quarta-feira, 12 de abril de 2017

O batismo por imersão na igreja primitiva


A Igreja Ortodoxa e a grande maioria das igrejas protestantes têm mantido o batismo por imersão como a norma padrão do batismo cristão, sendo o batismo por aspersão ou por infusão admissível apenas em casos extremos onde não há água suficiente para se realizar o batismo bíblico por imersão. A Igreja Romana, é claro, batiza por infusão. Afinal, qual era a principal forma de batismo praticada na igreja primitiva? Desde muito cedo vemos a Didaquê, geralmente datada entre 60 a 90 d.C, dizendo:

“Quanto ao batismo, procedam assim: Depois de ditas todas essas coisas, batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Se você não tem água corrente, batize em outra água; se não puder batizar em água fria, faça-o em água quente. Na falta de uma e outra, derrame três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Antes do batismo, tanto aquele que batiza como aquele que vai ser batizado, e se outros puderem também, observem o jejum. Aquele que vai ser batizado, você deverá ordenar jejum de um ou dois dias”[1]

Como vemos, a forma padrão do batismo era em “águas correntes” (imersão), e era somente naausência de águas correntes (i.e, quando não havia água suficiente para se realizar a imersão) que o batismo por infusão era admitido.

Na Epístola de Barnabé, às vezes atribuída ao Barnabé da Bíblia e às vezes a um Barnabé de Alexandria (80-150), mas ainda de data bem antiga, há novamente a clara menção sobre “descer para a água” “subir dela”, o que implica em um lugar em que há água suficiente para realizar o batismo por imersão, onde a pessoa fica imersa na água e depois sobe dela:

“Notai que ele designa ao mesmo tempo a água e a cruz. Com efeito, ele quer dizer: Felizes aqueles que, tendo lançado sua esperança na cruz, desceram para a água. Pois ele diz que o salário vem ‘no tempo certo’. Então, diz ele, eu retribuirei. Mas para hoje, ele diz: ‘Sua folhagem não cairá’. Isso significa que toda palavra de fé e amor que sair da vossa boca será para muitos causa de conversão e de esperança”[2]

“Isso significa que descemos para a água carregados de pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no Espírito o temor e a esperança em Jesus. ‘Quem comer deles viverá eternamente’, quer dizer: quem escutar, quando tais palavras são ditas, e crer nelas, viverá eternamente”[3]

Justino Mártir (100-165), apesar de não ser explícito, se refere ao batismo como sendo um“banho”[4] e um “banho completo”[5], em linguagem diametralmente oposta a uma simples infusão de pequenas quantidades de água sobre o batizado.

Tertuliano (160-220), no mesmo livro em que rejeita o batismo infantil, fala também sobre“mergulhar na água”, novamente em oposição a uma simples infusão ou aspersão:

“O ato do batismo em si é carnal, pois estamos mergulhados na água, mas o efeito é espiritual, pois somos libertados do pecado”[6]

“[No batismo] o homem é mergulhado na água, em meio à pronunciação de algumas poucas palavras, e em seguida sobe novamente[7]

O batismo por imersão continuou sendo a prática-padrão na igreja por muito tempo, visto que Cirilo de Jerusalém (313-386) expôs em sua Segunda Catequese Mistagógica:

“Depois disto fostes conduzidos pela mão à santa piscina do divino batismo, como Cristo da cruz ao sepulcro que está à vossa frente. E cada qual foi perguntado se cria no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. E fizestes a profissão salutar, e fostes imersos três vezes na água e em seguida emergistes, significando também com isto, simbolicamente, o sepultamento de três dias de Cristo. E assim como nosso Salvador passou três dias e três noites no coração da terra , do mesmo modo vós, com a primeira imersão, imitastes o primeiro dia de Cristo na terra, e com a imersão, a noite. Como aquele que está na noite nada enxerga e ao contrário o que está no dia tudo enxerga na luz, assim vós na imersão, como na noite, nada enxergastes; mas na emersão, de novo vos encontrastes no dia”[8]

Note ainda que Cirilo fala sobre a “santa piscina do divino batismo”, que nada mais era senão uma referência aos batistérios da igreja primitiva, que os arqueólogos têm encontrado abundantemente nas antigas igrejas cristãs (veja uma aqui). Por que os cristãos da época teriam “piscinas” em seus templos, se para realizar o batismo era necessário apenas um pouquinho de água jogada na cabeça do batizado?

Em sua Terceira Catequese Mistagógica, Cirilo diz também:

“Ele [Jesus], quando banhado no rio Jordão e comunicando às águas a força da Divindade, delas saiu e se produziu sobre ele a vinda substancial do Espírito Santo, pousando igual sobre igual. Também a vós, ao sairdes das águas sagradas da piscina, se concede a unção, figura daquela com que Cristo foi ungido”[9]

Agostinho (354-430) também vivia na época em que a norma-padrão de batismo era por imersão. Ele afirmou que os batizados recebiam “três imersões na água”[10], e comparou o batismo cristão com as imersões de Naamã, o sírio:

“Quando Naamã, o sírio, caiu doente com lepra, e suplicou pela cura, o levaram ao Jordão, indicando claramente o que estava por vir, tanto pelo uso da água em geral quanto da imersão no rio, em particular[11]

Ou seja, para Agostinho, a imersão de Naamã no Jordão prefigurava o uso da água e a imersão nela que viria no batismo.

João Crisóstomo (347-407), na mesma época de Agostinho, também dizia:

“Ser batizado, pois, mergulhar, em seguida emergir é sinal da descida às regiões inferiores e subida de lá. Por isso Paulo também chama o batismo de sepulcro, nesses termos: Pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte (Rm 6,4)”[12]

Até mesmo Calvino, que batizava por aspersão, admitiu:

“A palavra batizar quer dizer imergir, e é claro que o rito da imersão foi observado nas igrejas primitivas”[13]

Em suma, a forma principal e normativa de batismo na igreja primitiva era, claramente, a imersão em água, sendo o batismo por infusão admitido somente em casos onde não havia água suficiente para se realizar o batismo por imersão, que figura bem mais apropriadamente o fato do batismo representar nosso “sepultamento” para o pecado (imersão) e “ressurreição” para uma vida nova (emersão):

“Isso aconteceu quando vocês foram sepultados com ele no batismo, e com ele foram ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Colossenses 2:12)

“De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Romanos 6:4)

A Igreja Romana, é claro, altera a ordem praticada por séculos na igreja primitiva e impõe o batismo por infusão como a norma-padrão do batismo, seja ele infantil ou adulto, e a imersão apenas secundariamente. Nada novo debaixo do sol para uma igreja bastante conhecida por inovações doutrinárias travestidas de “desenvolvimento da doutrina”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


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[1] Didaquê, 7:1-4.
[2] Epístola de Barnabé, 11:8.
[3] Epístola de Barnabé, 11:11.
[4] 1ª Apologia, 61:3; 61:10.
[5] 1ª Apologia, 62:1.
[6] Do Batismo, c. 7.
[7] Do Batismo, c. 2.
[8] Segunda Catequese Mistagógica, c. 4.
[9] Terceira Catequese Mistagógica, c. 1.
[10] Agostinho, O Batismo de Cristo.
[11] ibid.
[12] Comentário às Cartas de São Paulo – Quadragésima Homília.

[13] Institutas, p. 1320 (IV.xv.19).



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