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19 junho 2024

Filho da democracia violentada, o verdadeiro monstro é Lula

 



Acredito na redenção. Acredito que até criminosos são capazes de se arrependerem. Por experiência própria, acredito na conversão. Mas ao ver duas falas recentes de Lula sobre o aborto, duas falas desse ser abjeto, esse canalha, esse monstro que só a muito custo chamo de “humano”, percebo quão débil ainda é a minha crença na redenção, no arrependimento e na conversão.

Numa entrevista recente, o degenerado que preside o Brasil disse, primeiro, que os bebês que nascem de estupros são monstros. Depois, ao se referir ao autor do PL 1.904, que trata o aborto de uma bebê de 22 semanas pelo que ele é, assassinato, Lula sugeriu que, se a filha do deputado Sóstenes Cavalcante fosse estuprada, ele seria a favor do procedimento homicida.

A canalhice retórica é evidente, mas se fosse apenas isso não seria nenhuma novidade. Lula é e sempre foi um vertedouro de asneiras. A diferença, neste caso, é que a asneira denuncia uma visão de mundo que vai muito além do esquerdismo, do marxismo, do progressismo ou de qualquer outra caixinha em que você queira incluir Lula e sua legião. Desta vez Lula mostra que, por inspiração do tinhoso, odeia a Criação e rejeita qualquer noção de amor que vá além daquilo que lhe ensinaram os súcubos consequencialistas.

Não, Lula. Não, lulistas que me leem e que em breve correrão para a caixa de comentários deste texto, usando pseudônimos ridículos porque, afinal, faz parte da cartilha diabólica abdicar da sua identidade única e divina e se manifestar por meio de imposturas. Não: bebês que nascem de estupros não são monstros. São bebês. São vida. São bem. São amor em potencial. “Onde não há amor, coloca amor e encontrarás amor”, diz São João da Cruz. Muito mais do que uma frase de agenda de adolescente, essa é uma verdade incrustrada em nosso coração. Isto é, para quem ainda tem um.

Legião aborteira

Lixo. Um homem que acumula dentro de si tudo o que as ideologias macabras têm de pior e que, graças a essa capacidade de absorver o que há de pior no ser humano, preside o Brasil pela terceira vez. Um lixo que acredita que o homem é meramente o lobo do homem. Um lixo que acredita, veja só!, um bilionário qualquer pretende colonizar Marte para ficar longe dos trabalhadores. Um lixo que se chama um bebê recém-saído do ventre materno de “monstro”. Que tipo de mente corrompida é capaz de dizer uma coisa dessas, meu Deus? - pergunto para o apartamento vazio e logo respondo: Lula. Lula que chafurda nos excrementos ideológicos do chiqueiro palaciano em que vive. Será que se dá conta, o pobre-diabo?

Mais do que isso, será que se dá conta de que, a despeito da maldade que nos rodeia e que se manifesta por meio de gritos histéricos de jornalistas-aborteiras que chegam até a chorar – a chorar! – pela vontade de matar um bebê, ainda há no mundo quem pratique o amor, o sacrifício, a abnegação de ou criar uma criança que seja fruto de uma violência ou então entregar essa vida, esse bem, esse amor em potencial a uma família que dele há de cuidar da melhor maneira possível? Que pergunta estúpida, a minha. Claro que não!

Lula e sua legião aborteira só querem saber de festa & prazer, de alegria, de dinheiro, de cosquinha nos genitais, de soluções fáceis para problemas complexos, de trocas de favores, de perversidades justificadas com o carimbo do Ministério da Saúde. Correndo o risco de soar repetitivo, repito: para essa laia, a ideia de uma vida de sacrifício está fora de cogitação. A Cruz, aquela que a gente aprende que tem que carregar, é tratada por essa gente com escárnio. Afinal, o diabo lhes promete mais: vida mansa, poder e até imortalidade – tudo sem o peso da madeira sobre os ombros.

