Um dos aspectos mais fantásticos dessa campanha eleitoral é
a demonstração de que alguns candidatos e seus gurus podem falar tolices à
vontade, sem o menor respeito à inteligência da sociedade.
Um caso em espécie é a proposta do PT de que vai transformar
os juros da dívida externa num fundo para atender às necessidades básicas da
população. A proposta é charmosa, principalmente quando esquece que foi a
dívida externa que sustentou o crescimento do país. O nível de consumo seria
muito menor do que é hoje e não existiriam os metrôs, Itaipú, Carajás e
Tubarão. O Brasil seria apenas o país mais ocidental da África.
Mas vamos ver se a proposta é ao menos razoável. Em primeiro
lugar é preciso lembrar que mais de 4/5 da dívida externa é hoje
responsabilidade do governo, não porque ela tenha sido “socializada”, mas
porque o setor privado pagou a sua dívida junto ao Banco Central entregando
cruzados e o Banco Central não pagou a dívida entregando dólares aos credores,
por falta das reservas necessárias. Tudo se passa, portanto, como se o Banco
Central tivesse utilizado os cruzados depositados pelos devedores em moeda
estrangeira para financiar seu déficit, em vez de vender títulos públicos.
Em segundo lugar, o excedente externo (isto é, a diferença
entre o valor das exportações e o valor das importações) pertence ao setor
privado (e até a algumas estatais). Se as exportações de 1989 forem de 34
bilhões de dólares e as importações de 18 bilhões, isto significa que o
excedente de 16 bilhões de dólares pertence ao setor privado. Na verdade, a
aquisição desses dólares para pagar os juros externos impõe uma carga de
aproximadamente 2% do PIB sobre as finanças públicas a cada ano, que deveria
ser coberto com um superávit primário equivalente. Como não tem construído esse
superávit, o governo ou emite moeda ou aumenta a dívida pública. Isso só
acontece porque o governo se recusa a colocar nos preços e nas tarifas dos
setores beneficiados com a dívida o custo de sua amortização e porque ampliou
suas despesas correntes.
Suponhamos, então, como quer o PT, que deixemos de pagar os
juros externos. O saldo comercial deveria decrescer no valor equivalente, o que
seria ótimo, pois poderíamos importar mais, melhorando o bem-estar da sociedade
brasileira. Até aqui, nada de novo, o PT somente repetiria a receita da “Velha
República”, que buscava financiamento externo para não cortar suas importações.
E, domesticamente, o que aconteceria nas contas públicas? Não haveria criação
de recursos líquidos. Simplesmente aquele déficit de 2% não seria gerado, pois
o governo não precisaria mais comprar dólares do setor privado. Daí a afirmar
que a suspensão do pagamento dos juros “libera” recursos para o tal fundo
contra a pobreza, via uma distância igual à ignorância de quem imagina que é
possível guardar o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. E ficam no ar algumas
questões. E se houver retaliação? E se algum dia, no futuro, nós formos
obrigados a pagar esses juros? Se ambas as respostas forem negativas, ótimo. A “Novíssima
República”, a exemplo da velha, continuaria a financiar seu consumo no
exterior.
É muito bom que o PT e seu candidato não entendam o
problema, porque sendo pessoas de reconhecida pureza, teriam maiores
dificuldades de “passar sinceridade” aos seus eleitores no vídeo, como
recomendam os magos da mídia eletrônica. Que a santa ignorância lhes preserve a
convicção, a confiança e a sinceridade ao perpetrarem desatinos como esse, ao
vivo e em cores.

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