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07 março 2024

Seis frases marcantes (18.2.2023)




Por BRAULIO TAVARES


1
Barão Henrich von Brokenstein, 58 anos, cientista gótico, em pleno tumulto de uma experiência laboratorial na torre do seu castelo expressionista, onde pretende utilizar um algoritmo viral para multiplicar em tempo recorde as células de um embrião de leão-da-montanha, no que é atrapalhado o tempo inteiro pelo seu prestimoso mas confuso ajudante Ygor Bitcovic, 48 anos, corcunda, neurótico, caolho, que tenta fazer seis coisas ao mesmo tempo e desorganiza sete, até que o Barão Brokenstein, ao empurrá-lo num gesto impaciente, agarra-o de novo pelos ombros, olha com atenção seu rosto magro, nariz adunco, queixo comprido... e o tapa-olho negro que está cobrindo o olho direito, em vez do esquerdo. Desorientado com essa imagem incongruente, o Barão tartamudeia: “Ygor! Tem algo de  diferente em teu rosto. Fizeste a barba, por acaso?...” E ele responde: “A minha barba nunca cresceu.”
 
2
Beto Miolo, 19 anos, primeiro volante do time juvenil do Rodoviários Esporte Clube, de Cabiúna (Alagoas), terminou eufórico seu primeiro treino na equipe principal; após o chuveiro abordou na saída do vestiário o técnico Joãozinho de Berto, e indagou como se saíra, ganhando um tapinha no ombro e o veredito: “Bom demais! Nota dez!”, o que o levou a fantasias de profissionalização, que foram incrementadas quando os colegas o chamaram para o almoço habitual no Bar do Haroldão, na esquina do campo, onde se sentaram em grupo, contando piadas, trocando provocações, enquanto Haroldão fazia aterrissar na mesa duas terrinas respeitáveis de uma macarronada à bolonhesa oleosa e descorada, que todos atacaram com o estoicismo dos famintos, até que Haroldão parou junto do técnico, botou o pano de prato no ombro, perguntou como estava o almoço, e Joãozinho de Berto respondeu com entusiasmo: “Bom demais! Nota dez!”.
 
3
Lucinha Mamede, 15 anos, aluna do Colégio Samaritano, bonitinha mas meio azougada, ao reagir de forma inesperadamente grosseira às tímidas investidas paqueratórias de seu colega de classe Mateus Rodrigues Lemos, 16 anos, e tentando justificar-se diante das colegas que a cercaram com os argumentos previsíveis  de “você não é essas brastemps” e “caiu na rede é peixe”, o que a fez explicar cheia de angústia: “Esse menino me passa uma energia muito negativa, eu acho que ele é feito somente de elétrons”.
 
4
Indaiara Ferreira de Sousa, 26 anos, dançarina da boate e pensão “Love To Love”, no km 136 da Rio-Bahia, ao ser convidada a dar um breve depoimento para uma equipe da TV Agreste que realizava um documentário sobre o cotidiano dos motoristas de caminhão, fregueses tradicionais daquele estabelecimento; ela concordou em gravar, pediu licença, foi lá dentro, voltou de banho tomado, roupa trocada, maquiagem feita, sentou junto à janela que lhe indicaram, ajeitou a longa cabeleira de índia, e à primeira pergunta do jornalista cruzou a perna num gesto aristocrático, ergueu as sobrancelhas e declarou: “Olha, meu bem, nós aqui temos uma vida... uma vida... uma vida favoravelmente maravilhada.”
 
5
Apolônio Romão Gadelha, 92 anos, coronel da Guarda Nacional, fazendeiro, ex-deputado, faleceu à 01:32 de uma madrugada fria na região do Teixeira, depois de uma noite inteira de aflição em que a respiração lhe vinha como que através de tubulações de esgoto; teve tempo, portanto, para se despedir espiritualmente de seus hectares e sesmarias, de seus celeiros e currais, de suas alfaias, seus dobrões, e de seus oito filhos e filhas que assistiram o desenlace de pé e de cabeça baixa, todos mansos e caladinhos. Quando seu rosto se imobilizou, a agora viúva, Dona Quitéria, 63 anos, abaixou-lhe as pálpebras, desprendeu da mão ainda morna do defunto os dedos entanguidos que a seguravam desde o final da tarde, ergueu-se, suspirou bem fundo, encarou aquele grupo de rostos náufragos e anunciou: “Vou fazer um café.”
 
