Editor de nova tradução da obra de Freud diz que a psicanálise funciona, mas precisa se libertar do controle dos iniciados. reportagem de Jerônimo Teixeira, nas Páginas Amarelas, da Revista Veja, do dia 12 de março de 2003.
Por Eduardo Salgado
O inglês Adam Phillips, de 48 anos, tem
se dedicado a uma tarefa histórica: a organização da segunda tradução do alemão
para o inglês da obra de Sigmund Freud. O primeiro volume da nova versão saiu
no ano passado e, até o fim de 2004, serão publicados mais de dois terços do
trabalho do pai da psicanálise. Um dos psicanalistas mais influentes da
Inglaterra, Phillips pretende corrigir os erros e os excessos cometidos pela
primeira tradução, a que popularizou as ideias de Freud não apenas nos países
de língua inglesa, mas também na Europa e na América Latina. Ele promete ser
fiel ao estilo do original de Freud – que, garante, é mais acessível que o da
tradução tradicional. Com isso, quer libertar a psicanálise do establishment
médico. Autor de dez livros e reconhecido como um dos grandes ensaístas de sua
geração, Phillips trabalhou no sistema de saúde inglês durante dezessete anos.
Separado e pai de uma menina de 8 anos, hoje atende apenas em um consultório
localizado no charmoso bairro de Notting Hill, em Londres, de onde deu a
seguinte entrevista a VEJA.
Veja
– Freud criou o termo “psicanálise” no
século XIX. Tudo o que ele escreveu ainda faz sentido?
Phillips
– Não.
Várias coisas que ele disse não têm valor hoje. Freud acreditava, por exemplo,
que a sexualidade das mulheres é mais misteriosa que a dos homens. No entanto,
essas generalizações imprecisas não invalidam toda a obra. Apenas reforçam a
necessidade de tirá-lo do altar em que foi colocado.
Veja
– Quem foi Freud? Um cientista, um
escritor ou um charlatão?
Phillips
– Foi
um escritor que aspirava ser um cientista. Freud descobriu algo importante e
decidiu legitimar essa descoberta usando o critério científico, que então era
dominante. Essa tarefa se mostrou impossível. Não há como testar ou checar a
existência do inconsciente. Não tem ninguém que possa testemunhar o sonho
alheio. É uma criação solitária. A ciência depende da reprodução de
experiências, e isso não é possível na psicanálise.
Veja
– Por que houve a necessidade de uma nova
tradução do trabalho de Freud?
Phillips
– A
primeira tradução do alemão para o inglês foi feita por James Strachey, com a
ajuda de Anna, a filha de Freud. Começou a ser publicada nos anos 50 e foi a
principal responsável pela polarização da psicanálise em todo o mundo. O grande
problema é que essa edição, chamada de standard, acabou recebendo o tratamento
de texto sagrado. Acho que Strachey é maravilhoso, mas ele cometeu alguns
deslizes. O texto original é mais acessível que a versão em inglês. Há pouco
jargão no original. Strachey tentou fazer um texto com termos mais científicos
porque buscava a legitimidade do meio médico. Sempre existiu o receio de que a
psicanálise soasse meio mística e artística. Os termos “ego”, “superego” e
“id”, que fazem parte dos conceitos básicos da psicanálise, são de Strachey. No
texto em alemão, Freud usou palavras corriqueiras, como “eu”, “supereu” e
“isso”.
Veja
– Essas diferenças são tão importantes
assim?
Phillips
– São,
sim. Chegou a hora de libertar Freud do establishment médico e das
universidades. A psicanálise tornou-se um culto misterioso entendido e dominado
apenas pelos iniciados. Não há necessidade para isso. Agora, pessoas de vários
setores podem ler, entender e debater as ideias de Freud. Como a psicanálise é
uma cura pela linguagem, as palavras são muito importantes.
Veja
– Strachey não estava certo em tentar
fazer da psicanálise algo mais científico para que ela fosse aceita?
Phillips
– Por
um lado, sim. Dá para fazer uma comparação com um imigrante, que precisa
assimilar a cultura legitimadora. Mas, por outro lado, a herança de Freud foi
dominada pelo establishment médico, o que limitou as contribuições de vários
outros grupos dentro da sociedade. Na Inglaterra, muitos escritores e pintores
da turma de Virginia Woolf se interessaram pelo assunto. O problema é que o
trabalho de Freud tornou-se prisioneiro da própria respeitabilidade que
adquiriu. A psicanálise não é propriedade de ninguém.
