quarta-feira, 13 de abril de 2016

Paulo Francis comenta debate Collor vs Lula em 14/12/1989





2º debate envolvendo Fernando Collor de Melo (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado no dia 14 de dezembro de 1989. O Debate foi transmitido em pool pela Rede Globo, SBT, TV Manchete e Rede Bandeirantes.



Mediadores: Boris Casoy (SBT), Marilia Gabriela (BAND), Eliakim Araujo (Manchete) e Alexandre Garcia (Globo).



Os jornalistas Luis Fernando Emadiato (SBT), Fernando Mitre (Band), Vilas-Bôas Correa (Manchete) e Joelmir Beting (Globo) participaram fazendo perguntas.





Lula lá lá é o fim

Paulo Francis (Folha de S. Paulo: 16.12.1989, sábado)[1]

O texto AQUI

Digam o que disserem as pesquisas de opinião, essa desculpa que a imprensa arranjou para se omitir da sua responsabilidade de analisar e de opinar, Collor deu uma lavagem em Lula no debate de anteontem.
Lula deveria perguntar a um psicanalista o que significa uma pessoa, quando acuada, ficar esfregando uma mão na outra. A resposta não seria lisonjeira.
Lula marcou alguns pontos. Collor é dono de Alagoas. But... who cares? Quem se interessa? Quase vomito quando Collor fala que é “temente de Deus”, ou do hino nacional. O virundu[2], eu, hem?
Mas no que consta foi um nocaute. Collor diz a besteira que remetemos 5% do nosso produto nacional bruto todo ano aos banqueiros. É 1,5% ao ano. A informação está disponível no Itamaraty. Delfim explicou zombeteiramente, seu hábito, como as coisas funcionam, no seu artigo na Folha de quarta-feira[3]. Mas errou dizendo que o saldo comercial e os juros da dívida geram um déficit de 2% do PIB. É apenas 1,5%, diferença importante quando se trata de bilhões de dólares. E nota Delfim que esse déficit deveria ser coberto pelo governo com um superávit igual, cobrado de preços e tarifas dos setores beneficiados com a dívida, que a amortizassem. Mas nem dona Zélia[4] nem seu Mercadante[5] sabem disso. Caímos na jecaria e no amadorismo.
Collor, ao menos, sabe que a causa principal da inflação é a diferença entre receita e gastos do governo, que tem de emitir para pagar sua estroinice em favor dos compadres do Executivo, Legislativo e Judiciário. É Brasília contra o resto do país. Não é à toa que Lula ganha fácil em Brasília e no Rio, cidades parasitárias de burocracia federal, porque acha espantosamente – se cabe a palavra em relação ao seu bestunto – que o governo está bom do tamanho que está.
Li no excelente artigo de Newton Rodrigues, também na quarta-feira[6], demonstrando que Collor e Lula são minoritários, que Weffort[7], um dos crânios de Lula, disse que no Brasil há uma tal estatização que se a democracia avançar teremos uma sociedade socialista. É um asno ou um néscio? Povo nenhum quer ou jamais votará socialista. Votou uma pluralidade comunista na Tchecoslováquia[8], em 1948, e no Chile, com Allende[9]. Mas no primeiro caso a KGB interveio para comunizar, dando um golpe, em que “suicidou” Jan Masaryk, o ministro do Exterior e filho do fundador do Estado, Thomas Masaryk. Hoje, o povo está nas ruas[10]. Conheço pessoalmente o líder, Václav Havel, que não fugiu para Paris, como seu (ex?) amigo Milan Kundera[11], porque, me disse, dedicou sua vida a livrar seu país da praga do socialismo (sic), que embota a alma humana e não funciona economicamente. E, no Chile, sabemos o que aconteceu com Allende. A maioria da sociedade se revoltou contra ele. A maioria. Pinochet matou gente pra diabo, talvez cerca de 30 mil pessoas[12]. Mas hoje o Chile é rico, ostensivamente, sua economia cresce 5% ao ano e sua inflação é de 16% ao ano![13] Clóvis Rossi[14] diz que o Chile está assolado (sic) pelo neoconservadorismo. O fato é que a esquerda que se elegeu sabe que socialismo não dá certo. Até a próxima geração doidivanas que não tenha memória...
Como nós não temos. Quando Allende caiu, o PC italiano, o mais inteligente da Europa, se reuniu e decidiu não tomar o poder pelo voto. Não tomar, exatamente. Porque sabia que no máximo conseguiria uma chama de socialismo. E decidiu fazer o que chamou de “compromisso histórico”, uma aliança com a Democracia Cristã. Em nenhum órgão de imprensa brasileira encontro uma analogia entre a situação italiana e a nossa. Mogadon Suplicy[15] me critica porque chamei Lula de “perigosíssimo”. Claro. Ele vai governar como líder sindical, o mesmo líder sindical, e nada mais, que se revelou no debate a cada soco certeiro de Collor. É afinal o que ele é. Lula vai mexer com o Partido Verde. Não é aquele dos veados. É o que tem dragonas e estrelas no ombro. Estou muito velho para aguentar outra ditadura, porque intelectuais desocupados, como notam Roberto Campos[16] e George Orwell em “Inside the Whale”[17], pessoas razoavelmente instruídas, não se sentem recompensados pela sociedade brasileira, cuja pobreza cultural é igual à material, e querem um emprego rico pago pelo Estado. Ou porque intelectuais ricos querem um substituto para a fé religiosa que perderam e se prostram diante do totalitarismo como a Baal[18]. Eu poderia dar nomes, mas estou cansado de fazer inimigos.
Lula e Mogadon acham que no Leste da Europa estão querendo socialismo com face humana, como o de Dubcek[19], em 1968. Estive lá, na Polônia e Hungria. Como Lula ousa dizer que o Solidariedade[20] quer socialismo? Quer investimentos estrangeiros e o capitalismo democrático, de consumo, e não essa tamanqueira estatal, que sempre acaba falida, como a nossa já está. Weffort, francamente. Joelmir Beting[21] citou os números: 97% do arrecadado é para pagar ao funcionalismo. Vai estourar com qualquer presidente.
Como Lula ousa dizer que é a dívida que traz miséria ao povo? O Brasil não está pagando juros, como não pagou sob a moratória, e a miséria aumentou. Lula está repetindo o que algum comuna irregenerado lhe enfiou na cabeça, que os EUA, o “imperialismo”, são o inimigo número um e que é preciso destruí-los economicamente, tese de Stálin[22], dos anos 1950, que Kruschev[23] já começou a abandonar no início dos anos 1960, e que Gorbachev[24], claro, renegou por completo. Gorbachev quer entrar para o FMI e Lula quer sair. Collor disse certo que Lula não sabe a diferença entre uma fatura e uma duplicata.

