Um mês e meio após o crime que abalou o país, o médico legista conta como foi a perícia e explica suas conclusões sobre as mortes de PC Farias e sua namorada Suzana Marcolino
[programa ao vivo, permitindo
a participação dos telespectadores]
Matinas Suzuki: Boa noite. Após um mês e meio do crime que
abalou o país, ele afirma que Suzana Marcolino [namorada de PC Farias][1]
matou o empresário PC Farias e depois se suicidou. No centro do Roda Viva está o médico legista da Unicamp
[Universidade Estadual de Campinas] e da Secretaria da Segurança Pública de São
Paulo, Fortunato Badan Palhares.
[Comentarista]: Ele ganhou projeção nacional como investigador
rigoroso e especialista em desvendar crimes famosos, mas não é detetive.
Fortunato Antônio Badan Palhares, casado, dois filhos, é médico legista e
professor da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, onde chefia o
Departamento de Medicina Legal. Badan Palhares começou o curso de medicina
quando tinha 23 anos. Ganhou uma bolsa de estudos do governo português e se
formou na Universidade de Coimbra, se especializando em anatomia patológica.
Como médico legista, já assinou cerca de quatro mil laudos em quase trinta anos
de carreira e tem ajudado a polícia e a Justiça a desvendar casos complicados.
Badan Palhares recorre à engenharia genética para provar uma tese que repete
sempre: a de que não existe crime perfeito, desde que o local tenha sido
preservado. Há cinco anos, a equipe de Badan Palhares iniciou a identificação
das 1.049 ossadas encontradas num cemitério clandestino em Perus e que podem
pertencer a desaparecidos políticos. Esse trabalho ainda não foi concluído. [Em
São Paulo, no dia 4 de setembro de 1990, foi aberta a Vala de Perus, localizada
no cemitério Dom Bosco, na periferia. A vala foi construída pelo Serviço
Funerário Municipal, entre 1975 e 1976, para esconder os restos mortais de
presos políticos torturados e assassinados, e de pessoas pobres consideradas
indigentes, durante o período militar. Após um convênio celebrado entre a
prefeitura de São Paulo, a Unicamp e o governo do estado, as ossadas foram
entregues aos peritos para serem identificadas]. Sua investigação mais recente
foi a morte de Paulo César Farias e Suzana Marcolino, em Maceió. Depois de 39
dias, Badan Palhares divulgou um laudo que confirma a versão defendida pela
polícia de Alagoas no dia do crime. Suzana baleou PC enquanto ele dormia e
depois se suicidou sentada na cama.
Matinas Suzuki: Para entrevistar esta noite o doutor Badan
Palhares, nós convidamos: Percival de Souza, que é escritor e repórter especial
do Jornal da Tarde; Luciano Suassuna, redator-chefe
da revista Isto é; Mônica Teixeira,
editora-chefe do SBT Repórter; Heródoto
Barbeiro, apresentador do programa Opinião Nacional aqui da TV Cultura; Josias de
Souza, secretário de redação da Folha de S.Paulo e Vasconcelo Quadros, repórter
do Jornal do Brasil. Boa noite, Badan Palhares.
Fortunato Badan Palhares: Boa noite.
Matinas Suzuki: Antes de entrarmos no assunto que está mexendo com especulações em toda a sociedade
brasileira, eu gostaria que o senhor explicasse o que é um médico legista. O
que ele faz e como se forma?
Fortunato Badan Palhares: O médico legista, na verdade, é um auxiliar da
Justiça. É um médico que deveria ter, na verdade, uma formação especial para
desenvolver esse tipo de atividade, mas, infelizmente, nossas estruturas ainda
não permitem uma boa formação de perito. Hoje, para ser perito médico, você
precisa prestar um concurso público, que nem sempre é difícil de passar,
e ficar na Academia de Polícia [Civil] por três ou quatro meses. Aí, você
já se torna um perito para poder assinar os laudos e ser responsável por esses
documentos extremamente sérios. Entendo que existe uma falha na formação do
perito. Nós não temos também, dentro da estrutura universitária, cursos de
pós-graduação para formar especialistas e professores de medicina legal.
Portanto, temos uma falha no início da carreira. Isso pode explicar, muitas
vezes, falhas muito sérias nas perícias deste país.
Matinas Suzuki: Nós temos aqui as imagens computadorizadas
feitas pela sua equipe e que explicariam as duas mortes. Nós vamos mostrar
essas imagens para o nosso telespectador e, se o senhor puder, por favor, ao
mesmo tempo em que as imagens são mostradas, ir explicando quais foram as
conclusões, eu agradeceria.
[exibição simultânea do
vídeo]
Fortunato Badan Palhares: [explica as animações do video] Essa imagem é
vista de cima, na tentativa de mostrar a Suzana atirando no corpo de PC. Ele
estaria em decúbito lateral e, depois de receber o disparo, muda de posição e
vai assumir a posição final em que foi encontrado no local. É importante notar
como as pernas rodam, e essa mudança de posição das pernas facilitou com que o
lençol e o cobertor se enrolassem nas pernas dele, isso foi detectado no local
pelos os peritos. É lógico que nem todos os movimentos que estão sendo vistos
aqui foram exatamente como aconteceram, mas é para se ter uma idéia aproximada.
A mesma coisa acontece em relação à Suzana. Quando ela dispara a arma, veja que
o revólver cai a uma certa distância, exatamente por estar sendo seguro de uma
forma anômala, e ela então, aos poucos, vai perdendo o seu equilíbrio. Ela
estava voltada um pouco para frente, depois vai perdendo o equilíbrio e tomando
uma posição final. Na sua queda, ela também movimenta o braço de PC. Vocês
podem ver que há uma movimentação do braço no final da queda. Isso foi
importante para demonstrar como foi que o braço dele mudou de posição e foi
coberto com algumas gotas de sangue. Vejam a movimentação dos pés,
particularmente, da perna esquerda agora: esse dado é importantíssimo para
mostrar como aquelas gotas que estavam no lençol se formaram, como nós
interpretamos esse material, mesmo passado algum tempo.
Matinas Suzuki: Doutor, a revista semanal Isto
é publicou uma
ilustração contestando essa versão, se
baseando em dois outros legistas: o Nelson Massini, que inclusive foi colega do
senhor na Unicamp e na Universidade Federal de Alagoas, e o George Sanguinetti.
Sobre a morte do empresário PC
Farias, eles dizem que seria impossível que ela, de pé e ao lado da cama,
pudesse dar um tiro que atingiria o peito do lado esquerdo do empresário e
sairia pelo lado direito, quer dizer, essa trajetória da bala seria impossível.
Além disso, eles afirmam que só ela estando no teto, em cima do quarto, é que a
bala poderia fazer essa trajetória. Como o senhor contestaria essa versão?
![]() |
| George Sanguinetti, médico legista |
Fortunato Badan Palhares: Não preciso contestar. O laudo que nós
elaboramos é extremamente claro nesse sentido, e muito provavelmente as pessoas
que estão contestando não tiveram acesso ao corpo, não examinaram nada, estão
falando por suposições. Quem fala por suposição tem uma grande probabilidade de
errar. Se eu não tenho condições de examinar, localizar, visualizar, entender o
que efetivamente aconteceu, eu posso ter uma impressão diferente da real. Isso
é muito comum quando nós pegamos uma fotografia e vamos interpretá-la. Se
vocês, por acaso, me dessem uma fotografia desse ambiente, eu poderia ter uma
imagem bidimensional, jamais uma imagem tridimensional, o que pode me levar a
erros de interpretação. Muito seguramente, esses dois colegas estão sendo
levados por um erro de interpretação e não conhecem efetivamente os corpos
examinados.
Heródoto Barbeiro: Por que então o corpo do PC Farias não apresenta sinais do tiro? Ele não
apresenta sinais de pólvora. De que distância ela precisaria ter dado o tiro
para que nenhum resquício da explosão do projétil pudesse ter atingido o corpo
dele?
Josias de Souza: Só para complementar, o senhor antes de ir para
Alagoas, dizia que quando uma pessoa recebe um tiro, como ele recebeu, costuma
sangrar pelo canto da boca e pela narina. Por que não havia esse tipo de
sangramento no corpo de PC, que foi uma hipótese que o senhor próprio levantou?
Fortunato Badan Palhares: Naquela ocasião, levantei isso e disse também
que seria prudente examiná-los com detalhes para poder explicar esse fato, o
que acabou acontecendo. Nós só vamos encontrar resíduos de pólvora ou de
micropartículas metálicas na roupa ou na pele da vítima quando o disparo for
efetuado até uma certa distância, dependendo da arma. Há armas que chegam a
atingir um metro e meio, um metro e oitenta, um metro e vinte, até dois metros.
