Tudo
quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na
semi escuridão. Engoliu um mosquito; baixou a cabeçorra; tragou um
cascudinho; mergulhou de novo, e bum-bum! Soou uma nota soturna do
concerto interrompido. Em poucos instantes, o barreiro ficou
sonoro, como um convento de frades. Vozes roucas, foi-não-foi, tãs-tãs,
bum-buns, choros, esguelamentos finos de rãs, acompanhamentos profundos de
sapos, respondiam-se. Os bichos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas
margens, abriam grandes círculos na flor d'água. ( ... ) Daí a pouco,
da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes, como
dois vagalumes. Um sapo cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os
olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos
fosforescentes se aproximavam mais e mais, como dois pequenos
holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado.
Sem dúvida queria fugir; previa o perigo, porque emudecera; mas já
não podia andar, imobilizado; os olhos feíssimos, agarrados aos olhos
luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou
a boca imunda do batráquio. Ele não podia fugir àquele beijo. A boca fina
do réptil arreganhou-se desmesuradamente; envolveu o sapo até os
olhos. Ele se baixava dócil entregando-se à morte tentadora, apenas
agitando docemente as patas sem provocar nenhuma reação ao
sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da
cobra. E, num minuto, as perninhas do cururu lá se foram,
ainda vivas, para as entranhas famélicas. O coro imenso continuava sem
dar fé do que acontecia a um dos seus cantores.
(LIMA, Jorge de. Calunga: o anjo. 3 ed. Rio de Janeiro, Agir, 1959, p. 160-1)
