Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto, Afonso Serpa (direção) e Michel Falcão (arte)
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Abandonado, pobre, tendo por única perspectiva o trabalho diário, sem esperanças no futuro, e além do mais, humilhado e ferido em seu amor-próprio, Soares tomou a triste resolução dos covardes.Um dia de noite o criado ouviu no quarto dele um tiro; correu, achou um cadáver.Pires soube na rua da notícia, e correu à casa de Vitória, que encontrou no toucador.- Sabes de uma coisa? perguntou ele.- Não. Que é?- O Soares matou-se.- Quando?- Neste momento.- Coitado! É sério?- É sério. Vais sair?- Vou ao Alcazar.- Canta-se hoje Barbe-Bleue, não é?- É.- Pois eu também vou.E entrou a cantarolar a canção de Barbe-Bleue.Luiz Soares não teve outra oração fúnebre dos seus amigos mais íntimos.(Capítulo VI do conto Luiz Soares, da coletânea "Contos Fluminenses", de Machado de Assis)
Vamos, confesse.
Está arrependido? Ainda há uma esperança. Que tal tirar esse fardo pesado das
suas costas?
Por que insiste em
dizer que estou falando de religião? Filho meu, ouça o meu conselho e viverá.
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| Lionello Balestrieri, Woman on a Paris Street at Night (1924) |
FONTE: Histórias Sem Data (1884)
Este conto foi originalmente publicado na Gazeta de Notícias em 12 de fevereiro de 1883, assinado por Machado de Assis.
Capítulo I
De uma ideia
mirífica
Conta um
velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar
uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se
humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem
regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos
remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada
regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio
eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
– Vá, pois,
uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra
breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas,
bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo
universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto
as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não
acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só
um de negar tudo.
Dizendo
isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e
varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia,
e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse
consigo: – Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que
abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.
Capítulo II
Entre Deus e o Diabo
Deus
recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam
o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os
olhos no Senhor.
– Que me
queres tu? perguntou este.
– Não venho
pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do
século e dos séculos.
– Explica-te.
– Senhor, a
explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho;
dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam
com os mais divinos coros...
– Sabes o
que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
– Não, mas
provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu
fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar
uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado
da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a
vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me
não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece?
– Vieste dizê-la,
não legitimá-la, advertiu o Senhor.
– Tendes
razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres.
Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal
exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
– Vai.
– Quereis
que venha anunciar-vos o remate da obra?
– Não é
preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua
desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.
O Diabo
sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma ideia cruel no
espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse
breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas
recolheu o riso, e disse:
– Só agora
concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes,
filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo
rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa
franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda
pura...
– Velho
retórico! murmurou o Senhor.
– Olhai bem.
Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as
anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram
aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro
santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, – a indiferença, ao menos, – com que
esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, –
ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à
vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por
exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega
piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais
altos...
Nisto os
serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no
Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
– Tu és
vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie,
replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos
moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade
para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas
as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse
mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
– Já vos
disse que não.
– Depois de
uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se
numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com
a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum
público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
– Senhor, eu
sou, como sabeis, o espírito que nega.
– Negas esta
morte?
– Nego tudo.
A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um
misantropo, é realmente aborrecê-los...
– Retórico e
sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as
virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o
Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os
serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos.
O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um
raio, caiu na terra.
Capítulo III
A boa nova aos homens
Uma vez na
terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula
beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e
extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia
aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites
mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a
noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam
as velhas beatas.
– Sim, sou o
Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos,
terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da
natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens.
Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele
nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos
darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim
que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes,
congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram,
o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de
um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era
umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele
que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as
naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e
assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com
a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a
melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a
Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu..." O mesmo
disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons
versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de
Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda
pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o
valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na
boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou
a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do
Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira,
pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo.
Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de
propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras,
e ao próprio talento.
As turbas
corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de
eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar
as perversas e detestar as sãs.
Nada mais
curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o
braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens
são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era
exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos
os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a
da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de
lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a
todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o
teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em
todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu
voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a
tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no
contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem
vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o
sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao
caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se
demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou
ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um
direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a
hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e
subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das
injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a
calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária,
ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa
da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois
equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram
condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e
pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção
foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o
respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar
a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade
humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova
instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e
negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em
alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de
próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e
letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: "Leve
a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia
amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa
espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o
amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal
explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu
a um apólogo: – Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns;
mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que
acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.
Capítulo IV
Franjas e franjas
A previsão
do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja
de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham
alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a
instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região
do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que
não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia,
porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às
escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem
integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos
glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano,
justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite,
ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe
pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas
mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando
os outros.
A descoberta
assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que
lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista
do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das
drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de
camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada
de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali
roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi
dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino
cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que
desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um
calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que
possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era
a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava
são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações
aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas
confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse
nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao
levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que
duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se
deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir
do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu,
trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno.
Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu,
não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
– Que queres
tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de
veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição
humana.