Para finalizar, digo que não é à toa que Lula “Lixo” da Silva tenha sido feito líder de 200 milhões de brasileiros, num processo que teve a influência nefasta de outra lixarada, desde os tecnocratas e burocratas embriagados com a própria “astúcia” até milhões de anônimos que consagram suas vidas à ideia idiótica de prazer. Nisso, aliás, Lula tem razão quando disse recentemente que “não acaba” porque representa as aspirações de parte do povo brasileiro. A pior parte: aquela que não hesita em se perder e em destruir a si mesmo em troca da ilusão demoníaca de estar conquistando o mundo inteiro.


FONTE: LEIA ISSOGAZETA DO POVO 

09 outubro 2023

Não me venha com teorias: ataque do Hamas contra Israel é barbárie pura e simples

 


https://leiaisso.net/ 

PAULO POLZONOFF JR09 OUTUBRO 2023 3min de leitura


Pouco me interessam as mentiras que uns e outros canalhas contam a si mesmos para justificarem o sequestro e morte de crianças, jovens, adultos e idosos perpetrados por terroristas do Hamas no sábado (7). As análises históricas e políticas; as demonstrações de lealdade partidária e ideológica; a pura e simples demonstração da arrogância intelectual - tudo isso é lixo. É resto do qual se envergonharão aqueles que tiverem a sorte de, nos próximos anos, cultivar um mínimo de decência e honestidade.

O que me interessa é apenas e tão-somente o que meus olhos veem e meus ouvidos ouvem, por mais que eu não consiga compreender o idioma: as crianças de no máximo três anos presas em gaiolas (EM GAIOLAS!); o olhar do menininho israelense sequestrado e que agora é alvo dos palestininhos; a mulher morta no meio da estrada, um buracão de bala assim ó na lateral do corpo; os muitos corpos espalhados pela rua; os avôs e avós massacrados na calçada; os jovens desesperados tentando fugir do fuzilamento na rave; e, por fim, a menina alemã na caçamba da pick-up, os membros quebrados em ângulos impossíveis, seminua, humilhada depois de morta, como se fosse um saco de lixo ou nem isso.

E, agora, essa imagem que acabei de ver e que não queria ter visto. Mas vi e agora vou descrever, mesmo sabendo que minha descrição jamais conseguirá expressar todo o horror que vi naqueles poucos segundos. No chão da casa, pai, mãe, filho e filha são subjugados pelos terroristas palestinos do Hamas. No olhar das crianças, o medo infantil de um bicho-papão real. Na expressão da mãe, um instinto animalesco de proteção: ela fará qualquer coisa para proteger os filhos. Nos gestos do pai, que tem as mãos ensanguentadas, supostamente de um terceiro filho morto, o desespero de quem se sabe à mercê de psicopatas determinados a exterminá-los.

Caim

Se você vê uma imagem dessas e não se coloca no lugar do outro – que tipo de ser humano você é? Sério. Imagine a história que há por trás da família. Todas as muitas preocupações e momentos de felicidade e aspirações, umas mais e outras menos elevadas. Veja a menina e o menino, todo o potencial que há neles e que está prestes a virar passado. E, se sobreviverem, em que tipo de adultos se transformarão? Quantas noites passarão acordados, se lembrando desse dia, um acontecimento a ser sussurrado nas festas de família ou afogados em toneladas de ansiolíticos ou antidepressivos – na melhor das hipóteses.

Entendo pouco de geopolítica. Ouço Hamas e me lembro de homus. Li mais Isaac Bashevis Singer do que Isaiah Berlin. Mais poesia do que tratados. Aliás, essas teorias políticas todas me entediam profundamente e me parecem diabolicamente inúteis, um obstáculo para a caridade, quando vejo a confusão nos olhos das crianças enjauladas ou o pavor na forma como o menino se encolhe e tenta se proteger dos insultos. Nem mesmo na expressão apalermada dos frequentadores da rave pela paz e que foram dizimados pelos terroristas há espaço para as relativizações ou as sutilezas ou os vejabens de quem acredita observar o mundo de uma torre, quando na verdade está apenas rastejando entre outros que foram tomados pelo espírito de Caim – para usar a imagem forte e precisa mencionada por Jordan Peterson.

