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10 abril 2024

A Morte de Ivan Ilitch – Leon Tolstoi


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Descrição do livro

Esta obra mostra a história de um burocrata medíocre, Ivan Ilitch, um juiz respeitado que depois de conseguir uma oferta para ser juiz em uma outra cidade, compra um apartamento lá, para ele, sua mulher, sua filha e seu filho morarem. Ao ir para o apartamento, antes de todos, para decorá-lo, ele cai e se machuca na região do rim, dando início à uma doença.



08 outubro 2022

Começam a chegar as novas vacinas (09/06/1981)

Imagem meramente ilustrativa


 Folha de S. Paulo, terça-feira, 9 de junho de 1981, página 15.


Dez milhões de doses vieram da Bélgica


Rio (Sucursal) – Chegaram ontem à Fundação Osvaldo Cruz, no Rio, os primeiros 10 milhões de doses de vacinas contra poliomielite compradas de um laboratório particular da Bélgica, em substituição à encomenda de 70 milhões de doses que seriam fornecidas pela Iugoslávia, que apresentaram contaminação.

As vacinas belgas, produzidas pelo laboratório Rit (Shith e Kline), serão submetidas a testes de controle de qualidade no Rio, que morarão três semanas, sendo depois enviadas a Brasília, para distribuição nacional. A primeira dose da campanha de vacinação Sabin será aplicada em agosto, e a segunda, em outubro, com um atraso de dois meses, devido ao problema encontrado nas vacinas iugoslavas.

Da Bélgica ainda virão outros 60 milhões de doses necessárias ao cumprimento do programa, que prevê a aplicação de 25 milhões de doses em agosto e quantia igual em outubro, reservando-se 20 milhões de doses para reforço e atendimento de possíveis aumentos na demanda. 

O chefe do Departamento de Virologia da Fiocruz, Herman Schatzwayr, explicou que os testes de controle de qualidade compreendem várias análises, incluindo a aplicação da vacina em macacos.

Os primeiros 10 milhões de doses, segundo ele, custarão 16 milhões de dólares, mas o Brasil não chegou a ter prejuízo com o laboratório Torlak, da Iugoslávia, porque não pagou nada. "O pagamento é feito mediante a entrega da encomenda e como nós a recusamos por causa da contaminação, a compra não chegou a se efetivar".

"Esta foi a primeira vez que ocorreu contaminação de vacina antipólio comprada no Exterior", disse ele, "e nós só não encomendamos nova partida ao laboratório iugoslavo porque este não teria tempo para nos atender até agosto. Para o próximo ano, pode ser que as vacinas sejam fornecidas pela Torlak. Para isso, basta que vença a concorrência que o Brasil vai abrir, como já aconteceu este ano".

Segundo Herman Schatzwayr, que esteve na Iugoslávia para comunicar oficialmente a decisão brasileira, as vacinas foram contaminadas pelo fungo "Penicilium SP", não prejudicial ao homem.




07 junho 2022

Agora só os doentes usam máscara


SÁBADO, 23 DE ABRIL DE 2022


 Alberto Gonçalves para o Observadorvia OTambosi:

Nos últimos dias, surgiram por aí diversos vídeos ilustrativos do momento em que, durante os voos, as companhias aéreas americanas anunciaram o fim das máscaras no interior dos aviões. São testemunhos de alegria, inequívoca por parte do pessoal de bordo e, ao que me pareceu, da maioria dos passageiros. Suspeito que a alegria é precoce e, certamente, desajustada. Por um lado, aquela gente agradece a devolução de uma liberdade que, com péssimos modos, lhe fora retirada. Por outro, nem sequer foram os mandantes da imposição a retirá-la, e sim uma juíza na Flórida que decretou ilegal a imposição. O governo federal, aliás, já anunciou que tentará impugnar judicialmente tamanha libertinagem. Uma representante do sr. Biden explicou que é importante o CDC (a DGS de lá, só um nadinha mais composta) não abdicar do poder de despejar proibições em cima da ralé. E vários “especialistas” (tão ridículos quanto os de cá) esclareceram que é importante aguardar – adivinharam – mais duas semanas, as mesmas que se aguardam há dois anos.