O CANDIDATO DOS RICOS

As pesquisas mostram claramente que Collor atinge as classes C, D e E, a pobreza, e Lula, em 45%, as classes A e B. Bem, nos velhos totalitários é banzo religioso, nos jovens a culpa é de papai e mamãe, Freud explica, e, em geral, é a autoflagelação da classe média.
Mas Lula é um pelego estatal. Ganha mais do que eu, que abrilhanto com o suor do meu rosto publicações e televisão. Pelo menos no câmbio oficial. Ele vai ganhar 200 mil cruzados, disse Collor, e não foi contestado. E há, claro, mil mordomias. Não corre o risco de perder o emprego, como nós, da iniciativa privada. É o sonho de todo medíocre, disfarçado em nacionalismo, que é mania de grandeza e complexo de inferioridade, misturados.

SUGESTÕES CONSTRUTIVAS

Que ninguém reclame que não ajudei o novo governo, se for de Lula, como dizem. Ele propõe, por exemplo, estreitar relações com a África negra e cortar relações com a África do Sul. Esta tem muito dinheiro e paga suas contas. É a segunda produtora de ouro do mundo. Maltrata os seus negros, que, falando nisso, cantam e dançam quando protestam, ao contrário dos que vêm à Folha pedir minha cabeça.
Apesar disso, há 1 milhão de negros na África negra trabalhando ilegalmente na África do Sul, porque ganham mais do que nos seus respectivos países. A África negra, rica de recursos, está falida, roubada por tiranos pseudopopulistas. Bokassa[25] e Amin[26] são a regra e não a exceção.
Sabe-se, não pela ONU, que é cúmplice, que esses países estão em grande parte revertendo ao canibalismo. Sabe-se porque está nos relatórios confidenciais da comissão conjunta de informações da Câmara e do Senado dos EUA.
Logo, Lula nada tem a comprar ou vender à África negra. Em Angola, falta sabão desde 1988... Sugestão: que Lula exporte burgueses gorduchinhos e que sejam contra sua república sindicalista. Variariam o menu dos negros. É possível imaginar: “coxas à carioca”, “peito de paulista” ou “espeto de nordestino”. Este último ficaria a cargo do presidente do PT no Paraná[27].
Lula, presidente, vai criar o seu “DIP”, o tal de “Controle Social das Comunicações de Massa”. Censura. Tenho um candidato para dirigir esse órgão. Dou um videoteipe do debate para quem adivinhar quem é.
Lula vai governar com um Politburo à margem do Ministério e do Legislativo. Imagino que frei Boff[28] faça parte. Li, finalmente, parte de um artigo dele no Jornal do Brasil. É um comunista amador. Como disse Lênin[29] de Bukharin[30], não manja picas da dialética. Mas descobri que João Paulo II[31] é um liberal. Fosse eu papa, já teria excomungado esse cara na primeira.
Villas-Bôas Corrêa lavou minha alma no debate. Disse o que qualquer jornalista decente sente em se prestando a levantar a bola dessa dupla. Jecaria e amadorismo. É nossa sina.
16.12.1989