Neste caso, em particular, não se visualizava a olho vivo absolutamente nada,
mas quando nós levamos esse material, que foi o pijama dele, para um exame de
laboratório, com recursos um pouco mais sofisticados, um pouco mais precisos,
eles acabaram demonstrando que existiam ali micropartículas metálicas e até um
cone de dispersão. Isso também está
contido no laudo, portanto, aquilo que não foi visualizado macroscopicamente,
pode ser detectado através de equipamentos mais modernos, que conseguem captar
micropartículas. Nós utilizamos, por exemplo, fluorescência de raios-X e
ultramicroscopia de varredura, que são equipamentos extremamente sofisticados.
Com relação a não ter realmente saído gotas de sangue pelas narinas e pela boca
é porque essa morte foi muito rápida, foi praticamente imediata. Acredito que o caso de PC Farias não ultrapassou um minuto, porque esse
projétil, ao atravessar o corpo, seccionou a artéria aorta e seccionou também a
[veia] cava, que capta todo o sangue que vai para a cabeça e para o pescoço, as
áreas superiores. A aorta é a artéria que leva todo o sangue do coração para o
organismo, é o maior vaso que nós temos. Com a ruptura disso, a pressão cai a
zero, não existe mais irrigação para o cérebro e portanto, não tem mais
consciência, o individuo morre instantaneamente. Ele pode não ter morrido
instantaneamente, mas passou a não ter mais consciência e ficou praticamente
sem nenhum tipo de reflexo.
Mônica Teixeira: Então, se a Suzana Marcolino era amadora, teve
uma sorte incrível, porque pegou no lugar certo, já que ele morreria em um
prazo extremamente curto?
Fortunato Badan Palhares: Se nós simplesmente dialogarmos nesse sentido,
será realmente muito fácil pensar dessa forma. Só que o local onde entrou esse
projétil não teria uma direção tão precisa quanto essa que foi dita por você
agora.
Mônica Teixeira: Não, o senhor que disse!
Fortunato Badan Palhares: Eu disse, porque ela atingiu realmente a artéria
aorta. Mas foi um tiro que entrou realmente no nível dessa região muito próxima
da axila, em função da posição em que ele se estava. Isso fez com que o
projétil corresse entre a pele, o tecido de pouso e a musculatura, sem atingir
de imediato o gradil costal. Então, houve uma modificação nessa trajetória. O
tiro penetrou, transfixou o pulmão, transfixou os grandes vasos da base do
coração e resultou nisso. Na continuidade, por incrível também que
pareça, ele bateu no corpo da quarta vértebra, se deslocou e fraturou o quarto
arco costal [região entre a costela e a cartilagem], modificou sua trajetória e
foi em direção à região infra-escapular [músculo embaixo da omoplata], onde
ficou alojado.
Percival de Souza: Doutor Badan, o senhor foi lá na casa de praia e
uma das primeiras coisas que fez foi providenciar um teste através de disparo
de arma de fogo para saber se esses disparos seriam audíveis pelo lado de fora,
exatamente onde estavam os seguranças do PC. Eles declararam ao policial que
nada tinham ouvido. O senhor não tem dúvida nenhuma quanto a isso, que todo
mundo que estava lá ouviu esses disparos. Isso teve peso no seu trabalho? Eu
tive a impressão que o senhor deixou esse detalhe de lado...Se eu estiver
enganado, o senhor me corrija, por favor.
Fortunato Badan Palhares: Não, Percival. Nós estivemos duas vezes na casa,
uma delas foi no dia em que chegamos à noite, no período em que o crime
aconteceu. E nós precisávamos saber se aquele ambiente tinha muitos ruídos de
ruídos de fundo como, por exemplo, barulhos da avenida que passa exatamente em
frente à casa. Constantemente nós escutamos, durante o período que
estivemos lá, alguns escapamentos de carros explodindo.
Luciano Suassuna: A que horas o senhor esteve lá, doutor Badan?
Fortunato Badan Palhares: Nós estivemos lá às nove horas da noite e saímos
de lá às dez e pouco.
Luciano Suassuna: Pelo laudo do senhor, ele morreu entre cinco
horas e sete e meia da manhã.
Fortunato Badan Palhares: Sim, evidentemente.
Luciano Suassuna: Convém dizer que entre nove da noite e cinco,
sete da manhã, os ruídos de fundo são muito diferentes.
Fortunato Badan Palhares: São diferentes sim.
Matinas Suzuki: Uma outra coisa que me chama a atenção é que
eram seguranças dele, que estão acostumados com ruídos de tiro e sabem
identificá-los, eu imagino.
Fortunato Badan Palhares: Mas nós fizemos um teste lá e nem sempre isso é
muito fácil de se detectar. É lógico que o segurança tem a obrigação de estar
atento para esses detalhes, mas eles já tinham sido praticamente dispensados da
guarda. Vocês se recordam que, perto das quatro horas da manhã, ele mesmo disse
que a guarda podia relaxar, pois ele ia dormir, e que o chamassem por volta de
onze horas. Entendo também - mas não posso responder por eles - que a grande
preocupação dos seguranças era com ruídos fora da casa, na tentativa de se
arrombar a casa, etc e não com ruídos internos. Mas, por que nós fizemos
o teste? Para saber se [o tiro] era audível, para saber até que ponto esses
seguranças poderiam ter ou não ouvido algo. Foram audíveis, mas à noite, embora
não fosse realmente às cinco horas da manhã - estivemos em um período em que se
ouvia muito a brisa do mar e o barulho que a maré fazia ao bater as ondas na
praia. E era um barulho muito próximo de onde estavam os seguranças. Era uma
noite também de véspera de São João [comemorado em 24 de junho] e, em todo
lugar do Brasil, São João é comemorado com fogos de artifício, que podem
simular...
Luciano Suassuna: [Interrompendo] Até às cinco horas da manhã?
Fortunato Badan Palhares: Como não?
Luciano Suassuna: Até às sete e meia?
Fortunato Badan Palhares: Na minha casa, costumo ouvir rojões até seis,
sete horas da manhã, independentemente de ser época de São João.
Luciano Suassuna: O senhor levou um aparelho para medir a
intensidade desse som?
Fortunato Badan Palhares: Essa tentativa não tinha a intenção de saber
quantos decibéis existiam no interior e fora da casa. Era saber se era ou não
audível, e ele passou a ser audível. Disparamos dois tiros e fizemos com que
houvesse um terceiro ruído, que alguns ouviram e outros não. Alguns ouviram
como se fosse um terceiro disparo, mas não era um terceiro disparo, foi
simplesmente uma agenda jogada no chão e que deu um barulho semelhante a um
disparo. Então, é importante entender que, se nós estamos preparados para
escutar alguma coisa, nós podemos até escutar algo que não existe, mas quando
nós estamos relaxados, pode ser até que nós não venhamos a dar a devida atenção
para um determinado som...Eu não quero justificar isso!
Luciano Suassuna: Por que o senhor achou que isso não tem
importância?
Fortunato Badan Palhares: Eu não descaracterizei isso, está contido no
laudo.
Luciano Suassuna: Mas por que o senhor disse que isso não tem
importância?
Fortunato Badan Palhares: Não, ele tanto teve importância que nós fizemos
a simulação para saber se ele poderia ou não ser audível, e ele foi audível.
Agora se isso não foi ouvido pelos seguranças, não sou eu quem deve responder,
é uma investigação policial que deve continuar.
Luciano Suassuna: Em relação a esse teste do tiro, os jornalistas
estavam do lado de fora, no lugar onde os seguranças teoricamente estariam, e
todos ouviram. Podemos até dar o desconto de que as pessoas estavam esperando
alguma coisa...Agora, no momento do disparo, havia pessoas muito mais próximas
do quarto onde o PC recebeu o tiro, que estavam no alojamentozinho do lado.
Podia até mesmo ter gente dentro da casa, como um cozinheiro ou um garçom...
Fortunato Badan Palhares: Não, isso não existia mais.
Luciano Suassuna: Não?
Fortunato Badan Palhares: Não. Todos eles foram ouvidos. Você deve ter
tido acesso ao inquérito e viu que, nesse horário provável da morte, eles já
não estavam mais na casa.
Luciano Suassuna: Só os dois seguranças da frente?
Fortunato Badan Palhares: Só os dois seguranças.
Luciano Suassuna: E nem os do fundo?
Fortunato Badan Palhares: Nem os do fundo.
Vasconcelo Quadros: O que me chamou a atenção - eu cobri o caso lá,
acompanhei o seu trabalho - é que fiquei perto da praia, bem distante de onde
estariam os seguranças, não estava nem preparado para ouvir o teste, mas ouvi o
barulho! Não sei distinguir direito entre tiro ou rojão, mas era um barulho
semelhante a um tiro, que eu teria ouvido com o dobro de distância de onde eu
estava. Então, surgiu aquela idéia de que seria impossível alguém não ter
ouvido os tiros, estando próximo ao local.