Poder e irracionalidade, tragédia e comédia. Cito o exemplo dos EUA porque é dali que têm saído as directivas a cumprir em matéria de Covid, que depois aplicamos com superior zelo e incomparável consenso. A cabecinha do sinistro dr. Fauci, que em jovem alertava para o contágio do HIV pelo ar e em velho garantia que a vacina impediria a infecção pelo coronavírus, é o modelo de quase todas as políticas ocidentais de “combate” à Covid. Nenhuma das políticas resultou, o que não abalou as convicções de quem manda e de quem obedece. Não fosse a evolução natural do vírus, a imunidade natural e, admito, a relativa eficácia das vacinas na prevenção de doenças graves, estaríamos ainda em Abril de 2020. Cheiinhos de medo, muitos cidadãos permanecem em Abril de 2020. Inchados com prepotência, muitos responsáveis fingem permanecer em Abril de 2020.

Não estamos em Abril de 2020. A separar-nos dessa data há um imenso cemitério, onde jazem as vítimas directas da Covid (que as “medidas” não salvaram), as vítimas de doenças graves (que a histeria condenou), incontáveis negócios (que a irresponsabilidade arruinou) e, em vala comum e decomposição avançada, as sucessivas “estratégias” dos governos para travar em vão o bicho. Dos confinamentos à abolição da venda de livros, dos jardins vedados à vacinação de criancinhas, as “estratégias” caíram uma a uma, sem um pedido de desculpas ou o reconhecimento dos erros. Descontadas certas metástases residuais, nos lugares particularmente bárbaros sobrou a máscara.

Tinha de sobrar qualquer coisa. A máscara é o derradeiro símbolo, símbolo da “pandemia” e da tentativa de respectiva perpetuação (já notaram o amalucado gozo com que alguns dizem “a pandemia ainda não acabou”?). As vacinas, que de repente dividiram a humanidade entre devotos e hereges, perderam estatuto tão depressa quanto perdem validade: a lengalenga de que a vacinação nos devolveria a uma vida normal sumiu quando sumiram as tendas de campanha. Por razões sortidas, todas deprimentes, a normalidade não era desejável. A anormalidade prosseguiu através do farrapo na cara, afinal a melhor maneira de anunciar a persistência da Covid, de legitimar os desastres anteriores e de permitir que se continuasse a invocar a “ciência”.

Nunca a ciência, a autêntica, se vira assim pervertida e reduzida a uma palavra vazia para justificar o brutal desprezo pela realidade. Descemos a tal estádio de crendice que se um nutricionista jurar que é vegetariano, ninguém ousará reparar que ele despacha uma posta à mirandesa. O que nos impingiram ao longo destes 25 meses não tem nada de científico: é da ordem do misticismo, da feitiçaria, do pensamento mágico, do fervor religioso ou, pior, da política. Esqueçam, por favor, as conspirações: o vírus chinês constituiu apenas o pretexto ideal para governantes sem escrúpulos subjugarem de vez sociedades infantilizadas, que subitamente se descobriram mortais. Povos apavorados e dependentes tendem a conceder rédea solta ao Estado a troco de uma protecção imaginária. A máscara, um farrapinho tonto, é a bandeira dessa relação primitiva e perigosa.

Não discuto a função profiláctica da máscara, ao que constava somente destinada à protecção de terceiros. Limito-me a citar o citado dr. Fauci, a 8 de Março de 2020: “Não há motivo para usar máscara. No meio de uma epidemia, a máscara pode dar conforto, mas não protege adequadamente” (exactamente duas semanas decorridas – sempre as duas semanas –, a dra. Graça cometeu as famosas declarações acerca de as máscaras conferirem “uma falsa sensação de segurança”). Também não discuto a função profiláctica das leis que decretam a obrigatoriedade da máscara: inúmeros exemplos e comparações provam que é nula. O problema da máscara é mais fundo: se talvez não anule microorganismos, anula de certeza o portador.

