quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A Chanchada Histórica - Por Nélson Rodrigues



FONTE: RODRIGUES, Nélson O Reacionário: memórias e confissões.  Rio de Janeiro: Record [1977]. Págs. 270-273



1 A China Vermelha já ocupa na ONU o lugar da China Nacionalista (1). Como se sabe, Formosa foi expulsa por não ser comunista e, além de não ser comunista, era aliada dos Estados Unidos e, não só deste, mas de todo o mundo ocidental. Usou-se a moral numérica para tornar inevitável a vitória comunista: – uma China possuía tantos habitantes e a outra tantos. Foi admitida a que tinha mais e escorraçada a que tinha menos.

2 Se atentarmos bem, é um raciocínio de causar vertigens. Houve um momento em que existiam duas Franças. Uma, a de Vichy, tinha milhões de habitantes, a outra tinha De Gaulle e vejam bem: – a pessoa de De Gaulle só. Imaginem vocês um sujeito que, em Londres, começasse a gritar: – "Eu sou a França! Eu sou a Marselhesa"! Eu sou a Joana D'Arc!" Normalmente, o sujeito seria enfiado num hospício mais à mão. E, no entanto, o mundo inteiro achou que a falsa França era a de milhões e a autêntica a do "Eu sozinho".

3 Houve também a Alemanha nazista. Todo o povo estava com Hitler. E, por isso, devíamos receber essa Alemanha com beijos, papel picado e busca-pés? E a Itália de Mussolini? Naquele tempo, todo o povo estendia o braço. Hoje, porque a população de uma é maior do que a outra, o Dr. Alceu atira-se, aos soluções, nos braços de Mao Tsé-tung.

4 Mas deixemos de lado tais considerações e tratemos do fato concreto da entrada da China na ONU. Várias vezes, imaginei a cena: – os representantes comunistas ocupando o lugar de Formosa. Por ser aquele um momento histórico, eles deviam se apresentar hieráticos, enfáticos, solenes, como se cada qual fosse um mordomo de filme policial inglês. Mas o que aconteceu estava fora de todos os cálculos. A China Comunista entrou na ONU às gargalhadas. Nunca houve, na história dos povos, nada parecido. Cabe então a pergunta: – estariam loucos ou, se não loucos, bêbados?

5 Seria espetacular que um novo membro da ONU tomasse posse em estado de embriaguez total ou, pior do que isso, de loucura varrida. Mas justiça se faça ao representantes de Pequim: – não eram nem paus-d'água, nem insanos. E vamos admitir esta outra verdade eterna: – doidos, bêbados, podiam ser os outros e não eles. Todas as nações não-comunistas, que votaram pela admissão da China Vermelha e da expulsão de Formosa, justificariam um exame de sanidade mental.

6 O que houve, então, foi uma cena de humor hediondo. Admite-se uma gargalhada que é seguida de outras gargalhadas. Mas enquanto a China Vermelha ria, e com toda a razão, as demais nações mantinham-se espantosamente sérias. E o pior papel coube aos Estados Unidos. O representante americano, gravíssimo, não se deu por achado. Empertigou-se todo, limpou um falso pigarro e fez um discurso atroz.

7 Que disse ele? Não vou transcrever, na íntegra, o seu discurso. O que importa é o tom. Vejamos alguns trechos. O começo foi assim: – "OS ESTADOS UNIDOS DÃO TAMBÉM AS BOAS-VINDAS AOS REPRESENTANTES DA REPÚBLICA POPULAR CHINESA NAS NAÇÕES UNIDAS. SUA PRESENÇA AQUI FAZ COM QUE AS NAÇÕES UNIDAS REFLITAM MELHOR O MUNDO, TAL COMO EXISTE ATUALMENTE. E ESPERAMOS QUE CONTRIBUA PARA O POTENCIAL DA ORGANIZAÇÃO E PARA HARMONIZAR AS AÇÕES DOS NOSSOS PAÍSES. OS ESTADOS UNIDOS CUJO POVO ESTÁ VINCULADO POR PROLONGADOS LAÇOS DE AMIZADE COM O GRANDE POVO CHINÊS etc. etc."

8 Pode-se desejar um pronunciamento mais impróprio, mais irreal, mais delirante? E se juntarmos a solenidade americana às gargalhadas dos recém-chegados, estará feita a chanchada histórica. São os próprios Estados Unidos que vêm declarar ao mundo, por outras palavras, o seguinte: – "Só agora é que a ONU representa a realidade mundial. Durante vinte e dois anos nós, Estados Unidos, fizemos o mundo engolir a fraude de Formosa. Nós estávamos errados e confessamos os nossos 22 anos de cinismo.

