19 setembro 2023

OS JUDEUS NO EGITO (Capítulo V)




Os judeus eram um povo de pastores, e a vida urbana num país estrangeiro não lhes ia com o genio. Na adaptação ao Egio perderam a independencia e tornaram-se lavradores comuns, dos que trabalhavam para o rei e eram tratados como escravos.


Ha cem anos atrás não podiamos ler a língua dos egipcios, mas logo que a chave dos seus hierogrifos (ou escritos sagrados) foi descoberta, defrontamo-nos com grande abundancia de informações historicas, de modo que hoje não dependemos apenas do Velho Testamento para o estudo desse periodo.

No seculo 15 A. C. o Egito fôra conquistado por uma tribu de pastores arabes, de nome Hyksos. Pertenciam á mesma raça semita dos judeus. Logo que se senhorearam da terra ergueram nova capital, centenas de milhas distante da velha cidade de Tebas – e por quasi trezentos anos permaneceram os senhores absolutos do vale do Nilo.

José veio ao Egito sob o reinado do Faraó Apepa, o ultimo soberano da dinastia Hyksos. Depois de muitas tentativas os egipcios conseguiram, afinal, libertar-se desses opressores. Chefiados por um rei nativo, de nome Ashmes (de Tebas) expulsaram os Hyksos e voltaram a ser os donos da terra. Isto veio dificultar a situação dos judeus, que se havia mostrado muito amigos dos expulsos. José ocupara alta posição na côrte dos Reis Pastores, e á custa do cargo muito favorecera a sua gente, com prejuizo dos naturais. Ninguem esquecia esse fato, e poucos se recordavam de que fôra ele o salvador do país durante o tempo das calamidades. Os judeus eram olhados com rancor, e desprezados.

Mas para os descendentes de Abraão a longa permanencia nos agradaveis vales do Nilo fôra uma benção. Até então haviam sido apenas pastores, amigos da vida simples dos campos. A emigração os pusera em contato com um povo que dava preferencia á vida urbana. Conheceram o luxo, as comodidades dos palacios de Tebas, Menfis e Sais. E breve começaram a desprezar as rudes tendas que por tantos seculos contentaram os seus antepassados. Por fim venderam os rebanhos e, abandonando as terras de Goshen, mudaram-se para as cidades.

As cidades, entretanto, já andavam superlotadas. Os recenvindos não foram vistos com bons olhos. Eram gente que viria tirar-lhes o pão da boca.

Não tardaram os atritos entre os da terra e os judeus, atritos que continuamente se foram agravando até degenerarem em conflitos. Por fim foi dada aos judeus a escolha: ou tornavam-se egipcios ou abandonavam a terra de adoção.

Metidos naquele dilema, os judeus tentaram um acordo, como qualquer povo o faria nas mesmas circunstancias. Foi peor. E a situação foi-se tornando intoleravel de parte a parte.

A fome determinara a vinda dos irmãos de José para o Egito. Um motivo de força maior, pois, não simpatia ou afinidade. Daí a ideia do retorno a Canaã sempre vivedoura na cabeça dos seus descendentes. Mas era dificil a mudança. Trocar a fartura daquelas terras pela escassez do deserto? Alem do mais, a vida urbana possue muitas amenidades amolentadoras. Os judeus mostravam-se indecisos.

Temiam as incertezas do futuro muito mais que os perigos do presente, e em consequencia nada fizeram. Deixaram-se ficar nos sordidos pardieiros das cidades egipcias.

O tempo se passava – anos, seculos – e tudo ia ficando na mesma. Um dia um grande chefe apareceu, o qual enfeixou todas as tribus judaicas numa só nação. Tirou-os dos ferteis vales do Nilo, onde a vida era tão facil, mas solapadora da fibra racial, e reconduziu-os novamente ás durezas da terra de Canaã, que Abraão e Isaac consideravam a verdadeira patria dos judeus.

FONTE: Hendrik, Willem Van Loon. A História da Bíblia. Companhia Editora Nacional, Rio de Janeiro, 1940, págs. 61 a 64. Tradução de Monteiro Lobato.

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