Uma pessoa sem rosto, ou de rosto coberto, não é uma pessoa inteira. Não é à toa que na Antiguidade Clássica, leia-se de 2019 para trás, era impossível transpor o check-in do aeroporto com um simples boné. O rosto identifica-nos, distingue-nos, responsabiliza-nos, liga-nos ao próximo, humaniza-nos em suma. Agora que a grotesca obrigação do açaime terminou ou, em lugarejos atrasados, se atenuou, é agradável ver a satisfação dos que regressam à liberdade. E assustam-me os que lhe são indiferentes.

Claro que, como sempre deveria ter sido, cada um usa máscara (ou pendura um regador ao pescoço) se quiser. Mas os que, sem riscos particulares e após tantos abusos e fraudes, a querem usar e o proclamam com orgulho estão a exibir uma submissão que convida múltiplas desgraças, bem maiores que a Covid. Ladrões à parte, dantes só usava máscara quem estava doente. Voltou a ser o caso. “Chalupas”, parece que é o termo.



03 junho 2021

A classe jornalística não respeita nem a vacina dos velhinhos

 

Na Bahia, a "'catchigoria" quer tomar (via Sindicato dos Jornalistas) o lugar dos velhinhos. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povovia OTambosi.





A Bahia é um bom posto de observação para umas coisas, e um péssimo posto para outras. Para detectar mudança de governo, por exemplo, é péssima, já que a Bahia republicana não toma a iniciativa de fazer oposição ao status quo. Por outro lado, como a elite baiana não é muito dada aos maneirismos finos do Sudeste (vejam que paulista não tem seca, tem crise hídrica), amiúde temos caras-de-pau mostrando às escâncaras o que no Sudeste se disfarça.

De quanto tempo um estrangeiro precisaria para entender que o PSOL de Freixo é um partido de sindicalistas do funcionalismo público? No entanto, se visse o PSOL em campanha pelo governo da Bahia, sacaria num minuto. Afinal, que candidato a governador faz campanha falando da “URV dos técnicos” das universidades estaduais?

Agora é a vez de os jornalistas baianos jogarem luz sobre as reais intenções da categoria: os bonitos ganharam o direito de furar a fila da vacina caso tenham mais de 40 anos, e agora ameaçam uma greve de jornalismo por quererem estender a todos os jornalistas o direito de furar a fila da vacina.

Primeiro uma tal Comissão Intergestores Bipartites resolveu no dia 18 de maio que os “profissionais da comunicação” sadios com pelo menos 40 anos estariam dentro do grupo que poderia furar a fila da vacina. Muita cara de pau? Piora: no mesmo dia, o bravo Sindicato dos Jornalistas Baianos anunciou que iria lutar (sic) para poder vacinar todo jornalista.

No dia seguinte, o Ministério Público da Bahia, que em geral está ocupado em tirar o bifinho das crianças ou perseguir o Compadre Washington, desta vez fez algo de útil à sociedade e recomendou que a tal da CIB parasse de incluir meio mundo na categoria de fura-filas de vacina. O Ministério Público da Bahia fez essa recomendação em conjunto com o Federal.

Também no dia 19, o presidente da vetusta Associação Bahiana de Imprensa declarou que “não se trata de um privilégio corporativo, e sim desse reconhecimento de que a população precisa, para vencer a Covid-19, de informação de qualidade".

Para descer a ladeira rumo ao sindicalismo mais caricato, há a agora a greve no feriadão. Em protesto contra a recomendação do MP, no dia 2 de junho foi convocada uma greve de jornalistas.

