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15 novembro 2022

Theodore Dalrymple: "As universidades fazem lavagem cerebral".

 

Para o psiquiatra britânico Anthony Daniels, enquanto o Estado fomenta o paternalismo, a liberdade do indivíduo depende de seu grau de ação e participação na sociedade. Entrevista a Paula Leal, da Oeste via Otambosi:



Theodore Dalrymple é apenas um dos pseudônimos que o psiquiatra britânico Anthony Daniels utiliza para escrever suas obras e seus artigos. Colunista de Oeste e autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas, Daniels atuou profissionalmente na periferia de grandes cidades, em prisões e países como o Zimbábue e a Tanzânia, além de outros do Leste Europeu e da América Latina. A partir de sua experiência como médico, tornou-se um observador sagaz do comportamento humano. Seu nome é referência quando o assunto é o pensamento conservador contemporâneo.

Em entrevista à Revista Oeste, o médico conversou sobre as reações da população diante da pandemia de covid-19, as políticas públicas adotadas para conter a doença e avaliou possíveis desdobramentos da crise sanitária. Para o psiquiatra, as mudanças nas relações de trabalho podem aumentar ainda mais a disparidade social. “A segregação social será ainda pior, com mais privilégios para alguns”, disse. Avesso ao conceito de Estado de bem-estar social, ele acredita que programas assistenciais “criam uma mentalidade dependente” e iludem o cidadão. “O Estado afirma que cuida de você, quando na verdade nada mais faz do que cumprir com suas metas sociais.”

Direto da França, onde mora atualmente, Daniels conversou por telefone com a reportagem de Oeste. Confira os principais trechos da entrevista.

O mundo vive há dois anos os efeitos da pandemia de covid-19. Como o senhor avalia as reações da população, principalmente dos mais jovens, diante da crise sanitária?

A maior parte das pessoas nunca havia atravessado uma catástrofe de larga escala. Então, não havia referências nem algum evento para efeito de comparação. Os jovens foram muito impactados na pandemia justamente porque, dada a pouca idade, não têm uma bagagem mais ampla que lhes permita relativizar esses eventos e entender que essas coisas são momentâneas dentro de um processo histórico maior. Portanto, a reação emocional deles acaba sendo potencializada. Os jovens, hoje, se sentem pressionados por temas como aquecimento global e temem a extinção do planeta. Veja o caso da Greta Thumberg. Ela disse algo como: ‘Vocês roubaram a minha infância’. Isso é uma infantilidade. Ela é uma menina mimada que não tem ideia sobre o sofrimento humano e o que realmente acontece no mundo.

O mundo pós-pandemia será diferente?

As coisas permanecerão iguais, só que piores (risos). Muitas pessoas ficarão relutantes em voltar ao trabalho. Quem em São Paulo quer enfrentar o trânsito todos os dias? Mas os pobres terão de continuar como antes, voltar ao trabalho, se deslocar. Muitos trabalhadores foram fundamentais nesse período de isolamento. São pessoas com empregos humildes que trabalham em supermercados, são entregadores, motoristas, eles continuaram a trabalhar. Sem eles, seria impossível sobreviver à pandemia. No entanto, outros poderão trabalhar de casa. Se esse for o caso, a segregação social será ainda pior, com mais privilégios para alguns.

As políticas públicas adotadas pelos governantes para conter os efeitos da pandemia foram adequadas?

Tenho alguma simpatia pelos governantes. Ainda que a maior parte das políticas públicas tenha se tornado promotora de instabilidade, a verdade é que, se você está no governo e precisa decidir com urgência, acaba por tomar algumas medidas drásticas. Ainda mais sabendo que, mais à frente, você corre o risco de ser julgado por não ter tomado todas as medidas cabíveis. Nesse sentido, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. O problema é que algumas das medidas tomadas não tinham evidências de que poderiam funcionar. Por exemplo, durante a pandemia, viajei da França para a Holanda para participar de um simpósio. Na Holanda, todas as lojas e restaurantes estavam abertos, enquanto na França estava tudo fechado. Por qual razão as lojas estavam abertas em um país e em outro fechadas? Mas, como todos agiram na ignorância, na verdade não tinha como saber o que iria acontecer.

