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21 agosto 2024

A Chanchada Histórica - Por Nélson Rodrigues



FONTE: RODRIGUES, Nélson O Reacionário: memórias e confissões.  Rio de Janeiro: Record [1977]. Págs. 270-273



1 A China Vermelha já ocupa na ONU o lugar da China Nacionalista (1). Como se sabe, Formosa foi expulsa por não ser comunista e, além de não ser comunista, era aliada dos Estados Unidos e, não só deste, mas de todo o mundo ocidental. Usou-se a moral numérica para tornar inevitável a vitória comunista: – uma China possuía tantos habitantes e a outra tantos. Foi admitida a que tinha mais e escorraçada a que tinha menos.

2 Se atentarmos bem, é um raciocínio de causar vertigens. Houve um momento em que existiam duas Franças. Uma, a de Vichy, tinha milhões de habitantes, a outra tinha De Gaulle e vejam bem: – a pessoa de De Gaulle só. Imaginem vocês um sujeito que, em Londres, começasse a gritar: – "Eu sou a França! Eu sou a Marselhesa"! Eu sou a Joana D'Arc!" Normalmente, o sujeito seria enfiado num hospício mais à mão. E, no entanto, o mundo inteiro achou que a falsa França era a de milhões e a autêntica a do "Eu sozinho".

3 Houve também a Alemanha nazista. Todo o povo estava com Hitler. E, por isso, devíamos receber essa Alemanha com beijos, papel picado e busca-pés? E a Itália de Mussolini? Naquele tempo, todo o povo estendia o braço. Hoje, porque a população de uma é maior do que a outra, o Dr. Alceu atira-se, aos soluções, nos braços de Mao Tsé-tung.

4 Mas deixemos de lado tais considerações e tratemos do fato concreto da entrada da China na ONU. Várias vezes, imaginei a cena: – os representantes comunistas ocupando o lugar de Formosa. Por ser aquele um momento histórico, eles deviam se apresentar hieráticos, enfáticos, solenes, como se cada qual fosse um mordomo de filme policial inglês. Mas o que aconteceu estava fora de todos os cálculos. A China Comunista entrou na ONU às gargalhadas. Nunca houve, na história dos povos, nada parecido. Cabe então a pergunta: – estariam loucos ou, se não loucos, bêbados?

5 Seria espetacular que um novo membro da ONU tomasse posse em estado de embriaguez total ou, pior do que isso, de loucura varrida. Mas justiça se faça ao representantes de Pequim: – não eram nem paus-d'água, nem insanos. E vamos admitir esta outra verdade eterna: – doidos, bêbados, podiam ser os outros e não eles. Todas as nações não-comunistas, que votaram pela admissão da China Vermelha e da expulsão de Formosa, justificariam um exame de sanidade mental.

6 O que houve, então, foi uma cena de humor hediondo. Admite-se uma gargalhada que é seguida de outras gargalhadas. Mas enquanto a China Vermelha ria, e com toda a razão, as demais nações mantinham-se espantosamente sérias. E o pior papel coube aos Estados Unidos. O representante americano, gravíssimo, não se deu por achado. Empertigou-se todo, limpou um falso pigarro e fez um discurso atroz.

7 Que disse ele? Não vou transcrever, na íntegra, o seu discurso. O que importa é o tom. Vejamos alguns trechos. O começo foi assim: – "OS ESTADOS UNIDOS DÃO TAMBÉM AS BOAS-VINDAS AOS REPRESENTANTES DA REPÚBLICA POPULAR CHINESA NAS NAÇÕES UNIDAS. SUA PRESENÇA AQUI FAZ COM QUE AS NAÇÕES UNIDAS REFLITAM MELHOR O MUNDO, TAL COMO EXISTE ATUALMENTE. E ESPERAMOS QUE CONTRIBUA PARA O POTENCIAL DA ORGANIZAÇÃO E PARA HARMONIZAR AS AÇÕES DOS NOSSOS PAÍSES. OS ESTADOS UNIDOS CUJO POVO ESTÁ VINCULADO POR PROLONGADOS LAÇOS DE AMIZADE COM O GRANDE POVO CHINÊS etc. etc."