Nem um pio da FACOM

Será que alguém reclamou? Nenhum luminar da FACOM deu um pio. A FACOM, também conhecida como Faconha, é a Faculdade de Comunicação da UFBa, que tem uma significativa presença no jornalismo baiano e um pouco no nacional. Se Wilson Gomes se manifestou, terá sido oralmente, porque nos buscadores não aparece nada. Que eu saiba, único jornalista da imprensa baiana a se manifestar contra esse absurdo foi James Martins, um jornalista atípico porque tem erudição e não tem diploma. Em texto intitulado “Vacina pouca, minha prioridade primeiro”, escreveu: “Pelo viés da essencialidade e da exposição, [os trabalhadores de supermercados] estão muito mais expostos que eu e a maioria dos meus colegas. Aqui na Bahia, a primeira vítima da doença foi uma empregada doméstica. Elas já estão na lista de prioridades? E os porteiros? [...] Vamos pensar juntos. Seria impossível ou inviável que algumas categorias sofressem uma triagem interna? Por exemplo, um jornalista que cobre hospitais, cemitérios, vai pra rua, etc. seria priorizado em relação a mim, que me exponho bem menos. Assim como sei de profissionais da saúde que não exercem e que já tomaram suas doses. Alunos de medicina na casa dos 20 anos, que só têm aulas online, e que também já estão vacinados. E por aí vai.”

Como uma andorinha não faz verão, podemos olhar para o grosso do jornalismo baiano e dizer que quem cala consente.

O que vai na cabeça desse povo?

Sendo eu jovem, magra e sadia, resolvi que não quero me vacinar tão cedo, porque a covid não é nenhuma aids em matéria de letalidade: é gripezinha para uns, causa mortis para outros. Tudo leva a crer que para mim seja gripezinha. Por outro lado, se as vacinas tiverem um efeito negativo no longo prazo, só descobriremos no longo prazo. Se eu tivesse motivos para achar que a covid é causa mortis para mim, estaria afobada atrás de Astra-Zeneca ou Pfizer também. Penso que jovens saudáveis devem raciocinar no longo prazo, e que velhos ou doentes devem raciocinar no curto prazo. No longo prazo, não parece uma boa ideia tomar esta vacina.

Usando os números na base do Our World in Data, foram foram documentados no Brasil desde o começo da pandemia 16,52 milhões de casos e 461.057 mil mortes de covid. Fazendo uma continha de dividir, temos que quase 0,03% dos infectados morreram. Vale frisar que esse número de infectados inclui velhinhos. Quais as chances de um jovem sadio — aqueles por quem luta o bravo sindicato — contrair covid e morrer?

A minha aposta é que eles nunca se fizeram essa pergunta. Sentem-se parte de um clã iluminado que tem como missão espalhar a Verdade dos Profetas da Divulgação (pseudo) Científica. Essa verdade simplória, talhada para intelectos rudimentares, consiste em: vai todo mundo morrer, a menos que tome “a” vacina – qualquer vacina, pois quem alega que uma vacina feita às pressas pode ser ineficaz ou prejudicial é um obscurantista antivacina. São simplórios, burros, tapados. Estão dispostos a tratar com xingamentos e slogans quem hesita, quem duvida, quem pensa.


O valor da vida humana

Agora, uma vez que eles acreditam mesmo que vai todo mundo morrer caso não tome vacina, é forçoso concluir que não estão nem aí para a vida humana. Afinal, a gente com idade ou comorbidade que deixou de tomar a vacina fica condenada à morte. Vacina para a gente bonita das redações; ao povo, brioches.

Depois, haja materiazinha furreca sobre “genocídio” para aliviar a consciência. Furam fila de vacina e não vivem sem serviçais, mas o “genocida” é o presidente. Compram drogas na mão de facção, mas o “genocídio da juventude negra” vai na conta da polícia. Não respeitam ninguém, e pisam no pescoço do povo por qualquer ninharia. Que não queiram ser respeitados, portanto.