6
Sandra Natália Girão, 52 anos, professora, chegou como todos os dias à Faculdade de Ciências Sociais Tobias Barreto, entrou na sala de aula às 7 em ponto, jogou na mesa a bolsa, os livros, e o material impresso, deu bom dia, e disparou um desabafo contido há anos, no sentido de que um país não prospera e uma nação não convive em paz se não huver um mínimo de contrato social entre as partes; se não se encurtar a distância entre o estrato mais rico e o mais pobre; se não forem usados todos os mecanismos jurídico-institucionais para extirpar a mentalidade colonialista, extrativista e escravocrata que ainda contamina nosso arremedo de República; se cada pessoa não se convencer de que ação política e cidadania são exercidas em casa e na rua nos sete dias da semana, e não apenas nas urnas de dois em dois anos; se não acabarmos com a cupidez insolente dos investidores, a cumplicidade servil dos cooptados, a retórica cínica e desonesta da pseudo-imprensa, e a passividade cega dos magarefes que se julgam donos do matadouro; e quando fez pausa para tomar respiração o rapaz de boné e óculos da segunda fila ergueu o braço e perguntou: “Cai na prova?...” 



02 março 2019

As fidelidades da tradução (Braulio Tavares)

(Lewis Sidney e seu Follyphone, 1912)






Quem traduz uma obra literária tem que manter três fidelidades diferentes, que às vezes entram em choque umas com as outras.


O tradutor tem que ser fiel ao Texto, ao Autor e ao Leitor.


Não existe uma hierarquia obrigatória entre essas três fidelidades. A cada instante, em cada parágrafo, em cada frase, uma delas se torna mais importante do que as outras.


Ser fiel ao Texto é a mais óbvia dessas difíceis fidelidades, e é esta questão a origem da famosa frase italiana “traduttore, tradittore”, “tradutor = traidor”. O tradutor não pode dizer uma coisa que não esteja no texto, nem deixar de dizer uma que esteja; isso seria uma traição.


O Texto é o livro. Ele não precisa de nada mais para “ser”. Uma obra literária é (em tese) algo assim como uma esfera, à qual nada falta e nada sobra.


O desafio do tradutor é pegar a massinha-de-modelar que compõe essa esfera e criar com aquilo um cubo com a mesmíssima massa total.


Ser fiel ao Texto significa ler esse texto da melhor forma possível, que ninguém sabe qual é, mas todo mundo tenta.


Paulo Henriques Britto, um dos nossos melhores tradutores, disse uma vez num talk-show que só lê de verdade um livro o leitor que o traduz, porque foi obrigado a pensar cada uma daquelas frases em profundidade; porque foi forçado a inventar aquela frase de novo. Todas as frases do livro.


O leitor comum, de fato, apenas passa os olhos pelas frases, acompanhando a história. Muita coisa ele não entende direito, mas passa direto porque não tem tanta importância. Aqui uma palavra desconhecida, ali uma frase truncada, mais adiante um trecho onde não se sabe o sujeito ou o predicado, ou uma referência cultural obscura, uma gíria, um nome próprio desconhecido...


O leitor passa, o tradutor não. Ele se detém naquele problema insignificante e não pode seguir em frente enquanto não tiver uma boa explicação, um bom entendimento, um bom equivalente em português.


(Cada um tem seu método, claro. Eu geralmente deixo isso para resolver depois, na revisão, e sigo em frente – menos quando esse trecho é indispensável para entender o que se segue.)


Ser fiel ao Texto significa também que tem de haver fidelidade ao jargão ou gíria (quando há), a um palavreado étnico qualquer (quando há), a uma impressão deliberadamente confusa produzida pelo autor (quando há). É necessário usar as figuras de linguagem do autor, a cadência sintática dele, os cacoetes dele.


E aí passamos para o degrau seguinte, que é o da fidelidade ao Autor. Ao espírito do Autor.


