Erich
me observa. Também eu não tiro meus olhos dele. Nós dois temos armas nas mãos e
está decidido que faremos uso dessas armas, que nos feriremos um ao outro com
elas. Nossas armas estão carregadas. Seguramos diante de nós pistolas testadas
em longos exercícios, e, logo depois dos exercícios, azeitadas com cuidado,
esquentando devagar o metal frio. À distância um ferro desses parece
inofensivo. Por acaso não se pode segurar assim um porta-canetas, uma chave
pesada e arrancar um grito e tanto de uma tia assustada, estendendo a mão
calçada em uma luva preta? Jamais poderei permitir que amadureça em mim o
pensamento de que a arma de Erich seja cega, inofensiva ou de brinquedo. Também
sei muito bem que Erich não põe a seriedade do meu instrumento em dúvida por um
segundo que seja. Além disso nós dois, há cerca de meia hora, desmontamos e
limpamos as pistolas, para depois voltar a montá-las, carregá-las e
engatilhá-las. Nós não somos sonhadores. Elegemos a chácara de Erich para o
lugar de nossa ação inevitável. Uma vez que a casinha de apenas um andar fica a
mais de uma hora da próxima estação de trem, ou seja, bem isolada, devemos
pressupor que todo e qualquer ouvido indesejado, no verdadeiro sentido da
palavra, haverá de estar bem longe do tiro. Nós esvaziamos a sala e tiramos os
quadros, na maior parte cenas de caça e naturezas-mortas, da parede. É que os
tiros não devem atingir as cadeiras, as cômodas brilhantemente calorosas e os
quadros ricamente emoldurados. Também não queremos acertar o espelho ou ferir uma
porcelana. Apenas nós queremos ser o alvo.
Nós
dois somos canhotos. Conhecemo-nos do clube. Os senhores sabem muito bem que os
canhotos dessa cidade, assim como todos os que são vítimas de um defeito de
qualquer natureza, fundaram um clube. Nós nos encontramos com regularidade e
procuramos educar nosso manejo diferente e lamentavelmente tão desajeitado. Durante
algum tempo um destro prestativo nos deu aula. Lamentavelmente ele agora não aparece
mais. Os senhores da direção criticaram seus métodos de ensino e acharam que os
membros do clube teriam de reaprender sozinhos. E assim nós passamos a
inventar, juntos e à vontade, jogos destinados apenas a nós dois com provas de
destreza como: sacar, enfiar, desengatilhar, abrir e abotoar com a direita. Em nossos
estatutos está escrito: não descansaremos enquanto a esquerda não for igual à
direita.
Por mais
bela e vigorosa que seja essa frase, ela não deixa de ser um absurdo dos mais
completos. Assim nós jamais chegaremos lá. E a ala mais extrema de nossa
aliança, já exige há tempo que essa sentença seja riscada e em vez dela seja
escrito: nós queremos ter orgulho de nossa mão canhota e não nos envergonhar da
habilidade com a qual nascemos.
Também esse
lema por certo não procede, e apenas o seu páthos,
como também uma certa generosidade do sentimento, fez com que escolhêssemos
essas palavras. Erich e eu, que somos relacionados à ala mais extrema de nossa
aliança, sabemos muito bem como são profundas as raízes que nossa vergonha
fincou ao chão. A casa dos pais, a escola, mais tarde os tempos do serviço
militar não contribuíram nada no sentido de nos ensinar uma postura capaz de
suportar essa peculiaridade insignificante – insignificante se comparada a
outras anormalidades bem mais disseminadas. Tudo começou quando estendíamos
nossa mãozinha na infância. Essas tias, tios, amigas pelo lado materno, colegas
pelo lado paterno, essa foto de família terrível, que escurece o horizonte de
uma infância e é impossível de ser ignorada. E a mão tinha de ser estendida a
todos:
– Não, não
a mãozinha malcriada, dê a bem-comportada. Você tem de dar a mãozinha certa, a
mãozinha boa, a única mãozinha verdadeira, esperta e jeitosa, a mãozinha
direita!
