| 06 JUNHO 2016
Ao desenrolarmos a lista das viagens apostólicas do Papa
Francisco – Brasil, Coreia do Sul, Albânia, Turquia, Sri Lanka, Equador, Cuba,
Estados Unidos, México, Quênia, Uganda, Filipinas -- poder-se-ia dizer que a
Europa não está exatamente no topo da sua agenda.
Os dois pontífices que o antecederam lutaram pela
continuidade do cristianismo. O Papa João Paulo II enfrentou o Comunismo ao
auxiliar na derrubada do Muro de Berlim e a Cortina de Ferro. O Papa Bento XVI
atacou de frente "a ditadura do relativismo" (a crença segundo a qual a
verdade está nos olhos de quem a vê) e apostou tudo na renovação da
evangelização do continente ao viajar através dele (ele visitou três vezes a
Espanha) e em discursos magnificentes como os proferidos em Regensburg, onde
ele falou franca e firmemente a respeito da ameaça do Islã e no Parlamento
Alemão, onde alertou os
políticos presentes no tocante ao declínio da religiosidade e o
"sacrifício de seus próprios ideais em nome do poder".
O Papa Francisco, diferentemente, simplesmente ignora a
Europa, como se já a considerasse perdida. O Ex-cardeal argentino,
representante do cristianismo "Sul global", realizou viagens
espetaculares às ilhas dos migrantes de Lampedusa (Itália) e Lesbos (Grécia), mas nunca ao coração do continente. O Papa
Francisco também dificultou o ingresso dos Anglicanos na Igreja Católica, ao menosprezar o diálogo com
eles.
Acima de tudo, no entanto, em seu importante discurso
proferido em 6 de maio durante a entrega do Prêmio Internacional Carlos Magno,
o Papa perante líderes europeus, repreendeu severamente a Europa no tocante aos
imigrantes pedindo-lhes que sejam mais generosos com eles. Em seguida ele
introduziu algo revolucionário no discurso: "a identidade da Europa é, e
sempre foi uma identidade multicultural", ressaltou o Papa. Essa concepção é questionável.
O multiculturalismo é uma política específica, formulada nos
anos 1970, estando ausente do vocabulário político de Schuman e Adenauer, dois
dos fundadores da Europa. Agora ela foi invocada pelo Papa que falou da
necessidade de uma nova síntese. E essa síntese trata do quê?
Hoje o cristianismo na Europa parece não ter importância e
ser irrelevante. A religião se defronta com um desafio ideológico e
demográfico, ao mesmo tempo em que os remanescentes pós Auschwitz das
comunidade judaicas estão fugindo do novo antissemitismo. Nessas condições, uma
síntese do velho continente e o Islã equivaleria a rendição à pretensão da
Europa em decidir seu próprio futuro.
O "multiculturalismo" é a mesquita erguida sobre
as ruínas da igreja. Não é a síntese defendida pelo Papa. É o caminho da
extinção.
Pedir à Europa para que ela seja "multicultural"
enquanto está passando por uma dramática 'descristianização' também é
extremamente arriscado. Na Alemanha, um relatório que acaba de ser divulgado, constatou
que o "país se tornou, em termos demográficos, um país multirreligioso". No Reino Unido, uma pesquisa de opinião abrangente constatou que
a "Grã-Bretanha não é mais um país cristão". Na França, o Islã também está superando o cristianismo como
religião dominante. É possível encontrar a mesma tendência em todos os lugares,
da Protestante Escandinávia à Bélgica Católica. É por esta razão que o Papa
Bento XVI estava convencido que a Europa precisava ser "'re-evangelizada'." O Papa Francisco nem tentou
're-evangelizar' ou reconquistar a Europa. Contrariamente, ao que tudo indica,
ele acredita piamente que o futuro do cristianismo está nas Filipinas, Brasil e
África.
Provavelmente pela mesma razão, o Papa utiliza menos de seu
tempo censurando o terrível destino dos cristãos no Oriente Médio. Sandro Magister, o observador do Vaticano mais conceituado da
Itália, lança uma luz sobre o silêncio do Papa:
"Ele permaneceu em silêncio em
relação a centenas de estudantes nigerianas sequestradas pelo Boko Haram. Ele
permaneceu em silêncio a respeito de Meriam, a jovem mãe sudanesa, sentenciada
à morte exclusivamente por ser cristã e no final libertada com a intervenção de
outros. Ele nada diz em relação à mãe paquistanesa Asia Bibi, que se encontra
no corredor da morte há cinco anos porque ela também é uma 'infiel', o Papa
sequer respondeu a duas cartas devastadoras que ela lhe enviou este ano, tanto
antes quanto depois da reconfirmação da sentença".
Em 2006, o Papa Bento XV, em sua palestra proferida em Regensburg, ressaltou que nenhum Papa
jamais ousou dizer que havia um elo entre violência e Islã. Dez anos depois o
Papa Francisco jamais invoca pelo nome os responsáveis pela violência
anticristã e nunca menciona a palavra "Islã". Recentemente o Papa
Francisco também reconheceu o "Estado da
Palestina", antes mesmo dele existir -- uma estreia simbólica
sem precedentes. O Papa também poderá abandonar a longa tradição da Igreja da
"guerra justa", a guerra considerada justificável moral e
teologicamente. O Papa Francisco sempre fala da "Europa dos povos", mas
nunca da "Europa das Nações". Ele defende o acolhimento de migrantes
e lava seus pés, ao passo que ignora que essas incontroladas ondas demográficas
estão transformando a Europa, pouco a pouco, em um estado islâmico.
O significado das viagens do Papa Francisco às ilhas de
Lampedusa na Itália e Lesbos na Grécia: ambas símbolos de uma dramática
fronteira geográfica e civilizacional. Também é este o significado do discurso
do Papa na entrega do Prêmio Internacional Carlos Magno.
Será que o chefe do cristianismo desistiu da Europa como uma
terra cristã?
Giulio
Meotti, editor cultural do diário Il Foglio, é jornalista e
escritor italiano.
Publicado no site do The Gatestone Institute.
Tradução: Joseph Skilnik
FONTE: Mídia Sem Máscara

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