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05 março 2025

[Animação] Morte e Vida Severina




Morte e Vida Severina em Desenho Animado é uma versão audiovisual da obra prima de João Cabral de Melo Neto, adaptada para os quadrinhos pelo cartunista Miguel Falcão. Preservando o texto original, a animação 3D dá vida e movimento aos personagens deste auto de natal pernambucano, publicado originalmente em 1956.
Em preto e branco, fiel à aspereza do texto e aos traços dos quadrinhos, a animação narra a dura caminhada de Severino, um retirante nordestino, que migra do sertão para o litoral pernambucano em busca de uma vida melhor.

Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto, Afonso Serpa (direção) e Michel Falcão (arte)

Produzido pela Fundação Nabuco e TV Escola










DOWNLOAD LIVRO







08 novembro 2024

Inocência – Visconde de Taunay


Descrição do livro

À paixão proibida de Inocência e Cirino vão se interpor a autoridade paterna e as exigências do noivo prometido: Manecão. O ambiente rústico do sertão e o drama do amor impossível vão compor Inocência, de Visconde de Taunay, um dos últimos romances da ficção romântica brasileira.
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Inocência é um romance regionalista brasileiro de Alfredo d'Escragnolle Taunay, dividido em 30 capítulos - que são introduzidos por uma citação - mais um epílogo. Foi publicado em 1872 e retrata costumes, pessoas e ambientes do leste sul-mato-grossense (sertão), notadamente a cidade de Paranaíba e a frente colonizadora dos Garcia Leal.
Como o Romantismo estava em decadência na época em que a obra foi escrita, pode-se considerá-la de transição para o Naturalismo, devido a uma grande e infalível caracterização do homem como produto do meio, isto é, ele age de acordo com o tipo de vida que leva. (Wikipedia)



04 setembro 2024

Suicídio




Abandonado, pobre, tendo por única perspectiva o trabalho diário, sem esperanças no futuro, e além do mais, humilhado e ferido em seu amor-próprio, Soares tomou a triste resolução dos covardes.
Um dia de noite o criado ouviu no quarto dele um tiro; correu, achou um cadáver.
Pires soube na rua da notícia, e correu à casa de Vitória, que encontrou no toucador.
- Sabes de uma coisa? perguntou ele.
- Não. Que é?
- O Soares matou-se.
- Quando?
- Neste momento.
- Coitado! É sério?
- É sério. Vais sair?
- Vou ao Alcazar.
- Canta-se hoje Barbe-Bleue, não é?
- É.
- Pois eu também vou.
E entrou a cantarolar a canção de Barbe-Bleue.
Luiz Soares não teve outra oração fúnebre dos seus amigos mais íntimos.

(Capítulo VI do conto Luiz Soares, da coletânea "Contos Fluminenses", de Machado de Assis)


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Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


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Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam, .
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.


(ANDRADE, Carlos Drummond de. "Brejo das almas". In:_____. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.)

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Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindôia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.

(José Basílio da Gama, O Uraguai, Canto IV, 154-164)








02 setembro 2024

Arrependimento (Repentance)

c. 1669 
óleo sobre tela, 262 x 205 cm


Os conselhos de João calaram poderosamente no ânimo forte e resoluto do sertanejo, cuja confiança no compadre era ilimitada.
(Adolfo Caminha in “A Normalista”)

Arrepender-se é do homem.  É comum ouvirmos artistas de TV, no apagar-das-luzes da vida, dizendo: “Eu não me arrependo de nada que fiz até a data de hoje.” Ó, amigos, estão errados!
É mister arrepender-se. Voltar atrás. Reconhecer seu erro, seu pecado, sua falha moral... Reconhecer. Para a salvação, há um caminho, o iter salvationis, que é:
1.      Reconhecimento do erro, do pecado, através do conhecimento dEle;
2.      Confissão desse pecado a Deus;
3.      Pedido de perdão a Deus, feito em nome de Jesus (que é o garante);
4.      Aceitação do perdão.
É verdade que quem anda olhando para o retrovisor não avança, acaba dando com os burros n’água. Mas não esqueça: há pontos soltos, há pedido de perdão a alguém a quem você magoou, primeiramente a Deus, e você NECESSITA de reconciliação.
Portanto, não tenha medo de dizer peccavi (pequei), siga em frente e confesse, a plenos pulmões: “Fui perdoado (que significa “tive minhas dívidas pagas, apagadas) pelo Senhor Jesus Cristo. Estou livre.”

