sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sobre a crise de 1929 e a Grande Depressão - esclarecendo causa e consequência



Como pode uma simples queda na Bolsa de Valores gerar mais de 15 anos de depressão econômica?


No ano de 1921, houve uma profunda depressão na economia americana. O desemprego saltou de 5 para quase 12%. A economia se contraiu em incríveis 17% e os preços desabaram mais de 10%.
O que fez o governo americano à época, liderado pelo presidente Warren G. Harding?
De um lado, ele permitiu que os salários caíssem livremente, de modo a acompanharem os preços em queda. Isso fez com que os custos de produção das empresas rapidamente se estabilizassem. Harding, ao contrário dos presidentes de hoje, em momento algum disse que a queda dos salários seria ruim para a economia.
De outro, ele cortou profundamente os gastos do governo (em incríveis 50%), diminuiu o imposto de renda para todas as classes sociais e, de quebra, ainda reduziu a dívida do governo americano em 33%.
Por sua vez, o Federal Reserve — o Banco Central americano — nenhuma iniciativa tomou para contrabalançar a crise. Quando ele reduziu os juros de 6% para 5%, a depressão já havia acabado.
A liberdade de ajuste de preços e salários, em conjunto com a redução do fardo do estado sobre a economia privada, fez com que aquela profunda depressão de 1921 estivesse já totalmente superada em 1923.
Hoje, são raros os livros de história que sequer a mencionam. É como se ela não houvesse existido. O fato de o governo americano nada ter feito para contrabalançá-la — e por isso mesmo ela ter sido rapidamente solucionada pelo livre mercado — certamente é algo que abala a crença dos intervencionistas. Por isso mesmo sua diligência em escondê-la. Pode-se dizer que a depressão de 1921 foi a última na qual um governo não se intrometeu. Por isso mesmo, foi também a mais rápida.
Para quebrar esse silêncio, o economista James Grant, um dos mais respeitados economistas dos EUA e do mundo, escreveu um livro inteiro dedicado a esse assunto

