segunda-feira, 11 de abril de 2016

Entrevista de Pedro Collor à VEJA em 1992


“O PC é o testa-de-ferro do Fernando”
Na tarde da última quarta-feira Pedro Collor tomou um avião em Maceió e chegou a São Paulo após uma escala no Recife. Em com­panhia da mulher. Maria Tereza, e de uma irmã, Ana Luiza, Pedro Collor deu uma entrevista de duas horas a VEJA. A seu pedido, o encontro ocorreu nas dependências da revista. A mulher e a irmã de Pedro Collor foram testemunhas de suas declarações, e chegaram a colaborar em algumas respostas. Além de fazer novas denúncias sobre a atividade de PC Farias no governo, Pedro Collor diz que ele é “testa-de-ferro” do presidente Fernando Collor. Diz que o jornal Tribuna de Alagoas, que PC Farias quer lançar em Maceió, na verdade pertence a seu irmão. Também garante que um apartamento de Paris que se supunha ser propriedade do empresário na realidade pertence a Fernando Collor. Para Pedro Collor, existe uma “simbiose profunda” entre os dois. Os principais trechos da entrevista:
VEJA – O senhor se considera louco?
Pedro Collor – Não, de jeito nenhum.
VEJA – Se a sua própria mãe está falando isso, é o caso de perguntar. Já fez algum tratamento psiquiátrico?
Pedro Collor – Não, nunca fiz tratamento psiquiátrico ou psicanálise. Essa pressão toda tem um objetivo claro. O objetivo foi passar para a opinião pública a sensação de que não tenho credibilidade, que estou sob forte comoção. Convenceram mamãe a assinar aquela carta. Ela é muito ingênua nesse sentido.
VEJA – As suas afirmações e denúncias, os documentos que o senhor levantou contra Paulo César Farias e as críticas que vem fazendo ao Presidente colocam o governo e o país numa situação delicada. O senhor está ciente disso?
Pedro Collor – Absolutamente consciente.
VEJA – O senhor tem dito que suas revelações podem acabar com o governo do seu irmão. E isso que o senhor quer?
Pedro Collor – Não, mas qual foi o principal mote da campanha do Femando? Quem roubava ia para a cadeia. Na prática, estou vendo uma coisa completamente diferente. Ninguém pode enrolar todo mundo o tempo todo.
VEJA – Essa briga começou em torno do lançamento de um novo jornal, que concorreria com a Gazeta de Alagoas, das organizações Arnon de Mello?
Pedro Collor – Em janeiro de 1991, levei ao Fernando, no Palácio do Planalto, o plano de se montar um novo jornal em Alagoas. Seria um jornal vespertino. Já houve no passado vespertinos no Estado, e que pararam por um motivo ou outro, agora não há nenhum. Como achei que havia uma brecha no mercado, e a gráfica do nosso grupo estava ociosa, fiz a proposta ao Fernando. Expliquei que o novo jornal não faria parte do grupo da Gazeta, seria uma iniciativa à parte.
VEJA – O que o presidente achou da idéia?
Pedro Collor – Ele me disse o seguinte: “Não, não leve a idéia do jornal adiante porque eu vou montar uma rede de comunicação paralela em Alagoas com o Paulo César, e essa rede terá um jornal”. O Fernando falou que o jornal iria se chamar Tribuna de Alagoas. Disse também que a Tribuna seria impressa na imprensa oficial do Estado. Então perguntei por que ele não imprimia esse novo jornal na gráfica do nosso grupo. O Femando respondeu: “Não”.
VEJA – A rede de comunicação seria de PC Farias?
Pedro Collor – O PC seria o testa-de-ferro. Era uma empresa de testa-de-ferro, que teria o jornal e de doze a catorze emissoras de rádio.
VEJA – Qual foi a sua reação a essa rede?
Pedro Collor – Raciocinei que, se o novo jornal ia ser impresso na imprensa oficial, seria em preto-e-branco, um jornal para ocupar espaço, evitar que grupos adversários na política entrassem na área. Dizia-se que não era um jornal para concorrer efetivamente com a Gazeta e, de repente, compraram um maquinário exatamente igual ao nosso, e me tomam funcionários pagando três ou quatro vezes mais do que eles ganham conosco. Então é um negócio para destruir o nosso, certo? Foi aí que a coisa começou. Houve também um problema corri a instalação de rádios. Na mesma reunião em que falei do novo jornal com o Fernando, eu disse que precisávamos também de duas rádios, FMs pequenas ou médias, na periferia de Maceió.
VEJA – Como o senhor conseguiria essas rádios?