A vós, estando mortos pelos vossos delitos e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, tendo-nos perdoado todos os nossos delitos;
tendo cancelado o escrito de dívida que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o inteiramente, cravando-o na cruz;
e tendo despojado os principados e potestades, os exibiu abertamente, triunfando deles na mesma cruz.

Vamos, confesse. Está arrependido? Ainda há uma esperança. Que tal tirar esse fardo pesado das suas costas?

 

Por que insiste em dizer que estou falando de religião? Filho meu, ouça o meu conselho e viverá.






21 agosto 2024

A Chanchada Histórica - Por Nélson Rodrigues



FONTE: RODRIGUES, Nélson O Reacionário: memórias e confissões.  Rio de Janeiro: Record [1977]. Págs. 270-273



1 A China Vermelha já ocupa na ONU o lugar da China Nacionalista (1). Como se sabe, Formosa foi expulsa por não ser comunista e, além de não ser comunista, era aliada dos Estados Unidos e, não só deste, mas de todo o mundo ocidental. Usou-se a moral numérica para tornar inevitável a vitória comunista: – uma China possuía tantos habitantes e a outra tantos. Foi admitida a que tinha mais e escorraçada a que tinha menos.

2 Se atentarmos bem, é um raciocínio de causar vertigens. Houve um momento em que existiam duas Franças. Uma, a de Vichy, tinha milhões de habitantes, a outra tinha De Gaulle e vejam bem: – a pessoa de De Gaulle só. Imaginem vocês um sujeito que, em Londres, começasse a gritar: – "Eu sou a França! Eu sou a Marselhesa"! Eu sou a Joana D'Arc!" Normalmente, o sujeito seria enfiado num hospício mais à mão. E, no entanto, o mundo inteiro achou que a falsa França era a de milhões e a autêntica a do "Eu sozinho".

3 Houve também a Alemanha nazista. Todo o povo estava com Hitler. E, por isso, devíamos receber essa Alemanha com beijos, papel picado e busca-pés? E a Itália de Mussolini? Naquele tempo, todo o povo estendia o braço. Hoje, porque a população de uma é maior do que a outra, o Dr. Alceu atira-se, aos soluções, nos braços de Mao Tsé-tung.

4 Mas deixemos de lado tais considerações e tratemos do fato concreto da entrada da China na ONU. Várias vezes, imaginei a cena: – os representantes comunistas ocupando o lugar de Formosa. Por ser aquele um momento histórico, eles deviam se apresentar hieráticos, enfáticos, solenes, como se cada qual fosse um mordomo de filme policial inglês. Mas o que aconteceu estava fora de todos os cálculos. A China Comunista entrou na ONU às gargalhadas. Nunca houve, na história dos povos, nada parecido. Cabe então a pergunta: – estariam loucos ou, se não loucos, bêbados?

5 Seria espetacular que um novo membro da ONU tomasse posse em estado de embriaguez total ou, pior do que isso, de loucura varrida. Mas justiça se faça ao representantes de Pequim: – não eram nem paus-d'água, nem insanos. E vamos admitir esta outra verdade eterna: – doidos, bêbados, podiam ser os outros e não eles. Todas as nações não-comunistas, que votaram pela admissão da China Vermelha e da expulsão de Formosa, justificariam um exame de sanidade mental.

6 O que houve, então, foi uma cena de humor hediondo. Admite-se uma gargalhada que é seguida de outras gargalhadas. Mas enquanto a China Vermelha ria, e com toda a razão, as demais nações mantinham-se espantosamente sérias. E o pior papel coube aos Estados Unidos. O representante americano, gravíssimo, não se deu por achado. Empertigou-se todo, limpou um falso pigarro e fez um discurso atroz.

7 Que disse ele? Não vou transcrever, na íntegra, o seu discurso. O que importa é o tom. Vejamos alguns trechos. O começo foi assim: – "OS ESTADOS UNIDOS DÃO TAMBÉM AS BOAS-VINDAS AOS REPRESENTANTES DA REPÚBLICA POPULAR CHINESA NAS NAÇÕES UNIDAS. SUA PRESENÇA AQUI FAZ COM QUE AS NAÇÕES UNIDAS REFLITAM MELHOR O MUNDO, TAL COMO EXISTE ATUALMENTE. E ESPERAMOS QUE CONTRIBUA PARA O POTENCIAL DA ORGANIZAÇÃO E PARA HARMONIZAR AS AÇÕES DOS NOSSOS PAÍSES. OS ESTADOS UNIDOS CUJO POVO ESTÁ VINCULADO POR PROLONGADOS LAÇOS DE AMIZADE COM O GRANDE POVO CHINÊS etc. etc."

