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Claro que o restaurante influi em
nosso gesto, em nossa frase, em nossa inflexão, em nosso riso. Somos
um no “Antônio’s”, outro no “Nino”, ainda outro no
“Mário”, ou no “Bistro”, “Bec Fin”. etc. etc. Mas há
umas três ou quatro figuras que não mudam nunca. Entre estas eu
incluo o Miguel Lins. Fomos, ontem, eu, ele e o Hélio Pellegrino ao
“Nino”. E, lá, foi o mesmo Miguel Lins, sem uma vírgula a
menos, sem uma vírgula a mais. Sim, era o extrovertido ululante de
todos os dias e de todas as horas.
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Percorre
o menu, do primeiro ao último prato. Seu rosto tomou a expressão de
descontentamento cruel de certas máscaras cesarianas. Geme: – “A
gente gosta do que comeu em criança”. Por aí se vê que o Miguel
Lins resiste a esse mínimo de sofisticação que o bom restaurante
injeta nos seus fregueses. Nada do
que o “Nino” podia
oferecer-lhe o fascinava. Em verdade, seu apetite sonhava com pratos
nostálgicos de um tempo perdido. Veio o garçom e ele pergunta: –
“Tem repolho?” O garçon, correto como um mordomo de filme
policial, desilude-o: – “Repolho, não.”
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Insiste o Miguel: – “E abóbora, tem?” Nem abóbora. Fez outros
pedidos que, para o “Nino”, era escandalosamente utópicos. O
garçon, com uma ironia muito tênue e compassiva, ia dizendo: –
“Não
tem”. E, então, numa crudelíssima frustração, o Miguel Lins
desistiu de todas as fantasias infantis de sua fome. Mas era claro
que está enterrado, nele, como um sapo de macumba, um menino perene.
O menino queria comer no “Nino” ensopadinho de abóbora com
carne-seca.
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E, finalmente, escolhido o seu prato, o famoso advogado começou: –
“Imaginem
vocês que...” Apanha uma azeitona e continua: –
“A
coisa mais admirável que eu vi na minha vida.” E o outro, de
passagem: –
“Vem
já.” Miguel Lins falou em “coisa admirável”, e eu pensei num
entusiasmo paisagístico. Imaginei que se tratasse de Capri, ou
talvez, de um poente do Leblon. Mas o Miguel explica: –
“Foi
um gesto do Paulo Albuquerque.”
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Ainda perguntei: –
“Paulo
Albuquerque, o cirurgião?” –
Exatamente:
–
Paulo
Albuquerque, o cirurgião. Miguel Lins começou a história e não
parou mais. E, de repente, o Hélio Pellegrino esqueceu o seu bife,
eu, o picadinho, e o Miguel, o ensopadinho não sei de quê. Agora me
lembro: –
de
vagem, ensopadinho de vagem. Primeiro, fizemos ali, uma breve
meditação sobre a morte.
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O espantoso é que o homem, sendo perecível, não se julga
perecível. Não sei se me entendem. O homem acredita na morte, mas
não na “própria morte” (na minha infância, eu não acreditava
nem na morte dos outros.) Todavia, há situações vitais que não
admitem dúvida, nem sofisma. E o homem “sabe”, de repente, sabe
que “vai morrer”. Está diante da própria morte. Não de outra
qualquer, mas da “sua”. Há os que perguntam: “Doutor, quanto
tempo tenho de vida?” E o médico: – “Um mês, ou dois, ou
três”.
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O tempo é o de menos. Sejam três meses, ou um ano, ou sessenta
anos. O insuportável é que o homem fica sabendo a data, quase o
dia, quase a hora, quase o minuto da sua morte. Houve um que disse ao
médico: – “Eu não tenho três meses de vida.” O médico não
entendeu ou só entendeu quando o viu puxar o revólver. O clínico
imagina: “Vai me matar.” Mas o doente virava a arma contra si
mesmo. Já que não era a vítima, o clínico passou a outro
problema. Pedia: – “Aqui não! aqui não!” Mas o cliente
introduz o cano na boca e puxa o gatilho. Assim devolveu os três
meses que lhe dera o médico.
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Mas
os dois doentes que referi não tinham, como Paulo Albuquerque, uma
forma física, pessoal, um alfaiate, um terno, um nome, etc. etc.