Caim que não é apenas símbolo da inveja materialista de quem cobiça a prosperidade alheia; ele é também símbolo de toda uma visão de mundo baseada na ideia de autossuficiência, de merecimento, de ingratidão e principalmente de egoísmo. Caim que, se achando digno das recompensas divinas, matou o que restava de divino em si ao assassinar o irmão. Caim que certamente erra por este mundo inventando para si justificativas que explicariam sua violência e sua condição de “injustiçado”. Caim que neste exato momento está soltando uma nota de apoio ao Hamas ou dizendo que veja bem, os israelenses não são santos e as pessoas mortas eram fascistas e os palestinos não-sei-o-quê, não-sei-o-que-lá.


26 maio 2023

Quem, afinal, é Jair Bolsonaro? (E por que isso ainda importa)

 

PAULO POLZONOFF JR. 26 MAIO 2023 3min de leitura




Já escrevi por aqui que Jair Bolsonaro, ou melhor, só Bolsonaro é um personagem mais interessante do que Lula – e não o Luiz Inácio. Mais confuso, mais ambíguo, mais incoerente, mais instável. Mais complexo. Nos últimos meses, porém, essa complexidade que antes fascinava e divertia se tornou um transtorno. Uma angústia. Uma dúvida incômoda.

Passando em revista os últimos quatro anos, me dou conta do tempo que gastei, mas não desperdicei, tentando entender que Bolsonaro era esse que os apoiadores tanto defendiam. Não só. Passei esse tempo todo tentando entender também quem era esse Bolsonaro que os detratores tanto atacavam. E não foram poucas as ocasiões em que tentei entender como meus valores se relacionavam com um presidente que me agradava num dia e me irritava noutro.

Mas foi meio de um curso ministrado por meu amigo Francisco Escorsim que me vi pensando: “O que resta do Jair no Bolsonaro? Onde termina o homem e começa o personagem? Quem Bolsonaro pensa que é e quem ele é quando ninguém está olhando? Tomo café ou pego um copo d´água? O que será que vamos jantar? Como o Chico pode gostar de Coldplay? Qual a previsão do tempo para amanhã?”. Etc.

E você talvez esteja aí franzindo a testa, me xingando silenciosamente e esbravejando de si para si que esta é uma questão tardia. Afinal, Bolsonaro is no more. Quanto a isso, só posso dizer que você tem toda razão. É mesmo uma questão tardia. E talvez seja até inoportuna, levando em conta que hoje é sexta-feira. Chega de canseira. Nada de tristeza. Pega uma cerveja. Põe na minha mesa.

Uma espécie de espelho

Em minha defesa, porém, digo que é justamente agora a melhor hora para saber quem foi esse tal de Jair Messias Bolsonaro que ocupou a Presidência por quatro anos. Agora que a conclusão a que chegarmos não fará mais nenhuma diferença. Agora que as contradições e ambiguidades de Bolsonaro estão mais exaltadas do que nunca. Afinal, ele é o homem que agora fala em paz ou é o líder que, do alto de um carro de som e para uma Avenida Paulista lotada, lavou a alma dos brasileiros chamando Alexandre de Moraes de canalha?

Bolsonaro é o genocida negacionista de que tanto falam ou é o defensor da liberdade e da ciência? Ele é um covarde que optou pelo silêncio democrático ou é um golpista? Ele é honesto ou é tão corrupto quanto os outros? Ele é uma vítima do Sistema ou um simplório atrapalhado que perdeu as eleições para si mesmo? Ele é um falastrão ou um mestre na arte do xadrez 4D? Ele é o destemido capitão imbroxável ou um mito encolhido num cantinho, torcendo para que ninguém o descubra ali se fartando de pão com leite condensado?