Eu tinha
dezesseis anos e pela primeira vez agarrei uma menina:
– Oh, você é canhoto! – ela disse, desiludida, e
tirou minha mão de dentro de sua blusa. Recordações dessas marcam, e se apesar
disso ainda quisermos escrever esse lema – Erich e eu o redigimos – e nosso
livro, é porque com isso estamos apenas buscando mencionar um ideal que com
certeza jamais poderá ser alcançado.
Então
percebi que Erich havia comprimido os lábios e apertado os olhos. Faço o mesmo.
Os músculos de nossas faces brincam, a pele da testa se distende, o dorso de
nossos narizes se afina. Erich agora parece um ator de cinema, cujas feições me
são familiares de várias cenas audaciosas. Devo supro que também sou marcado
por uma semelhança fatal com um desses dúbios heróis da tela? Nós por certo
parecemos irados, e eu estou contente por não haver ninguém nos observando. Será
que ele, a testemunha indesejada, não concluiria que dois jovens homens, de
natureza demasiado romântica, estavam prontos a duelar? Ambos amam a mesma
mulher, ou um deles falou mal do outro. Uma contenda familiar que se estende
por gerações, uma questão de honra, um jogo sanguinário por tudo ou nada. Só inimigos
se olham assim. Vejam esses lábios estreitos e descoloridos, esses dorsos nasais
irreconciliáveis. Como eles mastigam o ódio, esses sedentos de morte.
Nós somos
amigos. Ainda que nossas profissões sejam tão diferentes – Erich é chefe de
setor em uma loja de departamentos, eu escolhi a profissão bem paga do mecânico
de precisão –, nós temos tantos interesses em comum quantos são necessários
para conceder durabilidade a uma amizade. Erich faz parte do clube há mais tempo
do que eu. Me lembro muito bem do dia em que, vestido de maneira tímida e
demasiado festiva, entrei no restaurante frequentado pelos unilaterais, e Erich
veio ao meu encontro, indicando o guarda-roupa ao inseguro para depois dizer com
sua voz:
– O senhor
por certo quer vir até nós. Deixe o acanhamento de lado; estamos aqui a fim de
nos ajudarmos.
Acabo de
dizer “unilaterais”. É assim que nós nos chamamos oficialmente. Mas também essa
nomeação, assim como grande parte dos estatutos, me parece malograda. O nome
não expressa com nitidez suficiente o que é que nos une e, ao final de contas, também
deveria nos fortalecer. Com certeza seria melhor se fôssemos chamados, curto e
grosso, de esquerdos, ou, mais sonoramente, de irmãos da esquerda. Os senhores
haverão de adivinhar por que tivemos de abrir mão de mandar que nos registrassem
sob esse título. Nada seria menos pertinente, e ainda por cima mais injurioso,
do que nos compararmos com aquelas pessoas, por certo dignas de pena, às quais
a natureza privou da única possibilidade humana de fazer justiça com as
próprias mãos. Muito pelo contrário, nós somos uma sociedade variegada, reunida
ao acaso, e posso dizer que nossas senhoras não ficam devendo nada em termos de
beleza, charme e bons modos a muita ambidestra, sim, caso a gente comparasse
com cuidado, por certo resultaria um quadro moral que faria algum pároco
preocupado com a salvação da alma da comunidade gritar de seu púlpito:
– Ah,
fossem todos vós canhotos!
Esse nome
fatal. Até mesmo nosso primeiro presidente, um alto funcionário da
municipalidade, do setor de cadastros, de inclinações e lamentavelmente também
de orientações um tanto patriarcais, de quando em vez tem de explicar que nós
não consideramos bom o fato de não ter a palavra canhoto no nome e que não somos
unilaterais nem pensamos, sentimos ou agimos de maneira unilateral.
