituir o avanço que a educação pode trazer para a condição social de um ser humano; não há “programas sociais”, nem “políticas públicas”, com a potência que uma boa instrução tem para possibilitar o acesso ao trabalho mais bem remunerado, às oportunidades de realização pessoal e ao conjunto de condições que compõem uma existência distante da pobreza.

A perda do ano letivo de 2020 é com certeza uma das piores notícias que a questão social poderia receber no Brasil de hoje. Não há nenhum causador mais efetivo de pobreza, desigualdade, concentração de renda e injustiça do que a falta de instrução que castiga a maioria da população brasileira. Num país em que a atividade econômica está sofrendo como nunca, e continuará a sofrer nos próximos meses, a distância entre os brasileiros vai se tornar maior ainda do que já é. Não apenas os jovens das classes mais modestas sofrem um prejuízo real e imediato. Os alunos das escolas particulares, de um jeito ou de outro, vão acabar aprendendo mais durante este período de desgraça – e o fosso, em vez de diminuir, vai crescer.

Ouve-se falar muito, desde o início da paralisação trazida pela epidemia, da utilização de novos métodos de ensino, baseados no computador, que permitam um ensino a distância mais efetivo; fala-se em “inclusão digital”, “escolas virtuais” e outros portentos. Mas isso tudo, na vida real, tem significados diferentes de acordo com o dinheiro que as pessoas têm no bolso. O “ensino remoto” é uma coisa para a moçada que está em escolas particulares onde se cobram mensalidades de R$ 5 mil, ou por aí. Para a massa dos estudantes da rede pública é completamente outra. As duas realidades não têm praticamente nada a ver entre si. Como ensinar por computador alguém que não tem computador? Como dar aulas pela internet onde não há internet? De novo: está se falando de 50 milhões de alunos. Não há a menor possibilidade de que seja mantida a distância, já muito grande, que os separa dos que estudam na rede particular. Ela vai ficar muito pior, e a conta vai aparecer no futuro.


12 fevereiro 2019

Coletivo de leão e de rato



Professor Moreno: Olá! Tenho curiosidade em saber o coletivo de leões (o animal, rei da floresta). Pesquisei algumas gramáticas e não encontrei o coletivo específico para eles. Vi que matilha pode ser usado para animais ferozes e cambada para gatos (leão = felino), mas não sei se são os indicados para leões.
Tânia G. - Crato (CE)


Minha cara Tânia: os coletivos específicos são tão poucos que há muito se deixou de levar tão a sério o estudo desta espécie de substantivo. As cabras têm um coletivo determinado (fato), e assim também os camelos (cáfila); os porcos não deixam por menos (vara), e os peixes vivem em cardumes. E a tartaruga? A cotia? O jacaré? O tatu? A lesma? O tamanduá? O bicho-preguiça? O canguru?

Esses não têm coletivos específicos, principalmente por não terem o costume de aparecer em grandes grupos. Se fizermos questão de empregar um coletivo para estes animais, devemos usar os chamados coletivos genéricos (que, na verdade, terminam sendo usados para tudo, até mesmo para o porco, o camelo e a cabra, que tinham os seus coletivos específicos): bando, grupo, manada, rebanho, etc. É o caso dos leões; basta escolher um desses genéricos que não esteja diretamente relacionado com alguma espécie (cardume de leão não dá, nem vara; cáfila muito menos, é óbvio).

Há poucos dias, minha cara Tânia, outra leitora escreveu perguntando o coletivo de rato: “Seria ninhada (por causa da criação), ou bando, ou nenhum deles?”. Ninhada serve tanto para os ratinhos quanto para os filhotes de qualquer ave ou mamífero (de pinto, de cachorro, de gato, de leitão, etc.) nascidos de uma só vez; com certeza nossa leitora teve a atenção atraída pela expressão ninho de rato, usada para cabelo emaranhado, cama com as cobertas desfeitas ou gaveta desorganizada. O equívoco é normal; nossa memória vocabular vive nos pregando peças desse tipo.

Nesse caso – da mesma forma que com os leões –, voltamos aos coletivos genéricos. Como grupo e manada (é ruim!) de ratos não dá, usamos bando ou coisa semelhante. Esses coletivos estão ficando tão polivalentes que encontrei uma definição de cambada que poderia figurar naquela famosa enciclopédia chinesa citada por J.L. Borges: “cambada – coletivo de caranguejos, chaves reunidas, gente ordinária, malfeitores, objetos enfiados em cordão, peixes, vadios e vagabundos”.

Não podemos esquecer que o Português usa, para expressar a ideia coletiva, sufixos extremamente produtivos, o que, aliás, explica por que temos tão poucos coletivos específicos: -ada, -eiro, -ria, -edo: boiada, formigueiro, cavalaria, pulguedo, etc. Para rato, o Houaiss e o Aurélio registram ratada e rataria. Para leão, certamente o Português poderá produzir algo como leãozada, se for necessário – o que nunca é impossível: no momento em que se começou a chamar de perua aquele tipo de mulher espalhafatosa e cheia de joias, ao lado de bando de peruas, passei a ouvir também formações derivadas como

“Naquele bar tem uma peruada (ou peruagem, ou peruama) infernal”.

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