No Brasil e no mundo, há uma discussão sobre a obrigatoriedade de um passaporte de vacina. O senhor é favorável à vacinação obrigatória?

O que se deve questionar é se quem se vacinou pode transmitir a doença. Se pessoas vacinadas não transmitem a covid, há argumentos a favor da vacinação. No entanto, há um artigo na Lancet dizendo que estar vacinado não impede a transmissão. Se for esse o caso, não vejo por que exigir passaporte da vacina. Mas é claro que o conhecimento científico é mutável. Estou completamente vacinado, mas não quero frequentar lugares com aglomerações. A decisão é minha. Jovens sem problemas de saúde têm menor risco de complicações pela doença. É uma decisão individual. Se pessoas vacinadas transmitem a doença, não há justificativa para obrigá-las a tomar a vacina.

Recentemente, o senhor publicou um artigo em Oeste que aborda o tema da decadência do Ocidente. Em comparação com a ditadura chinesa, o que está acontecendo com a democracia no Ocidente?

Com a derrocada da União Soviética, acabaram-se as ideologias políticas. Mas, de fato, o que aconteceu é que elas se desmembraram em ideologias identitárias sobre gênero, sexualidade, feminismo e racismo. Isso tem acontecido muito nas universidades. Eles fazem uma verdadeira lavagem cerebral nos alunos, especialmente na área de humanas. E são pessoas que depois também vão assumir cargos na administração pública. Já os chineses não estão preocupados com essas questões, na medida em que o que acontece lá, em um formato aprendido com os russos, é uma ditadura que não dá espaço para essas discussões. Eles mantiveram a estrutura ditatorial oriunda do período comunista, mas adotaram a economia de livre mercado. A população é livre para trabalhar e ganhar dinheiro, mas não para pensar. Não sei se é sustentável a longo prazo. Mas, certamente do ponto de vista de se tornar rico e poderoso, essa política funcionou e está funcionando.

No mesmo artigo, o senhor afirma que a China sabe explorar seus interesses nacionais. Por que o Ocidente enfrenta dificuldade para fazer o mesmo?

De certo modo, há ainda uma ressaca da Segunda Guerra Mundial. Qualquer um que fale sobre interesses nacionais pode ser considerado um admirador de Hitler. Até mesmo entre os mais jovens. Eles aprenderam que qualquer discussão que não seja de direitos humanos universais é fascista.

O senhor aborda o tema da vitimização e da dificuldade do ser humano em assumir responsabilidades na vida em vários de seus livros. Por que esse sentimento é tão presente na sociedade?

Historicamente, há uma tendência das pessoas ao escapismo individual. Isto é, pode-se dizer que é da natureza humana não querer assumir responsabilidades. No entanto, mais recentemente, quando passamos a pensar em termos sociológicos, antropológicos, econômicos e até mesmo criminológicos, esse movimento vem se atenuando, já que as pessoas estão entendendo que sua liberdade depende diretamente do grau de ação e participação em sociedade. Há, de todo modo, uma parcela da população — em sua maioria oriunda de classes menos abastadas — que é levada a esse tipo de pensamento de dependência, porque não precisa se preocupar com educação nem com aposentadoria ou plano de saúde. É alimentada por benefícios como programas sociais.

Em sua obra A Faca Entrou, o senhor aborda, entre outros temas, a questão da vitimização fomentada pelo assistencialismo governamental. Como a atuação do Estado colabora para desencorajar a autonomia individual?