8 Pode-se desejar um pronunciamento mais impróprio, mais irreal, mais delirante? E se juntarmos a solenidade americana às gargalhadas dos recém-chegados, estará feita a chanchada histórica. São os próprios Estados Unidos que vêm declarar ao mundo, por outras palavras, o seguinte: – "Só agora é que a ONU representa a realidade mundial. Durante vinte e dois anos nós, Estados Unidos, fizemos o mundo engolir a fraude de Formosa. Nós estávamos errados e confessamos os nossos 22 anos de cinismo.

9 Não houve o menor nexo entre a gargalhada dos chineses e a solenidade americana. Eram duas realidades que ali se defrontavam, sem a mais vaga, a mais remota, a mais longínqua hipótese de fusão. Ora, até onde vai a nossa experiência de vida, uma gargalhada só se responde com outra gargalhada e não com retórica enfática e vazia. Imaginem vocês: – um sujeito ri na minha cara e eu tiro do bolso um improviso datilografado e começo: – "Senhor Fulano dos Anzóis Carapuça. Respondendo à gargalhada de V. Exª" etc. etc. O representante dos Estados Unidos só faltou declarar: – "Os Estados Unidos esperam outras gargalhadas para maior estima e compreensão dos nossos povos." Portanto, quando falo no jogo de absurdos que foi a estréia da China na ONU, não estou violentando os fatos. E que figura trágica é a nação americana. Sabemos que se trata do maior país do mundo, e do mais forte, e do mais culto. Afirma-se: – "É o único país moderno do século XX." Tudo isso está mais do que sabido e confirmado. E, no entanto, não há ninguém mais derrotado na Terra.

10 Como disse, certa vez, um dos generais mais lúcidos do nosso Exército, os Estados Unidos carregam a frustração de três guerras inacabadas. Pensando bem, descobrimos uma quarta guerra que também não acabou e, pior, nem começou: – a de Cuba. É óbvio que os Estados Unidos queriam invadir Cuba. E se o fizessem, em 15 minutos Cuba estaria ocupada, com as tropas invasoras desfilando em Havana e atirando beijos com ambas as mãos (tl como fazem as garotas dos Pierrots da Caverna). Ora, não era preciso ser nenhum Lincoln, nenhum Jefferson, nenhum Kennedy para perceber a evidência ululante: – uma vez descobertos os foguetes russos, em Cuba, e apontados para a boa terra americana – só cabia uma providência – a invasão fulminante.

11 Se Cuba fosse, como a Rússia, um continente: – se fosse, como a China, outro continente, eu admitiria, não escrúpulos, mas cautelas. Acontece que Cuba é, se mal a comparo, uma Paquetá ou, se preferirem, não um tigre de papel, mas da "Esso". Mas aqui começa o drama. Os Estados Unidos cultivam, e deliciados, as dúvidas mais pueris. Por outro lado, quanto mais fortes, piores são os seus medos. No caso de Cuba, não havia o que temer. A Rússia? Meu Deus do céu, qualquer barbeiro dos Estados Unidos sabe que a Rússia não soltaria um busca-pé em defesa de uma paisagem.


12 Já disse não sei quem (talvez eu mesmo) que os Estados Unidos têm medo de tudo e mais ainda da própria força. Mas deixemos de lado essas considerações marginais. Voltemos ao essencial desta crônica. Já vimos que os americanos responderam com discurso à gargalhada comunista. Passemos por cima de outros rapapés feitos aos chineses. E vejamos a resposta da China de Mao Tsé-tung.


