sábado, 1 de outubro de 2016

"Vírus da Moda" (Vilma Gryzinski)




Não é difícil entender o que alguém realmente quer dizer quando invoca o famoso "já está mais do que na hora de discutir". Na verdade, a pessoa acha que está mais do que na hora de entender a inevitabilidade do caixa dois nas campanhas políticas, liberar as drogas ilícitas ou aprovar leis que permitam o aborto sem restrições. Este tipo de argumento nunca foi tão utilizado como agora, em razão da ansiedade e do medo das mulheres que estão grávidas ou pensando em engravidar, em face da possível conexão entre o vírus zika e a microcefalia. Sempre é hora de discutir qualquer coisa, ainda mais uma coisa de incrível complexidade e especificidade ética como o aborto, que envolve a situação única de uma mulher, e seus planos para a própria vida, e a vida que se desenvolve dentro dela, em vários estágios, podendo desabrochar no mais incomparável milagre humano, o nascimento de uma criança. A palavra "humano" foi usada de propósito, para manter a discussão nos limites laicos. Não é preciso, evidentemente, seguir os princípios de qualquer religião para entender os desafios éticos dessa questão. Mas, em geral, quem acha que "já está mais do que na hora de discutir" olha para quem se dispõe a fazê-lo como se fosse um ser atrasado, primitivo e totalmente desinformado do fato de que "todo mundo"  se avançado, sofisticado e bem informado — permite o aborto.

A falácia do apelo à multidão é espantosamente frágil, mas vamos lá a um exemplo. "Todo mundo" faz aborto de feto de menina na Índia. Claro que não são todas as gestantes, mas uma quantidade impressionante de mulheres, a ponto de o país ter a menor proporção de nascimento entre meninos e meninas em todo o mundo: nascem 1 000 bebês do sexo masculino para cada 919 do sexo feminino, um desequilíbrio de graves consequências sociais. Governos sucessivos já tentaram proibir que os médicos revelem o sexo do feto na hora do ultrassom e banir o próprio
exame, acessível em qualquer quebrada da imensidão indiana. Mulheres da Índia que abortam meninas têm tantas razões, alguns diriam até mais, quanto aquelas que se sentem impelidas pelos três "nãos" habituais — não agora, não com esse cara e não mais um. Elas podem ser socialmente discriminadas e execradas pela família do marido. Em casos extremos, podem ser queimadas vivas pela sogra e pelos cunhados. 

Alguém que se propõe a defender os direitos da mulher aceitaria a eliminação de fetos por serem do sexo feminino? É difícil, mas não impossível. Por causa de suas implicações tão profundas, o aborto costuma despertar reações extremadas, dos dois lados. Mulheres também podem ter respostas aparentemente ilógicas, pois razão, sentimentos e arquétipos tão antigos quanto a própria vida formam um enorme emaranhado. Aliás, nessa questão única, quem quiser racionalidade que se dirija ao balcão do outro, ou outros, gênero. Mulheres que são contra o aborto podem recorrer a ele diante de uma gravidez indesejada. Aquelas que jamais duvidaram sequer um momento da correção da intervenção de repente começam a pensar em nomes, roupinhas e decoração do quartinho. É possível fazer um aborto e nunca mais pensar no assunto ou, de repente, olhar para o próprio filho e imaginar que ele poderia ter um irmão. 

O que não é aceitável, para quem deseja uma discussão honesta, é defender o aborto como primeiríssima medida diante da possibilidade de microcefalia, uma síndrome que só pode ser detectada com a gestação avançada e nem sempre se manifestar da mesma maneira — tampouco é ético execrar mulheres amedrontadas que pensam nessa intervenção. Carissa Etienne, médica dominiquense que dirige a Organização Panamericana de Saúde (Opas, a intermediária dos médicos cubanos), esteve no Brasil e declarou numa entrevista coletiva: "Gostaria de aproveitar a ocasião para dizer que as mulheres deveriam ter o direito de estar grávidas ou não". Uma opinião legítima, à qual a pernambucana Solange Ferreira, mãe do "bebê-símbolo" da microcefalia, contrapõe com a generosidade dos grandes de alma. "Para mim, ele é normal", disse ela à BBC Brasil. "Quando dizem que ele não vai andar, fico brava com esse povo. Me dizem que ele tem defeito, mas eu respondo que quem tem defeitos são eles."

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