8 Pode-se desejar um pronunciamento mais impróprio, mais irreal, mais delirante? E se juntarmos a solenidade americana às gargalhadas dos recém-chegados, estará feita a chanchada histórica. São os próprios Estados Unidos que vêm declarar ao mundo, por outras palavras, o seguinte: – "Só agora é que a ONU representa a realidade mundial. Durante vinte e dois anos nós, Estados Unidos, fizemos o mundo engolir a fraude de Formosa. Nós estávamos errados e confessamos os nossos 22 anos de cinismo.

9 Não houve o menor nexo entre a gargalhada dos chineses e a solenidade americana. Eram duas realidades que ali se defrontavam, sem a mais vaga, a mais remota, a mais longínqua hipótese de fusão. Ora, até onde vai a nossa experiência de vida, uma gargalhada só se responde com outra gargalhada e não com retórica enfática e vazia. Imaginem vocês: – um sujeito ri na minha cara e eu tiro do bolso um improviso datilografado e começo: – "Senhor Fulano dos Anzóis Carapuça. Respondendo à gargalhada de V. Exª" etc. etc. O representante dos Estados Unidos só faltou declarar: – "Os Estados Unidos esperam outras gargalhadas para maior estima e compreensão dos nossos povos." Portanto, quando falo no jogo de absurdos que foi a estréia da China na ONU, não estou violentando os fatos. E que figura trágica é a nação americana. Sabemos que se trata do maior país do mundo, e do mais forte, e do mais culto. Afirma-se: – "É o único país moderno do século XX." Tudo isso está mais do que sabido e confirmado. E, no entanto, não há ninguém mais derrotado na Terra.

10 Como disse, certa vez, um dos generais mais lúcidos do nosso Exército, os Estados Unidos carregam a frustração de três guerras inacabadas. Pensando bem, descobrimos uma quarta guerra que também não acabou e, pior, nem começou: – a de Cuba. É óbvio que os Estados Unidos queriam invadir Cuba. E se o fizessem, em 15 minutos Cuba estaria ocupada, com as tropas invasoras desfilando em Havana e atirando beijos com ambas as mãos (tl como fazem as garotas dos Pierrots da Caverna). Ora, não era preciso ser nenhum Lincoln, nenhum Jefferson, nenhum Kennedy para perceber a evidência ululante: – uma vez descobertos os foguetes russos, em Cuba, e apontados para a boa terra americana – só cabia uma providência – a invasão fulminante.

11 Se Cuba fosse, como a Rússia, um continente: – se fosse, como a China, outro continente, eu admitiria, não escrúpulos, mas cautelas. Acontece que Cuba é, se mal a comparo, uma Paquetá ou, se preferirem, não um tigre de papel, mas da "Esso". Mas aqui começa o drama. Os Estados Unidos cultivam, e deliciados, as dúvidas mais pueris. Por outro lado, quanto mais fortes, piores são os seus medos. No caso de Cuba, não havia o que temer. A Rússia? Meu Deus do céu, qualquer barbeiro dos Estados Unidos sabe que a Rússia não soltaria um busca-pé em defesa de uma paisagem.


12 Já disse não sei quem (talvez eu mesmo) que os Estados Unidos têm medo de tudo e mais ainda da própria força. Mas deixemos de lado essas considerações marginais. Voltemos ao essencial desta crônica. Já vimos que os americanos responderam com discurso à gargalhada comunista. Passemos por cima de outros rapapés feitos aos chineses. E vejamos a resposta da China de Mao Tsé-tung.


13 Eu sempre preferi o hipócrita ao cínico. E esperei que a China Vermelha fosse hipócrita, em sua primeira audição nas Nações Unidas. Pelo contrário. Enquanto o Ocidente atirava-lhe beijos, a mãos ambas, a China distribuiu rútilas patadas por todo o Ocidente. A primeira agressão, direta e crudelíssima, foi aos Estados Unidos. Exigiu, em nome do seu país, o Sr. Chiao Kuan-Hua que os ESTADOS UNIDOS RETIREM SUAS TROPAS DE FORMOSA E ADVERTIU QUE O POVO CHINÊS ESTÁ DISPOSTO A RETOMAR A ILHA E NADA PODERÁ DETÊ-LO. AFIRMOU QUE PEQUIM NÃO PARTICIPARÁ DE CONFERÊNCIAS SOBRE DESARMAMENTO, QUE NÃO PASSAM DE ARTIFÍCIOS PARA CONSERVAR O MONOPÓLIO DAS ARMAS NUCLEARES, E MAIS: – EXIGIU A IMEDIATA RETIRADA DOS SOLDADOS NORTE-AMERICANOS DO VIETNAM, LAOS, CAMBOJA E CORÉIA DO SUL. ACUSOU TAMBÉM ISRAEL DE AGREDIR OS PAÍSES ÁRABES, ANUNCIANDO TOTAL APOIO DE PEQUIM AOS POVOS PALESTINOS. E DISSE QUE A REVOLUÇÃO COMUNISTA É HOJE UMA TENDÊNCIA IRREVERSÍVEL DA HISTÓRIA.


