quarta-feira, 12 de outubro de 2016

“Brasileiros, me aguardem” (19/02/2014, Páginas Amarelas de VEJA)

 

Entrevista com Donald Trump, sob o título  “Brasileiros, me aguardem”, reportagem de Monica Weinberg, nas Páginas Amarelas, da Revista Veja, do dia 19 de fevereiro de 2014

O bilionário-celebridade solta a língua e fala sobre Barack Obama, economia, cabelo, poder de sedução (dele, claro) e de sua recente decisão de finalmente investir no Brasil
Por Monica Wainberg, de Nova York


No 26º andar do edifício tomado de espelhos, dourados e mármore cor-de-rosa que mandou erguer em Manhattan na década de 80, o bilionário americano Donald Trump, 67 anos, fez de sua sala uma espécie de museu em que ele, e só ele, é o tema. Centenas de capas de revista promovem um percurso por todas as fases de sua vida, desde quando começou a fazer fortuna com a construção de arranha-céus até os dias de celebridade à frente do show O Aprendiz – está em exposição, inclusive, a capa da Playboy em que ele posa com um vastíssimo topete que faz até onda, aos 43. Ícone do capitalismo nos anos 80, Trump quase quebrou nos 90, mas se reergueu: hoje empresta sua grife a hotéis, campos de golfe e até água mineral. Depois de muito alardear seu interesse pelo Brasil – chegou a anunciar participação em um megalômano resort que minguou por falta de licença ambiental – , agora ele decidiu ir adiante. Vai operar um hotel de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste carioca, com inauguração prevista até 2016. Casado com uma eslovena 24 anos mais nova e ainda topetudo, Trump, que vem ao Rio de Janeiro em março, foi logo avisando: “Tenho a melhor vista de Nova York”.

Há anos o senhor acenava com a possibilidade de fazer negócio no Brasil. Por que só agora decidiu ir em frente? Meus instintos dizem que é um bom momento, e dificilmente eles falham. Sei que o Brasil tem problemas. Para começar, é um país conhecido mundialmente pela alta carga de impostos, o que, vamos combinar, não é uma boa fama, certo? Também acompanhei os protestos na televisão e não posso dizer que achei uma maravilha. Maravilha foi ver o Papa no Rio. Os protestos, não. São sinônimo de incerteza. E incerteza é uma palavra maldita nos negócios. Agora, olho para a frente e vejo uma Copa, uma Olimpíada, uma economia que tem muito por onde crescer e um povo que está melhorando de vida, que quer gastar. Adoro os brasileiros – em especial as brasileiras, mulheres absolutamente incríveis. Acho que posso ensinar alguma coisa a essa gente. Aliás, adoro ensinar. Sou ótimo professor.

E o que teria a ensinar a brasileiros e brasileiras? Uma lição básica do bom empreendedorismo: se você trabalha duro e de forma inteligente, vai alcançar um alto padrão. O povo no Brasil é gentil, sorridente, trata as pessoas muitíssimo bem, mas os serviços oferecidos à população têm má reputação. É bom que os brasileiros vejam na prática como o nível pode se elevar. Tenha essa expertise.

Investidores estrangeiros estão tirando dinheiro do país. O senhor não teme uma bolha? Pode acontecer em qualquer lugar, inclusive no Brasil. E é claro que os riscos aumentam longe de seu próprio quintal. Mas olhe o que ocorre no meu quintal: as taxas de desemprego dispararam nos Estados Unidos. Esse é um tremendo risco. Só espero que os brasileiros não se encantem com um vizinho tipo a Venezuela. Mesmo com tanto petróleo, o Hugo Chávez conseguiu acabar com aquilo ali. É muito fácil para esse pessoal da extrema esquerda sair por aí dizendo: “Vamos deixar tudo para trás, vamos fazer a revolução”. Pode ser bonito de ouvir, mas não leva a lugar algum. Não acredito que o Brasil vá por esse lado do esquerdismo inconsequente. Acho que as bases do país são boas e o vento está a favor.

O senhor já esteve com Dilma Rousseff? Não. Quem é ele?

É a presidente da República. E de Lula, o senhor já ouviu falar? Também não.