Pedro Collor – Pelas vias normais. Essas duas rádios já existiam no plano traçado pelo governo.
VEJA – E obteve as rádios?
Pedro Collor – Obtive duas negativas. Simultaneamente, eles mexeram no plano, a ponto de contemplar todas as cidades que até então não estavam com rádios FM.
VEJA – Isso foi feito por quem?
Pedro Collor – Por solicitação do deputado Augusto Farias, irmão do PC. Vejam bem: converso com ele tentando montar um jornal, falo das rádios que podem entrar. Negam para mim. E viabilizam para eles umas doze rádios que nem estavam cogitadas no plano.
VEJA – O senhor tentou chegar a um acordo sobre o jornal antes de começar a recolher documentos sobre os negócios de PC?
Pedro Collor – Houve tentativas que não deram certo, porque a intenção não era montar um jornal assim ou assado, mas montar um jornal para destruir o nosso. Em fevereiro passado, saiu aquela reportagem do Eduardo Oinegue, em VEJA, sobre o assunto, em que eu chamava o PC de lepra ambulante. Eu estive então com o Cláudio Víeira (secretário particular de Collor, afastado do governo na reforma ministerial). O Cláudio me disse que há cinco dias o Fernando não despachava com ele, nem com o general Agenor, nem com o Marcos Coimbra. O Cláudio Víeira me contou que no dia anterior o Fernando havia se reunido, durante uma hora e meia. com o procurador-geral da República, Aristides Junqueira. Segundo o Cláudio me contou, o procurador disse ao Fernando que, se eu não desmentisse a reportagem de VEJA, o Junqueira iria instaurar um inquérito, e que isso derrubaria o governo. Eu respondi ao Cláudio que não tinha intenção de derrubar o governo de ninguém, que minha intenção era me preservar e alertar que o PC era uma bomba atômica ambulante, independentemente de jornal ou coisa que o valha. Esclareci que não poderia desmentir a reportagem pura e simplesmente, e pedi um compromisso firme de que o PC não iria tentar acabar com nossa organização. Sugeri que a Gazeta arrendasse a gráfica da Tribuna, pagasse, e nós imprimíssemos o jornal. Cheguei a conversar depois sobre essa proposta com o PC, e ele disse que adorou. Na hora de formalizar o acordo, sumiu. O Cláudio Vieira então me disse que o Paulo César estava com outras idéias e ia me procurar. Estou esperando até hoje.
VEJA – Por que o pre­sidente Collor, se é ele que está por trás dessa rede de comunicações montada pelo PC, esta­ria interessado em preju­dicar e até destruir os negócios da família?
Pedro Collor – É uma questão que só Freud explica. (Tereza, mulher de Pedro Collor. pede para falar)
Tereza – O Fernando Collor faz isso porque o Pedro não se submete a ele. O Fernando viu que não podia tirar o Pedro da administração dos negócios da família. Foi o Pedro quem geriu, e bem, as empresas durante esses anos todos. O Fernando quer o meio de comunicação e instrumento político, enquanto o Pedro tem a responsabilidade de administrá-lo como empresa. É daí que nasceu a divergência.
VEJA – O senhor acha mesmo que o PC é um testa-de-ferro do presidente nos negócios?
Pedro Collor – Eu não acho, eu afirmo categoricamente que sim. O Paulo César é a pessoa que faz os negócios de comum acordo com o Fernando. Não sei exatamente a finalidade dos negócios, mas deve ser para sustentar campanhas ou manter o status quo
VEJA – De quem é o apartamento de Paris onde funciona a S.CI . de Guy des Longchamps e Ironildes Teixeira?
Pedro Collor – É dele.
VEJA – Dele, quem?
Pedro Collor – Dele. Do Fernando, claro.
VEJA – O senhor não tem dúvidas?
Pedro Collor – Não tenho a menor dúvida.
VEJA – De quem é o jatinho Morcego Negro?
Pedro Collor – Acho que é do Paulo César, mas não posso afirmar.
VEJA – O presidente Collor sairá mais rico do governo?
Pedro Collor – Em patrimônio pessoal, sai. Sem dúvida nenhuma.
VEJA – O presidente está envolvido na sua denúncia de que o Paulo César recebeu unta comissão de 22% sobre os negócios entre a empresa IBF e o governo para a implantação da raspadinha federal?
Pedro Collor – O Fernando não entra no varejo da coisa. Ele apenas orienta o negócio.
VEJA – O que acontece com o dinheiro?
Pedro Collor – O Paulo César diz para todo mundo que 7O% é do Fernando e 3O% é dele.
