06 janeiro 2015

Delfim Neto: Ignorância e sinceridade (13/12/1989)





Um dos aspectos mais fantásticos dessa campanha eleitoral é a demonstração de que alguns candidatos e seus gurus podem falar tolices à vontade, sem o menor respeito à inteligência da sociedade.

Um caso em espécie é a proposta do PT de que vai transformar os juros da dívida externa num fundo para atender às necessidades básicas da população. A proposta é charmosa, principalmente quando esquece que foi a dívida externa que sustentou o crescimento do país. O nível de consumo seria muito menor do que é hoje e não existiriam os metrôs, Itaipú, Carajás e Tubarão. O Brasil seria apenas o país mais ocidental da África.

Mas vamos ver se a proposta é ao menos razoável. Em primeiro lugar é preciso lembrar que mais de 4/5 da dívida externa é hoje responsabilidade do governo, não porque ela tenha sido “socializada”, mas porque o setor privado pagou a sua dívida junto ao Banco Central entregando cruzados e o Banco Central não pagou a dívida entregando dólares aos credores, por falta das reservas necessárias. Tudo se passa, portanto, como se o Banco Central tivesse utilizado os cruzados depositados pelos devedores em moeda estrangeira para financiar seu déficit, em vez de vender títulos públicos.

Em segundo lugar, o excedente externo (isto é, a diferença entre o valor das exportações e o valor das importações) pertence ao setor privado (e até a algumas estatais). Se as exportações de 1989 forem de 34 bilhões de dólares e as importações de 18 bilhões, isto significa que o excedente de 16 bilhões de dólares pertence ao setor privado. Na verdade, a aquisição desses dólares para pagar os juros externos impõe uma carga de aproximadamente 2% do PIB sobre as finanças públicas a cada ano, que deveria ser coberto com um superávit primário equivalente. Como não tem construído esse superávit, o governo ou emite moeda ou aumenta a dívida pública. Isso só acontece porque o governo se recusa a colocar nos preços e nas tarifas dos setores beneficiados com a dívida o custo de sua amortização e porque ampliou suas despesas correntes.

Suponhamos, então, como quer o PT, que deixemos de pagar os juros externos. O saldo comercial deveria decrescer no valor equivalente, o que seria ótimo, pois poderíamos importar mais, melhorando o bem-estar da sociedade brasileira. Até aqui, nada de novo, o PT somente repetiria a receita da “Velha República”, que buscava financiamento externo para não cortar suas importações. E, domesticamente, o que aconteceria nas contas públicas? Não haveria criação de recursos líquidos. Simplesmente aquele déficit de 2% não seria gerado, pois o governo não precisaria mais comprar dólares do setor privado. Daí a afirmar que a suspensão do pagamento dos juros “libera” recursos para o tal fundo contra a pobreza, via uma distância igual à ignorância de quem imagina que é possível guardar o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. E ficam no ar algumas questões. E se houver retaliação? E se algum dia, no futuro, nós formos obrigados a pagar esses juros? Se ambas as respostas forem negativas, ótimo. A “Novíssima República”, a exemplo da velha, continuaria a financiar seu consumo no exterior.

É muito bom que o PT e seu candidato não entendam o problema, porque sendo pessoas de reconhecida pureza, teriam maiores dificuldades de “passar sinceridade” aos seus eleitores no vídeo, como recomendam os magos da mídia eletrônica. Que a santa ignorância lhes preserve a convicção, a confiança e a sinceridade ao perpetrarem desatinos como esse, ao vivo e em cores.





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