Pessoal,
Minha esposa é pastora da Igreja Batista. Ela costuma mandar para outros pastores cartinhas sob o título AQUI PRA NÓS. Uma espécie de série. Certa vez ela me mandou um e-mail solicitando resposta, porque iria encaminhar aos pastores. Abaixo está o resultado. Boa leitura:
AQUI PRA NÓS VIII 21 de setembro de 2004.
“Deitar-me faz em pastos verdejantes; guia-me mansamente a águas
tranqüilas”. (Salmo 23.2 – IBB)
Boa é a palavra do Salmo 23 – ela nos faz já sentir o cheiro e o sabor da bonança que nos estão prometidos no porvir. Não é verdade? Não – não é. O Salmo 23 nos fala de pastos verdejantes e águas tranqüilas no presente ativo “Ele me faz”, “Ele me guia”. Nós já podemos saborear da beleza da Terra, de suas alegrias. Não precisamos ser um povo ascético até o limite de um São João da Cruz (e pelo que eu saiba nenhum de nós pertence à Ordem Carmelita Descalça), como se o prazer, a alegria, as boas imagens, cheiros e sabores nos fossem proibidos por serem carnais, restando-nos apenas as lágrimas e os arrepios do culto. Alegra-te no Senhor é da Bíblia, mas só será bíblico (na melhor acepção do termo) se estiver em harmonia com toda a Escritura. Daí, alegra-te no Senhor pela Escritura não é só reservada ao culto, mas à vida toda: alegra-te com teu cônjuge, com teus filhos, com teus amigos, com teu cão, pela vitória do teu time, com a chuva, com o sol... alegra-te, pois estás no Senhor.Marcelo, meu esposo, me contou uma de suas aventuras no interior do Estado, com seu irmão. Pedi que escrevesse o relato. (Por favor, Marcelo, seja sucinto!) e ele o fez, o que passo a transcrever fielmente:“Tá, Diana, deixa eu ver... Foi quando eu e meu irmão Mim, a gente tinha 18 e 17 (eu sou o mais velho, você sabe), foi quando a gente, por sugestão dele, resolveu ir a uma cachoeira perto da nossa cidade. Tentamos sair à sorrelfa, para que mamãe não nos passasse a cada qual um catatau de instruções, mas nós ao sermos perguntados pela nossa delegada querida aonde iríamos, ele tentou explicar que íamos dar umas voltas pela cidade, enquanto eu dava uma de joão-sem-braço e me escapava para fora de casa. Pegamos das bicicletas e fomos. O caminho era ótimo, a pista era limpinha, o clima estava bom, quase nenhum trânsito. Na estrada, o asfalto parece que fumaçava e isso me dava umas vertigens (talvez pelo meu hábito contumaz de me esquecer de tomar café da manhã e já pedalava há umas duas horas). Eram nove da manhã. Aquelas serras, aquele mato, aquela casinha por que passamos me fez ver que a zona rural é belíssima e até pensei em morar num sítio ou cidade do interior, assim que chegasse à aposentadoria, mas eu só tinha acabado de entrar no serviço público, ainda me faltavam 35 longos anos, o que já me deixou meio triste, e me deu uma saudade estranha (saudade do futuro). Mas logo fiquei bem – chegamos a um cidadezinha, que era o portal para o paraíso que buscávamos. Compramos um refrigerante e duas bolachas graúdas, que nos serviu de pasto para que pudéssemos chegar a contento ao nosso destino, pois que entramos numa estrada de barro, e eu, um urbanóide de pernas fracas, já estava começando a sentir que esse passeio estava-me sugando, mas eis que... Vamos, Rocinante! Gritei eu, quixotescamente, para a minha magrela, vamos a busca de aventuras e que venham os sucessos!Meu irmão nunca foi lá de estudos, mas era bem mais sábio que eu naquelas paragens – sabia se comunicar com os moradores, animais e insetos, conhecia as plantações, e possuía um dom que o levava sem erro à cachoeira, mesmo sem nunca ter ido lá. Penso que já tive esse dom, mas sacrifiquei-o na fogueira da televisão e nas pequenas e encardidas letras dos livros da biblioteca municipal.
Entramos num bananal, e isto foi inesquecível. Era um labirinto sempre úmido, com aquele cheiro de sítio, e nós empurrando nossos camelos metálicos barra-circular. Súbito, nos vem ao encontro um cão magrelo e moreno, e eu pensando que, aquele animal tendo de morder alguém só por defesa própria, bem que poderia antes morder meu irmão, que era bem mais robusto do que eu; e se pretendia morder alguém só por maldade, meu irmão se prestava melhor... Eu era uma boa alma... Mas qual! O nosso totó era o cicerone. Veio nos buscar. Corria à frente, olhava para trás, para nós, latia e meu irmão dizia ‘Vamos’. Lá à frente, encontramos uma pequena casa, onde sorridentes pessoas nos acolheram, nos deram água do pote e nos apontaram a cachoeira, que fica pra lá, lá pra riba, assim despois daquelas arvre. Após a subida, as bicicletas ficaram ali – meu irmão me asseverou que se tratava de gente boa e nossas montarias estariam seguras. Ao longe, encontramos outra cabana e meu irmão, já sabendo do nome do morador e da sua profissão, pelos nossos amigos lá de baixo, aproximou-se a sorrir, chamando-o pelo nome e perguntando onde estaria aquele saboroso mel (o homem era apicultor), que iria aquecê-lo até a cachoeira. O homem, todo ridente, nos deu a beber mel, e respondidas as perguntinhas de meu irmão, partimos à cachoeira. A visão foi maravilhosa. As árvores tinham cipós como aqueles que Tarzan se pendurava nos filmes que assistíamos quando crianças, a água tinha um cantar forte e espumava ao bater contra as rochas... O pé de gente mais próximo, fora o homem do mel (que estava sozinho na cabana), ficava a boas léguas dali. Por isso, tomamos banho nus, como dois pirralhos. Eu não tinha máquina fotográfica para guardar as imagens, mas elas estão aqui bem nítidas. Foi, de fato, um bom fim-de-semana, principalmente porque aquele passeio apaziguou os ânimos e nos fez esquecer de todas as intrigas e palavras vãs que eu a ele e ele a mim já dissemos no passado. Ali, ficamos amigos fortes, irmãos de verdade. A beleza da criação foi nossa testemunha."Bem, Marcelo não foi sucinto como eu pedi, mas já dá para ver o quão bela é a nossa Paraíba. Portanto, que tal marcarem um passeio com seus cônjuges e filhos, hein? Ah, e não se esqueçam da máquina fotográfica.
Na paz de Cristo.
Pra. Diana Flávia Cavalcanti
Pastora da Igreja Batista de Juripiranga - PB