É claro
que considerações de ordem política também tiveram um papel importante quando
nós rejeitamos as melhores propostas e escolhemos o nome pelo qual no fundo
jamais deveríamos ser chamados. Depois que os membros do parlamento, partindo
do centro, passaram a tender para um ou para outro lado e as cadeiras das casas
foram postas de maneira que tão-só a ordem das cadeiras denuncia a situação
política de nossa pátria, tornou-se hábito atribuir uma radicalidade das mais
perigosas a um escrito, a um discurso no qual a palavrinha esquerda aparecesse
mais de uma vez. Pois bem, no que diz respeito a isso podemos ficar tranquilos.
Se há um clube em nossa cidade que sobrevive sem ambições políticas, apenas da
ajuda e da sociabilidade mútua, então esse clube é o nosso. E para enfim cortar
pela raiz, de uma vez por todas, a sombra de qualquer suspeita de desvio
erótico, seja dito que encontrei minha noiva entre as mocinhas de nosso grupo
jovem. Assim que uma casa ficar livre para nós dois, queremos nos casar. Caso algum
dia desapareça de minha lembrança o último resquício daquele primeiro encontro
com o sexo feminino, será pura e exclusivamente por causa da bondade de Monika.
Nosso amor
não teve de enfrentar apenas os problemas corriqueiros de outras relações,
descritos à farta em vários livros, também nosso sofrimento manual teve de ser
machucado e praticamente esclarecido a fim de que pudéssemos gozar nossa pequena
ventura. Depois de termos tentado, em nossa primeira e aliás compreensível
confusão, dar prazer um ao outro com a direita, e termos sido obrigados a
perceber quão insensível era esse nosso lado mouco, nós apenas nos acariciamos
com jeito, quer dizer, assim como Deus nos criou. Não vou fazer revelações
demasiadas e também espero não ser indiscreto se insinuo aqui que é a Mao amada
de Monika que sempre de novo me concede a força para continuar firme e manter a
promessa. Logo depois da primeira vez em que fomos ao cinema juntos, tive de
assegurar a ela que pouparia sua mocidade intacta até que nos enfiássemos os
anéis – aqui lamentavelmente cedendo e dando forças à canhestrice de uma
aptidão inata – nos dedos anelares da mão direita.[1]
Isso que em países católicos do sul o sinal dourado do casamento é usado na
esquerda, coisa que por certo confirma o fato de naquelas zonas ensolaradas ser
antes o coração do que o juízo implacável quem governa. Talvez a fim de se
revoltar de modo feminino e provar como as mulheres são capazes de argumentar
de forma clara e evidente quando seus interesses estão em perigo, as damas mais
jovens de nosso clube, em zelosos trabalhos noturnos, bordaram uma inscrição em
nossa bandeira verde: “O coração bate do lado esquerdo”.
Monika e
eu já discutimos esse momento da troca de alianças tantas vezes e mesmo assim
sempre acabamos voltando ao mesmo resultado: não podemos nos dar ao luxo de ser
tomados como noivos em um mundo ignorante e muitas vezes até maldoso, se há
tempo já somos casados e dividimos tudo, tanto o grande quanto o pequeno, um
com o outro. Muitas vezes Monika chora por causa dessa história das alianças. Por
mais que nos sintamos alegres com esses nossos dias, com certeza haverá um leve
fulgor de tristeza descansando sobre todos os presentes, sobre as mesas
fartamente postas e festejos comedidos.
Eis que
então Erich volta a mostrar seu rosto bom e normal. Também eu cedo, mas mesmo
assim continuo sentindo por algum tempo esse espasmo na musculatura dos
maxilares. Além disso, as têmporas continuam palpitantes. Não, por certo essas
caretas não ficam bem em nós. Nossos olhares se encontram mais calmos e também
por isso mais corajosos; nós fazemos mira. Cada um tem a mão correta do outro
em mente. Eu tenho certeza que não haverei de falhar; e também posso confiar em
Erich. Treinamos por muito tempo, quase a cada minuto livre em uma cascalheira
junto à praia, a fim de não fracassar hoje, dia em que tantas coisas devem ser
decididas.