Eu poderia ficar aqui por parágrafos e mais parágrafos opondo características de Bolsonaro, sem jamais chegar a uma imagem fácil. Unidimensional, como diria alguém mais pretensioso. E o mais interessante: sem jamais alcançar o Jair que se esconde por trás do Bolsonaro. Ou será que nessa troca ancestral da alma pelo sucesso mundano é imprescindível que o personagem anule por completo o homem?

Agora chamo o Francisco Escorsim de volta à crônica (fica aqui ao meu lado, Chico, dá um oizinho pros leitores) para dizer que, nessa busca pelo que resta de essencial e verdadeiro nos personagens, acabamos por buscar a nós mesmos. E, com alguma sorte, acabamos por entender melhor o que nos fez (faz?) defender ou atacar, apoiar ou detratar, seguir ou desprezar e acreditar ou desconfiar deste ou daquele nome. Aliás, foi só por isso que escrevi esta crônica.



04 janeiro 2023

“Do jeito que tá, até o fim do ano teremos virado uma Venezuela”

 


  • 04/01/2023 07:04


Tenho um amigo chamado Fábio que é a pessoa mais pé-no-chão que conheço. Tranquilo, simpático como um gordo de antigamente e dado ao deboche, ao longo dos últimos anos ele nem sabe, mas me ajudou muito contendo as exaltações do meu sangue dramaticamente russo. “Isso aí não vai dar em nada” era o bordão que ele usava para responder aos meus devaneios hiperbólicos. Hiperbolicíssimos.

Ontem Fábio me ligou. Mas já no “alô” percebi que havia algo de errado ou talvez até de muito errado com ele. Comigo. Com o país. “Cara, você tá vendo tudo o que o Lula tá fazendo?”, perguntou ele com seu sotaque caricatural de paulistano. Só faltou o “mêu” no final. Sem nem esperar por minha resposta, Fábio emendou: “Alteração do Marco do Saneamento, neta do Marighella na Funarte, decreto de desarmamento, desistência de entrar pra OCDE, discursos com 'todos, todas e todes', fim da Secretaria de Alfabetização. A gente tá lascado”, disse ele, que é avesso a palavrões.

Nessas horas é que a gente vê como são as coisas. Depois de tantos anos me aproveitando do efeito calmante da fabiosofia, senti que era a minha vez de retribuir com palavras que o tranquilizassem um pouco. O problema é que essas palavras me faltaram ontem e me faltam hoje. A única coisa que consegui dizer foi que tinha visto todas as coisas que ele mencionara e mais uma: a criação de uma tal de Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia. Ou simplesmente Ministério da Verdade Petista. "Que pesadelo!", comentei à toa, irmanado num pessimismo que me é estranho.

“Eu sabia que seria ruim e até imaginava que o Brasil poderia se tornar uma Argentina rapidinho. Mas, do jeito que tá, acho que até o fim do ano teremos virado uma Venezuela”, disse ele. O Fabio. O fleumático, impassível, tranquilo, manso, pacato e quase-zen Fábio. A mim só me restou concordar e tocar um tango argentino. Mas não sem antes dar vazão ao meu lado mais catastrófico (aquele que tento esconder de todo mundo): “Vou almoçar enquanto tem comida”.


Inferno

Foi o que fiz. Só que, diferentemente do almoço a jato de todos os dias, desta vez fiz questão de comer ritualisticamente. Preparei o prato farto, mas não extravagante. Me sentei à mesa. E rezei. Agradeci pelo arroz, pelo feijão, pela farofa e pela carne. Saboreei cada garfada como se fosse a dádiva que de fato é, mas para a qual o cotidiano de pressa e abundância não me permite dar o devido valor.

Uma vez satisfeito, recorri ao estoicismo das minhas leituras de Sêneca e Marco Aurélio. Imaginei o pior cenário (i.e., uma mistura de Venezuela, China e Coreia do Norte) e, com algum esforço, me senti capaz de enfrentá-lo e até de sobreviver a ele. E foi assim que, tomado por uma paz absurda, tive pena daqueles que ontem fizeram o L, hoje estão comemorando a guinada radical de Lula à esquerda e amanhã certamente sofrerão também as consequências de um eventual colapso do país.