14 Imaginem que antes de dizer o que se leu acima, a representação chinesa ouviu 57 discursos de boas-vindas. Idiotas de ambos os sexos e de todos os idiomas esperavam que a admissão da China Vermelha se caracterizaria por uma moderação velhaca. Pelo menos, isso. Pois bem. No seu primeiríssimo pronunciamento, a China ameaça o mundo não-comunista, com a revolução mundial e, como se isso não bastasse, com a guerra nuclear. Não se precisa ser nenhum idiota da objetividade para perceber que está mais do que insinuada a hipótese, sim, do fim do mundo. Eu diria concluindo, que prefiro a guerra nuclear, à paz covarde, à paz indigna, à paz inumana.



___________________________________________
(1) O assento chinês na ONU foi ocupado pela República da China até o dia 25 de outubro de 1971, data da resolução 2758 da Assembleia Geral das Nações Unidas, que substitui Taiwan pela República Popular da China em todas as instâncias da ONU, inclusive no Conselho de Segurança. es en fr 

13 fevereiro 2023

Cansada de ser fria (Nélson Rodrigues)




Quando o irmão apareceu na porta do escritório, perguntou:
— Qual é o drama?
E Gervásio, arriando na cadeira:
— Preciso muito falar contigo.
Apanha um cigarro.
— Fala!
Então, já com os olhos cheios de lágrimas, o outro pede:
— “Primeiro, fecha a porta”. Felipe sente que o irmão está arrasado.
Surpreso, levanta-se e passa a chave na porta. Volta-se e pergunta:
— Mas o que é que há?
Gervásio tem um soluço imenso:
— Sou traído! Adélia me trai! Tem um amante!
Estupefato, Felipe balbucia:
— Não é possível! Não pode ser!
Repete:
— Me trai, sim! — E batia no peito: — Sou traído!
— Não acredito, só vendo!
ADÉLIA
A princípio, Felipe pensou num caso de ciúmes doentios. Mas o outro o desiludiu. Mandara seguir a mulher por um detetive particular. E agora sabia de tudo — nome, endereço, dias de encontros, horários. Na véspera, metera-se com o detetive num táxi e lá foram os dois, para a esquina do apartamento do pecado. Viram quando Adélia saltara de outro táxi e entrara no edifício. Gervásio podia ter uma atitude qualquer, de marido, de homem. Mas desde a véspera que se limitava a chorar. Gemia para o irmão: — “Sou um pulha, um tarado! Não fiz, nem vou fazer nada”. E súbito, no seu desespero, crispa a mão no braço do irmão:
— Agora compreendo tua situação. Imagino o que não sofre!
Felipe volta-se, espantado:
— Minha situação? — Sem entender, continua: — Mas que
situação?

