CAPÍTULO V
Cansados de largo combater, reduzidos a menos de metade em número e
cobertos de feridas, os cavaleiros de Cristo invocaram o seu nome e fizeram o sinal
da cruz. O Lidador perguntou com voz fraca a um pajem, que estava ao pé das
andas, que nova revolta era aquela.
— Os mouros foram socorridos por um grosso esquadrão — respondeu
tristemente o pajem. — A Virgem Maria nos acuda, que os senhores cavaleiros
parece recuarem já.
O Lidador cerrou os dentes com força e levou a mão à cinta. Buscava a sua
boa toledana.
— Pajem, quero um cavalo. Onde está a minha espada?
— Aqui a tenho, senhor. Mas estais tão quebrado de forças!...
— Silêncio! A espada, e um bom ginete.
O pajem deu-lhe a espada e foi pelo campo buscar um ginete, dos muitos que
andavam já sem dono. Quando voltou com ele, o Lidador, pálido e coberto de
sangue, estava em pé e dizia, falando consigo:
— Por Santiago que não morrerei como vilão da beetria onde entrou
cavalgada de mouros!
E o pajem ajudou-o a montar o cavalo.
Ei-lo o velho fronteiro de Beja! Semelhava um espectro erguido de pouco em
campo de finados: debaixo de muitos panos que lhe envolviam o braço e o ombro
esquerdo levava a própria morte; nos fios da espada, que a mão direita mal sustinha,
levava, porventura, ainda a morte de muitos outros!
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| A Morte do Lidador (Alexandre Herculano) |

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