“Como é mesmo aquela passagem da ‘Divina Comédia’?”, perguntei para a Catota, que se empanturrava de ração. Fui até a estante e abri o livro no Canto V, no qual a adúltera e lasciva Francesca diz que “não há tão grande dor qual da lembrança de um tempo feliz, quando em miséria”. Poucas definições de inferno são mais pungentes do que essa. E, no entanto, talvez pela soberba de uns e estupidez de outros, talvez este seja o inferno que nos caberá suportar pela eternidade que durar o lulopetismo.


29 junho 2022

Caso Piquet: o nosso "neguinho" não é o "nigger" deles. Nunca foi. Nem de longe.

 


O controle da linguagem, como sabemos, está na essência do movimento identitário. Que, além de ressentido e profundamente infeliz, é ignorante. Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo, via OTambosi



Neguinho assistiu à entrevista do ex-corredor de F1 Nelson Piquet. Neguinho acompanhou as repercussões, sobretudo de Lewis Hamilton, que transformou a expressão em xingamento. Neguinho leu notas e mais notas de solidariedade a Hamilton. Neguinho até se compadeceu do cancelamento de Piquet – de quem não gosta nem nunca gostou. Aí neguinho abriu o computador e começou a escrever um texto sobre o assunto.

O controle da linguagem, como sabemos, está na essência do movimento identitário. Que, além de ressentido e profundamente infeliz, é ignorante. Já vimos isso no caso do verbo “denegrir” e no caso do simpático móvel chamado “criado-mudo” - que não deu um pio sobre o assunto. Sem freios que não uma consciência carcomida pela ideologia, contudo, o movimento racialista agora encontrou outra palavra para seu Index Prohibitorum: “neguinho”.

Não sei se são meus ouvidos angelicais, mas sempre ouvi “neguinho” como um termo carinhoso para se referir a alguém cujo nome na hora nos escapa. Já sei! É característica dos nossos diminutivos, comumente identificados até com a fala inocente das crianças (apud José Paulo Paes, Mário Quintana, etc). Pegue um leão, tão imponente e magnânimo que contém até aumentativo no nome, e o transforme num leãozinho para ver o que acontece.

“Neguinho” não tem nada, absolutamente nada, zero mesmo, – 273,15 °C a ver com a cor da pele. Na pior das hipóteses, “neguinho” é um pronome indefinido coloquial que pode ser usado até mesmo para fazer referências a racistas notórios como Che Guevara. “O negro indolente e sonhador gasta seu dinheirinho em qualquer frivolidade ou diversão”, disse neguinho. Ou “neguim”, em sua versão ainda mais indolente.

Tom e toada

Nessa toada, não vai demorar para os ativistas criminalizarem a palavra “nêga”, usada Brasil afora para se referir à mulher amada, independentemente da cor da pele. E não duvidarei nada se o movimento negro se unir às feministas para, juntos, criminalizarem o “minha nêga” – um clássico "possessivo" imortalizado em incontáveis músicas, de Paulinho da Viola e Adoniran Barbosa. Por falar em música, por favor, alguém corre para proteger “Preta Pretinha” antes que a música seja tirada das plataformas de streaming por pressão desses energúmenos.

Ah, Paulo, mas o problema é o tom com que Nelson Piquet fala o "neguinho" - argumenta alguém. Verdade, ainda que meia verdade. Porque o tom é um negócio assim meio esquivo. Incontrolável. O tom com que se ouve/lê uma palavra nem sempre tem a ver com o tom com que se diz/escreve. Dependendo do tom, palavras positivas como "gênio" podem se transformar em ofensa - sem jamais se tornarem crimes, muito menos de ódio. Pegue a afirmação "o Polzonoff é um gênio mesmo", por exemplo. É muito provável que eu a leia como elogio, mas você a tenha escrito/dito como ofensa.

