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| Giotto di Bondone Masacre dos Inocentes Scrovegni Pádua XIV seculo Fonte: http://goo.gl/oHZ5dl |
VIII
[Do infanticídio cometido por Herodes e o
final catastrófico de sua vida]
1.
Nascido Cristo em Belém de Judá, conforme as profecias[1]
no tempo mencionado,
Herodes, ante a pergunta dos magos vindos do Oriente que queriam saber onde se achava o nascido rei dos
judeus - porque tinham visto sua estrela, e o motivo de sua viagem tão longa
era seu empenho em adorar como Deus ao
recém-nascido -, bastante perturbado pelo assunto, como se estivesse em perigo sua soberania - ao menos era o
que ele realmente pensava -, depois de informar-se com os doutores da
lei dentre o povo onde esperavam que
haveria de nascer o Cristo, assim que soube que a profecia de Miquéias indicava Belém, ordenou mediante um
edito matar os meninos de peito de
Belém e redondezas, de dois anos para baixo, segundo o tempo exato indicado pelos magos, pensando que também
Jesus, como era natural, teria certamente a mesma sorte que os outros
meninos de sua idade.
2.
Mas o menino, levado para o Egito, adiantou-se ao plano: um
anjo apareceu a seus pais indicando-lhes de antemão o que iria acontecer. Isto
é o que nos ensina a Sagrada
Escritura do Evangelho[2].
3.
Mas, além disso, é conveniente dar uma olhada na resposta
pelo atrevimento de
Herodes contra Cristo e os meninos de sua idade. Imediatamente depois, sem a menor demora, a
justiça divina o perseguiu quando ainda transbordava de vida e lhe mostrou o prelúdio do que o
aguardava para depois de sua saída desta vida.
4.
Não
é possível resumir agora as sucessivas calamidades domésticas com que se enevoou a suposta prosperidade de seu
reino: os assassinatos de sua mulher,
de seus filhos e de outras pessoas muito próximas a sua família por parentesco
e por amizade. O que se pode supor a respeito disso deixa à sombra qualquer representação trágica. Josefo o
explica extensamente em seus relatos históricos.
5.
Mas sobre como um flagelo divino o arrebatou e ele começou a
morrer já desde
o momento em que conspirou contra nosso Salvador e contra os demais meninos, será bom escutar as palavras do próprio
escritor, que no livro XVII de suas Antiguidades
judaicas descreveu o final catastrófico da vida de Herodes como
segue:
"A doença de
Herodes fazia-se mais e mais virulenta. Deus vingava seus crimes.
6.
Com efeito, era um fogo suave que não denunciava ao tato dos
que o apalpavam
um abrasamento como o que por dentro aumentava sua destruição; e logo uma vontade terrível de comer algo,
sem que nada lhe servisse, ulcerações e
dores atrozes nos intestinos, e sobretudo no ventre, com inchaço úmido e
reluzente nos pés.
7. Em torno do baixo-ventre tinha uma infecção
parecida; mais ainda, suas partes pudendas estavam podres e criavam vermes. Sua
respiração era de uma rigidez aguda e
extremamente desagradável pela carga de supuração e por sua forte asma;
em todos os membros sofria espasmos de uma força insuportável.
8.
O certo é que os adivinhos e os que têm sabedoria para
predizer estas coisas diziam
que Deus estava fazendo-se pagar pelas muitas impiedades do rei." Isto é o que o autor citado anota na
mencionada obra.
9. E no livro segundo de
seus relatos históricos nos dá uma tradição parecida acerca do mesmo assunto, escrevendo assim:
"Então a
enfermidade se apoderou de todo o seu corpo e foi destroçando-o com variados
sofrimentos. A febre na verdade era fraca, mas era insuportável a comichão em toda a
superfície do corpo, as dores contínuas do ventre, os edemas dos pés, como
de um hidrópico, a inflamação do baixo-ventre e a podridão verminosa de
suas partes pudendas, ao que se deve acrescentar a asma, a dispnéia e espasmos em todos seus
membros, ao ponto de os adivinhos dizerem
que estes sofrimentos eram um castigo.
10. Mas ele, mesmo lutando com tais padecimentos,
ainda se aferrava à vida, e
esperando salvar-se imaginava curas. Atravessou o Jordão e utilizou as águas termais de Calirroe. Estas vão desaguar no mar do Asfalto[3], e como são doces são também potáveis.
esperando salvar-se imaginava curas. Atravessou o Jordão e utilizou as águas termais de Calirroe. Estas vão desaguar no mar do Asfalto[3], e como são doces são também potáveis.
11. Ali os médicos decidiram aquecer com azeite
quente todo seu purulento corpo em uma
banheira cheia de azeite; desmaiou e revirou os olhos, como se estivesse acabado. Armou-se grande alvoroço
entre os criados, e com o ruído
voltou a si. Renunciando desde então à cura, mandou distribuir a cada soldado
50 dracmas e muito dinheiro aos chefes e a seus amigos.
12. Regressou então e chegou a Jericó, já
vítima da melancolia e ameaçado pela morte. Pôs-se a tramar uma ação criminosa.
De fato, fez reunir os notáveis de cada
aldeia de toda a Judéia e mandou encerrá-los no chamado hipódromo.
13. Chamando depois sua
irmã Salomé e seu marido Alexandre, disse: Sei que os judeus festejarão minha
morte, mas posso ainda ser pranteado por outros e ter uns funerais esplêndidos se vocês atenderem minhas
ordens. Assim que eu expirar, fazei com que cada um dos homens aqui detidos
seja imediatamente cercado por soldados e
fazei com que os matem, para que a Judéia inteira e cada casa, ainda que
à força, chore por mim."
14. E um pouco mais
adiante diz:
"Depois, torturado também pela falta
de alimento e por uma tosse espasmódica e
abatido pelas dores, tramava antecipar a hora fatal. Pegou uma maçã e pediu uma faca, pois tinha o costume
de cortá-la para comê-la. Depois,
olhando em volta por medo de que houvesse alguém para impedi-lo,
levantou sua mão direita com a intenção de ferir-se."
15. Além destes detalhes,
o mesmo escritor refere que, antes de morrer de todo, mandou que matassem
outro de seus filhos legítimos, terceiro que somou aos outros dois já
assassinados anteriormente[4],
e no mesmo momento, de repente e entre
enormes dores, expirou[5].
Assim
foi o final de Herodes, justo e merecido pelo infanticídio perpetrado em Belém por atentar contra nosso Salvador.
Depois disto, um anjo se apresentou em
sonhos a José, que vivia no Egito, e ordenou-lhe partir com o menino e sua mãe
para a Judéia, explicando-lhe que estavam mortos os que buscavam a morte do menino, ao que acrescenta
o evangelista: Porém, ouvindo
que Arquelau reinava no lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá, mas avisado
em sonhos, retirou-se para a região da Galiléia[6].
[1] Mq 5:l (5:2); Mt 2:5-6.
[2]
Mt 2:1-7; 16:13-15.
[3]
O Mar Morto.
[4] No ano 29 a.C. Herodes matou sua
segunda esposa, Mariana; em 7 a.C. os filhos que teve dela, Alexandre e
Aristóbulo, e apenas cinco dias antes de sua morte, em 4 a.C. matou Antípatro,
filho de sua primeira mulher, Doris.
[5] Aos setenta anos, provavelmente
em março ou abril de 4 a.C.
[6]
Mt 2:22.