Acredito que a situação no Brasil seja diferente da que temos no Reino Unido. O Brasil não é um país que eu conheça muito. Mas uma coisa é certa: os programas de seguridade social criam uma mentalidade dependente. Não que eu acredite que membros de algum governo tenham se proposto a — ou mesmo tenham conspirado para — tornar as pessoas dependentes. Não é isso. Mas a verdade é que tudo, de programas de seguridade social a até mesmo divórcios, vem tornando as pessoas dependentes. Tome como exemplo o caso hipotético de uma mulher que se divorciou e tem um filho. Ela diz que não quer ter de assumir também o papel de pai da criança e quer ser independente. O que ela quer dizer com ser independente, contudo, nada mais é que receber um subsídio do governo. Isso alimenta a formação de uma mentalidade dependente.

O senhor pode explicar melhor como funciona essa mentalidade dependente?

As pessoas que dependem de programas sociais vivem um duplo jogo de mentira. Elas sabem que, quando lhes dizem que são independentes, porque têm uma casa e uma renda, na verdade, tudo isso não lhes pertence de fato. Tome o exemplo real de uma mulher nessa situação, que, inclusive, tive a oportunidade de visitar. Ela morava em uma casa simples, dada a ela pelo governo. Observei que não cuidava da casa e não limpava o jardim. Quando lhe indaguei a respeito, sua resposta foi que já havia solicitado que o serviço social providenciasse a limpeza. Em resumo, vive-se uma mentira de ambas as partes. O Estado afirma que cuida de você, quando na verdade nada mais faz que cumprir com suas metas sociais. A burocracia não se importa de fato com quem você é enquanto pessoa nem vai cuidar de você como você cuidaria de seu próprio filho. O que a burocracia quer são números para apresentar. Já o cidadão aceita o discurso paternalista, enquanto alimenta uma falsa sensação de autonomia e independência. Como no exemplo que citei, ainda que diga que a casa é do cidadão, na verdade, para ele não é — pertence ao Estado — e, portanto, quem deve cuidar e limpar é o Estado.

O senhor votou a favor do Brexit. Dois anos depois, como está a situação no Reino Unido?

Nem melhor, nem pior. Temos nossos problemas, nossa burocracia infernal. Deixarmos de estar integrados à União Europeia em nada mudou nosso baixo nível educacional, por exemplo. A ideia de sair do grupo, pelo menos na teoria, era muito mais para resgatar nossa autonomia, trazer o controle de volta para o ambiente doméstico. Além disso, acredito que, no longo prazo — provavelmente não estarei vivo para ver —, a União Europeia caminha para uma guerra civil nos moldes da Guerra Civil americana. A ideia política de povos unidos sem algo que de fato os vincule pode ser desastrosa.


16 junho 2021

Quando você vira um criminoso para a família e amigos

 


Essa pandemia quebrou laços de solidariedade que constituem toda sociedade saudável. A quebra de laços de solidariedade é uma marca do totalitarismo. Bruna Frascolla via Gazeta do Povo 
via OTambosi:


Faz já uns anos que a política tem feito as classes médias e as populações urbanas brigarem. Pelo DataBruna, porém, a pandemia tem sido pior do que as eleições. As eleições pintavam os eleitores de Bolsonaro como nazistas espancadores de gays. (Tenho em mente as suásticas em banheiro de federal ganhando destaque no noticiário da noite. Quem conhecesse as federais e tivesse um mínimo de bom-senso saberia que aquilo foi feito por militante de esquerda que queria caricaturar a oposição. Até foram descobertos militantes que se revezavam entre pichar suástica e pichar #EleNão). A demonização dos eleitores de Bolsonaro engolfou também os que iriam votar branco ou nulo, considerados corresponsáveis pela morte de negros, mulheres, quilombolas, LGBTQUIABO, anões, obesos, celíacos etc.