[1] Artigo disponível no livro “Paulo Francis: Diário da Corte”, Crônicas do maior polemista da imprensa brasileira. São Paulo, Três Estrelas: 2012. Páginas 340-344.
[2] Virundum ou Mondegreen em inglês, é uma percepção imprecisa de uma frase, que é trocado por uma homofonia. É mais comumente é aplicada a um verso de um poema ou uma letra de canção. Em português, o termo é originário de uma má interpretação do Hino Nacional Brasileiro cuja primeira estrofe é "Ouviram do Ipiranga". Alguns exemplos de virunduns: na música Written In The Stars, é possível ouvir Tinie Tempah dizendo "sou f*da" aos 3:06. Na música Balada de Gusttavo Lima; no trecho em que ele canta "Eu já lavei o meu carro regulei o som, já tá tudo preparado vem que o reggae é bom" alguns entendem que ele diz "vem que o brega é bom" e outros "vem comer minha vó". E por último, na música da Rihanna What's My Name no trecho que ela diz "I need a boy to take it over" muitos entendem "to take piromba". (Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Virundum Acesso em 05/12/2014 11:29).
[3] Folha de S. Paulo, A-2 – Opinião – Quarta-feira, 13 de dezembro de 1989, “Ignorância e sinceridade”, por Antonio Delfim Netto. Leia aqui, aqui ou download aqui.
[4] Zélia Cardoso de Mello, economista formada pela USP, prima de Fernando Collor de Mello, responsável pelo seu programa econômico, que viera a ser sua Ministra da Fazenda.  Veja uma entrevista sua em 17/09/1990 no Programa Roda Viva, da TV Cultura, AQUI.
[5] Aloizio Mercadante Oliva, economista formado pela USP, um dos fundadores do PT, responsável pelo programa econômico de Lula. Veja uma entrevista sua em 04/12/1989 no Programa Roda Viva, da TV Cultura, AQUI.
[6] Folha de S. Paulo, A-3 – Opinião – Quarta-feira, 13 de dezembro de 1989, “A maioria derrotada busca seu mal menor”, por Newton Rodrigues. Leia aqui ou download aqui. 
[7] Francisco Correia Weffort, cientista político. Membro do PT até 1994, quando deixa o partido para assumir o Ministério da Cultura no 1º Governo Fernando Henrique Cardoso.
[8] País que existiu entre 1918 e 1992 (com exceção do período da Segunda Guerra Mundial, ver Acordo de Munique), que teve como primeiro presidente Thomas Masaryk.
[9] Salvador Allende Gossens, médico e político marxista chileno.  Fundador do Partido Socialista, governou seu país de 1970 a 1973, quando foi deposto por um golpe de estado liderado por seu chefe das Forças Armadas, Augusto Pinochet (Dados do Wikipédia).
[10] A chamada Revolução de Veludo (17 de Novembro a 29 de dezembro de 1989), revolução não agressiva na antiga Tchecoslováquia que testemunhou a deposição do governo comunista daquele país. Esta é vista como uma das mais importantes revoluções de 1989. Em 17 de novembro de 1989, a polícia reprimiu uma manifestação estudantil em Praga. Esse evento desencadeou uma série de manifestações populares de 19 de novembro até o fim de dezembro. Até 20 de novembro, o número de manifestantes pacíficos em Praga passou de 200 mil a meio milhão de pessoas. Um movimento geral envolvendo todos os cidadãos da Tchecoslováquia foi feito em 27 de novembro. Com o colapso dos outros governos comunistas e o aumento dos protestos de rua, o Partido Comunista da Tchecoslováquia anunciou no dia 28 de novembro que iria acabar com o poder e desmantelar o Estado de partido único. Uma espécie de cerca, com arames farpados e