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03 abril 2020

Coleção Star Wars: A Saga Completa (1977-2019)



Sinopse: Quando a maquiavélica Federação Comercial planeja invadir o pacífico planeta Naboo, o guerreiro Jedi Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) e seu aprendiz Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) embarcam em uma aventura para tentar salvar o planeta. Viajam com eles a jovem Rainha Amidala (Natalie Portman), que é visada pela Federação pois querem forçá-la a assinar um tratado político. Eles têm de viajar para os distantes planetas Tatooine e Coruscant em uma desesperada tentativa de salvar o mundo de Darth Sidious (Ian McDiarmid), o demoníaco líder da Federação que sempre surge em imagens tridimensionais (a ameaça fantasma). Durante a viagem, Qui-Gon Jinn conhece um garoto de nove anos que deseja treiná-lo para ser tornar um Jedi, pois o menino tem todas as qualidades para isto. Mas o tempo revelará que nem sempre as coisas são o que aparentam.

»FICHA TÉCNICA«
Titulo do Filme: Coleção Star Wars: A Saga Completa
Qualidade: BLU-RAY RIP
Formato: MP4
Idioma: Português
Gênero: Ação | Aventura | Fantasia
Tamanho: Diversos Tamanhos
Qualidade de Áudio: 10
Qualidade de Vídeo: 10
Ano de Lançamento: 1977 – 2005
Duração: 2h 00 Min. (Por Filme)

27 maio 2019

E, de Repente Viu a Morte, Cara a Cara (Nélson Rodrigues)





1 Claro que o restaurante influi em nosso gesto, em nossa frase, em nossa inflexão, em nosso riso. Somos um no “Antônio’s”, outro no “Nino”, ainda outro no “Mário”, ou no “Bistro”, “Bec Fin”. etc. etc. Mas há umas três ou quatro figuras que não mudam nunca. Entre estas eu incluo o Miguel Lins. Fomos, ontem, eu, ele e o Hélio Pellegrino ao “Nino”. E, lá, foi o mesmo Miguel Lins, sem uma vírgula a menos, sem uma vírgula a mais. Sim, era o extrovertido ululante de todos os dias e de todas as horas.

2 Percorre o menu, do primeiro ao último prato. Seu rosto tomou a expressão de descontentamento cruel de certas máscaras cesarianas. Geme: – “A gente gosta do que comeu em criança”. Por aí se vê que o Miguel Lins resiste a esse mínimo de sofisticação que o bom restaurante injeta nos seus fregueses. Nada do que o “Nino” podia oferecer-lhe o fascinava. Em verdade, seu apetite sonhava com pratos nostálgicos de um tempo perdido. Veio o garçom e ele pergunta: – “Tem repolho?” O garçon, correto como um mordomo de filme policial, desilude-o: – “Repolho, não.”

3 Insiste o Miguel: – “E abóbora, tem?” Nem abóbora. Fez outros pedidos que, para o “Nino”, era escandalosamente utópicos. O garçon, com uma ironia muito tênue e compassiva, ia dizendo: – “Não tem”. E, então, numa crudelíssima frustração, o Miguel Lins desistiu de todas as fantasias infantis de sua fome. Mas era claro que está enterrado, nele, como um sapo de macumba, um menino perene. O menino queria comer no “Nino” ensopadinho de abóbora com carne-seca.

4 E, finalmente, escolhido o seu prato, o famoso advogado começou: – “Imaginem vocês que...” Apanha uma azeitona e continua: – “A coisa mais admirável que eu vi na minha vida.” E o outro, de passagem: – “Vem já.” Miguel Lins falou em “coisa admirável”, e eu pensei num entusiasmo paisagístico. Imaginei que se tratasse de Capri, ou talvez, de um poente do Leblon. Mas o Miguel explica: – “Foi um gesto do Paulo Albuquerque.”

5 Ainda perguntei: – “Paulo Albuquerque, o cirurgião?” Exatamente: Paulo Albuquerque, o cirurgião. Miguel Lins começou a história e não parou mais. E, de repente, o Hélio Pellegrino esqueceu o seu bife, eu, o picadinho, e o Miguel, o ensopadinho não sei de quê. Agora me lembro: de vagem, ensopadinho de vagem. Primeiro, fizemos ali, uma breve meditação sobre a morte.

6 O espantoso é que o homem, sendo perecível, não se julga perecível. Não sei se me entendem. O homem acredita na morte, mas não na “própria morte” (na minha infância, eu não acreditava nem na morte dos outros.) Todavia, há situações vitais que não admitem dúvida, nem sofisma. E o homem “sabe”, de repente, sabe que “vai morrer”. Está diante da própria morte. Não de outra qualquer, mas da “sua”. Há os que perguntam: “Doutor, quanto tempo tenho de vida?” E o médico: – “Um mês, ou dois, ou três”.

