23 agosto 2020

A SUPERIORIDADE MORAL DAS ESQUERDAS, OU: O RABO E O CACHORRO (Olavo de Carvalho)

DOWNLOAD



A SUPERIORIDADE MORAL DAS ESQUERDAS, OU: 

O RABO E O CACHORRO 




NA ÉPOCA DO IMPEACHMENT de Collor, os Relatórios da gestão Graciliano Ramos na Prefeitura de Palmeira dos Índios — inseridos no volume Viventes das Alagoas e reeditados agora em volume independente — foram muitas vezes citados para lembrar ao público, em contraste com a indecência presidencial, um exemplo clássico de probidade administrativa, adornado, ademais, de um dos mais belos estilos literários da língua portuguesa. A lição edificante, porém, trazia nas entrelinhas uma mensagem política enviesada: Graciliano não comparecia ali apenas como administrador impecável e artista sem mácula, mas como um emblema da superioridade moral da esquerda. Sua figura ajudava a conferir à luta contra a corrupção a subtonalidade ideológica desejada, sem a qual a campanha moralista arriscava produzir o mais temível dos resultados: levar ao poder um punhado de direitistas honestos. A imagem de Graciliano foi levantada para exorcizar esse fantasma. 

O exemplo, no entanto, impressionava antes pela raridade. A direita, fértil em corruptos célebres, possui também em sua galeria de antepassados emblemáticos uma coleção notável de governantes íntegros, como por exemplo o marechal Castelo Branco, incapaz de usar o dinheiro do governo para comprar sequer um envelope de aspirina, ou Pedro II, governando durante quarenta anos desde dentro de um mesmo terno surrado. Mais à direita ainda, não se encontrará a menor mancha na reputação administrativa de Salazar, de Marcelo Caetano ou de Francisco Franco. Mas a vida de todos os grandes líderes comunistas, sem exceção, é uma história escabrosa. Karl Marx teve com a empregada um filho que, em prol da decência burguesa, jamais foi admitido à mesa da família. Lênin começou sua carreira vendendo a Rússia à Alemanha em troca de um trem blindado. Stálin custeava orgias com o dinheiro público, e Mao Tsé Tung, como se revelou há pouco, comia até os guardinhas do Palácio — entrando, literalmente, para os anais da Revolução. Luís Carlos Prestes, Robin Hood ao contrário, roubou do Terceiro Mundo para dar ao Comintern; e, no governo João Goulart, quando os comunistas proclamavam estar no poder, o amigo do presidente não era o trapalhão P. C. Farias, mas um gênio do tráfico de influência, Tião Maia, que após a queda de seu protetor comprou a vigésima parte do território da Austrália, onde é hoje a quarta maior fortuna do país. Quando lhe perguntam “Como?”, ele responde: “O Banco do Brasil foi uma mãe para mim.” 

Com esses antecedentes, não é de espantar que, na hora de revirar o mapa múndi em busca de exemplares de governantes esquerdistas honestos, só se conseguisse encontrar um na Prefeitura de uma cidadezinha do interior de Alagoas. E era o mais atípico dos prefeitos, sem similares no Brasil ou no mundo. Apesar disso tudo, o exemplo foi persuasivo, ao menos para aquela parcela do público que já estava convicta da superioridade moral das esquerdas. Convicções desse tipo ficam em geral subentendidas e inexpressas, não só porque assim se disseminam de maneira mais fácil por contágio subconsciente, mas porque, se confessadas em voz alta, transformam-se, no ato, em episódios de humorismo involuntário. É o que ocorre por exemplo neste parágrafo do falecido — e, independentemente de suas crenças políticas, muito querido — publicitário Carlito Maia: 

“A direita não tem ideologia alguma, a não ser a cupidez, a ganância, a sede de lucro, a completa ausência de ética no trato com terceiros, quer nos negócios que faz, quer na política que julga fazer, quer na vida; em tudo o que envolve direitistas há, invariavelmente, a mais absoluta falta de escrúpulos sob a capa da honestidade.” 

Poucos intelectuais esquerdistas teriam a candura de exibir assim seus sentimentos mais profundos, que em geral reservam para as conversas informais num círculo íntimo, protegidas pela cumplicidade afetiva que exclui, por um acordo tácito, a interferência de todo olhar crítico. Mas nesse parágrafo há toda uma criteriologia moral subjacente, que devemos conhecer se quisermos chegar à compreensão de como pessoas de elevada cultura e em seu juízo perfeito são capazes de nutrir crenças tão obviamente contrárias aos fatos. 