Os senhores
haverão de gritar que isso beira o sadismo, não, que isso é automutilação. Acreditem
em mim, conhecemos todos esses argumentos. Não é a primeira vez que estamos
nesta sala vazia. Nos vimos armados assim quatro vezes e quatro vezes deixamos,
assustados com nossa intenção, as pistolas apontarem ao chão. Só hoje
alcançamos a clareza definitiva. Os últimos acontecimentos de ordem pessoal e
também na vida do clube nos dão razão: temos de fazê-lo. Depois de muitas
dúvidas – nós questionamos os pareceres do clube, os desejos da ala extrema –,
enfim decidimos ir às armas. Por mais lamentável que isso possa parecer, nós já
não suportamos mais. Nossa consciência exige que nos distanciemos dos costumes
dos camaradas do clube. É que o sectarismo acabou se espalhando, e as fileiras
dos mais razoáveis estão tomadas por lunáticos, até mesmo por fanáticos. Alguns
dão vivas à direita, outros fazem juras à esquerda. O que eu jamais quis
acreditar está acontecendo; lemas políticos são gritados de uma mesa à outra, o
culto repulsivo de pregar pregos com a mão esquerda significando um juramento é
tão praticado que algumas das reuniões da presidência parecem orgias nas quais
o mais importante é entrar em êxtase através de batidas violentas e possessas. Ainda
que ninguém ouse divulgá-lo em voz alta e que a princípio os arruinados pelo
vício até agora tenham sido expulsos sem mais cerimônias, é impossível de
negar: aquele amor falho e para mim totalmente incompreensível entre membros do
mesmo sexo também encontrou adeptos entre nós. E, para dizer o pior: também
minha relação com Monika foi abalada. Ela fica junto de sua amiga, uma criatura
delicada e instável, durante um tempo que me parece demasiado. Demasiadas são
suas acusações de que fui indulgente demais e mostrei pouca coragem naquela
história das alianças, para que eu possa acreditar que ainda exista entre nós a
mesma confiança e que ela permanece sendo a mesma Monika que eu continuo, cada
vez mais raramente, tendo nos braços.
Agora Erich
e eu procuramos respirar no mesmo ritmo. Quanto mais coincidirmos também nisso,
tanto mais certos estaremos de que nossa ação está sendo conduzida pelo bom
sentimento. Não devem acreditar que sejam as palavras bíblicas que nos ordenam
a arrancar o mal. É, muito antes, o desejo quente e perpétuo de clarificar as
coisas, a necessidade de saber com clareza o que é de mim, se esse destino é
imutável ou se nós temos à mão a possibilidade de modificar nossa vida,
apontando-lhe uma direção normal. Chega de proibições idiotas, bandagens e
truques do tipo. Direitos, nós queremos tomar posse de nossa liberdade de
escolha, não estar mais separados do geral por nada e ser donos de uma mão
afortunada.
Nossa respiração
agora coincide. Sem darmos sinal um ao outro, atiramos ao mesmo tempo. Erich
acertou e também eu não o desiludi. Cada um de nós, conforme o previsto, rompeu
o tendão importante de tal modo que as pistolas, seguradas com uma força que já
era insuficiente, caíram ao chão tornando qualquer tiro subsequente
desnecessário. Nós rimos e começamos nossa grande experiência, desajeitados,
porque contamos apenas com a mão direita, ajeitando as ataduras de emergência.
(Renner, Rolf G. e Backes, Marcelo. O Melhor do Conto Alemão no Século XX. Parte V, Os canhotos.
Tradução de Marcelo Backes. Floresta-RS, L&PM: 2004, págs. 152-156)