Veja
– Por que o número de cirurgias plásticas
e implantes de silicone não para de aumentar?
Phillips
– Hoje
as pessoas têm mais medo de morrer do que no passado. Há uma preocupação
desmedida com o envelhecimento, com acidentes e doenças. É como se o mundo
pudesse existir sem essas coisas. Há uma enorme sensação de invisibilidade.
Todo mundo acha que ficou de fora de algo, mas não sabe do que exatamente. É
como se sempre houvesse uma festa imperdível em algum lugar e ninguém
conseguisse encontrar o local. A obsessão por beleza reflete a necessidade de
ser amado e aceito.
Veja
– Essa necessidade é maior hoje do que
era no passado?
Phillips
– Na
cultura atual, parece que há apenas dez pessoas que estão vivendo. São as
celebridades. O resto encontra-se num nível bem mais baixo. Isso tudo é um
absurdo sem tamanho. A ideia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida a
ser inVejada. Esse estado de coisas
deixa muita gente enfurecida e infeliz.
Veja
– Por que mulheres e homens parecem
totalmente obcecados por dietas de emagrecimento e exercícios?
Phillips
– É
uma nova versão do que Freud chamou de histeria. Mas, desde que ele escreveu
sobre o assunto, as coisas pioraram. Todos devem estar se sentindo muito
enfermos e vulneráveis para se preocupar de forma tão doentia com a saúde. O
sexo é outro assunto preocupante. Hoje todo mundo fala de sexo, mas ninguém diz
nada interessante. É uma conversa estereotipada atrás da outra. Vemos exageros
até com crianças, que aprendem danças sensuais e são expostas ao assunto muito
cedo. Estamos cada vez mais infelizes e desesperados com o estilo de vida que
levamos.
Veja – Isso tem relação
com o número de casos de depressão?
Phillips – Muitas
pessoas conseguem suportar o mundo contemporâneo apenas num estado de
depressão. Se não estivessem assim, ficariam enfurecidas e tentariam mudar o
mundo. Hoje trabalhamos e produzimos numa velocidade que impede a reflexão
sobre o significado de nossa vida. Estamos hipnotizados. Vivemos em sociedades
em que é mais importante ser rico do que ter amigos íntimos, mais importante
ser famoso do que amar. Isso é enlouquecedor. Estamos todos muito sós e
famintos de contatos eróticos que sejam genuinamente criativos.
Veja – O
que é depressão?
Phillips – Para
muita gente, é melhor estar quase morto que totalmente vibrante diante de uma
situação difícil. A depressão funciona como um escudo para evitar situações
conflituosas. Esse tipo de comportamento certamente aumentou. Dito isso,
sofremos de outro tipo de problema. É a indústria do diagnóstico. Nos
consultórios, qualquer tristeza é chamada de depressão.
Veja – Recentemente,
pesquisadores americanos afirmaram ter encontrado uma parte do cérebro que
comprova a existência do inconsciente. A ciência irá um dia validar as idéias
de Freud?
Phillips – Não
há como. A busca por uma explicação científica é uma distração. O que Freud
descreve é um tipo diferente de experiência. A psicanálise é uma prática de
falar e escutar. Trata dos problemas enfrentados pelas pessoas no dia-a-dia.
Uma das questões centrais é: o que faz a vida valer a pena? Como acabou fazendo
parte da tradição médica, a psicanálise parece ter o poder de curar doenças.
Mas não é bem assim. O objetivo é ajudar as pessoas a descobrir o que desejam. Em
alguns casos, como nas fobias, pode realmente acabar com os sintomas. Em
outros, o paciente toma consciência do problema e descobre uma maneira de
conviver com ele. Esse trabalho tem relação direta com a individualidade e com
a história de cada paciente. É a ciência da singularidade. Funciona com algumas
pessoas e não exerce efeito positivo em outras.
Veja
–
Muitas crianças têm agenda lotada de compromissos. Há tempo para ser criança no
mundo atual?
Phillips – Com
certeza, não. As crianças entram na corrida pelo sucesso muito cedo e ficam sem
tempo para sonhar. Há grande ansiedade da parte dos pais em relação ao futuro.
