CAPÍTULO III
Como longa fita de muitas cores, recamada de fios d'ouro e refletindo mil
acidentes de luz, a extensa e profunda linha dos cavaleiros mouros sobressaía na
veiga entre as searas pálidas que cobriam o campo. Defronte deles, os trinta
cavaleiros portugueses, com trezentos homens d'armas, pajens e escudeiros,
cobertos dos seus escuros envoltórios e lanças em riste, esperavam o brado de
acometer. Quem visse aquele punhado de cristãos, diante da cópia d'infiéis que os
esperavam, diria que, não com brios de cavaleiros, mas com fervor de mártires, se
ofereciam a desesperado transe. Porém, não pensava assim Almoleimar, nem os
seus soldados, que bem conheciam a têmpera das espadas e lanças portugueses e
a rijeza dos braços que as meneavam. De um contra dez devia ser o iminente
combate; mas, se havia aí algum coração que batesse descompassado, algumas
faces descoradas, não era entre os companheiros do Lidador, que tal coração batia
ou que tais faces descoravam.
Pouco a pouco, a planura que separava as duas hostes tinha-se embrido
debaixo dos pés dos cavalos, como no tórculo se embebe a folha de papel saindo
para o outro lado convertida em estampa primorosa. As lanças iam feitas: o Lidador
bradara Santiago, e o nome de Alá soara em um só grito por toda a fileira mourisca.
Encontraram-se! Duas muralhas fronteiras, balouçadas por violento terremoto,
desabando, não fariam mais ruído, ao bater em pedaços uma contra a outra, do que
este recontro de infiéis e cristãos. As lanças, topando em cheio nos escudos, tiravam
deles um som profundo, que se misturava com o estalar das que voavam
despedaçadas. Do primeiro encontro, muitos cavaleiros vieram ao chão: um mouro
robusto foi derribado por Mem Moniz, que lhe falsou as armas e traspassou o peito
com o ferro de sua grossa lança. Deixando-a depois cair, o velho desembainhou a
espada e gritou ao Lidador, que perto dele estava:
— Senhor Gonçalo Mendes, ali tendes, no peito daquele perro, aberto a
seteira por onde eu, velha dona assentada à lareira, costumo vigiar a chegada de
inimigos, para lhes ladrar, como alcatéia de vilãos, do cimo da torre de menagem.
O Lidador não lhe pôde responder. Quando Mem Moniz proferia as últimas
palavras, ele topara em cheio com o terrível Almoleimar. As lanças dos dois
contendores haviam-se feito pedaços, e o alfanje do mouro cruzou-lhe com a
toledana do fronteiro de Beja.
Como duas torres de sete séculos, cujo cimento o tempo petrificou, os dois
capitães inimigos estavam um defronte do outro, firmes em seus possantes cavalos:
as faces pálidas e enrugadas do Lidador tinham ganhado a imobilidade que dá, nos
grandes perigos, o hábito de os afrontar: mas no rosto de Almoleimar divisavam-se
todos os sinais de um valor colérico e impetuoso. Cerrando os dentes com força,
descarregou um golpe tremendo sobre o seu adversário: o Lidador recebeu-o no
escudo, onde o alfanje se embebeu inteiro, e procurou ferir Almoleimar entre o
fraldão e a couraça; mas a pancada falhou, e a espada desceu, faiscando, pelo coxote do mouro, que já desencravara o alfanje. Tal foi a primeira saudação dos dois
cavaleiros inimigos.
— Brando é o teu escudo, velho infiel; mais bem temperado é o metal do meu
arnês. Veremos agora se na tua touca de ferro se embotam os fios deste alfanje.
Isto disse Almoleimar, dando uma risada, e a cimitarra bateu no fundo do vale
penedo desconforme desprendido do píncaro da montanha.
O fronteiro vacilou, deu um gemido, e os braços ficaram-lhe pendentes: a
espada ter-lhe-ia caído no chão, se não estivesse presa ao punho do cavaleiro por
uma cadeia de ferro. O ginete, sentindo as rédeas frouxas, fugiu um bom pedaço
pela campanha, a todo o galope.
Mas o Lidador tornou a si: uma forte sofreada avisou o ginete de que seu
senhor não morrera. À rédea solta, lá volta o fronteiro de Beja; escorre-lhe o sangue,
envolto em escuma, pelos cantos da boca: traz os olhos torvos de ira: ai de
Almoleimar!
Semelhante ao vento de Deus, Gonçalo Mendes da Maia passou por entre os
cristãos e mouros: os dois contendores viram-se, e, como o leão e o tigre, correram
um para o outro. As espadas reluziam no ar; mas o golpe do Lidador era simulado, e
o ferro mudando de movimento no ar, foi bater de ponta no gorjal de Almoleimar, que
cedeu à violenta estocada; e o dangue, saindo às golfadas, cortou a última maldição
do agareno.
Mas a espada deste também não errara o golpe: vibrada na ânsia, colhera
pelo ombro esquerdo o velho fronteiro e, rompendo a grossa malha do lorigão,
penetrara na carne até o osso. Ainda mais uma vez a mesma terra bebeu nobre
sangue godo misturado com sangue árabe.
— Perro maldito! Sabe lá no inferno que a espada de Gonçalo Mendes é mais
rija que a sua cervilheira.
E, dizendo isto, o Lidador caiu amortecido; um dos seus homens de armas
voou a socorrê-lo; mas o último golpe d'Almoleimar fôra o brado da sepultura para o
fronteiro de Beja: os ossos do ombro do bom velho estavam como triturados, e as
carnes rasgadas pendiam-lhe para um e para outro lado envoltas nas malhas
descosidas do lorigão.
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| A Morte do Lidador (Alexandre Herculano) |

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