sábado, 15 de outubro de 2016

A TRAGÉDIA AMERICANA



Inês Teotónio Pereira (15/10/2016)



As eleições americanas estão a destruir anos e anos de educação. Uma pessoa em casa tenta explicar aos miúdos[1] o que é ser conservador, quem foi Reagan, Thatcher, Sá Carneiro, vá. Mostramos filmes, recomendamos livros, contamos histórias. Percebemos o quanto eles são novos e nós velhos quando perguntam se a queda do Muro foi antes ou depois do 25 de Abril ou quem é Freitas do Amaral. Mas resistimos. E vamos a De Gaulle para chegar a Jean Monnet, a Kennedy para explicar a descolonização, ao Império Otomano, meu Deus, para contextualizar o caos do Médio Oriente. 


De caminho exaltamos os princípios do mundo livre do Ocidente, a génese das raízes judaico-cristãs e esforçamo-nos que nenhuma pergunta fique sem resposta para que a miudagem não se deixe enganar por populismos desonestos vindos da esquerda e da direita. 


E por fim, estoirados, contamos onde estávamos no dia em que o Muro caiu para emprestar a credibilidade que o "eu vi" dá a qualquer história. Mas bem que podemos falar que eles não percebem. É abstração a mais. Para os miúdos toda esta conversa vale zero. Para eles, líderes como aqueles que víamos na televisão, são pré-história ou, na melhor das hipóteses, são conversa de mãe saudosista – coitada. E porquê? Os nossos filhos têm Trump em vez de Reagan ou mesmo de Bush, têm Boris Johnson em vez de Thatcher, Le Pen em vez de Mitterrand e até o fato de treino de Hugo Chávez em vez da farda de Fidel Castro. Da esquerda à direita, os nossos filhos não têm referências, têm humor negro. Os políticos concorrem com a FOX Comedy e ganham. Ora, perante isto é quase impossível explicar o que é um conservador ou um democrata honesto quando aquilo que lhes aparece no YouTube são as enormidades[2] de Trump e as aldrabices[3] de Clinton. Em termos de referências políticas os meus filhos votam em Jimmy Fallon ou nos Simpson. Se Trump não trouxer mais nenhuma tragédia ao mundo pelo menos já deixou esta: ser conservador é hoje sinónimo de palhaço para as novas gerações.






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[1] Crianças pequenas, meninos, pirralhos, filhos.

[2] Disparates, ditos extravagantes. 

[3] Mentiras, patranhas, trapaças.

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