Essa pressão está literalmente enlouquecendo muitas crianças. A decisão sobre a
profissão está acontecendo cada vez mais cedo. No século XIV, se as pessoas
fossem perguntadas sobre o que queriam da vida, diriam que buscavam a salvação
divina. Hoje a resposta é: "ser rico e famoso". Existe uma espécie de
culto que faz com que as pessoas não consigam enxergar o que realmente querem da
vida.
Veja – Do
ponto de vista dos pais, não é legítimo o desejo de sucesso e riqueza para os
filhos?
Phillips – Claro.
Não acho que as crianças deveriam ser educadas para se tornar revolucionárias.
Mas é possível melhorar o que temos. Os pais devem ter como objetivo garantir o
futuro de seus filhos e, ao mesmo tempo, deixá-los mais à vontade, com mais
tempo e espaço para ser menos focados, menos objetivos. Adiar as decisões sobre
o futuro, dar tempo ao tempo.
Veja – O
senhor consegue atingir esse equilíbrio com sua filha de 8 anos?
Phillips – Acho
que sim. Não fico tentando entender tudo que minha filha faz e diz. Estou mais
preocupado em que se divirta. Não acredito num planejamento milimétrico para o
futuro de uma criança, como se tudo pudesse ser programado.
Veja – Há
alguns anos se fala da necessidade de dar limites aos filhos. Por que os pais
acham essa tarefa tão difícil?
Phillips – É
assim porque os pais não acreditam nos limites. É preciso acreditar neles para
que funcionem. A cultura em que vivemos não facilita esse trabalho. Os pais
criam limites que a cultura não sanciona. Por exemplo: alguns pais tentam
controlar a dieta dos filhos dizendo que é mais saudável comer verduras do que
salgadinhos enquanto as propagandas dão a mensagem diametralmente oposta. O mesmo
pode ser dito em relação ao comportamento sexual dos adolescentes. Muitos pais
procuram argumentar que é necessário ter um comportamento responsável enquanto
a mídia diz que não há limites.
Veja – Como
os pais podem resolver esse problema?
Phillips – Resolver
o problema é algo muito ambicioso. O que podemos fazer é instruir as crianças a
interpretar a cultura em que vivemos. O que está a nosso alcance é ensiná-los a
ser críticos. Mostrar que as propagandas não são ordens e devem ser analisadas.
Será que realmente precisamos de tal coisa? Será que é a melhor opção? Será que
tal comportamento é o melhor? Outro problema é a incapacidade dos adultos de
ser adultos. Os pais também devem aprender a ser odiados pelos filhos em
algumas ocasiões. Muitas pessoas têm filhos porque acham que o nascimento deles
é uma garantia de que serão amados de forma incondicional e eterna. Por isso,
têm receio do ódio e da desaprovação deles. Tratam crianças como se fossem
adultos. Uma coisa precisa ficar clara de uma vez por todas: embora reclamem,
as crianças dependem do controle dos adultos. Quando não têm esse controle,
sentem-se completamente poderosas, mas ao mesmo tempo perdidas. Hoje há muitos
pais com medo dos próprios filhos.
Veja – Por
que a psicanálise é tão popular na América Latina e tão pouco disseminada na
Ásia?
Phillips – Imagino
que na Ásia o problema seja a religiosidade dos povos. As idéias de Freud vão
radicalmente contra a pregação do hinduísmo, do islamismo e do budismo. Isso
faz com que a assimilação seja muito complicada. Sobre o sucesso na América
Latina, não tenho certeza. Talvez tenha a ver com fatores como a colonização
européia e a instabilidade política.
Veja – Os
remédios e as terapias alternativas estão acabando com a psicanálise?
Phillips – A
psicanálise está apenas começando. A experiência de ser ouvido é muito
poderosa. Definitivamente, tem efeito benéfico. É verdade que num mundo ideal
ninguém precisaria de analista. O diálogo com os amigos daria conta do recado.
O problema é que não temos a coragem de contar certas coisas aos amigos. Outras
podemos até contar, mas os amigos não sabem como ajudar.
Veja – Os
amigos, pelo menos, não cobram uma exorbitância para ouvir, não é verdade?
Phillips – Essa
crítica é totalmente válida. Ninguém deveria escolher a profissão de
psicanalista para enriquecer. Os preços das sessões deveriam ser baixos e o
serviço, acessível. Deve-se desconfiar de analistas caros. A psicanálise não
pode ser medida pelo padrão consumista, do tipo "se um produto é caro,
então é bom". Todos precisam de um espaço para falar e refletir sobre sua
vida.
FONTE: Acervo Veja
