02 outubro 2021

O Agamênon e as Mulheres


Depois do assassinato (1882), de John Collier (1850-1934), exposto na Guildhall Art Gallery de Londres.

O livro Agamênon, que faz parte da Oréstia (três livros, a saber: Agamênon, Coéforas e Eumênides), do escritor grego Ésquilo, foi escrito em 458 a.C., época em que Artaxerxes I da Pérsia, após receber notícias da sua derrota para os atenienses no Egito, envia Megabasus (Megabizo) a Esparta, com uma oferta em dinheiro para que eles ataquem Atenas. Os espartanos recusam o suborno. Em Israel, foi o ano do retorno de Esdras (Ed 7.6,7).
No Agamênon, a história é a seguinte: Agamênon, rei dos Atridas, retorna da Guerra de Troia. Ao voltar, traz consigo Cassandra, filha de Príamo, rei de Troia, profetisa sem credibilidade.
Sua esposa, Clitemnestra, irmã de Helena (a mesma a quem se atribui culpa pela Guerra de Troia), tem um caso com o primo de Agamênon, Egisto (a quem Zeus trata como mau exemplo de piedade). Egisto colaborou com a morte de Agamênon, pela mão da própria esposa Clitemnestra, mas o filho do morto, Orestes, vinga-se matando o casal.
Bem, há muito o que se dizer desta obra, podemos especular sobre justiça, traição, culpa, vingança, adultério... Por ora, provavelmente por falta de capacidade minha de uma análise rica, quero abrir os seus olhos sobre a figura da “mulher” nesta obra.
Vamos começar (a propósito, a obra é uma peça de teatro, não um romance)[1]:

1.                 Já no verso 11, temos a fala da Sentinela (um soldado que do alto do palácio dos Atridas, por ordem de Clitemnestra, espera o rei Agamênon), que ao referir-se a Clitemnestra, sua rainha, diz que está ali por “ordens da mulher de ânimo viril”. Ânimo viril? Está aí o primeiro ponto. Uma mulher que tem ânimo, vontade forte, tem decisão, tem ânimo viril. Ora, viril é uma palavra originária do latim uir (vir), macho, homem. O soldado disse que ela possuía ânimo de homem (em grego,  ἀνδρόβουλος).
2.                 Clitemnestra diz ao Corifeu (que era o chefe do coro, idoso – v. 1619) que os gregos capturaram Troia (v. 269 - Τροίαν χαιν οσαν:  τορς λέγω;). Ela já está se irritando porque o Corifeu não lhe dá crédito, por ser ela mulher, evidentemente. Por isso lhe diz: “Os gregos capturaram Troia! Ouviste agora?” O Corifeu continua duvidando: Tens provas? Não terias sonhado? Ouviste algum rumor? Clitemnestra, irritada, responde: “Igualas o meu pensamento ao das crianças?” (v. 277 - παιδς νέας ς κάρτ μωμήσω φρένας.)
A dúvida do Corifeu se deve, não só por tratar-se de uma mulher, mas por ela ter uma notícia tão importante, e de forma tão privilegiada. Clitemnestra diz que foi Hefesto, o deus do fogo, pois com a inteligência de determinar que nos altos se acendesse uma fogueira, desde o mar até onde eles estavam, assim que se avistasse o navio do rei, as fogueiras informariam da sua chegada, estando a rainha avisada antecipadamente.
A reclamação de Clitemnestra permanece: afinal, a palavra de uma mulher vale tanto quanto de uma criança pequena? (παιδς νέας)
3.                 Ainda conversando com o Corifeu, Clitemnestra, no v. 348, diz “Ouviste simples pensamentos de mulher” (τοιαῦτά τοι γυναικὸς ἐξ ἐμοῦ κλύεις:). Talvez ao falar assim, Clitemnestra esteja falsamente se rebaixando, esteja usando de ironia. O Corifeu desmerece sua palavra por ser mulher, e ainda se esquece de que está falando com a Rainha, mas Egisto, lá na frente, não perdoará o desrespeito (v.
4.                 No v. 351, o Corifeu considera as palavras de Clitemnestra e julga que ela fala corretamente, com sabedoria, por isso diz: “Mulher, falas tão sabiamente como um homem prudente”. (γύναι, κατ᾽ ἄνδρα σώφρον᾽ εὐφρόνως λέγεις. )
5.                 O Corifeu está discutindo com Egisto. Este diz que ele não reconhece seu lugar inferior e fala com desrespeito aos poderosos, e apesar de velho deveria aprender mais. O Corifeu, irado, responde-lhe nestes termos (v. 1625, 1626): “Mulher! Tu és mulher, tu, que permaneceste refestelado em casa, apenas esperando” (γύναι, σὺ τοὺς ἥκοντας ἐκ μάχης μένων /οἰκουρὸς εὐνὴν ἀνδρὸς αἰσχύνων ἅμα). Egisto acha por bem se explicar que se escondeu por ser inimigo do Rei e isto levantaria suspeitas sobre si. Evidentemente, não se explica só para responder a contento, mas para tirar de si a pecha de ser tratado como uma mulherzinha medrosa.
É assim que, sem apresentar juízo de valor, considerando a época em que foi escrito, apresento a mulher em Ésquilo. Ainda falaremos sobre isso.







[1] Quando não houver outra tradução em português, usarei a de Mário da Gama Kury.

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