Agora, a mágica: palavras e expressões negativas podem se transformar em demonstrações de afeto. Como bem me ensinou o professor Élio Antunes há longínquos 27 anos, você pode muito bem dizer a um amigo querido "vem cá, seu efedepê, me dá um abraço!". Ou então pode receber um merecido aumento, se virar para o chefe e dizer, sem medo de ser demitido por justa causa: “Patrão, eu te odeio! Muito obrigado”. Há alguns anos, aliás, teve um narrador repreendido por dizer que Lady Gaga era “ridícula”. Detalhe, “sua ridícula” era o bordão dele para jogadas maravilhosas no futebol americano.

Negrito

No caso específico do “neguinho” mencionado por Nelson Piquet, a reação do corredor/ativista Lewis Hamilton e de mais personalidades com vento na cabeça foi equiparar a palavra ao “nigger”, termo há muitos anos proscrito em inglês. Este é o problema de ser uma celebridade woke, milionária e estúpida: sempre tem um assessor mal-intencionado para soprar no ouvido de semideuses mentiras com ares de verdade que ela, a celebridade, propagará até alcançar ouvidos perturbadoramente férteis quando se trata de ideias daninhas.

“Neguinho” e “nigger” são como água e azeite. O primeiro, já disse, mas não custa repetir, tem um quê de carinhoso inerente ao diminutivo e não tem absolutamente nada nada nada nada nada (nada!) a ver com a cor da pele. “Neguinho” se aplica até a mim. E a índios e a pardos e a japoneses. “Aquele neguinho branquelo” não é, em português, uma contradição em termos. Já “nigger” traz em si uma carga muitíssimo pesada e específica do inglês norte-americano. Tanto que o termo é praticamente intraduzível, ainda que alguns possam optar por “criôlo” – dito e escrito assim com o “o” fechado e sem o “u” - ou o raramente usado "tição".

Veja que curioso: em vez de celebrarmos o fato de nossa língua não ter um termo pejorativo de uso amplo para se referir a uma raça específica, o movimento negro inventa uma falsa equivalência para ampliar o abismo da intolerância e, assim, promover sua causa. Falamos “neguinho” como também falamos “japa” – sem nenhum traço do ódio contido, por exemplo, na palavra inglesa “jap”. Olha só que maravilha!

E aqui vou escrever em negrito, antes que também proíbam a marca gráfica que nos ajuda a dar ênfase a alguma coisa: viver o pesadelo identitário, um pesadelo marcado por cenas de inveja, ressentimento, rancor histórico e uma infelicidade mais profunda do que a Fossa das Marianas, é uma questão de escolha. Que pode até ser lucrativa para os Hamiltons e Djamilas da vida, mas que provavelmente só trará prejuízos às pessoas comuns e normais. Por falar em normalidade, também já escrevi isso, mas não custa repetir: para sair do hospício, às vezes basta abrir a porta.



09 outubro 2021

Não tenho lugar de fala para escrever sobre absorventes. Mas escrevo mesmo assim

 


Essa é uma daquelas peças que a vida nos prega: nunca imaginei que um dia escreveria um texto sobre absorventes. Via Gazeta, a crônica de Paulo Polzonoff via OTambosi


O absorvente higiênico feminino está na moda. Tudo porque uma deputada ingenuamente acreditou numa pesquisa que dizia que 25% das meninas faltam às aulas por não terem dinheiro para comprar o produto. A deputada, ela própria uma consequência da política-de-slogans que faz a cabeça dos jovenzinhos, passou a ser uma ativista de uma causa improvavelmente batizada de “pobreza menstrual”.

O assunto tomou conta das redes sociais. E o presidente Jair Bolsonaro, antes vilão por causa de um sem-número de declarações infelizes (outro dia mesmo ele disse “bom dia”. Veja só que absurdo!), agora também é vilão por vetar uma lei proposta pela deputada (que, curiosamente, não é filiada ao PCdOB) que previa a distribuição de absorventes a meninas pobres, para que elas não faltassem às aulas.