13 Eu sempre preferi o hipócrita ao cínico. E esperei que a China Vermelha fosse hipócrita, em sua primeira audição nas Nações Unidas. Pelo contrário. Enquanto o Ocidente atirava-lhe beijos, a mãos ambas, a China distribuiu rútilas patadas por todo o Ocidente. A primeira agressão, direta e crudelíssima, foi aos Estados Unidos. Exigiu, em nome do seu país, o Sr. Chiao Kuan-Hua que os ESTADOS UNIDOS RETIREM SUAS TROPAS DE FORMOSA E ADVERTIU QUE O POVO CHINÊS ESTÁ DISPOSTO A RETOMAR A ILHA E NADA PODERÁ DETÊ-LO. AFIRMOU QUE PEQUIM NÃO PARTICIPARÁ DE CONFERÊNCIAS SOBRE DESARMAMENTO, QUE NÃO PASSAM DE ARTIFÍCIOS PARA CONSERVAR O MONOPÓLIO DAS ARMAS NUCLEARES, E MAIS: – EXIGIU A IMEDIATA RETIRADA DOS SOLDADOS NORTE-AMERICANOS DO VIETNAM, LAOS, CAMBOJA E CORÉIA DO SUL. ACUSOU TAMBÉM ISRAEL DE AGREDIR OS PAÍSES ÁRABES, ANUNCIANDO TOTAL APOIO DE PEQUIM AOS POVOS PALESTINOS. E DISSE QUE A REVOLUÇÃO COMUNISTA É HOJE UMA TENDÊNCIA IRREVERSÍVEL DA HISTÓRIA.


14 Imaginem que antes de dizer o que se leu acima, a representação chinesa ouviu 57 discursos de boas-vindas. Idiotas de ambos os sexos e de todos os idiomas esperavam que a admissão da China Vermelha se caracterizaria por uma moderação velhaca. Pelo menos, isso. Pois bem. No seu primeiríssimo pronunciamento, a China ameaça o mundo não-comunista, com a revolução mundial e, como se isso não bastasse, com a guerra nuclear. Não se precisa ser nenhum idiota da objetividade para perceber que está mais do que insinuada a hipótese, sim, do fim do mundo. Eu diria concluindo, que prefiro a guerra nuclear, à paz covarde, à paz indigna, à paz inumana.



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(1) O assento chinês na ONU foi ocupado pela República da China até o dia 25 de outubro de 1971, data da resolução 2758 da Assembleia Geral das Nações Unidas, que substitui Taiwan pela República Popular da China em todas as instâncias da ONU, inclusive no Conselho de Segurança. es en fr 

23 abril 2024

Passagem da Noite (Carlos Drummond de Andrade)

Lionello Balestrieri, Woman on a Paris Street at Night (1924)


PASSAGEM DA NOITE


É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.

É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!


29 março 2024

Aluísio Azevedo - O Cortiço


Título: O Cortiço
Autor: Aluísio Azevedo
Instituição: Edições Câmara
ISBN: 978-85-402-0791-2
Ano: 2019 – 2ª Edição
Nº de Páginas: 233
Tipo: Livro Digital
Formato: .pdf
Licença: Gratuito
Descrição
A obra-prima de Aluísio de Azevedo, O Cortiço, é a principal referência da estética realista-naturalista na literatura brasileira. Ambição e exploração se misturam nessa envolvente e sombria história de uma habitação coletiva da capital do Segundo império. 







29 janeiro 2024

Soneto de Devoção - Vinícius de Moraes


Rio de Janeiro , 1938

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!


28 setembro 2023

Machado de Assis – A Igreja do Diabo

 


FONTE: Histórias Sem Data (1884)


Este conto foi originalmente publicado na Gazeta de Notícias em 12 de fevereiro de 1883, assinado por Machado de Assis.


Capítulo I

De uma ideia mirífica

 

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

 

– Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

 

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: – Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

 

Capítulo II

Entre Deus e o Diabo

 

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

 

– Que me queres tu? perguntou este.

 

– Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

 

– Explica-te.

 

– Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...

 

– Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

 

– Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece?

 

– Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.

 

– Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

 

– Vai.

 

– Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

 

– Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.

 

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma ideia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

 

– Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...

 

– Velho retórico! murmurou o Senhor.

 

– Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, – a indiferença, ao menos, – com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, – ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...

 

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.

 

– Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

 

– Já vos disse que não.

 

– Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?

 

– Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

 

– Negas esta morte?

 

– Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...

 

– Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!

 

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

 

Capítulo III

A boa nova aos homens

 

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

 

– Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...

 

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.

 

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

 

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

 

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.

 

E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

 

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: – Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

 

Capítulo IV

Franjas e franjas

 

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

 

Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

 

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro.

 

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:

 

– Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

 

 


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