Tudo aconteceu na altura de 1950, 51 ou 52. Miguel Lins viu a
progressão fulminante da catástrofe. Foi testemunha auditiva e
ocular de cada passo, gesto, olhar, palavra. Viu o olho de espanto
dos amigos, parentes, colegas. Mas eis como tudo se passou.
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Um dia, Paulo Albuquerque começou a sentir uma série de sintomas.
Era médico e foi lúcido do primeiro ao último momento. Sem dizer
nada a ninguém, tratou de fazer certos exames. Tinha o que, para
outro, seria uma “suspeita terrível”. Mas há naturezas para
quem as coisas não são nunca “terríveis” (não digo que seja
este o caso do Paulo Albuquerque.) Vem o resultado dos exames: –
câncer
na laringe. Diga-se que a suspeita não fora nunca uma suspeita, mas
uma certeza. Estava confirmada a certeza de Paulo Albuquerque.
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Não há pudor, mistério, respeito que possa impedir uma notícia de
câncer. Todos fazem segredo. Mas ela se transmite na simples aragem
ou por outras palavras: –
assume
a forma atmosférica. Todos a respiram e todos ficam sabendo. Em 50,
51 ou 52, o médico não disse, a família não disse, nem os amigos,
nem o próprio Paulo Albuquerque. Em meia hora, porém, o cochicho
instalou-se na cidade: –
“Câncer
na laringe! Câncer na laringe!”
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Paulo Albuquerque passou a ser o homem que “vai morrer”. E era a
morte datada. O condenado à cadeira elétrica tem, um dia, uma hora,
sim, uma data. Há, porém, a hipótese vital do indulto. E, enquanto
Miguel Lins falava, imaginei que a ferida da laringe tivesse a cor da
orquídea e da gangrena. Desde o primeiro momento aceitou a sua
morte. Era um martírio espantosamente sem emoção. Um santo não
seria mais sereno. Miguel Lins estava desesperado. Era como se Paulo
Albuquerque morresse todos os dias e morresse cada vez mais.
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Não havia esperança? Nenhuma. Muitos tinham vontade de
perguntar-lhe: –
“Você
não sofre? não tem pena de si mesmo? ou medo?” Nem pena, nem
medo. Havia entre ele e o câncer uma convivência quase terna. Ainda
viajaria para os Estados Unidos; e, sem nenhuma ilusão, seria
examinado pelo maior especialista norte-americano. Mas dizia, com seu
lúcido fatalismo: –
“Vou
morrer lá.” Falava em tom castamente informativo.
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Numa peça de Sartre, há um rei, ou príncipe e, em suma, um homem
que daria tudo por uma lágrima. Paulo Albuquerque não teve essa
lágrima, nem a desejou. Antes do embarque, chamou parentes, amigos e
disse-lhes: –
“Quando
eu morrer, quero ser cremado.” Alguém insinuou: –
“Não
vai morrer.” E ele, cortante: –
“Quero
ser cremado.” Perguntava: –
“Por
que despesas com o transporte do
corpo?” Dois, ou três amigos, tinha que sair; e iam chorar lá
fora.
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Quando
o Paulo Albuquerque embarcou, Miguel Lins foi um dos que o levaram ao
aeroporto. O morto ia maravilhosamente calmo: era talvez uma calma
intensa, uma apaixonada serenidade. Partia como alguém que elaborou
a própria morte, que a viveu como nenhum outro homem. E assim que o
avião arrancou, Miguel Lins explodiu numa feroz crise de choro. Foi
logo cercado, envolvido por umas velhas internacionais que acabavam
de desembarcar de outro aparelho.
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Na mesa do “Nino”, ontem, aliás, anteontem, eu e o Hélio
perguntamos: –
“E
o resto? e o resto?” Antes de concluir, repetiu Miguel Lins que
ninguém morreu com mais beleza do que Paulo Albuquerque. O amigo
internou-se numa prodigiosa clínica americana. Um grande cirurgião,
que era, se assim posso dizer, um virtuoso, um estilista da
especialidade, ia fazer-lhe a inútil operação. Antes, porém,
tratou de repetir os exames feitos no Brasil. E, finalmente, o grande
cirurgião foi vê-lo no quarto. Trazia o resultado dos exames.
Disse-lhe tudo: Não era câncer, nem ele ia morrer. Subitamente
Paulo Albuquerque despertou entre os vivos.
FONTE: Nelson Rodrigues
in O REACIONÁRIO: Memórias e Confissões. Rio de Janeiro: Editora Record, págs. 310-313.