Fortunato Badan Palhares: O teste foi feito exatamente para mostrar que
havia possibilidade de ser ouvido. Se os depoimentos não batem, é uma questão
de investigação policial. Não é pericial, porque a perícia foi feita e
demonstrou que os disparos poderiam ser ouvidos, em tese.
Vasconcello Quadros: Então coloca-se em dúvida os depoimentos
prestados pelos seguranças de PC?
Fortunato Badan Palhares: Eu não posso responder por eles.
Vasconcelo Quadros: E como o laudo pode garantir, por exemplo, que
trata-se de um crime passional, de um homicídio seguido de suicídio, quando um
detalhe como esse não consegue ser respondido?
Fortunato Badan Palhares: Nesse caso, o aspecto pericial tem que estar
envolvido com os elementos internos, com os corpos, com o local em que o crime
aconteceu, e você ter a possibilidade de encontrar dados que possam te dar a
certeza de que aquele local não foi violado. E não houve violação do local. Em
segundo lugar, a forma como os corpos foram encontrados, o tempo aproximado de
morte de ambos e as características do local que foram levantadas, mesmo depois
de uma semana.
Heródoto Barbeiro: Havia restos de sangue na bala que atravessou o
corpo dela e se alojou na parede?
Fortunato Badan Palhares: Sim, tanto é que nós conseguimos fazer o DNA
exatamente em função de uma gota de sangue que estava nessa passagem do
projétil pela parede.
Heródoto Barbeiro: Consta no relatório isso?
Fortunato Badan Palhares: Consta no relatório.
Matinas Suzuki: Doutor Badan, fazendo uma pergunta de leigo, o
senhor comprovou que o PC estava dormindo na hora que tomou o tiro?
Fortunato Badan Palhares: Não, nós não dissemos que ele estava dormindo,
mas que ele estava deitado em decúbito lateral ou praticamente ventre lateral
quando recebeu o disparo. Mas muito provavelmente, estava dormindo.
Matinas Suzuki: Uma pessoa que, teoricamente, não tenha
experiência com armas e tiros, é razoável que atire em alguém de frente, tendo
a oportunidade de atirar por trás? E é razoável que ela atire no peito e
não atire na cabeça, por exemplo? Foi muita sorte ou muita perícia o tiro dela?
Não seria mais fácil ela dar a volta na cama e já que ele estava deitado,
talvez dormindo e sem condições de vê-la atirando, dar-lhe um tiro na cabeça?
Não seria mais seguro para ela?
Josias de Souza: Complementando, o ministro da Justiça, Nelson
Jobim, diz que, dificilmente, há um crime passional com um tiro só, tão limpo,
tão “clean”. O senhor também tem essa informação?
Fortunato Badan Palhares: Já que você colocou uma dúvida, eu coloco outra
também para que a gente possa discutir. Não poderia ter sido um azar ela ter
tentado dar um tiro só para assustar e, na verdade, matou?
Matinas Suzuki: Claro!
Fortunato Badan Palhares: Pode ser.
Mônica Teixeira: Então, ela teve muito azar e não muita sorte!
Fortunato Badan Palhares: Dentro das hipóteses, isso também tem que ser
levado em consideração. Mas nós não vamos entrar nesses detalhes. A tentativa
de explicação é que o momento dos fatos é imprevisível. A reação humana em
determinadas circunstâncias é imprevisível. É difícil poder te responder por
que ela não foi lá e lhe deu um tiro na cabeça. Seguramente, se ela visava
matá-lo, teria muito mais possibilidade de obter êxito. E, realmente, seria
muito mais fácil ela dar a volta e atirar pelo outro lado, pelas costas, onde
ela teria certeza de que ele não poderia impedi-la de atirar.
Luciano Suassuna: Vamos fazer uma ressalva. No início, o senhor
contestou as afirmações dos legistas Nelson Massini e George Sanguinetti. Mas,
na primeira informação passada à imprensa em Alagoas, os peritos locais deram
justamente a outra posição: ela teria dado o tiro por trás. Só corrigiram isso
depois que esses dois legistas disseram que seria impossível o PC ter virado
naquela posição, se ela tivesse disparado o tiro por trás dele.
Fortunato Badan Palhares: Eu acho que você está um pouco mal informado...O
Sanguinetti e o Massini deram a informação contrária a que você está colocando.
Luciano Suassuna: Eles disseram que ele não poderia se virar...
Fortunato Badan Palhares: [interrompendo] Não, eles têm uma informação
diferente da que você está prestando aqui agora. Desde o início, os peritos que
fizeram o local tinham a convicção de que o disparo foi exatamente como
chegamos à conclusão agora, no final do laudo. Até porque é inviável que se
desse um tiro aproximadamente um metro de distância do outro lado, porque não
existia espaço entre a cama e a parede para que isso acontecesse...
Luciano Suassuna: Mas eles não falaram em distância na primeira
versão.
Fortunato Badan Palhares: Eles fizeram até um croqui [desenho que simula
uma idéia], em que mostravam isso. Talvez a notícia tenha sido mal redigida.
Heródoto Barbeiro: Doutor Badan, já que o doutor Sanguinetti, que o
senhor acabou de citar agora, foi uma das primeiras pessoas a contestar a
primeira versão - que era homicídio seguido de suicídio - por que ele não foi
convidado para, pelo menos, acompanhar o caso como observador, já que ele
colocava sob suspeita essa versão? Por que ele foi deixado de fora?
Mônica Teixeira: O senhor conversou com ele?
Vasconcelo Quadros: Ele nos disse que pediu e que o senhor não
permitiu que ele participasse dos trabalhos.
Fortunato Badan Palhares: Bom, você estava lá e se recorda do último dia,
quando ele esteve conosco. Tivemos uma entrevista com todos os peritos e ele
veio se justificar. Nós o convidamos sim. No dia em que fizemos o convite para
as exumações e necropsias, a secretária dele me informou que ele não poderia
ir, porque tinha um compromisso com o Jô Soares [apresentador de programa de
entrevistas na TV Globo] naquele dia.
Heródoto Barbeiro: Eu conversei com ele hoje por telefone e ele me
disse que o senhor não o convidou e, por isso, ele não compareceu.
Fortunato Badan Palhares: A secretária recebeu o telefonema! Eu disse isso
em plenário, ele estava presente e não refutou.
Josias de Souza: Doutor Badan, o trabalho que o senhor fez está
baseado em hipóteses, ainda que ancorado em exames científicos. O senhor,
quando explicava a trajetória do corpo, disse: "Pode ser que não tenha
sido exatamente esse o movimento, nós estamos trabalhando com o que se imagina
que tenha acontecido naquele momento". Ao falar dos seguranças, o
senhor também disse que seria necessário complementar com investigações. Qual é
a chance percentual desse seu trabalho estar equivocado?
Fortunato Badan Palhares: Dentro do aspecto pericial, as hipóteses são
levantadas em função dos
elementos encontrados. Mas também estamos tentando demonstrar através de uma
tese.
Josias de Souza: O senhor concorda que é uma hipótese?
Fortunato Badan Palhares: Não, no início ela é uma hipótese.
Mônica Teixeira: Mas agora que está concluído, é uma
interpretação, né?
Fortunato Badan Palhares: Não.
Mônica Teixeira: É mais que uma interpretação?
Fortunato Badan Palhares: Ela é uma afirmação, ela não é uma
interpretação. Eu concluo e assino embaixo. Levanta-se uma hipótese e você
tenta, através dos levantamentos periciais, comprovar essa hipótese, defender
essa tese. Quando você tem respaldo, você comprova sua tese, afirma e conclui.
E foi o que nós fizemos. Nós, em princípio, não admitimos a hipótese de
suicídio. Nós, primeiro, partimos da hipótese de ser duplo homicídio. Aliás, toda
vez que vamos investigar um caso de autoria desconhecida, é obrigatório que
você parta para isso. Primeiro, você exclui a possibilidade de homicídio para,
depois, quando você não tiver mais condições de afirmar que aquilo é homicídio,
você admitir o suicídio. E quando você admite o suicídio, você tem que provar
isso. Foi provado: existe um homicídio, seguido de suicídio, nesse caso em
particular. Não existem mais hipóteses, existe agora um laudo.
Josias de Souza: Então o senhor não dá meio por cento de probabilidade
de ter erro no seu laudo?
Fortunato Badan Palhares: Não, a não ser que dados novos apareçam e mudem
completamente todas as interpretações tidas por nós até este momento. Se
surgirem dados novos, sim. Se não surgirem dados novos, não existe a possibilidade.