01 outubro 2016

"Vírus da Moda" (Vilma Gryzinski)




Não é difícil entender o que alguém realmente quer dizer quando invoca o famoso "já está mais do que na hora de discutir". Na verdade, a pessoa acha que está mais do que na hora de entender a inevitabilidade do caixa dois nas campanhas políticas, liberar as drogas ilícitas ou aprovar leis que permitam o aborto sem restrições. Este tipo de argumento nunca foi tão utilizado como agora, em razão da ansiedade e do medo das mulheres que estão grávidas ou pensando em engravidar, em face da possível conexão entre o vírus zika e a microcefalia. Sempre é hora de discutir qualquer coisa, ainda mais uma coisa de incrível complexidade e especificidade ética como o aborto, que envolve a situação única de uma mulher, e seus planos para a própria vida, e a vida que se desenvolve dentro dela, em vários estágios, podendo desabrochar no mais incomparável milagre humano, o nascimento de uma criança. A palavra "humano" foi usada de propósito, para manter a discussão nos limites laicos. Não é preciso, evidentemente, seguir os princípios de qualquer religião para entender os desafios éticos dessa questão. Mas, em geral, quem acha que "já está mais do que na hora de discutir" olha para quem se dispõe a fazê-lo como se fosse um ser atrasado, primitivo e totalmente desinformado do fato de que "todo mundo"  se avançado, sofisticado e bem informado — permite o aborto.

A falácia do apelo à multidão é espantosamente frágil, mas vamos lá a um exemplo. "Todo mundo" faz aborto de feto de menina na Índia. Claro que não são todas as gestantes, mas uma quantidade impressionante de mulheres, a ponto de o país ter a menor proporção de nascimento entre meninos e meninas em todo o mundo: nascem 1 000 bebês do sexo masculino para cada 919 do sexo feminino, um desequilíbrio de graves consequências sociais. Governos sucessivos já tentaram proibir que os médicos revelem o sexo do feto na hora do ultrassom e banir o próprio
exame, acessível em qualquer quebrada da imensidão indiana. Mulheres da Índia que abortam meninas têm tantas razões, alguns diriam até mais, quanto aquelas que se sentem impelidas pelos três "nãos" habituais — não agora, não com esse cara e não mais um. Elas podem ser socialmente discriminadas e execradas pela família do marido. Em casos extremos, podem ser queimadas vivas pela sogra e pelos cunhados. 

Alguém que se propõe a defender os direitos da mulher aceitaria a eliminação de fetos por serem do sexo feminino? É difícil, mas não impossível. Por causa de suas implicações tão profundas, o aborto costuma despertar reações extremadas, dos dois lados. Mulheres também podem ter respostas aparentemente ilógicas, pois razão, sentimentos e arquétipos tão antigos quanto a própria vida formam um enorme emaranhado. Aliás, nessa questão única, quem quiser racionalidade que se dirija ao balcão do outro, ou outros, gênero. Mulheres que são contra o aborto podem recorrer a ele diante de uma gravidez indesejada. Aquelas que jamais duvidaram sequer um momento da correção da intervenção de repente começam a pensar em nomes, roupinhas e decoração do quartinho. É possível fazer um aborto e nunca mais pensar no assunto ou, de repente, olhar para o próprio filho e imaginar que ele poderia ter um irmão. 

O que não é aceitável, para quem deseja uma discussão honesta, é defender o aborto como primeiríssima medida diante da possibilidade de microcefalia, uma síndrome que só pode ser detectada com a gestação avançada e nem sempre se manifestar da mesma maneira — tampouco é ético execrar mulheres amedrontadas que pensam nessa intervenção. Carissa Etienne, médica dominiquense que dirige a Organização Panamericana de Saúde (Opas, a intermediária dos médicos cubanos), esteve no Brasil e declarou numa entrevista coletiva: "Gostaria de aproveitar a ocasião para dizer que as mulheres deveriam ter o direito de estar grávidas ou não". Uma opinião legítima, à qual a pernambucana Solange Ferreira, mãe do "bebê-símbolo" da microcefalia, contrapõe com a generosidade dos grandes de alma. "Para mim, ele é normal", disse ela à BBC Brasil. "Quando dizem que ele não vai andar, fico brava com esse povo. Me dizem que ele tem defeito, mas eu respondo que quem tem defeitos são eles."