outras obstruções, foi removida da fronteira da Alemanha Oriental com a Áustria no começo de dezembro. No dia 10 de dezembro, o presidente Gustáv Husák apresentou o primeiro grande governo não-comunista na Tchecoslováquia desde 1948, e renunciou. Alexander Dubcek foi eleito presidente do parlamento federal em 28 de dezembro e Václav Havel, escritor conhecido que estava à frente da revolução, tornou-se presidente da Tchecoslováquia em 29 de dezembro de 1989. Em junho de 1990, a Tchecoslováquia teve sua primeira eleição democrática desde 1946 (Dados da Wikipédia).
[11] Milan Kundera, nascido em 1º de abril de 1929, é um escritor tcheco, autor de, entre outros, “O Livro do Riso e do Esquecimento” e “A Insustentável Leveza do Ser”.
[12] Dados de 2011 dão conta que foram mortas 40.280 pessoas, sendo 3.225 desaparecidas dadas como mortas. Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/08/novo-relatorio-sobe-para-mais-de-40000-as-vitimas-da-ditadura-de-pinochet.html Acesso em 05/12/2014 13:32.
[13] Em 1989, a inflação atingiu a cifra de 1 973%. Veja um estudo a respeito, AQUI.
[14] Jornalista. Atualmente (05/12/2014) é colunista da Folha de S. Paulo.
[15] Eduardo Matarazzo Suplicy, político paulista. Paulo Francis “chamava Eduardo Suplicy de ‘mogadon’. (medicamento contra a insônia, que deixa quem o usa,  meio abobalhado)”, explicação para o apelido encontrado no Blog da Adriana Vandoni AQUI.
[16] Roberto de Oliveira Campos, economista, diplomata e político sul-mato-grossense. Faleceu em 09.10.2001, no Rio de Janeiro.
[17] Artigo de Orwell publicado em Inside the Whale and Other Essays (1940); no Brasil, Dentro da baleia e outros ensaios (São Paulo: Companhia das Letras, 2005). NOTA ENCONTRADA NO LIVRO.
[18] Antigo deus fenício. Há 114 ocorrências desse deus na Bíblia Sagrada, apenas uma vez no Novo Testamento (Romanos 11.4), o que indica que seu culto foi antagônico ao culto a Javé.
[19] Alexander Dubček, chefe de estado da antiga Tchecolosváquia e líder do partido comunista daquele país.
[20] Solidarność, federação sindical polonesa, fundada em 31 de agosto de 1980, liderada por Lech Wałęsa.
[21] Joelmir José Beting, jornalista e sociólogo paulista. Faleceu em 29 de novembro de 2012.
[22] Josef Vissarionovitch Stalin foi o ditador russo que comandou a União Soviética até sua morte em 1953.
[23] Nikita Serguêievitch Khrushchov, sucessor de Josef Stalin.
[24] Mikhail Sergueievitch Gorbachev, último líder da União Soviética.
[25] Jean-Bédel Bokassa, presidente da República Centro-Africana de 1 de janeiro de 1966 até 4 de dezembro de 1976 e imperador Centro-Africano desde essa data até à sua deposição em 20 de setembro de 1979.
[26] Idi Amin Dada, ditador militar e terceiro presidente de Uganda entre 1971 e 1979.
[27] Ele se referia a Gil Carvalho (1986-1989) ou a Claus Germer (1989-1990), presidentes estaduais do PT no Paraná.
[28] Leonardo Boff, pseudônimo de Genézio Darci Boff, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação.
[29] Vladimir Ilitch Lenin, revolucionário e chefe de estado russo.
[30] Nikolai Ivanovich Bukharin, revolucionário e intelectual bolchevique. Leia “As confissões de Bukharin” AQUI.
[31] Karol Józef Wojtyła, o Papa João Paulo II, foi líder máximo (papa) da igreja católica romana, de 16/10/1978 até a sua morte em 2 de abril de 2005.

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