Mônica Teixeira: Trabalho do perito é uma interpretação, não é?
Fortunato Badan Palhares: É lógico, é uma interpretação provada em cima do
que nós temos hoje com os dados concretos.
Mônica Teixeira: Com os mesmos dados, não se pode ter uma outra
interpretação?
Fortunato Badan Palhares: Só se você não conhecer todos os dados
efetivamente.
Mônica Teixeira: Mas o senhor conhece todos os dados?
Fortunato Badan Palhares: Eu conheço.
Matinas Suzuki: Doutor Badan, falando em novos dados, o jornal Folha
de S.Paulo está
distribuindo uma matéria hoje, dizendo que a diretora do Departamento de
Polícia Técnica da Bahia, Maria Theresa Pacheco, diz que "O empresário
Paulo César Farias não morreu entre cinco horas e trinta e sete da manhã,
conforme o laudo do legista Fortunato Badan Palhares. Estou convicta que o
empresário morreu, no máximo, duas horas depois de ter jantado". Ela foi
responsável pelos exames de toxicologia realizados nas vísceras do empresário PC Farias.
Fortunato Badan Palhares: Eu prezo demais a doutora Maria Theresa, a
conheço de longo tempo, e foi realmente o seu grupo que fez os exames
toxicológicos. Ela está se baseando, na verdade, em cima do fato de ter
encontrado ainda no estômago de PC
Farias uma certa quantidade de
alimentos não digeridos. Mas, ela esquece também que existem outros dados que
foram levados em consideração para que nós pudéssemos considerar esse horário
da morte provável dele e de Suzana. Ela esqueceu de avaliar, por exemplo, que
na bexiga de PC foram encontrados 150 ml de urina. Todos nós temos o hábito,
quando vamos nos deitar, de esvaziarmos a nossa bexiga. Então, se levarmos isso
em consideração e sabendo-se também que, durante a noite, o período de excreção
é menor, vamos avaliar que, em média, 50ml de urina por hora são excretados, o
que levou aproximadamente três horas para que se coletasse 150ml. Portanto,
temos esse intervalo muito tranqüilo para que isso possa ter acontecido.
Percival de Souza: Doutor Badan, mediante disso que os colegas
também estão colocando, há um detalhe que eu considero muito importante. O
Instituto de Criminalística de São Paulo, que é um organismo que tem reputação
e competência, transcreveu aquela gravação que a Suzana fez ao telefonar para
um dentista aqui em Santo André. Segundo eles, apareceria ao fundo dessa
gravação uma frase com as palavras: “O que você está fazendo?
Arrume-se!”, e os peritos que o senhor chefia na Unicamp, através da fonética
forense, entenderam que o diálogo não seria bem esse. Eu gostaria que o senhor
explicasse isso. E segundo, diante da posição do corpo do PC, por que ele tinha
resíduos de chumbo e de pólvora nas mãos? O que significa isso?
Fortunato Badan Palhares: Com relação à fita magnética, foi o doutor
Ricardo Molina [pesquisador e então coordenador do Departamento de Fonética
Forense da Unicamp] quem fez o levantamento. Realmente, ele é um foneticista
que eu considero de grande gabarito. Ele não só avalia o aspecto dos fonemas,
como também faz um rastreamento de todo o perfil, com ruídos de fundo, etc. Ele
pode provar e comprovou que foram três telefonemas e não dois, como saiu pelo
Instituto de Criminalística de São Paulo. O intervalo do primeiro para o segundo
telefonema foi de aproximadamente uma hora, e do segundo para o terceiro, foi
menos de dois minutos. O primeiro telefonema, ela desligou porque quis. Nos
outros dois, ela não desligou, mas foram cortados, porque ultrapassaram trinta
segundos e a caixa postal estava cortando. E ele pode provar também, através de
ruídos de fundo, que quando ela fez os dois últimos telefonemas, estava andando
dentro da casa. Isso também foi objeto de análise. Portanto, aquele
“Arrume-se!” foi uma voz que aconteceu um pouco depois de três movimentos
sincrônicos, como se tivesse batido na porta, em uma madeira e depois desses
três movimentos, se ouviu também algo semelhante a isso [Badan bate o copo na
mesa, reproduzindo o som a que se refere], só que não era esse tom metálico, era
um som de algo que bateu em um suporte de pedra. E, naquele momento, ela também
não estava caminhando, pois não se ouviu o ranger das tábuas. Isso fazia supor
que ela estivesse no banheiro, quando bateram na porta ou em algum lugar,
perguntando o que ela estava fazendo e mandando ela se arrumar. Nos outros dois
telefonemas, não houve interferência de nenhuma outra voz.
Percival de Souza: Essa voz pode ser do PC ou de uma terceira
pessoa?
Fortunato Badan Palhares: Eventualmente.
Vasconcello Quadros: Isso não é relevante?
Fortunato Badan Palhares: Lógico que é relevante, foi levado em
consideração.
Vasconcello Quadros: O senhor descarta a hipótese de ser de uma
terceira pessoa?
Fortunato Badan Palhares: Sim, porque o local foi exaustivamente examinado
e não se observou em nenhuma das portas, em nenhuma das venezianas, em nenhum
local, nada que pudesse simular um arrombamento ou qualquer coisa nesse
sentido.
Vasconcello Quadros: Não precisa necessariamente ter arrombado para
entrar.
Fortunato Badan Palhares: Sim, mas as portas estavam fechadas com a chave
pelo lado de dentro. E esse tipo de fechadura não permitia que ninguém abrisse
as portas por fora.
Vasconcelo Quadros: E as mãos do PC, doutor?
Fortunato Badan Palhares: Por que existiam micropartículas metálicas no dorso das mãos de PC? Porque, muito
provavelmente, pela posição dele quando recebeu o tiro, essas mãos estavam
próximas daquele cone de dispersão das micropartículas metálicas. Isso nós
reproduzimos em laboratório. Eu peguei a calça do pijama de PC, que não tinha
nenhum comprometimento porque estava coberta com o cobertor, levei para o stand
de tiro, seccionei, fiz dois moldes, coloquei um toucinho limpo e cobri aquele
toucinho exatamente com esse pijama, e lá nós disparamos a cinquenta
centímetros, oitenta centímetros, um metro e um metro e vinte de distância.
Conseguimos detectar partículas até um metro e cinqüenta centímetros de
distância.
Vasconcelo Quadros: No dorso?
Fortunato Badan Palhares: No dorso da mão. A quantidade de partículas era
pequena, mas existia.
Matinas Suzuki: Doutor Badan, a esse respeito, a telespectadora
Maria Regina, de Campinas, pergunta se a força do impacto do projétil seria
suficiente para virar o corpo de alguém obeso, como o PC, inclusive provocando
o movimento dos quadris.
Fortunato Badan Palhares: Seguramente não foi só o projétil que produziu
isso. Ele deveria estar dormindo e o susto que ele levou com o impacto fez com
que ele acordasse, fazendo com que ele mudasse também de posição. Também houve
toda a energia cinética do projétil que, afinal de contas, ficou alojado no
corpo de PC, com toda aquela energia. Portanto, é um impacto importante,
violento, além do fato de ele estar numa posição que facilitou o deslocamento
para o outro lado, em função do próprio susto que ele levou e da dor que
sentiu.
Josias de Souza: Uma coisa que o senhor disse é que está
convencido de que não houve violação de local.
Fortunato Badan Palhares: Eu estou convencido pelos elementos que
constatamos.
Josias de Souza: Agora há pouco, o senhor disse que as portas e
janelas estavam trancadas no momento em que o crime ocorreu. Não quero que o
senhor entenda a minha pergunta como desconfiança em relação ao trabalho que o
senhor fez. O senhor foi uma das últimas pessoas a chegar lá. Antes do senhor,
entraram lá o secretário de segurança, o irmão da vítima, os seguranças
do PC, um monte de gente entrou naquele quarto. Como o senhor pode assegurar,
em primeiro lugar, que as portas estavam trancadas? Segundo lugar, como o senhor
pode assegurar que o ambiente não havia sido violado? Terceiro lugar, não tendo
condições de afirmar que as portas estavam trancadas, como o senhor pode
garantir que a voz que registraram naquela gravação não é de uma terceira
pessoa? Essas coisas, ao meu ver, não podem ser afirmadas com 100% de certeza.
Matinas Suzuki: Doutor Badan, Josias, nós vamos fazer, como em
um bom filme policial, um pouquinho de suspense. Voltamos daqui a pouco com o Roda
Viva, para o doutor Badan Palhares responder a pergunta do Josias.
Até já.