26 setembro 2016

“Freud é apenas uma lenda” - MIKKEL BORCH-JACOBSEN



Filósofo e historiador, o professor da Universidade de Washington diz por que considera o pai da psicanálise uma fraude

por Natália Martino
Edição 31.10.2012 - nº 2242

OMISSÃO
"Muitos pacientes de Freud cometeram suicídio e
ele nunca disse uma palavra sobre isso"
, afirma o professor 

O filósofo e historiador Mikkel Borch-Jacobsen não se esquiva de uma polêmica. A última década da sua carreira, dedicada aos estudos sobre a história da psicanálise e da psiquiatria, foi pródiga em livros e opiniões controversas que lhe renderam inimigos entre terapeutas do mundo inteiro. Começou a receber as primeiras críticas severas em 1996 com o lançamento do livro “Anna O. – Uma Mistificação Centenária”, no qual questionava as avaliações de Freud sobre uma das suas principais pacientes. Foi também um dos autores do “Livro Negro da Psicanálise”, uma das obras mais barulhentas já lançadas sobre o assunto. Agora, escreveu “Os Pacientes de Freud”, lançado recentemente no Brasil (Editora Texto e Grafia), no qual reconstrói a trajetória de 31 pacientes de Freud. Na obra, ele conta os motivos que os levaram até o analista e, principalmente, como viveram durante e depois do tratamento. A partir de documentos, como cartas trocadas entre o terapeuta e seus amigos e entrevistas confidenciais feitas com os pacientes de Freud, o autor desconstrói o mito do criador da psicanálise.

"Os medicamentos foram excluídos das histórias que o psicanalista
contou, mas muitos pacientes eram viciados em morfina"

"Como Anna iria se curar se seu analista era o próprio pai do qual
ela deveria se desligar? Parece óbvio, mas ele não percebeu isso"