Gervásio passa as costas da mão nos olhos. Arqueja: — “Nós também somos irmãos em desgraça. Eu sou traído por um lado: tu és traído por outro!”.
Há uma pausa. Felipe instiga:
— Sou traído e…
— Pois é: — és traído e sabes, como eu.
Por um momento, Felipe não sabe o que pensar ou o que dizer. E, súbito, sem que o Gervásio possa prever-lhe o gesto, agarra-o pela gola do paletó e o sacode:
— Você vai me contar tudo, tudinho, seu cachorro! Quem lhe disse que eu sou traído e que sabia? Fala ou te arrebento.
Desconcertado, Gervásio debate-se:
— Mas que é isso? Não faça isso! Calma!
Felipe trincou os dentes:
— Quero a verdade, toda a verdade!
REVELAÇÃO
Sacudido por Felipe, que o ameaçava de quebrar a cara e até de lhe dar um tiro na boca, Gervásio confundiu-se todo:
— Eu pensei que você soubesse. Todos pensam que você sabe e perdoa!
Felipe interrompeu: — “Não quero comentários. Quero informações. Anda!”. Então, esquecido da própria tragédia, lá foi o Gervásio falando. O outro corta outra vez:
— Quero o nome do amante!
O irmão vacila, mas acaba tomando coragem:
— São vários!
Recua, desgovernado: — “Vários?”. E insiste: — “Mais de um?”.
Gervásio confirma. Então, diz, com um meio riso hediondo:
— Tens mais sorte do que eu. A tua só tem um! Mas continua! Gervásio contou-lhe o resto. Parentes, amigos, simples conhecidos sabiam de tudo. E ela não discriminava, não escolhia, como se o seu destino fosse trair, apenas trair. Felipe apertava a cabeça entre as mãos.
Faz uma pergunta, que é um lamento: — “Por quê, meu Deus, por quê?”.
Vira-se, com o rosto devastado:
— Quer dizer que todo o Rio de Janeiro sabia, menos eu? Gervásio levanta-se. Felipe o acompanha até a porta. Bate-lhe nas costas, com um humor ignóbil:
— Parabéns, porque a tua só tem um e a minha vários!
O CHOQUE
Durante uma hora, uma hora e pouco, ele ficou só no gabinete, entregue a uma meditação ardente e vazia. Quando apareceu uma funcionária com uns papéis, explodiu: — “Vai-te para o diabo que te carregue!”. A moça fugiu apavorada. Por fim, ele levantou-se, pôs o paletó e apanhou o revólver na gaveta. Meia hora depois, chega em casa.
Entra e, impassível, faz um sinal para a mulher:
— Vamos bater um papinho lá dentro.
Tranca-se à chave com a esposa. Ela pergunta: — “Alguma novidade?”. Rápido ele puxa o revólver. A esposa recua: — “Que é isso?”. Foi sumário:
— Soube isso assim, assim. É verdade? Responda.
Ergue o rosto:
— É verdade.
Há uma pausa. Ele, quase chorando, pergunta: — “Já que confessa, quero que me responda: — você merece a morte?”. Ela teve uma breve vacilação. Acabou respondendo, com uma firmeza não isenta de doçura:
— Mereço. Eu mereço a morte.
E ele:
— Escuta: — eu devia te matar como a uma cachorra. Mas há, nisso tudo, um mistério. Eu te perdoarei a vida se me disseres a verdade. Por que me traíste? Fala!
— Por quê?
O marido continua:
— Eu sempre te conheci fria, de gelo, de pedra, de morte. Já no namoro, tinhas horror de um simples beijo. No casamento, a mesma coisa. Sempre me disseste que odeias a parte física do amor. Responde: — não me disseste sempre?
Felipe está ofegante. Prossegue: — “A mulher fria é a única que não tem o direito de trair. Por que me traíste, por quê?”.
Durante um momento, os dois se olharam apenas. Ela se tornara para o marido a última das desconhecidas.
O marido insiste: — “Se me explicares, eu não te farei nada, juro!”.
Então, sem desfitá-lo, a mulher fala:
— Eu te traí na esperança do amor de que todos falam. Minhas amigas contavam maravilhas dos seus amores. Eu quis encontrar o meu.
— E daí? Encontraste?
Ela ficou calada. Finalmente respondeu:
— Nunca.
O DESFECHO
Sem uma palavra, ele abre a gaveta e guarda lá o revólver. Levanta-se e sai. Imóvel e silenciosa, vê o marido abrir a porta, atravessar a sala e sair. Então, sozinha, apanha um lápis e um papel e escreve, uma porção de vezes: — “A mulher que não pode amar também não deve viver”. Horas depois, tira da gaveta o revólver do marido. Já que ele não a matara, ela se matou — cansada de ser fria.

25 abril 2021

Política identitária e guerra cultural são sintomas da velha estupidez humana

 


Todo idiota que crê no caráter revolucionário da juventude deveria ler 'Pais e Filhos', de Turguêniev. Luiz Felipe Pondé via FSPpor Otambosi.