Pois os fatos, para a mente educada nos cânones do marxismo, são apenas a espuma ilusória que encobre as estruturas profundas: o mundo real não é o de todos os dias, onde vemos agitarem-se personagens de carne e osso, mas aquele que está por trás e onde o enredo é protagonizado por atores invisíveis, denominados Causas da História. É nesse etéreo pano de fundo — similar, sob mais de um aspecto, ao mundo platônico das Ideias — que se desenrola a verdadeira luta entre o Bem e o Mal, da qual as ações humanas não são mais que uma enganosa aparência exterior. Logo, os atos bons podem ser maus, se favorecem ainda que involuntariamente a causa do Bem, e vice-versa. Daí que, para a mentalidade marxista, a bondade e a maldade já não sejam aquelas qualidades ambíguas e flutuantes que vemos aparecer e desaparecer nas circunstâncias mais imprevistas, mas sim atributos essenciais e permanentes, colados de uma vez para sempre em determinados grupos humanos, independentemente da qualidade dos atos concretos dos indivíduos que os compõem: o homem de esquerda é bom, ainda que trapaceie, minta, roube e mate; o da direita é mau, mesmo ao salvar um mosquito que se afoga. O critério de julgamento aí já não está na escala dos atos e intenções individuais, mas no da oportunidade histórica pela qual um ato, qualquer que seja sua motivação subjetiva, favorece ou desfavorece a causa da esquerda: por mais imoral que isto pareça aos demais seres humanos, o marxista não vê nada de mais em julgar um ato antes por suas consequências acidentais do que pela sua natureza e pela sua intenção. 

É ilusório pensar que um cérebro humano, tendo absorvido esse critério, pode livrar-se dele da noite para o dia, mediante simples ato público de abjuração. Uma vez aprendido, ele se incrusta nas estruturas profundas da mente, marcando com sua tonalidade característica as subcorrentes emocionais, e continua a determinar as reações e julgamentos, como um hábito automatizado e tornado inconsciente, muito tempo depois de seu portador ter rejeitado formalmente o marxismo. Ninguém se livra de um complexo com a facilidade de quem devolve uma carteirinha de clube. Convido, pois, os marxistas arrependidos, abundantes neste país, a acompanhar estes meus esboços de psicanálise ideológica: 

Para a tradição marxista, o indivíduo humano não é o sujeito da História e por isto não é nem mesmo, em última instância, o autor de seus atos. Através de suas ações e palavras quem age é “a classe” — aristocracia, burguesia, proletariado. Acreditando decidir e atuar por si, o indivíduo é apenas o fantoche movido pela ideologia da classe. Ele não precisa aprová-la, nem mesmo conhecê-la: a ideologia é uma espécie de Id sociológico que salta por cima das suas intenções conscientes e o faz defender seus privilégios de classe mesmo ele quando imagina estar fazendo precisamente o contrário. Karl Marx substancializa o coletivo abstrato — “a classe” — na mesma medida em que dessubstancializa o sujeito de carne e osso. “Concreta”, para ele, é a classe: o indivíduo é abstrato, malgrado as aparências de unidade corpórea com que a biologia nos engana. Marx não nega ao indivíduo toda autonomia: mas a franja de decisão que resta ao pobre fantoche é romper com a ideologia burguesa e aderir à do proletariado. Só o burguês, é claro, tem esse privilégio: ao proletário resta apenas endossar o discurso da sua própria classe ou evadir-se da realidade. A liberdade, segundo a máxima de Engels, consiste em reconhecer a necessidade. 

Tudo isso, é claro, é puro confusionismo. Se o burguês pode aderir à ideologia do proletariado, é porque a posição de classe não determina efetivamente a ideologia do sujeito, mas apenas a sugere, deixando-o livre para rejeitá-la. O indivíduo fica preso à ideologia de classe simplesmente porque quer, e sai dela quando quer, como o fizeram Marx e Engels, filhos rebeldes da burguesia. O curso da Revolução depende, assim, menos do determinismo ideológico do que do arbítrio pessoal de uns quantos burgueses apóstatas, como se vê pelo fato de que nenhum sujeito de origem proletária liderou jamais uma revolução proletária. Que o nosso Partido dos Trabalhadores seja portanto composto menos de trabalhadores que de uma elite burguesa — como o revelou uma pesquisa recente —, não faz dele exceção nenhuma, e sim uma prova a mais da falácia da teoria marxista da ideologia. Desmentida por sua própria contradição interna e pelos fatos, essa teoria ainda é no entanto aceita como um pressuposto inabalável pela massa de cientistas sociais esquerdistas, porque as tentativas de justificar teoricamente uma certa margem de ação para a consciência individual, exigida pela realidade dos fatos, encontram, no quadro conceptual do marxismo, dificuldades lógicas intransponíveis. 