[intervalo]
Matinas Suzuki: Voltamos com Roda Viva, que entrevista
o legista Badan Palhares. Antes do intervalo, o Josias havia feito uma pergunta
para o senhor. Se o senhor puder responder agora...
Fortunato Badan Palhares: Josias, quando nós chegamos, já havia sido feita
uma primeira perícia no local, com os peritos locais e uma primeira necropsia
com os próprios médicos legistas de lá. Antes de tomarmos qualquer tipo de
atitude, a primeira coisa fizemos foi obter informações oficiais por essas
pessoas. Ficamos lá durante várias horas discutindo todo o material recolhido,
todas as hipóteses que eles tinham levantando, e somente depois disso é que
optamos por fazer uma segunda visita ao local com uma metodologia a ser
aplicada a partir daquele momento em função de alguns elementos que não
estávamos também entendendo. A documentação apresentada era farta, os
principais pontos estavam devidamente registrados e bem documentados. Portanto,
nós tínhamos que confiar naqueles que estiveram no local de imediato. As
dúvidas que surgiram em relação aos exames anteriores foram objetos de uma
avaliação mais minuciosa.
Josias de Souza: O senhor então conclui que o ambiente estava
fechado, a partir da declaração feita pelo deputado Augusto Farias [irmão de PC]
e pelos seguranças do PC?
Fortunato Badan Palhares: Não.
Josias de Souza: Porque foram os primeiros a chegar no local, só
eles poderiam afirmar se estava fechado ou não.
Fortunato Badan Palhares: Sim, a perícia local ouviu essas pessoas para
poder saber exatamente como tinha sido o acesso ao local.
Josias de Souza: A janela tinha sinais de arrombamento?
Fortunato Badan Palhares: Tinha, isso está contido no laudo.
Vasconcelo Quadros: Como eram esses sinais?
Fortunato Badan Palhares: Os sinais estão muito bem documentados
fotograficamente. A parte que separa uma folha da veneziana da outra tinha
várias marcas de alongamento, deixadas por instrumento pesado, tanto pelo lado
de fora como pelo lado de dentro. O ferrolho que segurava aquela veneziana em
baixo foi forçado, arrebentou toda a lateral da veneziana por onde ele passou.
Heródoto Barbeiro: [Interrompendo] Isso poderia ter acontecido
independentemente da porta estar fechada ou não?
Fortunato Badan Palhares: Isso não poderia acontecer.
Vasconcello Quadros: Leva a crer, na sua opinião, que foi forçada?
Fortunato Badan Palhares: Não, foi forçado, porque era algo recente, se
fosse algo mais antigo, você encontraria outros depósitos. As marcas deixadas
pela ranhura das madeiras eram recentíssimas.
Heródoto Barbeiro: Como o senhor não assistiu a esse fato que está
descrevendo, isso poderia ter sido feito com a porta fechada ou aberta?
Fortunato Badan Palhares: Aí é questão de quem esteve no local poder
afirmar isso seguramente. Mas tem um detalhe importante: quando o perito chegou
ao local, a primeira coisa que ele viu, perto de onze e meia da manhã, é que a
luz do quarto estava acesa. Quer dizer, alguém que vai montar alguma cena vai
lembrar de acender a luz também durante o dia? Então, são pequenos detalhes que
você tem que levar em consideração em função dos elementos ali encontrados.
Heródoto Barbeiro: Tem mais um detalhe, doutor Badan, nessa linha
de raciocínio do senhor. Havia alguma impressão digital em qualquer parte da
arma ou em qualquer uma das balas que foram colocadas naquele tambor?
Fortunato Badan Palhares: Quando nós chegamos, a arma já tinha sido levada
para a Bahia e já estava sendo examinada lá. Mas o que nós soubemos é que não
conseguiram captar nenhuma impressão digital na arma.
Heródoto Barbeiro: Nem no gatilho?
Fortunato Badan Palhares: Nem no gatilho. Mas isso é comum, não é tão
usual esse conceito que nós temos de chegar ao local do crime, encontrar a arma
e fazer as impressões digitais. A impressão digital não se tira assim tão
facilmente. Para ser tirada, nós temos que diferenciar o que é impressão
digital do que são marcas deixadas por dedos...
Vasconcelo Quadros: No metal, pode-se deixar perfeitamente a
impressão digital, não é?
Fortunato Badan Palhares: Pode, pode.
Vasconcelo Quadros: Imagina-se que a Suzana não pegou essa arma pelo
cabo...Supondo que foi ela quem atirou no PC e nela própria, ela deve ter
manuseado mais essa arma.
Fortunato Badan Palhares: Muito provavelmente.
Vasconcelo Quadros: E aí não deixaria um vestígio, pelo menos um
fragmento de digital?
Fortunato Badan Palhares: Veja, a impressão digital, para ser válida, tem
que ter pontos importantes, pelo menos doze pontos característicos bem nítidos.
Vasconcelo Quadros: Mas não havia nenhum?
Fortunato Badan Palhares: Ali existiam traços de impressões que não
serviram para poder identificar absolutamente nada. Isso é comum.
Heródoto Barbeiro: Nem na cápsula?
Fortunato Badan Palhares: Na cápsula poderia, mas não examinei, foram os peritos
da Bahia. Eles disseram que não encontraram. E mesmo em locais de crimes, as
superfícies são rugosas, não deixam realmente marcas nítidas. Pode ver que nos
casos de arrombamento, a polícia procura e não consegue detectar...Mas os
depoimentos têm que ter valor também. O caseiro, por exemplo, é uma pessoa
muito simples. Se ele for interrogado, com um pouco de energia, não tem
condições de cair em contradição.
Josias de Souza: Uma pessoa muito simples também é altamente
influenciável, né?
Fortunato Badan Palhares: Sim, mas quando se leva uma pessoa dessas para
fazer uma averiguação na delegacia, ela não fica com seu advogado ao lado
dizendo “Você fala isso, você não fala aquilo”.
Josias de Souza: Mas isso pode ser feito antes.
Fortunato Badan Palhares: O advogado pode estar junto, mas não pode
interferir naquilo que ele vai responder ou não. E o delegado tem como
perguntar.
Luciano Suassuna: Mas pode ser bem orientado antes. Nesse caso
específico, era o mesmo advogado para todas as pessoas que depuseram.
Fortunato Badan Palhares: Vocês precisam conhecer essas pessoas...É uma
pessoa simples, eu conversei muito com ele, não vejo a possibilidade dessa
pessoa ter montado ou poder montar uma história. E nós temos que levar isso em
consideração, quer dizer, a nossa experiência do dia-a-dia, do crime constante,
de fazermos esse tipo de avaliação...Você tem que saber com quem você fala, se
essas pessoas têm capacidade de te ocultar alguma coisa ou não.
Vasconcelo Quadros: Os seguranças ocultaram, tanto que eles foram
interrogados numa segunda ocasião.
Fortunato Badan Palhares: Os seguranças que estavam na casa naquele dia em
que os corpos foram encontrados não eram os mesmos que estavam na casa quando
os fatos aconteceram efetivamente. Eles chegaram lá por volta das seis da
manhã.
Vasconcelo Quadros: Mas está dentro do horário mais ou menos
previsto, não está? A troca de turma?
Fortunato Badan Palhares: Está, entre cinco e sete horas...eles chegaram
por volta de seis, seis e meia. Mas todos esses elementos têm que ser muito bem
avaliados antes de fazermos um pré-julgamento.
Vasconcelo Quadros: O senhor não considera uma falha, por exemplo, a
polícia de Alagoas não ter requisitado as digitais e o exame de residuografia
das mãos de todos os seguranças?
Fortunato Badan Palhares: Sim, acho que foi uma falha pericial não ter
pedido isso.
Matinas Suzuki: E quanto essa falha prejudica uma análise?
Fortunato Badan Palhares: Depende do que você tenha como respaldo para
poder avaliar o restante. Com o que existia, foi possível conseguir elementos.
Isso acabou tendo um valor muito pequeno em relação ao restante do material
analisado.
Luciano Suassuna: Pela distância que a Suzana teria atirado e pelo
sangue dela que espirrou no lençol e no sutiã, não seria provável que houvesse
marca de sangue no revólver dela?
Fortunato Badan Palhares: Essa é uma questão que foi muito bem discutida
também. Nós já tivemos vários casos de suicídios com características muito
semelhantes a essa, em que também não encontramos respingos de sangue. Em
outros, muito pelo contrário, chegamos a encontrar respingos de sangue dentro
do próprio cano da arma. Então, o comportamento das reações do próprio corpo
humano e do gotejamento de sangue não é tão matemático.