Trata-se do ex-presidente, o mesmo sobre quem o presidente americano Barack Obama declarou: “Ele é o cara”. Obama diz isso para todo mundo. Legal ele pode até ser, mas infelizmente não está fazendo bem o seu trabalho na Casa Branca. Os Estados Unidos estão virando um Estado de bem-estar social e, pior, comendo poeira na corrida com outros países. Veja a pujança chinesa diante da americana. É inadmissível. Obama enfraqueceu a economia.

Muita gente disse que o senhor passou dos limites, e até resvalou para o ridículo, ao insistir na tese de que Obama não teria nascido nos Estados Unidos. Acha que se excedeu? Prestei um serviço à nação. Fiz o presidente vir a público mostrar a certidão de nascimento. Hillary Clinton não fez isso. John McCain não fez isso. Eu fiz. E muitos americanos aprovaram a minha iniciativa. Só espero que o documento seja mesmo verdadeiro. Obama, e ninguém mais, sabe dizer. Quanto aos que me ridicularizaram, certamente se trata de uma gente amarga ou malsucedida – provavelmente, os dois.

Sua escola de negócios, a Trump University, é alvo de um processo movido por estudantes que o acusam de propaganda enganosa. Eles têm razão? De jeito nenhum. Isso é tudo obra de um procurador de Nova York que está tentando me extorquir. São 40 milhões de dólares em jogo. Acho que o próprio Obama pode estar por trás disso. Os dois estiveram juntos um dia antes de essa história aparecer. Quanto ao pequeno grupo de alunos indignados, o que posso dizer? Eles viram a possibilidade de ganhar dinheiro e estão indo atrás. É humano. Mas são a minoria: uma pesquisa mostrou que 98% dos alunos aprovam minha escola.

Ora o senhor alimenta as especulações de que se candidatará ao governo de Nova York, ora à Presidência dos Estados Unidos. O que será, afinal? Estou preparado para o que for. Os republicanos me mostram pesquisas em que meu nome está lá na frente, e isso me anima, claro. Gosto de política. Mas ainda falta uma eternidade. No momento certo, vou decidir. Posso dizer desde já que tenho filhos capazes de ocupar bem a minha cadeira, por mérito. Não é como muitos empresários que conheço, gente de carreira brilhante no mundo dos negócios que passa o poder a herdeiros sem nenhum jeito para a coisa. Aí vem aquela catástrofe. Deve ser terrível você ver o próprio império desmoronando.

O senhor mesmo quase quebrou nos anos 90. Como foi estar no fundo do poço? Passei um período duríssimo. Fui testado no limite. E a gente só sabe que é resistente de verdade quando se vê sob pressão. O mercado estava ruim, e muita gente boa quebrou. Uns caras que pareciam durões não aguentaram o tranco e perderam o controle. Eu podia ter entrado em depressão. Estava por baixo, por baixo mesmo, mas segui em frente e me reinventei. Olhe quantas capas de revista falam do meu sucesso empresarial. Supero qualquer supermodel. As paredes da minha sala estão lotadas. Não é por acaso.

Quais são os prazeres da vida de celebridade? Gosto da sensação de descer do elevador do prédio onde trabalho, botar o pé na Quinta Avenida e sentir aquela energia da multidão enlouquecida, gritando: “Trump! Trump! Você está demitido!”. Esse é o bordão do meu programa, O Aprendiz. Poderia haver resposta melhor para quem achava que eu seria um fiasco no showbiz? Ninguém esperava que eu fosse estourar. As pessoas me diziam: “Esquece, você não tem jeito para a TV”. Aí fui para o topo da audiência e calei a boca de todo mundo. Ser celebridade é bom umas 70% das vezes: traz popularidade, dinheiro e poder. Mas também prezo a privacidade de vez em quando.

O poder atrai as mulheres? Todas as mulheres dão em cima de mim no show. Elas querem vencer o jogo.

Como dono do concurso Miss Universo, o senhor também provoca alvoroço entre as concorrentes? Conheço as misses e converso com elas. É parte do meu trabalho. Mas não sei dizer se flertam comigo. O que sei é que algumas dessas mulheres são de uma inteligência extraordinária. São médicas, advogadas. As brasileiras, em particular, chamam a atenção: elas são deslumbrantes, de uma natureza privilegiada. Mas, calma, não quero confusão para o meu lado.