A ideologia, na verdade, não age, tanto quanto não age a classe: quem age é o indivíduo, usando a ideologia — burguesa ou proletária, segundo sua livre escolha — como um instrumento retórico de autojustificação, que será persuasivo para o público que tenha aderido de antemão (e com igual liberdade) à mesma ideologia, mas não para os adeptos da ideologia contrária. “Classe” aí já não significa uma posição econômica objetiva, mas a receptividade virtual a um determinado discurso, que, uma vez adotado, se tornará retroativamente explicação e causa de si mesmo. Daí o fenômeno, de outro modo incompreensível, da não-coincidência entre classes sociais e blocos ideológicos, da qual a composição sócio-econômica da liderança comunista mundial é o exemplo mais flagrante. Ora, admitir que o pretexto retórico seja o autor dos atos, e que o sujeito humano seja um mero fantoche nas mãos do pretexto, é endossar a mais formidável tentativa já empreendida por um pensador para provar que os rabos abanam os cachorros. A teoria da ideologia é um disfarce, um “vestido de ideias”, Ideenkleid, para usar o termo de Karl Marx, a encobrir a terrível realidade da liberdade humana. 

Mas, desprovida de qualquer valor científico, a teoria da ideologia possui ainda um apelo retórico formidável, principalmente por seus efeitos na esfera da moralidade. Esse efeito consiste, sumariamente, nisto: transformando o rabo em sujeito ativo dos atos do cão, ela confunde e inverte o senso da responsabilidade. Funcionando menos como agente livre do que como instrumento da classe, o indivíduo humano já não responde fundamentalmente por seus atos pessoais voluntários, mas pela classe a que pertence: o sujeito é mau não por ter feito isto ou aquilo, mas por ser um burguês. Para complicar as coisas, “classe” aí tem um sentido ambíguo: pode significar uma posição econômica ou uma afinidade ideológica, entre as quais, como se viu acima, não existe vínculo. Assim, na justiça revolucionária, um homem pode ser condenado não só pelos atos coletivos e impessoais da classe a que pertence (mesmo sem ter deles o mínimo conhecimento), mas pelos de uma outra classe qualquer, caso suas ideias coincidam com a ideologia que, nominalmente, o tribunal a ela atribui. 

A ética daí resultante é tortuosa e perversa até à alucinação. Em primeiro lugar, ela revoga a conexão universalmente admitida entre autoria e culpa: o indivíduo não é mais julgado como agente autônomo e criador de seus próprios atos, mas como “representante” de uma força impessoal — a classe. Como corolário, fica também abolido o liame entre culpa e intenção: a intenção subjetiva de um ato importa menos do que o resultado acidental; e, como a ideologia de classe é o verdadeiro sujeito por trás dos atos humano, qualquer ato que, mesmo por acaso e a contragosto do seu agente, favoreça uma determinada ideologia, será explicado retroativamente como produto dela. Foi assim que a justiça soviética condenou Boris Pasternak: seus poemas apolíticos, por serem apolíticos, desviavam os leitores do interesse pela luta proletária; logo, favoreciam a burguesia, por menos que Pasternak houvesse intencionado conscientemente este resultado; logo, eram produtos da ideologia burguesa; logo, Pasternak era um agente dessa ideologia e culpado pelos crimes atribuídos à burguesia. 

É um erro trágico pensar que essa monstruosidade moral foi sepultada junto com a URSS: a atribuição de culpa mediante identificação ideológica é ainda hoje a forma de raciocínio moral praticada com mais frequência pelos intelectuais de esquerda, mesmo por aqueles que se declaram libertos de toda influência marxista. A recente ilusão em que caiu a esquerda nacional, de poder usar o combate à corrupção como um meio de desferir um golpe mortal na classe dominante, só se explica pela crença dos nossos intelectuais na identidade entre a burguesia e o mal. Se nem de longe lhes passou pela cabeça a hipótese de que a campanha moralista, ainda que carregada de intenções ideológicas de esquerda, pudesse fortalecer a classe dominante, como de fato fortaleceu, foi porque julgaram, a priori, que o domínio de classe é intrinsecamente desonesto e que portanto combater a desonestidade é combater o domínio de classe. Mas não é. O capitalismo não é mais imoral do que o socialismo, não somente de facto, mas mesmo em tese: a ideia de que o funcionalismo público tenha uma virtude moral intrínseca que o torna superior ao empresariado — ou mesmo de que seja mais fácil fiscalizar uma gigantesca burocracia estatal do que as empresas privadas — é uma das mais extravagantes que já passaram pelo cérebro humano; e, no Brasil, ela é de uma comicidade irresistível.



Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...