Essa golfada de sangue que aconteceu com ela, me parece que aconteceu num
segundo momento, com ela já posicionada pela frente, quando disparou. Quando se
segura a arma dessa forma, nós deixamos de ter a empunhadura normal que nos dá
uma certa possibilidade de segurar o tranco do disparo. E nessa posição nós não
temos condições de segurar, a arma foge realmente. Quando se dispara, o
projétil sai para cá e a arma é jogada para lá. Isso facilitou a queda da arma
exatamente por ela não estar segurando e não ter um pouco de apoio.
Matinas Suzuki: Doutor Badan, é comum alguém se suicidar nessa
posição?
Fortunato Badan Palhares: É comum. Embora não esteja escrito com todas as
letras nos livros de medicina legal de hoje, nós temos muitos casos com essas
condições. Dificilmente nós vemos a mulher suicidar-se com tiro na cabeça,
porque ela preserva muito a sua fisionomia.
Percival de Souza: O senhor também tinha essas dúvidas que estamos
colocando aqui?
Fortunato Badan Palhares: Lógico que tinha! Sou uma pessoa do povo também
e tenho as minhas dúvidas. E eu tenho que tirar as minhas dúvidas exatamente em
cima de dados concretos. Antes de formular uma conclusão, eu tive que ter
certeza. Somente depois de convencido é que eu assinei o documento.
Mônica Teixeira: Por alguma razão, desde o começo eu achei que a
Suzana Marcolino tinha matado o PC, e depois tinha se suicidado. Então, eu
fiquei um pouco de fora de toda essa discussão de detalhes e fiquei observando
o que esse caso está significando. É a medicina legal no Brasil! Acho que nunca
houve um momento em que um médico legista tivesse sobre ele tantos holofotes e
nas mãos dele uma decisão sobre uma questão que apaixonou o Brasil: “O PC Farias morreu como?”. Quer dizer, o senhor
concluiu, enfim, que ele morreu por crime passional. Ninguém acredita e nem vai
acreditar, e não adianta porque é uma questão na área da passionalidade, isso é
uma opinião pessoal. Mas, observando, descobri que a medicina legal é um espaço
onde há muita contestação interna. O senhor criticou agora há pouco o Instituto
de Criminalística de São Paulo. A revista Isto é publica uma página onde o
senhor é criticado pelo doutor Nelson Massini. O senhor também foi criticado pelo presidente da
Sociedade de Medicina Legal, que diz que o senhor não vai a um congresso
científico há seis anos. O George Sanguinetti claramente discorda do senhor e
de uma série de outros peritos. E ainda tem mais um caso: o doutor França acaba
de mostrar, há pouco tempo, que o laudo de Raimundo Asfora [vice-governador da
Paraíba, morto em 1987], em que o senhor atestou suicídio, pode ter sido um
homicídio. Aliás, os procuradores da Paraíba estão, inclusive, querendo prender
um suspeito, embora o senhor tenha afirmado, em 1987, que o Raimundo Asfora se
suicidou. O que acontece entre os médicos legistas? Qual é a função de um
médico legista e do Instituto de Criminalística? E, se a discussão é tão
grande, se as opiniões são tão adversas, por que o senhor diz que o seu laudo é
muito mais que uma interpretação? O seu laudo é uma peça de um inquérito
policial, do processo criminal. O juiz poderá ou não dar valor a ele!
Fortunato Badan Palhares: Sem dúvida nenhuma. Eu acho que a função
primordial do médico legista é ser um expertem assuntos que o juiz,
promotor ou delegado não dominam. O magistrado se vale de um perito de áreas
que ele realmente não domina para que possa dar suporte a uma decisão. Ele pode
ou não ser convencido por um laudo do perito, o convencimento dele é
independente do que nós escrevemos.
Mônica Teixeira: Então, o fato do senhor ter dito que é um
homicídio seguido de suicídio não quer dizer que...
Josias de Souza: 100% de certeza!
Fortunato Badan Palhares: Isso é uma convicção dos peritos que fizeram
esse laudo, não foi um perito só, fomos onze peritos que assinamos esse
documento. Qual é a diferença de perito de local para o médico legista? O
médico legista, até bem pouco tempo, era um médico que ficava na sala de
necropsia ou no Instituto de Médico Legal para examinar corpo de delito, crimes
sexuais, etc, e aqueles que ficavam no necrotério faziam só o exame do corpo,
do cadáver. Eu acho que a medicina legal é muito mais dinâmica do que isso, tem
que ir para perinecroscopia [levantamento do cadáver, ambientes, condições do
crime], o médico legista tem que conhecer o local de crime, discutir com o
perito que faz o local. Isso nós estamos fazendo há mais de 15 anos em
Campinas, junto com os peritos de lá. É isso que nós iluminamos em medicina
legal moderna, dinâmica.
Mônica Teixeira: Quer dizer, é função do médico legista dar tiro
na casa de Guaxuma?
Fortunato Badan Palhares: Mas não fui eu que dei...
Mônica Teixeira: Mas isso não é uma tarefa do [Instituto de]
Criminalística?
Fortunato Badan Palhares: Eu estava junto com peritos...Lá nós estávamos
numa equipe. Portanto, eles produziram os disparos e nós estivemos lá fora para
perguntar quantos tiros tinham sido dados, nós simplesmente estávamos fazendo
um trabalho...
Matinas Suzuki: [Interrompendo] À propósito dessa questão que a
Mônica está colocando, um perito do Instituto de Criminalística de São Paulo, o
Walter Alexandre, pergunta ao senhor: "Como o senhor se sente em relação
ao Instituto de Criminalística do estado, fazendo atendimento no local de
crimes, sendo que tem pouca experiência, já que é médico legista?"
Fortunato Badan Palhares: Acabei de dizer aqui que faz 15 anos que eu faço
isso com o pessoal de Campinas. Quando ele estiver com os peritos de Campinas
verá como nós trabalhamos lá.
Mônica Teixeira: Mas, afinal, onde está essa verdade que o senhor
diz que é incontestável?
Fortunato Badan Palhares: A verdade é incontestável na minha visão, dentro
daquilo que eu faço. Eu estou convencido e por isso eu escrevo e assino. Os
outros, por enquanto, não têm nenhum compromisso social, não estão assinando
absolutamente nenhum laudo...
Mônica Teixeira: Eles não estão falando especificamente deste
caso.
Fortunato Badan Palhares: Eles estão contestando algo que eles não
conhecem, em princípio. Eles estão dando uma opinião.
Mônica Teixeira: [interrompendo] Doutor Badan, o senhor vai me
desculpar, mas não é isso que a revista Isto é está contando. Ela contou que, por
exemplo, o presidente da Sociedade de Medicina Legal disse que há seis anos o
senhor não vai a nenhum congresso científico...
Fortunato Badan Palhares: [interrompendo] Eu não vou a congressos que ele
tenha participado, tenho no meu currículo todos os congressos que tenho ido,
inclusive internacionais.
Mônica Teixeira: É um espaço de rivalidade, o que está
acontecendo?
Fortunato Badan Palhares: Não é rivalidade, é questão de formação de cada
um.
Josias de Souza: Dizem que existem três versões para o mesmo
fato: a sua, a minha e a verdadeira. O senhor não acha que a sua pode ser mais
uma versão?
Fortunato Badan Palhares: Não, é a minha versão...
Josias de Souza: Ela não comporta dúvidas?
Matinas Suzuki: Não existe nenhuma avaliação pública entre legistas, por exemplo, para se
confrontar possíveis atos?
Fortunato Badan Palhares: Acho que nós só podemos falar de um caso quando
temos a mesma possibilidade de examinar todos os elementos. Seguramente, eles
não têm esse mesmo tipo de visão que eu tenho, porque não tiveram acesso a esse
material. Quando tiverem acesso, vão mudar de opinião.
[sobreposição de vozes]
Fortunato Badan Palhares: [interrompendo] Eu queria dar uma outra resposta
sobre o Raimundo Asfora...
Luciano Suassuna: Vamos voltar nele depois.
Fortunato Badan Palhares: Não, eu prefiro dar essa resposta. Pelo que sei
até agora, nosso laudo sobre o Raimundo Asfora não foi contestado.
Se estão querendo prender alguém, espero que não se cometa uma nova injustiça
como aconteceu aqui em São Paulo, de prenderem um pedreiro que não tinha
estuprado a própria filha.
Luciano Suassuna: Primeiro, tenho uma questão que ficou sem
resposta, que era da professora Maria Theresa Pacheco, da Universidade Federal
da Bahia. Ela disse que os remédios que o senhor argumenta que teriam retardado
a digestão do PC...
Fortunato Badan Palhares: [interrompendo] Não, eu não disse isso! Meu
laudo não apontou isso.
Luciano Suassuna: O que teria alterado a digestão?
