30 janeiro 2023

A Muda (Chico Anysio)

 



UMA DAS 29 CRÔNICAS DO LIVRO "O ENTERRO DO ANÃO", de 1973. O segundo livro de Chico Anysio.


A MUDA

 

 

O pai, homem aquém de remediado, morrera atropelado no aterro do Flamengo.

A mãe, viúva, ficou pra tomar conta do estudo e, muito mais, do proceder das filhas que cresceram em despudor, depois do pai sumido.

Teresa, a mais novinha, passara dos dezoito anos há coisa de três semanas; Cristina, mais morena, pele curtida ao sol do Castelinho, freqüentadora assídua dos bares do Leblon, eterna viajante de noites mal dormidas, fizera 20 anos no domingo de Páscoa. A outra era Maria Auxiliadora, de honra entregue a um moço de vasta cabeleira, dono de um Porsche, eterno vencedor na Curva do Calombo. As curvas de Maria há muito ele freqüentava.

 

A mãe das três menininhas perdera o dom da fala e, em sua mudez, doença contraída de um modo repentino e nunca explicado, sofria, sem palavras, o feio que as meninas faziam pela vida, nas voltas do pecado.

Depois que o velho Andrade morreu no asfalto quente, as três meninas, que nunca foram santas, partiram por completo pra vida de deslizes. Eram tão fáceis de se porem deitadas que até nos dias rubros saíam para o amor. As filhas professoras, o sonho de Andrade, estava pra sempre relegado a não passar de sonho.

 

A mãe, no seu silêncio, escrevia conselhos que depositava na cama das mocinhas. Em cada travesseiro palavras de advertência, que nem eram lidas, apenas amassadas. E os papéis rasgados, jogados nas janelas, faziam-se confetes caindo pelo espaço.

Mudaram-se pra Tijuca.

Pensava Conceição que, assim, mudasse o procedimento das filhas.

Mudou o itinerário dos carros que as pegavam e, céleres, partiam pras bacanais em belas coberturas, as mesmas freqüentadas nos tempos recentes em que ainda moravam na Rua Paissandu.

Sozinha, noite adentro, a mãe das três vaquinhas mais muda se tornava, pedindo que os milagres também lhe acontecessem e que Deus transformasse as filhas em moças de decência; que os homens esquecessem ao menos de Alaria, por quem a mãe nutria certa preferência. Teresa, pobrezinha, não era tão culpada. As outras a levaram à vida pela noite e ela, inocente, espírito tão fraco, foi indo, foi gostando, ficou igual às duas. A culpa principal era de Cristina que, desde pequenina, botava o olhar nos homens, andara de xodó até com Seu Tavares, homem velho pra ela, àquela altura com 14 anos.

 

A noite era comprida, o dia não chegava. Comprida na Tijuca, pra mãe sempre em vigília. Pras moças, cada noite passava num minuto. Eram noites lindas, de beijos incontáveis, procura e encontro loucos de corpos adolescentes, em camas diferentes, caras variadas, copos transbordantes de uísque, incrementando mais a fúria pelo sexo que, mesmo sem bebida, seria furiosa.

 

Se a noite era extensa, calcule a madrugada.

Na cama encimada por uma cruz de Cristo, a velha Conceição chorava, perscrutando a porta, implorando que as meninas ao menos retornassem a tempo dos vizinhos, saindo pro trabalho, não serem testemunhas.

 

Família a quem contar o transe que passava a pobre Conceição não tinha. Era de Minas. E, sozinha, agüentava o baque. Que Deus tomasse conta do destino das moças, e Ele que fizesse o que achas-se justo. Mas não pregava os olhos sem que as três entrassem.

Depois de adormecidas, chegava ao quarto delas, puxava os co-bertores, cerrava as cortinas, juntava seus sapatos jogados pelo quarto, desamassava as roupas caídas e, então, depositava um beijo em cada testa e, ali, rezava ainda a reza derradeira.

Depois voltava ao quarto e olhava pra dentro. Aí, a velha dormia.

 

Um dia, foi Teresa que não voltou pra casa. Chegaram, de automóvel, Cristina e Maria. A velha Conceição achou estranho e escreveu:

— Por onde anda Teresa?

Ficou sem ter resposta. Maria deu de ombros; Conceição, nem se deu.

Vestiram-se ou despiram-se na bela minissaia e, sem falar com a mãe, sumiram.

Teresa, onde estava? A mãe não entendia. Havia um telefone que ela pouco usava. Falar, não falaria, mas saberia ouvir "mamãe, não vou dormir, vou ficar com uma amiga". Havia o telefone. Mas ele não tocava.

 

Depois,  então,  Cristina  não  voltou.  Maria  chegou  só, trazida por um louro de barba, cabelos grandes. A velha Conceição, no papel de embrulho, escreveu a pergunta que deu para Maria:

— Por onde anda Cristina?Maria deu risada.

 

— Tá pelai.

E nada mais falou.

Teresa e Cristina já tinham apartamento montado em Ipanema, em rua junto à praia, e pago com o dinheiro que arrecadavam ao fim das suas noites, agora já vendidas.

Maria Auxiliadora, que era a mais gostada, ficou com sua mãe por mais um mês ou dois. Após o que também deixou de aparecer.

Um dia, no jornal, saíram os três retratos. Um carro perdera a direção em meio a Niemeyer, e o mar levara junto o carro e os ocu-pantes. Havia seis no carro: três moços e as três filhas da velha Conceição, que olhava os três retratos.

 

No fogão, somente uma panela, onde fazia a sopa, pra almoço e jantar.

A mão da dona velha torceu o botão, fazendo o gás sumir, o fogo se apagando...

Andou feito fantasma, olhando o quarto, as camas...

Fechou as cortinas. Na cama de Maria sentou meio sem jeito, assim como se estivesse em casa desconhecida. A ponta do avental secou-lhe o choro. Os olhos já sem brilho olharam mais o quarto. A falta das bonecas, a ausência dos pertences, a privação total de vida.

 

Depois, voltou à sala, dobrou o porta-retratos com três caras iguais às do jornal.

Abriu mais a janela, deixando entrar o dia, deitou-se no sofá, e sua boca muda pareceu falar:

— Graças a Deus.



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