Aprendi três grandes lições a partir da experiência do lockdown. A principal, a certeza de que é preciso lutar permanentemente pela manutenção da liberdade. Artigo de Jeffrey Tucker para a revista Oeste:
Muitos
milhões de pessoas passaram os últimos quatro meses em tristeza e
depressão. É difícil ver o mundo despedaçado pelo mau
comportamento dos governos — e ver tantos de nós torcer pela
destruição — e não ter uma sensação de desespero.
No
entanto, a humanidade é algo incrível. Se nos empenharmos,
poderemos encontrar uma boa lição em eventos terríveis. Fazer isso
— é preciso esforço — pode elevar espíritos e apontar o
caminho para sair do pântano.
Eu
tirei três coisas positivas dessa experiência.
Primeiro,
superei completamente meu vício de décadas no noticiário. Sempre
amei acompanhar as notícias, mesmo quando era criança. Por anos, li
o Washington Post com meu café matinal. Então, eu pegava o New York
Times. Aprendia a obter a verdade da cobertura tendenciosa, mas
abrangente, deles. Então acrescentava o Wall Street Journal. Quando
os home assistants surgiram, programei o meu para transmitir oito
horas de noticiário sem interrupção: BBC, NPR, NYT e tantos
outros. Parecia um luxo.
O
ponto de virada aconteceu em 28 de fevereiro de 2020, quando o
podcast do New York Times (que costumava ser meu favorito) lançou um
episódio de pornografia do pânico que previa que o novo coronavírus
mataria 8,25 milhões de norte-americanos, ou “seis amigos seus”.
Foi
um choque constatar que eles colocaram seu principal podcast para
provocar um medo público que estimulasse o lockdown. Explicitamente.
Essa era a pauta. E mais ou menos admitiram isso. Soube naquele
momento que o jornal tinha aceitado contribuir para essa trama
maliciosa de encenar um empreendimento social/político sem
precedentes.
O
NYT abriu o caminho. Em pouco tempo, a mídia mainstream se tornou
universalmente pró-lockdown, provavelmente por razões políticas.
Um vírus leve e disseminado, perigoso principalmente para uma
população específica com baixa expectativa de vida e quase
inofensivo para todos os demais, foi retratado todo dia e toda hora
como a nova peste bubônica.
Devo
ter ouvido o podcast por mais uns dois dias. Então parei. Tudo ficou
claro. Decidi, de maneira súbita e surpreendente para mim, parar de
encher a cabeça com bobagens. As “notícias” não estavam
trazendo informações para me ajudar a entender o mundo; elas
estavam atrapalhando minha habilidade de pensar com clareza. Alguns
meses depois, como estava programado, a revolução do New York Times
foi concluída quando o diretor de opinião, contratado para
diversificar as opiniões do jornal, foi demitido sem a menor
cerimônia por diversificar as opiniões do jornal. (O pessoal da
teoria crítica descobriu um novo amor pelo direito das instituições
de demitir pessoas, contradizendo décadas de oposição da
esquerda.)
Comecei
a obter minhas informações procurando por elas, buscando perfis
confiáveis para seguir no Twitter, dedicando meu tempo às páginas
de estatísticas e, fora isso, pesquisando fatos, lendo história e
me informando de maneira mais aprofundada, em vez de apenas confiar
na mídia.
Uma
exceção aqui: The Wall Street Journal, que teve um desempenho
heroico durante o processo todo.
Neste
momento, posso dizer que nunca mais vou voltar. Meu vício nas
“notícias” se acabou. Estou melhor assim. Foi doloroso, mas
estou feliz.
Alguns
leitores agora estão dizendo: até que enfim. O noticiário sempre
esteve interessado em atrair olhos e ouvidos e vender anúncios. É
apenas entretenimento. Isso se tornou especialmente verdadeiro com o
ciclo de 24 horas de notícias.
Não
discordo. Eu deveria ter parado há anos. Mesmo agora, sou capaz
quase imediatamente de ver a diferença entre uma pessoa que assiste
ao noticiário da TV ou ouve rádio mainstream versus aquela que de
fato se informa sobre o que está acontecendo.
De
todo jeito, considero isso uma vitória real, cortesia do lockdown.
Segundo,
economizei uma quantidade enorme de dinheiro não indo a
restaurantes, bares e ao cinema. Fico triste por todos os lugares que
fecharam. É injusto e ruim. Mas, da minha perspectiva, aprendi a
viver uma vida boa gastando provavelmente 30% menos do que antes. Eu
me apaixonei de novo por cozinhar, pelos coquetéis caseiros e pela
leitura.
É
melhor assim. Duvido que volte, agora que sei preparar todas as
minhas refeições favoritas por uma fração do que costumava pagar.
Agora que as coisas estão abrindo, talvez até vá a alguns
restaurantes, mas duvido que volte a como as coisas eram.
Terceiro,
aprendi uma lição muito valiosa, a de que uma civilização pode
ser desmontada em questão de meses. Pode acontecer de novo se não
houver vozes apaixonadas por aí que entendam sua base e sejam
capazes de defendê-la com integridade intelectual, fatos e poder
retórico. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer. Achei que
fosse impossível — com uma Constituição, uma tradição de
liberdade, e um povo que nunca permitiria que os direitos humanos
fossem retirados de modo tão repentino e cruel. Aconteceu, e saber
disso trouxe uma paixão renovada por meu projeto de vida de amar,
entender e difundir a ideia de liberdade.
É
impressionante como tudo se deu.
Governos
e seus defensores tomaram para si um assunto sobre o qual a população
é, hoje, bastante ignorante e temerosa — um vírus e a afirmação
de que 8,25 milhões de norte-americanos iam morrer — e exploraram
essa ignorância para fazer as pessoas abrir mão de seus direitos.
Mesmo que a coisa estivesse mapeada 14 anos antes, talvez como forma
de encontrar alguma fundamentação para a presença contínua e
crescente do governo em nossa vida, apesar de sua irrelevância cada
vez maior em outras circunstâncias, muitos do lado pró-liberdade
das coisas foram pegos com a guarda baixa e não souberam como
reagir.
Muitas
pessoas — até mesmo aquelas empregadas no trabalho de “promover
a liberdade” — apenas ficaram em silêncio. Por meses. Exatamente
quando suas vozes eram mais necessárias. Isso foi uma tragédia.
Serei eternamente grato pelo site do American Institute for Economic
Research [organização da qual o autor é diretor]. Em algumas
ocasiões nestes meses, o site pareceu uma solitária voz de
sanidade.
Essa
terceira lição — ser grato pelas nossas liberdades e pela nossa
civilização, e nunca achar que elas podem ser menosprezadas —
talvez seja a mais valiosa. Tenho pensado que, certamente, muitas
outras pessoas aprenderam lições semelhantes. Perderam a fé no
noticiário, redescobriram a frugalidade e encontraram uma nova forma
de se comprometer com a defesa da liberdade e dos direitos humanos.
Nos dias vindouros, vamos precisar de mentes mais fortes e mais
inteligentes para travar as batalhas do futuro. Esses meses terríveis
podem ter sido a preparação de que precisamos para garantir que a
verdade e a liberdade prevaleçam no fim.
Jeffrey Tucker é economista norte-americano, defensor da Escola Austríaca e do libertarianismo, associado do Action Institute e autor do livro Coletivismo de Direita (2017), publicado no Brasil pela LVM Editora.