VEJA – O senhor acredita nisso?
Pedro Collor – Eu não sei se a porcentagem exata é essa.
VEJA – Mas o senhor sustenta que existe uma sociedade entre os dois?
Pedro Collor – Tenho certeza de que é assim. Existe urna simbiose aí. Eu não estendo as acusações ao Fernando diretamente. Uma coisa é você concordar. Outra coisa é operacionalizar. São duas coisas distintas. Operacionalizar, no sentido do dolo, no sentido do ilícito, isso é muito do temperamento do PC. Ele tem prazer nisso. O Fernando é incapaz de sentar em uma mesa e dizer assim: “O negócio é o seguinte: preciso de uma grana para a minha campanha. Me ajuda”. Pode estar nu e sem sapato que não pede ajuda. Já o PC toma. Deixa você nu se for possível.
VEJA – O senhor já ouviu do Paulo César que ele tem essa associação com o seu irmão?
Pedro Collor – Sim, já ouvi dele.
VEJA – E do presidente?
Pedro Collor – Não, do Fernando, não.
VEJA – O PC é uma pessoa digna de crédito?
Pedro Collor – Se ele foi o tesoureiro de duas campanhas do Fernando, se age com age publicamente, se ele mesmo fala isso, eu só posso concluir que é verdade.
VEJA – Qual foi a última vez em que o senhor e o presidente conversaram sobre as atividades de PC Farias?
Pedro Collor – Em janeiro deste ano. Eu tinha acabado de chegar do exterior e o Fernando me chamou para almoçar. Foi uma conversa afável, embora o Fernando, tenha se mostrado cuidadoso ao mencionar o nome do PC. Pisava em ovos. Eu reclamei da maneira como o PC vinha tentando destruir o nosso jornal em Alagoas, chamando nossos funcionários. Foi uma conversa sobre os problemas com o jornal.
VEJA – O senhor mencionou as denúncias de corrupção sobre PC?
Pedro Collor – Com o Fernando, exatamente, não. Falei “n” vezes com os meus irmãos Leopoldo e Leda, com o Cláudio Vieira e o Marcos Coimbra.
VEJA – Por que nunca falou diretamente com o presidente?
Pedro Collor – Eu sentia que, se eu falasse, ele iria ter uma explosão violentíssima. O Fernando não gosta de escutar críticas.
VEJA – Por que o senhor passou a envolver o presidente Collor nas suas denúncias contra o PC?
Pedro Collor – Eu comecei a receber ameaças de morte dos irmãos do PC através de interlocutores comuns. Cheguei a falar com o Cláudio Vieira sobre tudo o que estava acontecendo. Concluí que o PC não estava agindo por conta própria. É o estilo típico do Fernando usar instrumentos. Ele não ataca de frente.
VEJA – O senhor não acredita que exista uma vontade política real do presidente em investigar as atividades de PC Farias. Afinal, a Receita Federal foi acionada para vasculhar o imposto de renda de PC?
Pedro Collor – Não acredito nisso. Acho que a investigação ia ser empurrada com a barriga e seria apenas retórica.
VEJA – Qual a diferença entre o PC Farias e o Pedro Paulo Leoni Ramos, o PP? Ou entre o PC e o Cláudio Vieira? Ou entre eles e o Claudio Humberto?
Pedro Collor – São os métodos. O PC é o erudito do roubo, da corrupção, da chantagem. Os outros têm uma aspiração, mas também têm um teto. O PC não tem limites.
VEJA – Mas o PC vai até onde?
Pedro Collor – Ele é capaz de matar para extorquir.
VEJA – O senhor apresentou o PC Farias ao Fernando Collor. Quando começou a afastar-se dele? Por quê?
Pedro Collor – Na época eu não o via como hoje. Ele era um sujeito enrolado com negócios, mas apenas isso. Não pagava as contas. Mas era um sujeito jeitoso, muito insinuante, muito simpático. Ele é muito envolvente em negócios. Comecei a me afastar quando o Fernando se tornou governador do Estado.
VEJA – O senhor tem alguma coisa contra o cidadão Fernando Collor, seu irmão?
Pedro Collor – Pessoalmente, o Fernando é um sujeito extremamente talentoso, carismático, magnético e, em alguns momentos, é uma criatura fantástica, cheia de energia. Ao mesmo tempo, é rancoroso, vingativo e adora manipular as pessoas. Ele gosta das pessoas subservientes.
VEJA – O senhor chegou a falar que o seu irmão Fernando tentou se insinuar junto a sua mulher, Tereza. Como foi isso?
