A MUDA
O pai, homem aquém de remediado, morrera
atropelado no aterro do Flamengo.
A mãe, viúva, ficou pra
tomar conta do estudo e, muito mais, do proceder das filhas que cresceram em
despudor, depois do pai sumido.
Teresa, a mais novinha, passara dos
dezoito anos há coisa de três semanas; Cristina, mais morena, pele curtida ao
sol do Castelinho, freqüentadora assídua dos bares do Leblon, eterna viajante
de noites mal dormidas, fizera 20 anos no domingo de Páscoa. A outra era Maria
Auxiliadora, de honra entregue a um moço de vasta cabeleira, dono de um
Porsche, eterno vencedor na Curva do Calombo. As curvas de Maria há muito ele
freqüentava.
A mãe das três menininhas perdera o dom
da fala e, em sua mudez, doença contraída de um modo repentino e nunca
explicado, sofria, sem palavras, o feio que as meninas faziam pela vida, nas
voltas do pecado.
Depois que o velho Andrade morreu no
asfalto quente, as três meninas, que nunca foram santas, partiram por completo
pra vida de deslizes. Eram tão fáceis de se porem deitadas que até nos dias
rubros saíam para o amor. As filhas professoras, o sonho de Andrade, estava
pra sempre relegado a não passar de sonho.
A mãe, no seu silêncio, escrevia conselhos que depositava na cama das mocinhas. Em cada travesseiro palavras de advertência, que nem eram lidas, apenas amassadas. E os papéis rasgados, jogados nas janelas, faziam-se confetes caindo pelo espaço.
Mudaram-se pra
Tijuca.
Pensava Conceição que, assim, mudasse o
procedimento das filhas.
Mudou o itinerário dos carros que as
pegavam e, céleres, partiam pras bacanais em belas coberturas, as mesmas
freqüentadas nos tempos recentes em que ainda moravam na Rua Paissandu.
Sozinha, noite adentro, a mãe das três
vaquinhas mais muda se tornava, pedindo que os milagres também lhe acontecessem
e que Deus transformasse as filhas em moças de decência; que os homens
esquecessem ao menos de Alaria, por quem a mãe nutria certa preferência.
Teresa, pobrezinha, não era tão culpada. As outras a levaram à vida pela noite
e ela, inocente, espírito tão fraco, foi indo, foi gostando, ficou igual às
duas. A culpa principal era de Cristina que, desde pequenina, botava o olhar
nos homens, andara de xodó até com Seu Tavares, homem velho pra ela, àquela
altura com 14 anos.
A noite era comprida, o dia não chegava.
Comprida na Tijuca, pra mãe sempre em vigília. Pras moças, cada noite passava
num minuto. Eram noites lindas, de beijos incontáveis, procura e encontro
loucos de corpos adolescentes, em camas diferentes, caras variadas, copos transbordantes
de uísque, incrementando mais a fúria pelo sexo que, mesmo sem bebida, seria
furiosa.
Se a noite era
extensa, calcule a madrugada.
Na cama encimada por uma cruz de Cristo,
a velha Conceição chorava, perscrutando a porta, implorando que as meninas ao
menos retornassem a tempo dos vizinhos, saindo pro trabalho, não serem
testemunhas.
Família a quem contar o transe que
passava a pobre Conceição não tinha. Era de Minas. E, sozinha, agüentava o
baque. Que Deus tomasse conta do destino das moças, e Ele que fizesse o que
achas-se justo. Mas não pregava os olhos sem que as três entrassem.
Depois de adormecidas, chegava ao quarto
delas, puxava os co-bertores, cerrava as cortinas, juntava seus sapatos jogados
pelo quarto, desamassava as roupas caídas e, então, depositava um beijo em cada
testa e, ali, rezava ainda a reza derradeira.
Depois
voltava ao quarto e olhava pra dentro. Aí, a velha dormia.
Um dia, foi Teresa que não voltou pra
casa. Chegaram, de automóvel, Cristina e Maria. A velha Conceição achou
estranho e escreveu:
— Por onde
anda Teresa?
Ficou sem ter resposta.
Maria deu de ombros; Conceição, nem se deu.
Vestiram-se ou despiram-se na bela
minissaia e, sem falar com a mãe, sumiram.
Teresa, onde estava? A mãe
não entendia. Havia um telefone que ela pouco usava. Falar, não falaria, mas
saberia ouvir "mamãe, não vou dormir, vou ficar com uma amiga". Havia
o telefone. Mas ele não tocava.
Depois, então, Cristina não voltou. Maria chegou só, trazida por um louro de barba, cabelos grandes. A velha Conceição, no papel de embrulho, escreveu a pergunta que deu para Maria:
— Por onde anda Cristina?Maria deu risada.
— Tá pelai.
E nada mais
falou.
Teresa e Cristina já tinham apartamento
montado em Ipanema, em rua junto à praia, e pago com o dinheiro que arrecadavam
ao fim das suas noites, agora já vendidas.
Maria Auxiliadora, que era a mais
gostada, ficou com sua mãe por mais um mês ou dois. Após o que também deixou de
aparecer.
Um dia, no jornal, saíram os três retratos.
Um carro perdera a direção em meio a Niemeyer, e o mar levara junto o carro e
os ocu-pantes. Havia seis no carro: três moços e as três filhas da velha
Conceição, que olhava os três retratos.
No fogão, somente uma
panela, onde fazia a sopa, pra almoço e jantar.
A mão da dona velha torceu o botão,
fazendo o gás sumir, o fogo se apagando...
Andou feito
fantasma, olhando o quarto, as camas...
Fechou as cortinas. Na
cama de Maria sentou meio sem jeito, assim como se estivesse em casa
desconhecida. A ponta do avental secou-lhe o choro. Os olhos já sem brilho
olharam mais o quarto. A falta das bonecas, a ausência dos pertences, a
privação total de vida.
Depois, voltou à sala, dobrou o
porta-retratos com três caras iguais às do jornal.
Abriu mais a janela, deixando entrar o
dia, deitou-se no sofá, e sua boca muda pareceu falar:
— Graças a
Deus.

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