(Aliás, me permita abrir um parêntese aqui para contar que outro dia vi uma matéria daquelas bem sentimentais, mas bem sentimentais mesmo, com pianinho deprimente e tudo, e que mostrava a miséria em algum rincão do país. Por insondáveis motivos, o jornalista decidiu incluir o termo “pobreza menstrual” na matéria. De tão absurdo, o termo chamou minha atenção. Ergui os olhos para a TV e encontrei na tela a figura de uma moça muito pobre, numa favela. Com os braços cheios de tatuagem e o indefectível celular na mão, ela reclamava da falta de comida e absorventes).

Nessa balbúrdia toda envolvendo absorventes, o antibolsonarismo psicótico deu as caras, provando ser um vírus social que não poupa nem mesmo os mais liberais. Pois não é que teve libertário defendendo a distribuição de absorventes – e ainda por cima dizendo que essa distribuição é gratuita? Na hora de ir contra o presidente, os liberais de ocasião passam por cima de Mises sem a menor vergonha. Afinal, se julgam livres também para isso.

Absorventes e líquido azul

O resultado é que agora todo mundo tem uma opinião sobre menstruação. Até eu, que nunca tive opinião sobre o assunto e sempre me resignei a passar o pacote de absorventes alheio pelo caixa do supermercado com aquele constrangimento típico dos homens nessa situação. De repente, não menos do que de repente, me vi aqui pensando até no vocábulo que, não sabem os novinhos e novinhas, é bem recente.

“Absorvente”, para mim, sempre foi sinônimo de Modess. Ou melhor, modess – a letra minúscula indicando a transição da marca ao vernáculo popular, como acontece com a gilete. Modess era palavra dita entre sussurros, pelas mulheres, e entre o riso e a ignorância constrangida, pelos homens. Era aquela coisa que eu, criança, sabia que existia, mas não tinha a menor ideia de para que servia. Até uma fatídica aula de ciências na escola, quando tudo então ficou mais ou menos esclarecido.

Aliás, a própria palavra “menstruação” é algo que escrevo constrangido. E não porque me falte lugar de fala. Não estou nem aí para lugar de fala. Não acredito em lugar de fala. Enquanto eu tiver coordenação motora para escrever e o São STF permitir, pretendo poder escrever sobre tudo. Nem que seja para falar bobagem. E, se for bobagem, ao menos que desperte o riso em alguém. Mas eu falava sobre o constrangimento de escrever a palavra “menstruação”. O que mesmo eu pretendia falar sobre isso?

Sei lá. Só sei que outro dia mesmo estava me lembrando de uma das poucas aulas que tive na faculdade de Comunicação. Se não me falha a memória falha, era uma aula de Teoria da Comunicação e o professor falava sobre as propagandas de absorventes, digo, modess, que naquela época usavam sempre um líquido azul para demonstrar o poder de absorção do equipamento. “Eles jamais usariam um líquido vermelho, porque as pessoas teriam nojo disso”, disse o professor. Que pode muito bem ter sido uma professora. Realmente não lembro. Qual não foi minha surpresa, então, ao descobrir que em 2017 uma empresa britânica mandou às favas os escrúpulos menstruais e passou a veicular um comercial que usava sangue?!

Deixando as questões cromáticas de lado, resta-nos rir do comunismo ginecológico de Tabata Amaral. Rir do fato de ele se basear em estatísticas suspeitas. Rir da premissa falsa de que o Estado deve prover tudo, inclusive artigos de higiene pessoal. Rir da ideia de que o Estado é capaz de fazer isso de uma forma minimamente eficiente. Rir até da “generosidade” da indústria, sempre disposta a colaborar com causas sociais, desde que elas envolvam dinheiro público. E, por fim, rir da sinalização da virtude dos oportunistas de sempre – os mesmos que correrão para dizer que não tenho lugar de fala para escrever sobre o assunto.


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