Em breve, workshops no mundo corporativo, comandados por consultores “mini-Gretas” de 12 anos, farão com que os colaboradores —nome chique para funcionários— tomem consciência de que são racistas, machistas, misóginos, estupradores e afins.

Sim. E, se você se recusar, confirmará o diagnóstico a priori, além, claro, de assinar sua sentença de morte na empresa, ainda mais se já estiver com o prazo de validade vencido, ou seja, perto dos 40 anos.

Claro que existe gente cheia de preconceitos, violenta e que devemos combater —hoje em dia, quando a sociedade assimilou o auto de fé como ethos da inteligência pública, faz-se necessário qualquer herege contumaz deixar claro que é contra o que todo mundo de bom senso é. Feito o disclaimer, sigamos em direção ao que não é tão óbvio.

E por que o mundo corporativo vai assimilar essa prática? Porque, à semelhança das instituições de ensino, o mundo corporativo assimila qualquer moda de comportamento que apareça no horizonte. Hoje, o branding serve ao ridículo. E a moda no âmbito do pensamento é sempre signo de pobreza de espírito.

Em segundo lugar, porque serão ministrados por mentores —outro nome chique para nada— de 12 anos. O frisson com a juventude já fora diagnosticado nos anos 1860 na Rússia por Ivan Turguêniev no seu essencial “Pais e Filhos”. Todo idiota da cultura que crê no caráter revolucionário da juventude deveria ler esse livro.

E, claro, nosso maior crítico da cultura, Nelson Rodrigues, nos anos 1960 e 1970, fizera o mesmo diagnóstico com seu conceito de “razão da idade”. Portanto, o fetiche com o infeliz jovem é já uma coisa de velhos infelizes.

Essa moda no mundo corporativo segue de perto a moda do mundo acadêmico, descrita pelo sociólogo húngaro-britânico Frank Furedi como “to raise our awareness” —“elevar nossa consciência”, numa tradução simplista.

Hoje todo mundo quer fazer de você uma pessoa “consciente”. A saturação dessa forma de ativismo é uma maravilhosa fantasia para a velha estupidez no seio da inteligência. Não confio em ninguém que queira me fazer mais consciente de nada.

Já que falamos em estupidez, para além dessas razões, há uma menos evidente mas não menos clara para quem usar os olhos de forma distinta: a pauta identitária serve a estupidez travestindo-a de justa causa (vale dizer, ela é em si uma causa justa).

Polarização, políticas identitárias, guerra cultural, supremacistas brancos —no Brasil este é o mais ridículo de todos— e similares são sintomas da velha estupidez humana, agora, mais ruidosa do que tudo. Esse diagnóstico já fora feito por Umberto Eco.

A estupidez é um processo. Você não nasce assim, necessariamente. Entre as várias etapas do processo, há aquela na qual ocorre um estreitamento do entendimento na linguagem. Difícil? Quer dizer o seguinte: tudo que você ouve, vê ou lê sempre quer dizer a mesma coisa a seus ouvidos empobrecidos. Todo militante é um estúpido em potencial.

Claro, existem exceções de que não podemos tratar aqui, como o revolucionário russo Vladimir Ilitch Ulianov, conhecido como Lênin. De qualquer forma, a militância sempre implica alguma forma de deformação cognitiva ou moral.

A humanidade nunca foi uma espécie excepcionalmente inteligente, e Lênin sabia disso. O equívoco de achar que sempre fomos inteligentes nasceu do fato de termos adquirido a linguagem. Mas o uso desta não atesta nenhuma inteligência a priori. Pelo contrário, a preferência por viver com animais pode ser uma reação a esse diagnóstico negativo.

O mundo contemporâneo e suas redes, sim, fizeram da estupidez uma enciclopédia pública de horrores. O ruído agora é enorme. Hoje, mais do que nunca, o contrário da estupidez tende ao silêncio.

Isso significa que de nada servem as redes? Claro que não. Aviões transportam pessoas e jogam bombas.

E, por falar em aviões, há quem diga que empresas áreas americanas pensam em selecionar seus pilotos reservando 50% das vagas levando em conta “minorias” e não mérito. Você ainda duvida de que a estupidez tem o comando do mundo?




20 abril 2021

O ex-covarde — Nélson Rodrigues


Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"
Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.
Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.
Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.
O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.
Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.
Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.
Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo,
Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.
Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.
Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".

RODRIGUES, Nélson. In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10.

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