Não pretendo aqui dizer que os bolsonaristas eram santos. Acontece que a responsabilização do eleitor por crimes de lesa-humanidade não era uma prática dos bolsonaristas. A pegada deles era diferente: tendiam a considerar que a maioria dos não-eleitores de Bolsonaro não tomou a red pill e, por isso, vota nos candidatos da Matrix. Eles tratam a oposição como fruto de desinformação, não como crime. Considerar oposição sinônimo de ignorância é arrogância; já considerar oposição sinônimo de crime é totalitarismo.

A maioria não levou a ferro e fogo essa propaganda de difamação dos não-petistas. Afinal, os eleitores do PT não só eram minoria como essa mesma minoria não era majoritariamente composta por fanáticos dispostos a romper com família e amigos. Não teve uma adolescente quadragenária no Roda Vida dizendo que não dava para passar o Natal com o pai por ele ter votado no candidato vitorioso e aprovar o governo? Essa conduta era rara na população geral; era mais coisa de panelinha progressista.

Mas agora, com a pandemia, muitos nem têm mais Natal, já que a festa foi reduzida à condição de “aglomeração” e os familiares passaram a ser encarados como material biológico suspeito, em vez de gente.

A religião da ciência

Dessa vez, a noção de crime migrou da religião política para a religião da ciência. Se antes era algo abertamente político dizer que os não-eleitores de Haddad tinham sangue nas mãos, porque eram os petistas que estavam dizendo isso, agora são as TVs e os jornais, o DEM e o PT, os governos dos EUA e da Europa, a ONU e a OMS, que garantem que quem não quer se submeter a testes com vacinas, nem ficar em casa eternamente, nem usar máscaras, tem sangue nas mãos.

As pessoas que de fato acreditam nisso estão trancadas em casa, deprimidas. Estão há mais de um ano vendo redes sociais e televisão. Na flor da idade, acham espirituoso dizer que, por medo, não fazem sexo há mais de um ano e começam a fantasiar Renan Calheiros. Querem voltar a ter uma vida normal e acreditam que os profetas da ciência os guiarão para a Terra Prometida. Ao mesmo tempo, ouvem que isso só será possível quando todos os incréus fizerem a sua parte.

Assim, se a criatura está deprimida em casa vendo CPI e Instagram, de quem é a culpa? De quem não quer tomar vacina experimental, de quem não quer usar máscara para sempre, etc. O familiar e o amigo são vistos, então, como diretamente responsáveis pela sua infelicidade. E são vistos como criminosos, com sangue de meio milhão de mortos nas mãos.

Falta de fibra

O que se sobressai, no caráter desses devotos, é a sua falta de fibra. Ouviram que haveria um milhão de mortos por Covid até agosto do ano passado, mas continuam acreditando no Huno. Diziam que a Argentina, ao contrário do Brasil, “tem um presidente”, mas, quando a Argentina se sai pior do que o Brasil, não reveem a sua crença. Dizem que a ivermectina é ineficaz e criminosa enquanto a vacina chinesa é não só eficaz como necessária – mas o fracasso do Chile, que vacinou bem a sua população com a vacina chinesa, só prova que precisamos de ainda mais vacinas chinesas.

O G1 chegou ao cúmulo de botar aquela cantora da CPI aconselhando as pessoas a não acreditarem em teste de anticorpos e acreditarem que estão imunizadas mesmo sem anticorpos. Mas, mesmo estando imunizados sem anticorpos, mesmo acreditando na eficácia das vacinas, devemos praticar os ritos da máscara e do distanciamento ad infinitum.

São uns invertebrados que não querem pensar. Querem receber ordens de cima para se sentirem seguros. E, o que é mais desprezível, estão dispostos a colocar os parentes e amigos na cadeia, em prol do próprio bem-estar.

Essa pandemia quebrou laços de solidariedade que constituem toda sociedade saudável. A quebra de laços de solidariedade é uma marca do totalitarismo. Mas se nas ditaduras comunistas isso se fez com polícia, entre nós isso se faz por fraqueza de caráter.





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