A robusta recuperação da economia americana em 1923 deu início aquele período de prosperidade que se tornou conhecido como "os loucos anos 20".
Mas aí a história foi diferente.
Durante o resto da década 1920, o Banco Central americano reverteu sua postura até então conservadora e adotou uma política monetária muito mais expansionista: em 1920, os juros estavam em 6% ao ano. Ao final de 1927, eles já haviam caído para 3,5%. Uma redução de 42%.
Essa política monetária expansionista foi a principal responsável por sustentar a febre especulativa dos "loucos anos 20". A contínua criação de dinheiro pelo Federal Reserve permitia que os bancos concedessem, de forma contínua e aparentemente sem limites, empréstimos fartos e baratos para especuladores, os quais utilizavam esse dinheiro barato para comprar ações e, em seguida, revendê-las a preços muito maiores. A expansão monetária feita pelo Fed garantia que os preços das ações subissem continuamente. (Tudo isso está documentado em detalhes neste livro).
Vale ressaltar que é impossível preços de ativos subirem continuamente sem que esteja havendo uma grande expansão monetária, que dê sustentação a esse processo de alta nos preços. Sem expansão monetária é impossível preços subirem eternamente. E quem controla o processo de expansão monetária de um país é o seu Banco Central.
E assim foram os loucos anos 1920.
Até que, em fevereiro de 1928, o Fed, assustado com toda aquela febre especulativa, reverteu sua postura e, contrariamente às expectativas, começou a subir os juros. E o fez por três vezes seguidas. Em um período de 5 meses, ele elevou os juros de 3,50% para 5%. Pode parecer pouco, mas esse aumento de 43% em 5 meses bastou para interromper toda a farra especulativa.
Com o crédito mais caro, os especuladores começaram a ter dificuldades em auferir lucros em suas ações. Pegar dinheiro emprestado para comprar ações (um processo conhecido como "alavancagem") tornou-se 43% mais caro em 5 meses. Com menos empréstimos sendo tomados, a quantidade de dinheiro na economia parou de aumentar. (De novo, todas essas estatísticas estão documentadas neste livro). Com essa interrupção no crescimento da quantidade de dinheiro na economia, a própria atividade especulativa perdeu a potência. Os preços das ações pararam de subir.
Uma correção na bolsa de valores era inevitável.
O empurrão
E essa correção veio, mas de uma maneira inusitada.
No dia 29 de outubro de 1929, já com praticamente toda a atividade especulativa paralisada, a bolsa de valores americana desabou 12% em um único dia. Esse fenômeno, que ficou conhecido como a "terça-feira negra", é do conhecimento de todos. Mas o que não é muito bem conhecido é o que realmente precipitou essa correção tão súbita e tão substantiva.
Sim, a política monetária do Fed — que subitamente reverteu quase uma década de expansão monetária e dinheiro barato — criou as bases para que essa correção ocorresse, mas houve um outro detalhe: a história já revelou que, naquele dia 29 de outubro, correu a notícia de que o então presidente Herbert Hoover iria implantar a Tarifa Smoot-Hawley, que elevaria as tarifas de importação de mais de 20 mil produtos a níveis jamais vistos na história. Alem de encarecer substantivamente as importações, isso geraria uma guerra comercial e representaria um golpe fatal ao livre comércio.
Imediatamente os preços das ações das empresas desabaram.
Sobre essa tarifa, Thomas Lamont, alto executivo do J.P. Morgan, disse que "Eu quase me prostrei de joelhos perante Hoover para implorar que ele vetasse a asinina tarifa Smoot-Hawley". Já o presidente da GM européia, Graeme K. Howard, enviou um telegrama a Washington alertando que a aprovação da Smoot-Hawley levaria "à mais severa depressão jamais vivenciada pelo mundo".
Os mercados nunca precificam o presente; eles sempre miram o futuro. Os preços presentes são apenas os preços futuros descontados. Uma legislação criada para reduzir o comércio global inevitavelmente afetaria os mercados e os preços das ações das empresas. Com um comércio global muito mais restringido, os lucros das empresas exportadoras e importadoras seriam severamente afetados. A Bolsa de Valores apenas antecipou essa queda.
Uma queda na Bolsa gera uma depressão de 15 anos?
Até aqui a narrativa é bastante convencional. Quedas abruptas e inesperadas na Bolsa de Valores estão longe de ser um fato atípico. Isso já havia acontecido em 1920. E voltaria a acontecer novamente em 1987 — uma queda, aliás, muito maior, de 22%.
Por que nenhuma dessas duas quedas gerou uma grande depressão? Por que apenas a queda de 1929 teve esse potencial?
Essa é a pergunta que tem de ser respondida.
Para isso, entra em cena Herbert Hoover.
Pesquisas históricas conduzidas sem paixões ideológicas e sem panfletagens políticas revelam o básico: Herbert Hoover sempre fora um político incessantemente intervencionista.
Hoover, um homem bem intencionado e de instintos apurados, havia sido um bem-sucedido engenheiro de minas antes de entrar para o setor público. Por ser muito intelectualmente capacitado, ele acreditava que praticamente tudo podia ser manipulado e controlado como se fosse um projeto de engenharia. Essa sua filosofia foi trazida à tona durante o crash da bolsa em 1929.
Para começar, Hoover era abertamente contrário ao livre mercado. E por um motivo: ele sabia, corretamente, que uma livre concorrência desregulamentada forçaria as empresas a reduzir seus preços. Tendo sido ele próprio um homem da iniciativa privada, ele via uma queda de preços como algo inerentemente ruim. Pior: ele acreditava que preços menores levavam a salários menores.
Em novembro de 1929, pouco depois da queda da bolsa, Hoover convocou uma reunião com os presidentes das principais indústrias americanas. Henry Ford, da Ford Motor Company; Alfred Sloan, da GM; e Pierre Dupont, da Dupont Chemicals, lideraram o grupo que se encontrou com Hoover.
O presidente, então, impôs algumas diretivas sem precedentes: 1) Apesar da economia fraca e abalada pela queda da Bolsa e pelo fim da atividade especulativa (vale relembrar que especular na bolsa havia se tornado uma febre entre os americanos de todas as classes durante quase toda a ultima década), salários não deveriam em hipótese alguma ser reduzidos; 2) As demissões deveriam ser evitadas ao máximo. Se a empresa realmente tivesse de reduzir mão-de-obra, que o fizesse por meio da redução da carga horária — ou seja, dois trabalhadores deveriam, cada um, trabalhar apenas meio expediente, ou apenas dia sim, dia não.