Fortunato Badan Palhares: Vários elementos, por exemplo, o álcool, que
modifica a forma de agir do estômago. Além disso, ele tinha tomado um
anti-ácido, devia estar com algum problema de digestão. Portanto, existem
outros elementos que talvez a doutora Maria Theresa não conheça em sua
totalidade, e é por isso que ela está optando por esse tipo de raciocínio.
Luciano Suassuna: Ela diz que nada disso alteraria a digestão e
que tem material suficiente para fazer uma contra-perícia.
Fortunato Badan Palhares: Eu acho que, se ela tem esse material, deve
apresentar, porque isso enriquecerá o trabalho.
[sobreposição de vozes]
Mônica Teixeira: Sobre o Asfora, deixe-me contar ao
telespectador. Em 1987, o Raimundo Asfora, que era vice-governador da Paraíba,
foi encontrado na sala de uma casa um pouco distante, em Campina Grande, numa
posição que deixava dúvidas sobre se ele tinha sido assassinado ou se ele tinha
se suicidado. E aí, o doutor Badan Palhares foi chamado lá.
Luciano Suassuna: Junto com Nelson Massini.
Fortunato Badan Palhares: Foi um pouco diferente, não foi exatamente
assim...
Mônica Teixeira: O senhor foi chamado depois, é verdade!
Fortunato Badan Palhares: Primeiro, foi feita a necropsia...A perícia
local e os médicos legistas de lá constataram que tinha sido suicídio, com
todos os elementos levantados. A família não se conformou com o resultado e
contrataram um perito gaúcho, o doutor [Domingos] Toqueto, aliás, meu amigo
pessoal, particular. Esse profissional emitiu um laudo, interpretando de forma
diferente aquilo que os peritos de lá tinham encontrado.
Josias de Souza: Achava que era homicídio?
Fortunato Badan Palhares: Ele entendeu que era homicídio. E somente depois
disso é que nós fomos chamados para análise. Fizemos a exumação e, depois de
todos os exames realizados, pudemos demonstrar realmente que tinha sido um
suicídio. O próprio Toqueto não se manifestou em contrário. No entanto, depois
levaram esse laudo para três ou quatro outros institutos, que não
reformularam o laudo. O doutor Genival França se prontificou a rever o caso e
está revendo, só que até agora não existe nenhuma definição em relação a isso.
Contestar é fácil.
[sobreposição de vozes]
Fortunato Badan Palhares: Nós precisamos ver como isso vai ser
interpretado pelo juiz. Qualquer um pode contestar o trabalho de qualquer
pessoa, é natural, o laudo que está lá pode ser contestado tranquilamente. O
importante é que, quem vai contestar, que assine e assuma a responsabilidade
sobre aquilo que está assinando. Falar simplesmente e não tomar nenhum
compromisso é muito fácil.
Mônica Teixeira: Por que o senhor aceitou esse caso, doutor
Badan? Se o senhor não concluísse pelo duplo homicídio ou por uma teoria
conspiratória qualquer, todo mundo duvidaria da sua palavra. É o que está
acontecendo.
Fortunato Badan Palhares: Eu gostaria exatamente de esclarecer o porquê de
nós estarmos no caso. A Universidade Estadual de Campinas é solicitada, através
de autoridades. Nunca fizemos e não faremos, pelo menos enquanto eu estiver
trabalhando, nenhum trabalho particular. Isso é uma filosofia do departamento.
Nós só atendemos às solicitações oficiais, que devem vir do delegado, do
Ministério Público, do promotor de Justiça, do juiz ou de ministros, etc.
Esse caso foi uma solicitação do ministro e do governador de Alagoas ao reitor
da universidade, perguntando se o departamento poderia auxiliar. Então, nós
impusemos algumas condições, pois era necessário que uma equipe estivesse
presente e não uma única pessoa. Essas condições foram atendidas e pudemos dar
o melhor.
Heródoto Barbeiro: Doutor Badan, aquela foto publicada, do tambor
do revólver, é a que consta do relatório? É a mesma fotografia?
Fortunato Badan Palhares: É uma foto que consta do relatório.
Heródoto Barbeiro: É a mesma? Aquilo vazou do relatório para a
revista?
Fortunato Badan Palhares: É idêntica.
Heródoto Barbeiro: Algumas pessoas disseram que fizeram uma
ampliação da foto publicada na revista Veja e que o impacto da agulha na cápsula
são diferentes de uma bala para outra.
Fortunato Badan Palhares: São mesmo.
Heródoto Barbeiro: O senhor reconhece isso?
Fortunato Badan Palhares: Reconheço isso.
Heródoto Barbeiro: O que poderia levar as pessoas até a acreditarem
que não foi a mesma arma que disparou?
Fortunato Badan Palhares: Não, isso já foi determinado, a prova de
balística mostrou que os dois projéteis saíram da mesma arma. Você pode, ao
acionar o gatilho, modificar o
impacto.
Matinas Suzuki: Uma das perguntas que eu recebi aqui foi de um
estudante de jornalismo em São Paulo. Como o senhor acha que a imprensa se
comportou nesse caso?
Fortunato Badan Palhares: Eu sempre tive uma boa relação, uma ótima
relação com a imprensa e, nesse caso, não foi diferente. O único momento que me
deixou um pouco chateado foi o momento em que a revista Veja publicou aquele artigo, não
pela forma de ela ter conseguido um furo de reportagem, mas pela maneira como o
colega colocou, o meu perfil dentro da matéria, dando a entender a quem
lesse que eu tinha sido fornecedor de todas aquelas informações. Isso realmente
me deixou um pouco constrangido, porque eu sempre atendi a todos os repórteres,
a todas as pessoas da imprensa com a maior afetividade, com maior carinho.
Matinas Suzuki: Agora, o que o senhor acha da imprensa ficar
trabalhando com hipóteses?
Fortunato Badan Palhares: Eu acho que, às vezes, até ajuda, porque eles
levantam questões que você não tinha pensado.
Matinas Suzuki: Não é o que pensa, por exemplo, o irmão do PC Farias, Augusto Farias.
Fortunato Badan Palhares: É uma questão pessoal, não tenho nenhum tipo de
problema com a imprensa. Tenho tido um comportamento extremamente claro e
transparente. Eu só gosto de ser respeitado como eu respeito as pessoas. Quando
solicitei à imprensa que respeitasse o trabalho, de não poderem fornecer
nenhuma informação durante o período em que eu estava trabalhando, fui muito
bem recebido.
Percival de Souza: Doutor Badan, o Arnaldo Siqueira, que dirigiu o
IML [Instituto Médico Legal] de São Paulo, dizia que a melhor testemunha de um
homicídio é a vítima. Então, eu queria saber se, para o seu trabalho, o mais
importante foi a exumação dos corpos de PC e Suzana ou o trabalho lá na casa de
Guaxuma. Ou os dois se completam?
Fortunato Badan Palhares: Eu acho que ali há uma complementação. Primeiro,
fui à Guaxuma, conheci o local, estava junto com os peritos, discutindo e
formando um protocolo de atuação em cima dos cadáveres.
Josias de Souza: Como o senhor avalia o trabalho que foi feito
antes da sua chegada em Alagoas pelos peritos locais? Eles sofreram muitas
críticas...O senhor acha que a queima do colchão é ou não é uma violação da
cena do crime?
Matinas Suzuki: Doutor Badan, tem muita gente mandando fax aqui
dizendo que o senhor criticou o trabalho do pessoal de Alagoas, mas levou
quarenta dias para chegar à conclusão que eles chegaram em duas horas.
Fortunato Badan Palhares: Mas é verdade! Bom, uma coisa é você ter um
resultado em cima de suposições imediatas...Aliás, dentro da rotina pericial,
esse caso seria facilmente resolvido se não fosse o PC. Só que, quando nós
passamos a integrar a equipe, nós tínhamos que trazer um resultado que pudesse
demonstrar o que estávamos fazendo. Daí então as dificuldades, a necessidade de
se armar uma infinidade de exames para poder documentar, trazer mais
informação.
Josias de Souza: O trabalho da polícia de Alagoas, dos peritos e
dos técnicos alagoanos foi bem
feito?
Fortunato Badan Palhares: Fizeram um trabalho suficiente para que nós
precisássemos fazer muitas coisas.
Josias de Souza: Então foi bem feito?
Fortunato Badan Palhares: Foi.
Josias de Souza: Segundo, a queima do colchão é ou não é uma
violação da cena do crime?
Fortunato Badan Palhares: Se nós levarmos em conta o aspecto pericial, é.
No entanto, nesse caso, pelas explicações que os peritos me forneceram, me
convenci que não havia mais o que fazer, porque eles documentaram todo o
material, fotografaram. No terceiro dia pós-fato acontecido, aquilo já estava
com um mau cheiro insuportável, não se conseguia trabalhar mais na casa. Então
eles permitiram que isso fosse queimado, não existia mais nada que pudesse
realmente ser tirado daquilo. É importante que se guarde? Eu acho. Eles
erraram? Sim, poderiam ter preservado aquilo, ter guardado em algum lugar para
qualquer necessidade de examinar ou reexaminar.
