29 abril 2019

Devassa (Luiz Felipe Pondé)





De quatro, ela gemia. Por trás, ele a penetrava e doía. O amor anal é sempre selvagem e mais íntimo do que todos os outros. Gemia de dor, as lágrimas escorriam pelos lábios. Ele puxava seus cabelos loiros com força. Sentia-se uma cadela, momento supremo, pedia que a tratasse por cachorra. Um filósofo diria: eis a mulher. 

Finalmente sentindo-se objeto, como sempre quis. Finalmente alguém que não a respeitava. Espécie em extinção, homem que não pede licença. As mulheres ainda vão sonhar com o tempo que faltavam com o respeito com elas nas ruas. 

Ao final, veste-se. A roupa branca trai sua função social: médica. Já no hospital, sorri para seus pequenos pacientes indefesos. Pediatra bem-sucedida. 

Na TV, uma entrevista com uma chatinha condena o comercial da cerveja “Devassa” como sendo exploração da mulher. Nossa médica gostosa, do alto de seu salto e de sua roupa branca, sonha em ser de novo objeto no dia seguinte. O amor anal a deixa ali onde ela quer estar: no lugar do objeto. Nenhuma mulher é mais amada do que a que é objeto de alguém. E ela pensa: “como essas chatinhas atrapalham minha vida”. Escondida por baixo das roupas brancas, uma espécie caçada: a devassa. A mulher que gosta de homem e não é histérica. 

A lembrança ainda escorria em suas pernas. Criada num mundo ignorante sobre sexo, porque o confunde com província da “biopolítica”, nossa heroína do amor anal demorou a descobrir o que se sabe desde a Pré-história. Fala-se “penetrar uma mulher” porque a anatomia imita a vida do afeto: o amor é invasão da vida. 

Dedico esses aforismos imorais a ela.



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