ISTOÉ –
 O que os relatos que o sr. apresenta em seu livro revelam sobre Freud e a psicanálise?
Mikkel Borch-Jacobsen –
As histórias dos pacientes de Freud foram a base das suas teorias. Quando percebemos que elas são falsas, como vemos ao analisar a vida dos pacientes que descrevo no livro, toda a teoria da psicanálise é abalada. O caso apresentado por Freud como sendo de Anna O., que hoje sabemos tratar-se de Bertha Pappenheim, por exemplo, é considerado um dos mais fundamentais para o desenvolvimento da psicanálise. A paciente tinha sintomas graves de histeria que, supostamente, Freud curou com o método catártico. Mas isso não é verdade. No fim do tratamento, ela já não suportava mais conviver com o problema e foi internada em uma clínica, onde continuou apresentando o mesmo quadro de histeria. Apenas seis ou oito anos depois, Bertha foi considerada curada. Não se sabe como ela se curou, mas é óbvio que não foi com a psicanálise, ninguém se cura por meio de um tratamento finalizado quase uma década antes.  
ISTOÉ –
Os resultados terapêuticos eram insuficientes?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Na maioria dos casos sim. Era comum que as condições dos pacientes piorassem, como no caso de Viktor von Dirsztay, que mais tarde chegou a admitir que a análise o destruiu. Muitos outros dos seus pacientes cometeram suicídio, como Margit Kremzir e Pauline Silberstein. Claro que qualquer terapeuta está sujeito ao risco de suicídio dos seus pacientes, mas a questão é que Freud nunca disse uma palavra sobre isso. 
ISTOÉ –
Ele escondia esses fatos?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Como um bom positivista, Freud sempre afirmou que suas teorias eram baseadas na observação de dados clínicos. Por um longo período, porém, tudo o que sabíamos sobre esses dados se baseava no que ele escolheu nos mostrar. Ao compararmos essas histórias com a realidade, observamos discrepâncias que automaticamente invalidam as conclusões de Freud. Os medicamentos, por exemplo, foram sistematicamente excluídos das histórias que ele contou, mas muitos dos seus pacientes eram viciados em morfina. Hoje é muito claro que a droga teve em alguns casos um papel essencial no tratamento. Freud dizia, por exemplo, que diante dos ataques histéricos de Anna von Lieben, a Cäcilie M. citada em “Estudos sobre a Histeria”, ele conduzia um tratamento hipnótico que a fazia se sentir melhor. O que ele não nos contava é que as crises dela eram causadas por abstinência de drogas e que ela se acalmava quando ele lhe dava uma injeção de morfina. A famosa cura catártica nada mais era do que cura com morfina. 
ISTOÉ –
Os diagnósticos dele são questionáveis?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Sim, os diagnósticos que Freud alegava fazer tão cuidadosamente escancaram discrepâncias entre sua prática real e suas descrições. Quando o pai da jovem Ida Bauer, que Freud eternizou como Dora, a levou até Freud devido a um episódio de asma, o analista instantaneamente diagnosticou neurose. Mas como ele poderia saber? Aquela era a primeira vez que ele a via. Há vários exemplos desse tipo e uma vez que definia seu diagnóstico, Freud o mantinha obstinadamente, mesmo que os fatos mostrassem a ele outro caminho. As consequências dessa postura frequentemente eram bem sérias, como quando Freud forçou Horace Frink a se divorciar da esposa para se casar com a milionára Angelika Bijur para combater a homossexualidade que o paciente negava vigorosamente. 
ISTOÉ –
Freud chegava a dar conselhos tão diretos aos pacientes?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Ele intervia diretamente na vida dos seus pacientes e não hesitou em instigar alguns a se casarem e terem filhos, por exemplo. Foi o que aconteceu com Max Graf e Olga Hönig, os pais do “pequeno Hans” – e o casamento foi um completo desastre. Em outros casos, Freud proibia pacientes de se masturbarem, como no caso da sua filha, Anna Freud. Sempre que essas instruções eram dadas, Freud era a voz da autoridade.  
ISTOÉ –
Ele acreditava que podia tratar a filha? 
Mikkel Borch-Jacobsen –
Freud queria muito ajudar a filha a se desligar dele e isso fica claro em várias cartas que ele escreveu a amigos. Mas a única coisa que ele podia oferecer a ela era a psicanálise, o que, obviamente, era a coisa mais estúpida que ele poderia fazer. Como ela conseguiria se curar se sua única ajuda era de um analista que era o próprio pai do qual ela deveria se desligar? Por mais óbvio que pareça, Freud não percebeu isso. Não estou dizendo que ele abusou da filha, de jeito nenhum, ele a amava. Mas estava tão convencido de que sabia como ajudá-la que não permitiu que ela se libertasse dele. 
ISTOÉ –
