6/6/2019, 0:11)
O comportamento interno e externo chinês não parece incomodar toda a gente. Caso contrário, para que estaria o governo português a emitir títulos da dívida em yuans?
Há
dois dias fez exatamente 30 anos do massacre de Tiananmen. Se pudemos
recordá-lo cá pelo Ocidente, o mesmo não se pode dizer da
China. Chegam-nos
relatos da imprensa que
dão conta que o episódio tem sido branqueado, como convém aos
governos autoritários, que preferem que a população acredite que
vive no melhor dos mundos. Mesmo que Pequim esteja paulatinamente a
implementar um sistema de créditos sociais com pontos, em que cada
pessoa é avaliada no seu comportamento, não só público como
privado, pelos mais diversos meios tecnológicos. Cada cidadão terá
a devida recompensa ou represália consoante a avaliação do regime.
Orwelliano?
Parece-me que sim. No entanto, o comportamento interno e externo
chinês não parece incomodar toda a gente. Caso contrário, para que
estaria o governo português a emitir títulos da dívida em yuans? À
primeira vista a resposta parece fácil: é uma questão meramente
económica – a China tornou-se um investidor internacional
incontornável – e o que se passa no interior dos estados não diz
respeito a ninguém. O problema é que não é bem assim. A própria
China transformou a economia numa poderosa ferramenta política, que
usa para estabelecer legitimidade doméstica (quem resiste a uma vida
económica muito mais desafogada?) e domínio internacional.
Vamos
à questão externa que é o que verdadeiramente nos interessa aqui:
desde os anos 1990, de uma forma discreta mas continuada, na sua
vizinhança, em África e, mais tarde, na América do Sul, Pequim tem
vindo a introduzir a sua influência num conjunto assinalável de
países, precisamente através do investimento estrangeiro. Começou
pela construção de infraestruturas e concessão de avultados
empréstimos (sem condições de boa governança) a estados com
muitas dificuldades em construir ou aceder a crédito; passou à
compra massiva de matérias-primas, e finalmente, dedicou-se aos
investimentos em empresas fundamentais para o funcionamento de
qualquer país – energia, distribuição, telecomunicações,
transportes – e fez avultados investimentos na banca e seguros. Por
outras palavras, criou condições para que esses estados tenham
caído em profunda dependência económica. Quando as coisas não
correm como a China quer, fecha-se uma torneira. Um exemplo muito
simples: quando, em 2017, a Coreia do Sul decidiu usar o sistema
americano antimíssil para se proteger da Coreia do Norte, Pequim
proibiu a venda de viagens para o estado vizinho (cujo turismo é
essencialmente pensado para os chineses), bem como a compra de
automóveis fabricados em Seul. Este
tipo de “boicotes diplomáticos” têm-se repetido em diversos
países.
Com
a crise económico-financeira de 2008, a China começou a fazer o
mesmo nos estados fragilizados da Europa do Sul. Como se sabe,
Portugal não foi exceção.
Se
se podia alegar, ainda que demasiado ingenuamente para o meu gosto,
que a China não tinha intenções políticas pronunciadas aquando da
compra a EDP e da REN, uma vez que Xi Jinping parecia ainda professar
o credo do crescimento “pacífico” e “harmonioso”, hoje já
não é assim. O secretário-geral do Partido Comunista Chinês já
não esconde que a sua visão passa por construir um sistema
internacional que tem a China ao centro. Por outras palavras, quer
reestabelecer o Império do Meio. Aproveitando a fraqueza relativa
dos Estados Unidos, Pequim quer recriar as Rotas da Seda terrestre a
marítima. A ser concretizado, ainda que parcialmente, a China irá
dominar as mais importantes vias comerciais internacionais,
tornando-se o mais influente estado do mundo. Sem precisar de fazer a
guerra, a China prepara-se para implementar um projeto imperial sem
precedentes.
Se
Portugal já parecia dar indícios de estar na disposição de fazer
parte dos parceiros europeus de Pequim, desde a visita oficial do
líder chinês a Lisboa, em dezembro de 2018, esses sinais não param
de crescer. Na ocasião, o governo assinou mais de uma dezena de
protocolos em diferentes vertentes (muitos deles desconhecidos da
opinião pública), e deixou em aberto a possibilidade de negociar
posições no Porto de Sines – uma zona estratégica fundamental
para a Belt
and Road Iniciative.
Mais,
anunciou há alguns dias que ia começar a emitir os Panda
Bonds (os
tais títulos da dívida soberana portuguesa em moeda chinesa) que
entretanto já estão no mercado. Não se trata de uma questão que
por si só vá mudar muita coisa. A China já comprava dívida em
euros. Mas é um sinal político muito forte de que Portugal poderá
estar a inverter a sua política externa num sentido que terá custos
altíssimos no médio prazo. Além disso, importa salientar que
nenhuma destas questões, estratégicas para o futuro do país, estão
a ser debatidas publicamente. Pelo contrário; perece que melhor é
que não se comente muito, não vá alguém apontar o que já se
começa a tornar evidente.
Como
escrevi noutra ocasião,
há razões de sobra para Lisboa fazer negócios com empresas
chinesas (ainda sabendo que todas elas são controladas pela estado).
Mas uma coisa são negócios, outra completamente diferente é
entregar o país aos planos imperiais chineses. A história recente
dos boicotes diplomáticos – e o comportamento interno chinês –
alertam-nos ruidosamente para as potenciais consequências negativas.
Lisboa tem alianças permanentes que lhe permitem declinar, ainda que
muito amavelmente, o convite chinês. Resta saber se a tentação do
dinheiro fácil, num momento em que a economia teima em não arrancar
da forma que gostaríamos, não leva a melhor. Esperemos que quem de
direito seja firme na posição de que Portugal não está à venda.
Especialmente a um estado que controla indiscriminadamente em nome da
sua própria grandeza.