Josias de Souza: Fez falta ao senhor o colchão?
Fortunato Badan Palhares: Não fez.
[...]: O senhor partilha dessa teoria de que os corpos
falam?
Fortunato Badan Palhares: Eu partilho, eu partilho. Acho que o corpo deixa
marcas que, se o perito souber interpretar, ele consegue realmente decifrar o
mistério.
Josias de Souza: O senhor sofreu ameaças de morte logo que foi
convidado para entrar no caso?
Fortunato Badan Palhares: Não, não.
Josias de Souza: Chegou a ser noticiado. No dia primeiro de
julho, O Globo publicou que o senhor tinha pedido
garantia de vida à polícia.
Fortunato Badan Palhares: Não, eu não pedi garantia de vida. Eu nunca fui
ameaçado, quero já deixar muito claro, nunca sofri qualquer tipo de ameaça. Só
tive um incidente com um jornalista de Campinas, que me procurava em casa e no
trabalho, mas só isso.
Mônica Teixeira: O programa está acabando, eu queria saber uma
coisa: o senhor afinal descobriu quem vazou o laudo para a revista Veja?
![]() |
Fortunato Badan Palhares: Eu só falo quando eu tenho provas.
Matinas Suzuki: O senhor vai fazer uma perícia!
[risos]
Fortunato Badan Palhares: Será que vale a pena fazer essa perícia? Eu
tenho quase certeza de quem é, mas não posso provar.
Matinas Suzuki: Vou aproveitar o finalzinho do programa para
fazer algumas perguntas que vieram de casa para o senhor. O senhor fez a
perícia no ET de Varginha?[2]
Existe ou não o ET de Varginha?
Fortunato Badan Palhares: Não, não tem nada disso não.
Matinas Suzuki: Por enquanto, o senhor ainda consegue provar
como as pessoas morreram, mas se existe vida em outros lugares, está mais
difícil! A Márcia Correia, de Campinas, diz que o senhor tem aparecido nos
programas políticos do PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira], fazendo
campanha para a candidata do partido em Campinas. O senhor pretende entrar na
política depois de toda essa publicidade em torno do seu nome? O Eduardo
Nerjes, que é da Unicamp: "O senhor pretende assumir a Secretaria de Saúde
de Campinas, caso a candidata [à prefeitura] Célia Leão seja eleita?".
Fortunato Badan Palhares: Eu nunca fui político, nunca pertenci a nenhum
partido político, a Célia Leão é uma amiga fraterna, é uma pessoa que eu
conheço há muitos anos, conheci o seu pai, conheci a Célia quando ela sofreu o
acidente em que ficou paraplégica. Quando ela me pediu ajuda, eu aceitei, mas
não pretendo ser secretário de Saúde. Não serei político.
Luciano Suassuna: Quando o senhor começou a descartar todas as
hipóteses de homicídio, o senhor chegou a analisar se seria possível a Suzana
ter sido encontrada naquela posição se, no lugar dela ter disparado, fosse uma
terceira pessoa?
Fortunato Badan Palhares: Contra ela?
Luciano Suassuna: Contra ela. A trajetória da bala, a posição da
cama, tudo seria coerente?
Fortunato Badan Palhares: Essa pessoa, para poder ter disparado, teria que
estar na trajetória do projétil, e a trajetória do projétil é uma trajetória
difícil de alguém ter estado ali.
Luciano Suassuna: Difícil, mas não impossível.
Fortunato Badan Palhares: Sob o aspecto pericial, seria muito difícil
alguém estar ali, praticamente impossível, na trajetória daquele projétil que
atingiu Suzana.
Matinas Suzuki: O Gilberto Molina, do Rio de Janeiro, quer saber
qual a razão da demora na identificação de militantes políticos sepultados em
Perus. Ele diz que os exames de DNA de seu irmão já foram iniciados em agosto
de 1995 e até agora, não saiu nenhum resultado.
Fortunato Badan Palhares: É uma grande realidade. Nós temos lá não mais
1049, mas 1043 ossadas que estão sendo analisadas. Elas não estão paradas,
existe a possibilidade muito remota de três ou quatro ainda serem
identificadas. E uma dessas possibilidades é a dele. Até o ano passado, não
tínhamos manifestado nenhuma possibilidade de entregar qualquer um desses
resultados. Fizemos em relação a ele porque existe uma chance de existir
compatibilidade, mandamos isso para um colega que está nos auxiliando em Belo
Horizonte, só que os resultados
não ficaram prontos ainda.
Heródoto Barbeiro: O senhor não foi afastado disso?
Fortunato Badan Palhares: Como?
Heródoto Barbeiro: A revista diz aqui que o senhor foi afastado.
Fortunato Badan Palhares: Essa revista está dando também uma inverdade. Eu
não estou afastado, não é verdade isso.
Luciano Suassuna: Perfeito, mas são peritos que contestam o senhor
aqui.
Fortunato Badan Palhares: Não, é inverdade que eu fui afastado. Eu não fui
afastado. Eu sou coordenador das perícias das ossadas de Perus. Em função de um
processo que está acontecendo na universidade, pedi o meu afastamento
temporário para poder cuidar de outras situações. Ainda sou o coordenador responsável.
Luciano Suassuna: Toda essa perícia se desenrola há sete anos?
Fortunato Badan Palhares: Desde 1990, são uns seis anos. Não temos ainda, como
peritos, condições de poder dizer aquilo que as pessoas gostariam de ouvir, eu
só posso me manifestar quando eu tiver condições de poder afirmar, mesmo que
existam forças que tentem mostrar o inverso disso. Não posso me deixar ser
influenciado por qualquer tipo de pressão política, seja lá de quem for.
Matinas Suzuki: Antes de terminar, queria ler duas manifestações
dos nossos telespectadores. O Cláudio Melo diz o seguinte: “Eu acredito em
duendes e em Badan Palhares”. E o Marcelo Pontes de Carvalho dá parabéns ao
senhor: "Mesmo chegando depois ao local com tudo limpo e os defeitos que a
perícia local acabou acarretando para a sua investigação, o senhor conseguiu
esclarecer e passar tudo a limpo, o senhor é uma sumidade". Badan
Palhares, muito obrigado pela sua presença no nosso programa. Gostaria de
agradecer também a nossa bancada de entrevistadores, sua atenção e
participação. O Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às dez
e meia da noite. Até lá, uma boa noite para todos e uma boa semana.
[1]
Paulo César Cavalcante
Farias - empresário alagoano nascido em 1945, foi o tesoureiro da campanha de
Fernando Collor de Mello à Presidência da República nas eleições de 1989. Ele
teria sido o “coordenador” dos diversos esquemas de corrupção divulgados entre
1990 a 1991, envolvendo o então presidente Collor de Mello, com enorme rombo
nos cofres públicos. PC Farias teria controlado quase todos os ministérios
durante o governo Collor e diversos setores da economia. O ex-tesoureiro teria
também manipulado grandes contratos do país através da indicação de
funcionários no segundo e terceiro escalões do governo para alterar documentos,
criar contas fantasmas e desviar, sem pistas, verbas que deveriam ser aplicadas
em obras públicas, educação, saúde, segurança e previdência social. A Polícia
Federal, ao longo de investigações no Brasil e no exterior, localizou contas de
PC Farias na Europa, de onde foram feitas transferências para as contas em Nova
Iorque e Miami, onde o ex-presidente Collor viveu em exílio até o final de
1999. Em 1996, PC Farias foi morto, junto com sua namorada Suzana Marcolino, na
praia de Guaxuma em Maceió – um crime nunca convincentemente esclarecido.
[2] Em janeiro de 1996, as principais emissoras de televisão de todo o país
noticiaram a possível aparição de extra-terrestres e objetos voadores
não-identificados no município de Varginha, no sul de Minas Gerais. Não houve
comprovação do fato, mas a cidade ganhou fama de “terra do ET e da ufologia”. A
história começou com o relato de três garotas que afirmavam terem visto uma
criatura com características físicas peculiares, como pele viscosa, olhos
vermelhos e grandes e protuberâncias na região do crânio. Outras pessoas
afirmavam visões de OVNIs na região. A repercussão fez com que autoridades
policiais e pesquisadores fossem envolvidos na investigação do caso, mas não
foi encontrada nenhuma evidência que os episódios relatados tenham realmente
ocorrido. A partir de então, criou-se uma espécie de lenda cuja personagem
principal é o “ET de Varginha”.