9 Não houve o menor nexo entre a gargalhada dos chineses e a solenidade americana. Eram duas realidades que ali se defrontavam, sem a mais vaga, a mais remota, a mais longínqua hipótese de fusão. Ora, até onde vai a nossa experiência de vida, uma gargalhada só se responde com outra gargalhada e não com retórica enfática e vazia. Imaginem vocês: – um sujeito ri na minha cara e eu tiro do bolso um improviso datilografado e começo: – "Senhor Fulano dos Anzóis Carapuça. Respondendo à gargalhada de V. Exª" etc. etc. O representante dos Estados Unidos só faltou declarar: – "Os Estados Unidos esperam outras gargalhadas para maior estima e compreensão dos nossos povos." Portanto, quando falo no jogo de absurdos que foi a estréia da China na ONU, não estou violentando os fatos. E que figura trágica é a nação americana. Sabemos que se trata do maior país do mundo, e do mais forte, e do mais culto. Afirma-se: – "É o único país moderno do século XX." Tudo isso está mais do que sabido e confirmado. E, no entanto, não há ninguém mais derrotado na Terra.

10 Como disse, certa vez, um dos generais mais lúcidos do nosso Exército, os Estados Unidos carregam a frustração de três guerras inacabadas. Pensando bem, descobrimos uma quarta guerra que também não acabou e, pior, nem começou: – a de Cuba. É óbvio que os Estados Unidos queriam invadir Cuba. E se o fizessem, em 15 minutos Cuba estaria ocupada, com as tropas invasoras desfilando em Havana e atirando beijos com ambas as mãos (tl como fazem as garotas dos Pierrots da Caverna). Ora, não era preciso ser nenhum Lincoln, nenhum Jefferson, nenhum Kennedy para perceber a evidência ululante: – uma vez descobertos os foguetes russos, em Cuba, e apontados para a boa terra americana – só cabia uma providência – a invasão fulminante.

11 Se Cuba fosse, como a Rússia, um continente: – se fosse, como a China, outro continente, eu admitiria, não escrúpulos, mas cautelas. Acontece que Cuba é, se mal a comparo, uma Paquetá ou, se preferirem, não um tigre de papel, mas da "Esso". Mas aqui começa o drama. Os Estados Unidos cultivam, e deliciados, as dúvidas mais pueris. Por outro lado, quanto mais fortes, piores são os seus medos. No caso de Cuba, não havia o que temer. A Rússia? Meu Deus do céu, qualquer barbeiro dos Estados Unidos sabe que a Rússia não soltaria um busca-pé em defesa de uma paisagem.


12 Já disse não sei quem (talvez eu mesmo) que os Estados Unidos têm medo de tudo e mais ainda da própria força. Mas deixemos de lado essas considerações marginais. Voltemos ao essencial desta crônica. Já vimos que os americanos responderam com discurso à gargalhada comunista. Passemos por cima de outros rapapés feitos aos chineses. E vejamos a resposta da China de Mao Tsé-tung.


13 Eu sempre preferi o hipócrita ao cínico. E esperei que a China Vermelha fosse hipócrita, em sua primeira audição nas Nações Unidas. Pelo contrário. Enquanto o Ocidente atirava-lhe beijos, a mãos ambas, a China distribuiu rútilas patadas por todo o Ocidente. A primeira agressão, direta e crudelíssima, foi aos Estados Unidos. Exigiu, em nome do seu país, o Sr. Chiao Kuan-Hua que os ESTADOS UNIDOS RETIREM SUAS TROPAS DE FORMOSA E ADVERTIU QUE O POVO CHINÊS ESTÁ DISPOSTO A RETOMAR A ILHA E NADA PODERÁ DETÊ-LO. AFIRMOU QUE PEQUIM NÃO PARTICIPARÁ DE CONFERÊNCIAS SOBRE DESARMAMENTO, QUE NÃO PASSAM DE ARTIFÍCIOS PARA CONSERVAR O MONOPÓLIO DAS ARMAS NUCLEARES, E MAIS: – EXIGIU A IMEDIATA RETIRADA DOS SOLDADOS NORTE-AMERICANOS DO VIETNAM, LAOS, CAMBOJA E CORÉIA DO SUL. ACUSOU TAMBÉM ISRAEL DE AGREDIR OS PAÍSES ÁRABES, ANUNCIANDO TOTAL APOIO DE PEQUIM AOS POVOS PALESTINOS. E DISSE QUE A REVOLUÇÃO COMUNISTA É HOJE UMA TENDÊNCIA IRREVERSÍVEL DA HISTÓRIA.


14 Imaginem que antes de dizer o que se leu acima, a representação chinesa ouviu 57 discursos de boas-vindas. Idiotas de ambos os sexos e de todos os idiomas esperavam que a admissão da China Vermelha se caracterizaria por uma moderação velhaca. Pelo menos, isso. Pois bem. No seu primeiríssimo pronunciamento, a China ameaça o mundo não-comunista, com a revolução mundial e, como se isso não bastasse, com a guerra nuclear. Não se precisa ser nenhum idiota da objetividade para perceber que está mais do que insinuada a hipótese, sim, do fim do mundo. Eu diria concluindo, que prefiro a guerra nuclear, à paz covarde, à paz indigna, à paz inumana.



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(1) O assento chinês na ONU foi ocupado pela República da China até o dia 25 de outubro de 1971, data da resolução 2758 da Assembleia Geral das Nações Unidas, que substitui Taiwan pela República Popular da China em todas as instâncias da ONU, inclusive no Conselho de Segurança. es en fr 

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