7 O tempo é o de menos. Sejam três meses, ou um ano, ou sessenta anos. O insuportável é que o homem fica sabendo a data, quase o dia, quase a hora, quase o minuto da sua morte. Houve um que disse ao médico: – “Eu não tenho três meses de vida.” O médico não entendeu ou só entendeu quando o viu puxar o revólver. O clínico imagina: “Vai me matar.” Mas o doente virava a arma contra si mesmo. Já que não era a vítima, o clínico passou a outro problema. Pedia: – “Aqui não! aqui não!” Mas o cliente introduz o cano na boca e puxa o gatilho. Assim devolveu os três meses que lhe dera o médico.

8 Mas os dois doentes que referi não tinham, como Paulo Albuquerque, uma forma física, pessoal, um alfaiate, um terno, um nome, etc. etc. Tudo aconteceu na altura de 1950, 51 ou 52. Miguel Lins viu a progressão fulminante da catástrofe. Foi testemunha auditiva e ocular de cada passo, gesto, olhar, palavra. Viu o olho de espanto dos amigos, parentes, colegas. Mas eis como tudo se passou.

9 Um dia, Paulo Albuquerque começou a sentir uma série de sintomas. Era médico e foi lúcido do primeiro ao último momento. Sem dizer nada a ninguém, tratou de fazer certos exames. Tinha o que, para outro, seria uma “suspeita terrível”. Mas há naturezas para quem as coisas não são nunca “terríveis” (não digo que seja este o caso do Paulo Albuquerque.) Vem o resultado dos exames: câncer na laringe. Diga-se que a suspeita não fora nunca uma suspeita, mas uma certeza. Estava confirmada a certeza de Paulo Albuquerque.

10 Não há pudor, mistério, respeito que possa impedir uma notícia de câncer. Todos fazem segredo. Mas ela se transmite na simples aragem ou por outras palavras: assume a forma atmosférica. Todos a respiram e todos ficam sabendo. Em 50, 51 ou 52, o médico não disse, a família não disse, nem os amigos, nem o próprio Paulo Albuquerque. Em meia hora, porém, o cochicho instalou-se na cidade: – “Câncer na laringe! Câncer na laringe!”

11 Paulo Albuquerque passou a ser o homem que “vai morrer”. E era a morte datada. O condenado à cadeira elétrica tem, um dia, uma hora, sim, uma data. Há, porém, a hipótese vital do indulto. E, enquanto Miguel Lins falava, imaginei que a ferida da laringe tivesse a cor da orquídea e da gangrena. Desde o primeiro momento aceitou a sua morte. Era um martírio espantosamente sem emoção. Um santo não seria mais sereno. Miguel Lins estava desesperado. Era como se Paulo Albuquerque morresse todos os dias e morresse cada vez mais.

12 Não havia esperança? Nenhuma. Muitos tinham vontade de perguntar-lhe: – “Você não sofre? não tem pena de si mesmo? ou medo?” Nem pena, nem medo. Havia entre ele e o câncer uma convivência quase terna. Ainda viajaria para os Estados Unidos; e, sem nenhuma ilusão, seria examinado pelo maior especialista norte-americano. Mas dizia, com seu lúcido fatalismo: – “Vou morrer lá.” Falava em tom castamente informativo.

13 Numa peça de Sartre, há um rei, ou príncipe e, em suma, um homem que daria tudo por uma lágrima. Paulo Albuquerque não teve essa lágrima, nem a desejou. Antes do embarque, chamou parentes, amigos e disse-lhes: – “Quando eu morrer, quero ser cremado.” Alguém insinuou: – “Não vai morrer.” E ele, cortante: – “Quero ser cremado.” Perguntava: – “Por que despesas com o transporte do corpo?” Dois, ou três amigos, tinha que sair; e iam chorar lá fora.

14 Quando o Paulo Albuquerque embarcou, Miguel Lins foi um dos que o levaram ao aeroporto. O morto ia maravilhosamente calmo: era talvez uma calma intensa, uma apaixonada serenidade. Partia como alguém que elaborou a própria morte, que a viveu como nenhum outro homem. E assim que o avião arrancou, Miguel Lins explodiu numa feroz crise de choro. Foi logo cercado, envolvido por umas velhas internacionais que acabavam de desembarcar de outro aparelho.

15 Na mesa do “Nino”, ontem, aliás, anteontem, eu e o Hélio perguntamos: – “E o resto? e o resto?” Antes de concluir, repetiu Miguel Lins que ninguém morreu com mais beleza do que Paulo Albuquerque. O amigo internou-se numa prodigiosa clínica americana. Um grande cirurgião, que era, se assim posso dizer, um virtuoso, um estilista da especialidade, ia fazer-lhe a inútil operação. Antes, porém, tratou de repetir os exames feitos no Brasil. E, finalmente, o grande cirurgião foi vê-lo no quarto. Trazia o resultado dos exames. Disse-lhe tudo: Não era câncer, nem ele ia morrer. Subitamente Paulo Albuquerque despertou entre os vivos.


FONTE: Nelson Rodrigues in O REACIONÁRIO: Memórias e Confissões. Rio de Janeiro: Editora Record, págs. 310-313.
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