Fora da TV, o senhor tem algum prazer em demitir seus funcionários? Em geral, não. São pessoas incompetentes, coitadas. Elas já nasceram assim. Não é caso para espezinhar. Só tenho prazer mesmo em demitir ladrões. Adoro. E olhe que já cruzei com verdadeiros profissionais na minha vida.

Com uma agenda tão atribulada sobra tempo para a leitura? Não muito.  Costumo ler contratos,  mas não na letra miúda. Isso quem faz são meus advogados. São muitas páginas. Sabe o que eu gosto mesmo de ler? The Art of the Deal (A Arte de Fazer Negócios), de Donald Trump.

Foi um bom aluno? Era um bom aluno em Warthon, sim, mas isso não explica tudo. Quase todos os caras nota 10 com quem estudei estão hoje em posições medíocres. Eram quadrados demais. Já os mais medianos, não. Embora não fossem brilhantes nem os melhores da turma, tinham uma qualidade essencial:  gostavam de correr riscos. E também tinham um ego considerável, característica fundamental para o sucesso. Hoje são CEOs de grandes corporações.

O senhor sempre diz que é vital para qualquer CEO selar um bom acordo pré-nupcial. Chegou a perder muito dinheiro em seus divórcios? Não. O que debitei de minha fortuna foi insignificante. Isso porque me preocupei em deixar tudo bem claro no papel antes de subir ao altar. E os acordos que fiz foram bastante razoáveis.

O que é em sua concepção um acordo pré-nupcial razoável? Não tem um valor predefinido. Ele deve variar segundo a participação da mulher na vida de seu marido. Algumas são mais colaborativas, outras produzem verdadeiras catástrofes nas finanças. Sei da história de muitos homens que não alcançaram o sucesso justamente por causa de suas mulheres. Na hora do divórcio, elas queriam sugar tudo deles. Quando soube do casamento de Mark Zuckerberg (CEO do Facebook), pensei: “Tomara que este tenha um bom acordo pré-nupcial”. Mas não liguei para ele, não. Achei que não precisava de um conselho tão básico.

Em seu histórico matrimonial, as mulheres são sempre bonitas e cada vez mais jovens. Não se sente como um senhor de 67 anos? De forma alguma. Estou no auge do meu vigor. Bem de corpo, de cabeça e de dinheiro.

Sua primeira esposa, Ivana Trump, é checa; a atual, Melania Knauss-Trump, eslovena. Isso o tornou um poliglota? Não falo nem uma palavra de checo nem de esloveno. Também não sei nada dessas culturas. Até gosto de visitar a Europa – a Alemanha, a Inglaterra, a Itália, é tudo muito lindo –, mas nada neste mundo me faria mudar dos Estados Unidos.

Posaria de novo para a capa da Playboy?  Tenho o maior orgulho dessa capa. Poderia até repetir, mas não estou mais nos meus 40, né? O engraçado é que, mesmo sendo um homem na capa, essa foi uma das edições que mais venderam em toda a história da revista. Um fenômeno. E olha que eu ainda não era tão famoso quanto agora. Em compensação, tinha mais cabelo.

A propósito do cabelo, seu penteado vem sendo, há décadas, alvo de críticas ferinas. Nunca pensou em mudar? Por nada neste mundo eu troco de penteado. Gosto dele. Parece que se acomodou bem à minha cabeça. Não dá problema e tem o seu estilo. Quanto ao pessoal que me critica, pode reparar: certamente, é uma gente perdedora e invejosa.

Afinal, é o não é peruca? Nada de peruca. Este cabelo é meu, original de fábrica. Basta olhar para minhas fotos de juventude para saber; é a mesma coisa, só um pouco mais ralo e mais esbranquiçado. Já ouvi de muita gente: “Você é ótimo nos negócios. Já essa sua peruca...”. Uma parte dessa turma provavelmente nem acha que é falso, mas fala mesmo assim, só para chatear. Um dia, fui ao programa da Barbara Walters e ela pediu para tocar no meu cabelo. Eu a deixei à vontade. Ela mexeu, mexeu e disse: “Então, é seu mesmo?”. É o que venho dizendo todos esses anos, em vão. Quer tocar?

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