Para Freud, a psicanálise sempre funcionava? 
Mikkel Borch-Jacobsen –
Sim, claro, ele acreditava que havia descoberto a cura para as doenças mentais. Freud tinha suposições teóricas que o impediam de ver o que estava acontecendo. Ele estava tão convencido de que a terapia funcionava que, quando ela não dava certo, ele simplesmente achava que era necessário ir mais fundo no inconsciente. Só no fim da sua vida, em seus últimos artigos, ele admitiu que os métodos eram inconclusivos em alguns casos. 
ISTOÉ –
Mas em algum momento ele foi deliberadamente negligente ou desumano com seus pacientes?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Sim, a forma como ele sacrificava seus pacientes no altar das suas teorias é vergonhosa. Marie von Ferstel, por exemplo. Ela era uma mulher rica que sofria de fobias e de constipação. Freud disse a ela que, para resolver esses problemas, ela teria que aprender a se desapegar, por exemplo, do dinheiro. O que ela fez? Transferiu para ele o título de uma das suas propriedades, que ele prontamente vendeu. Eu acho isso imperdoável. Freud simplesmente não era uma pessoa admirável. 
ISTOÉ –
De que forma essas revelações atingem a psicanálise hoje?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Não vejo como salvar a psicanálise diante de tudo isso. Eu sei que muitas pessoas admiram Freud como um pensador independentemente das vicissitudes de sua prática. Também acho que ele era um gênio, tinha ideias realmente incríveis. Mas as suas teorias são contraditórias demais às suas práticas para serem levadas a sério. 
ISTOÉ –
O sr. aponta essas contradições em 31 casos e Freud atendeu pelo menos cinco vezes mais pacientes. Não poderia ser coincidência?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Uma das minhas principais fontes de pesquisa foram as entrevistas com pacientes de Freud conduzidas por Kurt Eissler, que era secretário do Arquivos de Freud. Esse material ficou inacessível até 1999, quando Eissler morreu e, a partir daí, começou a ser colocado em domínio público, processo que só deve acabar em 2057. Eissler tinha enorme interesse em defender a memória do pai da psicanálise e se essas entrevistas fossem positivas não teriam sido tornadas confidenciais. Muita coisa ainda será revelada, possivelmente conseguiremos rastrear outros pacientes, mas não acho que as novas histórias irão contradizer as estatísticas que já temos.
ISTOÉ –
Muitas pessoas afirmam hoje ter encontrado conforto na psicanálise. Não há nenhum valor nisso?  
Mikkel Borch-Jacobsen –
No meu ponto de vista, neuroses, como histeria e obsessão, não são doenças mentais, são pedidos de socorro. A análise cumpre, nesses casos, o papel que a religião cumpria antes. As pessoas iam até o padre para buscar respostas e as encontravam. Qualquer uma das centenas de tipos de psicoterapias que existem hoje pode cumprir esse papel. Reconheço que, em alguns casos, pessoas com problemas pessoais podem encontrar conforto no divã. 
ISTOÉ –
Mas seus livros parecem tentar destruir a psicanálise.
Mikkel Borch-Jacobsen –
Eu sou um acadêmico e meu único interesse é separar as verdades das lendas. Freud é apenas uma lenda. Ele reescreveu a história de acordo com seus propósitos pessoais.
ISTOÉ –
Essa sua postura crítica em relação à psicanálise acompanhou toda a sua carreira? 
Mikkel Borch-Jacobsen –
Não, no início eu era simpático à psicanálise e tinha interesse especial na escola Lacaniana. 
ISTOÉ –
E o que essa mudança significou profissionalmente? 
Mikkel Borch-Jacobsen –
Eu era constantemente convidado para conferências e para escrever artigos em revistas até que eu publiquei meu primeiro livro mais crítico sobre Freud. A partir desse momento, não fui mais convidado para nada. Não se pode ser crítico à psicanálise sem sofrer as consequências disso. 
ISTOÉ –
O sr. também estudou a psiquiatria. Acredita que esse é um caminho mais válido para tratar doenças mentais?
Mikkel Borch-Jacobsen –
A psiquiatria não é uma teoria única, mas, de forma geral, fez enormes progressos, como se vê, por exemplo, nos diagnósticos de esquizofrenia, depressão e outras doenças. Do ponto de vista da cura, porém, ela não avançou. Temos várias drogas hoje que nos permitem controlar certos sintomas das doenças mentais, mas ainda não há cura para elas e nem mesmo se conhece suas causas. A psiquiatria tenta encontrar soluções, mas ainda não foi bem-sucedida. 
ISTOÉ –
Qual é o próximo mito que o sr. pretende desbancar?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Agora estou estudando a indústria farmacêutica. Sou muito crítico com as drogas psiquiátricas e, por isso, estou pesquisando esse universo do ponto de vista histórico.  
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