Em troca da manutenção dos empregos e da não-redução dos salários, Hoover prometeu aos industriais que ele convenceria trabalhadores e sindicatos a não fazerem greves e a não exigirem benefícios e pagamentos adicionais.
E ele cumpriu a promessa. Os trabalhadores não fizeram greves. E as indústrias não reduziram os salários. Com efeito, Henry Ford chegou a aumentar os salários como um gesto de solidariedade.
O engenheiro Hoover, ao que tudo indicava, havia conseguido engenheirar a solução perfeita. Só que ela não funcionou.
Com o Fed tendo subido os juros e parado de expandir a oferta monetária, pessoas que haviam pedido empréstimos para especular com ações não mais conseguiam revender suas ações a preços maiores e, consequentemente, não mais conseguiam quitar suas dívidas. Elas começaram a dar calotes nos bancos. Os bancos então começaram a restringir empréstimos e a pedir a quitação de empréstimos pendentes.  As pessoas se assustaram com a situação e correram para sacar seu dinheiro dos bancos.  
Como os bancos praticam reservas fracionárias, isso gerou uma série de falências bancárias.  Essas falências bancárias geraram uma forte contração na oferta monetária — consequentemente, uma recessão.  
Tal recessão não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários — exatamente como havia feito em 1921 —, de modo que estes se adequassem à nova realidade da oferta monetária. Mas Hoover não permitiu que isso acontecesse.
Consequentemente, com essa ampla deflação monetária, foi impossível conter a queda dos preços. Em 1930 e 1931, os preços dos produtos industriais caíram. As pessoas simplesmente não tinham dinheiro para comprar bens ou para investir nas empresas.
E, para piorar tudo, a tarifa Smoot-Hawley de fato foi aprovada em 1930. Com as maiores tarifas de importação da história, não apenas as empresas e os cidadãos americanos não mais conseguiam importar bens baratos — uma extrema necessidade em um ambiente em que a quantidade de dinheiro na economia estava diminuindo —, como também os parceiros comerciais dos EUA retaliaram impondo pesadas tarifas sobre os produtos americanos.
Todo o comércio global foi paralisado.
Com as exportações americanas reduzidas à metade, os preços dos produtos industriais americanos desabaram.
Mas os salários — por causa da imposição do governo — continuaram sem ser reduzidos. Ou seja, receitas em queda e custos congelados. A consequência? Várias indústrias foram à falência.
À medida que a Depressão foi se aprofundando, a indústria pediu a Hoover permissão para finalmente reduzir os salários. Mas Hoover se recusou. "Se reduzirem os salários, os sindicatos farão um inferno", dizia ele.
Mas ao final de 1931, com a economia em frangalhos, a indústria rompeu o acordo com Hoover e finalmente reduziu os salários. Porém, como apenas reduzir os salários não adiantava, ela também começou a demitir em massa.
Mas já era tarde demais para interromper a queda livre. Falências geravam mais falências. O desemprego pulou de 3,2% em 1929 para 23,6% em 1932.
Hoover tentou contrabalançar a situação aumentando vastamente os gastos governamentais, apresentando um programa de nove metas estatais que incluíam grandes obras públicas, como a Represa Hoover. Ele aumentou os gastos do governo em quase 50% em termos nominais (e 87% em termos reais, considerando-se a deflação da época). Não satisfeito, elevou a alíquota máxima do imposto de renda de 25% para 63%.
Hoover implantou tudo aquilo que ele, como um engenheiro, imaginou que traria a economia de volta à prosperidade. Ele só não fez exatamente aquilo que seria o certo: deixar o livre mercado curar a situação, exatamente como em 1921.
Uma recessão que não deveria durar mais do que dois anos se transformou em uma depressão que durou 15 anos.
E ainda há quem diga que Herbert Hoover foi um adepto inflexível do laissez-faire.
Conclusão
Ao contrário do senso comum ensinado nas escolas e universidades, uma queda no valor das ações na bolsa (que foi o que aconteceu em 1929) por si só não gera depressão.  Em 1987, por exemplo, a bolsa americana caiu 22% e não houve depressão. 
O crash da bolsa de Nova York em outubro de 1929 teve suas origens na expansão do crédito feita pelo Federal Reserve em concerto com o sistema bancário de reservas fracionárias ao longo de toda a década de 1920.  Tal expansão gerou um boom sem precedentes no mercado de ações, levando a uma euforia especulativa generalizada.  Quando a expansão do crédito foi interrompida em decorrência de pressões inflacionárias, a euforia foi abruptamente interrompida, e deu-se início ao processo de correção.
A Grande Depressão, na verdade, não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários (exatamente como havia feito na depressão de 1921, que foi ainda mais intensa, mas que durou menos de um ano justamente porque o governo permitiu que o mercado se ajustasse). 

Porém, o governo fez exatamente o contrário: além de aumentar impostos e gastos, ele também implantou políticas de controle de preços, controle de salários, aumento de tarifas de importação (que chegou ao maior nível da história), aumento dos gastos do governo, e aumento de impostos. Para piorar: ele estimulou uma arregimentação sindical de modo a impedir que as empresas baixassem seus preços. 
Em 1933, entrou em cena Franklin Delano Roosevelt, que simplesmente deu continuidade às políticas intervencionistas de Hoover, inacreditavelmente prolongando a Depressão até 1946.

Um simples crash da bolsa de valores foi amplificado pelas políticas intervencionistas e totalitárias do governo, gerando uma depressão que durou 15 anos e que só foi resolvida quando o governo encolheu, em 1946. 

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Leituras complementares e obrigatórias:
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Lee Ohanian é professor de economia da UCLA.
Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil. 


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