Costuma-se dizer que o Autor tem toda a liberdade, e o tradutor nenhuma: ele só pode pisar onde o pé do Autor pisou de fato. De quem o tradutor pode se socorrer, se ele está de mãos e pés atados ao texto?


Em geral ele se socorre do próprio Autor, e é nesse sentido que ele tem de ser fiel: é principalmente ao Autor que ele “pergunta”. Porque ele precisa nesse momento (deparando-se com uma frase intraduzível, às vezes ininteligível) incorporar espiritualmente o autor, psicografá-lo, por assim dizer. Ele precisa adivinhar o que o autor estava pensando quando escreveu aquilo. E sem trair o espírito do autor.


Saber quem é o autor do livro ajuda muito, quando se tem acesso a entrevistas, biografias, a outros tipos de texto assinados por ele. Conhecer a mente do autor, seu modo de associar idéias, seu repertório de referências memorialísticas, suas paixões pessoais, suas manias. Esta é a vantagem de traduzir um autor clássico, um autor famoso.


Muita coisa disso acaba cedo ou tarde se refletindo no texto, e ajuda a gente a perceber que aquele adjetivo está certamente sendo usado com ironia, e que aquela algaravia sem sentido era uma paródia ao idioma natal de sua avó materna. Livros de ficção, principalmente, estão cheios dessas coisas.


É uma fidelidade difícil, ao Autor, e mais perigosa ainda quando o autor está vivo e tem acesso (idiomático, inclusive) à tradução. Pode o tradutor estar bem confiante de que “captou” a idéia do outro e depois sofrer um desmentido fenomenal do autor num talk-show qualquer. Paciência. Traduzir é adivinhar.


E vem então a terceira fidelidade, que é com o Leitor. A experiência final do Texto é na mente do leitor, e é pensando na mente dele que o tradutor trabalha. Nas fases de revisão, principalmente, o tradutor precisa esquecer por um instante o original e pensar apenas nisto: O leitor vai ver o quê?


O leitor não tem acesso ao que há “por trás” da frase que lê em português. Vai entender? Não vai? Vai perceber esse detalhe colocado pelo autor? Não vai?


São dois movimentos que o Tradutor faz o tempo inteiro: tentar adivinhar o que o Autor pensou, e tentar adivinhar o que o Leitor vai perceber no texto final. Sim, é uma adivinhação. Embora o bom senso, a experiência, a intuição estatística, uma estante inteira de obras de referência, uma Web inteira na ponta do dedo... tudo isso ajude bastante. Ao longo de um livro, várias vezes o tradutor fecha os olhos, tapa o nariz e dá um salto no escuro.


Ser fiel ao Leitor não é ser paternalista ou negligente. É ser capaz de, em muitos casos isolados, virar de cabeça para baixo o texto e criar uma coisa nova, só para que o Leitor tenha a mesma experiência de quem leu o livro na língua original.


Todo mundo tem seus pecados, e traduzindo pulp fiction, por exemplo, eu cortei palavras do original, impedi que ficassem no texto traduzido. Quando o sujeito quer qualificar um gangster e usa quatro sinônimos sucessivos, não tem nada de mais usar apenas três, ora que diabo! (A não ser – olha as exceções – quando com as quatro palavras a frase mantém a cadência rítmica do original, flui sem tropeçar, e aí procuro manter.)


Asteriscos, notas de rodapé ou de final, explicações, tudo isso é usado mais em benefício do Leitor do que do Autor. Estão ali para evitar que o Leitor se erga da poltrona para procurar alguma coisa no dicionário. O uso do hipertexto eletrônico com links está abrindo um caminho mais rico e mais veloz para esse recurso.


Às vezes, para ajudar o leitor, a gente “encastoa” uma palavra ou pequena explicação que não tem no texto em inglês. Acho isso um pecado de gravidade meramente purgatorial. Posso traduzir “McKinley” por “o presidente McKinley”, pra dar uma pista, desde que o personagem ou o narrador não pareçam estar explicando algo desnecessário.


Existe uma cadeia de comunicação formada por Autor-Texto-Leitor, e o tradutor é um Intruso Benigno que interfere nela de forma a que o Autor e o Leitor não se sintam incomodados, e o Texto seja não uma cópia, mas um filho do texto original.




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