Pedro Collor – Não foi exatamente isso. Eu e Tereza tínhamos passado por uma crise conjugal, o que acontece muitas vezes entre casais. Isso foi em 1987, quando Fernando era governador de Alagoas. Nesta ocasião, eu estava no Canadá. Tive a informação de que ele chamou Tereza para conversar no palácio. Conversaram durante um bom tempo. Ali era o lugar onde ele tinha intercurso, com algumas moças. Houve fofocas sobre isso e eu fui informado. Tereza foi depois para Paris e Fernando me chamou para dizer que havia conversado com ela e que eu me preparasse porque ela iria se separar de mim. Disse que eu havia pisado muito na bola e que me preparasse. Em paralelo, eu sabia que ele estava telefonando para ela em Paris, naturalmente utilizando a fragilidade da relação para telefonar e talvez até fazer a cabeça dela. Eu consegui as contas telefônicas do palácio que comprovaram essas ligações.
VEJA – Houve uma tentativa explícita de sedução?
Pedro Collor – Eu acredito que implicitamente ele tentava mapear a situação, diante de uma pessoa fragilizada emocionalmente pela perspectiva de uma ruptura de casamento. Uma voz simpática. um ombro amigo…
VEJA – Tereza, houve uma tentativa de sedução?
Pedro Collor – Não, ele tem esse jeito de falar que é meio fraternal, meio conselheiro.
VEJA – Apesar de sua suspeita de paquera por que continuou freqüentando seu irmão? Por que esteve na posse dele como presidente?
Pedro Collor – Porque não se deve sair arrebentando portas. Tive controle emocional.
VEJA – Pelo que se deduz, o senhor coloca esse episódio como um entre vários através dos quais seu irmão tenta atingi-lo. É isso?
Pedro Collor – O que ele quer é me ver distante do comando administrativo das empresas que temos. Para colocar uma pessoa dele lá dentro, por uma questão política.
VEJA – O senhor nomeou alguém para o governo federal?
Pedro Collor – Nem para a prefeitura de Maceió nem para o governo de Alagoas nem para o governo federal.
VEJA- Por quê?
Pedro Collor – Não é do meu feitio.
VEJA – O que o senhor acha das nomeações do Leopoldo (irmão mais velho de Collor)?
Pedro Collor – Eu não conheço as nomeações do Leopoldo. Não converso sobre esse assunto com ele.
VEJA – O senhor já admitiu que consumiu drogas na juventude. Como foi isso?
Pedro Collor – Quando eu era jovem, era uma coisa que estava na moda, lá por 1968,1969,197O.
VEJA – Em 1968, o senhor estava com 16 anos de idade.
Pedro Collor – Mas é isso.
VEJA – Que tipo de droga?
Pedro Collor – Cocaína.
VEJA – Seu irmão Fernando também?
Pedro Collor – Sim.
VEJA – Foi ele que o induziu a experimentar cocaína?
Pedro Collor – Não é que induziu, nem apresentou nem nada. As pessoas, por serem de faixa etária um pouco acima, naturalmente têm mais acesso a esse tipo de coisa. Foi assim que aconteceu.
VEJA – LSD também tinha?
Pedro Collor – Teve também LSD, umas duas ou três vezes.
VEJA – O senhor largou isso quando?
Pedro Collor – Logo depois. Senti que me fazia mal. Emagreci muito.
VEJA – Quanto ao presidente, o senhor tem notícia de que ele tenha consumido drogas após essa época na Juventude?
Pedro Collor – Não, depois dessa época. não.
VEJA – O senhor já ouviu falar em Allan Mishai Fauru?
Pedro Collor – Conheço desde menino do Rio. Um belo dia, o Fernando já governador, me parece, o Allan o convidou para ser padrinho do casamento dele. Depois ele se mudou para Maceió, anos mais tarde, e montou um boteco. Soube depois que ele tinha ligações com traficantes, vendia, repassava. Mas ele não tem qualquer relação com o Fernando, absolutamente.
VEJA – O senhor não acha que as instituições brasileiras correm algum risco com assuas denúncias?
Pedro Collor – Acho que nossas instituições agüentam o tranco. Se eu começar a entrar muito em considerações a respeito do governo, eu não dou um passo. Tenho de fazer aquilo que acho correto. Que os outros façam as partes deles.
VEJA – O senhor acredita que, com as últimas mudanças no ministério, o PC é menos influente no governo?
Pedro Collor – Sim. Ele perdeu toda ou quase toda a sustentação.

Pedro Collor morreu em 19 de dezembro de 1994, aos 42 anos de idade.

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