terça-feira, 15 de novembro de 2016

Austeridade dá voto (09/11/2016, Páginas Amarelas de VEJA)


Vitorioso nas urnas, o governador paulista afirma que a eleição sepultou o ciclo petista de populismo fiscal e que, mesmo há onze anos no poder, ele ainda representa o "novo" na política

Por PEDRO DIAS LEITE



DAS VINTE MAIORES cidades de São Paulo, nenhuma será comandada pelo PT a partir de janeiro de 2017. Onze, incluindo a capital, estarão nas mãos do PSDB. Some-se a isso a derrota do senador tucano Aécio Neves em Belo Horizonte, onde seu candidato perdeu no segundo turno, e conclui-se que o principal vitorioso na eleição municipal deste ano é o governador paulista, o tucano Geraldo Alckmin, pré-candidato à Presidência da República. Em entrevista a VEJA em seu gabinete, na quarta-feira, Dia de Finados, o tucano falou da virada de página do ciclo petista, do governo Temer, da Lava-Jato, da truculência de sua polícia e, com a voz embargada, contou que não passa um dia sem se lembrar do filho Thomaz, morto num acidente de helicóptero em 2015. 

O PSDB vai comandar mais de 34 milhões de eleitores a partir de 2017, um recorde. A que o senhor atribui essa "onda azul"? A austeridade dá voto. A eleição virou uma página do ciclo petista, de mistura de partido com governo e de populismo fiscal, que levou a uma recessão que já dura três anos e a 12 milhões de desempregados (1). Há uma nova política, centrada em gestão, desenvolvimento. É a derrocada do PT e a ascensão de outros partidos, entre eles o PSDB. E, claro, houve bons candidatos, porque a decisão é local.

O que achou da decisão dos ex-presidentes Lula e Dilma de não votar no segundo turno? Sou favorável ao voto facultativo, sou contra essa tutela do Estado, de obrigar, multar, interferir. Agora, a eleição é um ato cívico, e quem está na vida pública deve dar o exemplo. Santo Agostinho dizia que a política benfeita é um ato de amor ao próximo (2); não basta viver, é necessário conviver e participar. Então não votar é um péssimo exemplo.

O senador Aécio Neves disse que não dá para afirmar que o senhor saiu fortalecido, com a vitória no primeiro turno, e ele enfraquecido, com a derrota em Belo Horizonte. Concorda? Concordo, porque 2016 é uma eleição, 2018 é outra. Claro que há reflexos num cenário mais geral, mas esta não está ligada umbilicalmente à de 2018.

O que aconteceu em São Paulo que não aconteceu em Minas? Não tenho detalhes da eleição em Minas. Só posso dizer que em São Paulo houve um fato importante, que foi a prévia. Além disso, conseguimos uma aliança de treze partidos. E, claro, teve o candidato. Pode-se discordar de João Doria, mas não se pode dizer que ele não é claro em suas posições. Falou que ia privatizar, fazer concessões, aumentar a velocidade nas marginais. E também se apresentou como o novo. Essa foi a eleição do novo, e da fadiga com a política.

O senhor acha que é o "novo" na política estando, entre idas e vindas, há onze anos no Palácio dos Bandeirantes? O novo aqui é o perfil, mais de gestor, de executor. Deixe-me mostrar o meu cartão de visita, a diferença entre a velha política e a nova política (exibe um documento com dois gráficos). Quando a crise bateu, a receita do governo federal caiu, mas os gastos aumentaram. O resultado foi um déficit brutal, descontrole das contas públicas. Em São Paulo, as duas curvas seguiram juntinhas uma da outra. Caiu a arrecadação, caiu o gasto. Fechamos estatais, fundações, secretarias. Vendemos avião, helicóptero, cortamos gasto com automóveis, com gasolina. O novo, portanto, é na maneira de fazer política. Gestão. E vou dizer mais: progressista.

Progressista? Sim. O que é o atraso? É o PT. Voltado para trás, num mundo que se caracteriza pela mudança e pela velocidade dessa transformação. Entre todas as estatais fundadas desde dom João VI, 30% o foram nos treze anos do PT. Um exemplo: a EPL foi criada para fazer um trem-bala entre Campinas, São Paulo e o Rio de Janeiro. Não existe trilho, não existe trem, não existe nada, mas a estatal está lá, firme e forte. Isso é atraso. Aí é evidente que não há dinheiro para a saúde, e faz dez anos que a tabela do SUS não é corrigida. Mario Covas dizia que o ajuste fiscal não é economicista, é social. Tem ação econômica, mas o objetivo é social. E a população enxerga isso. O recado das urnas é a maturidade do eleitorado. O PT, há vinte anos, era um partido de poucas e grandes cidades. Ficou reduzido às menores. 

A eleição teve um viés conservador. Marcelo Crivella, prefeito eleito do Rio, afirmou que foi uma vitória os "valores cristãos". Concorda? Toda eleição tem valores que são colocados. Mas o Estado é laico. Quando digo que somos progressistas, quero criar um contraponto em relação ao atraso do PT. O brasileiro nos últimos tempos foi órfão do interesse público e escravo do corporativismo.

A Lava-Jato está atropelando políticos de todos os partidos, inclusive do seu PSDB. Há algum risco de que chegue perto do senhor? Primeiro, defendo a investigação, sempre. Segundo, fui eleito prefeito há quase 40 anos, aos 24 anos, na minha cidade, Pindamonhangaba, me formando médico. Meu pai dizia: "Olha, você, embora médico, gosta de política. Então, se for exercê-la, lembre-se bem. Primeiro: dedicação. Segundo: coragem moral. Terceiro: vida pessoal modesta. Se quiser ficar rico, vá para a iniciativa privada". Quase quarenta anos depois  tenho 63 , toda noite faço um balanço de consciência, rigorosamente. Meu pai não está mais vivo, mas seu ensinamento é a proa. 

Nas planilhas da Odebrecht, aparece o codinome "Santo". Investigadores suspeitam que seja uma referência ao senhor. Zero. Zero. Investigue-se, investigue-se.

O governo de Michel Temer é aprovado por apenas 14% dos brasileiros. Os outros 86% estão errados? Primeiro, há um mau humor generalizado, e não é surpresa, com uma crise deste tamanho. Em segundo lugar, existe a circunstância em que esse governo chegou ao poder. Impeachment é sempre um trauma. No regime parlamentarista, a troca do primeiro-ministro é um processo natural. No presidencialista, como há mandato, não é. O governo está no começo, mas o clima é positivo. O resultado da eleição enterrou essa coisa de golpe.

São Paulo tem a menor taxa de homicídios do país, mas sua polícia é acusada de ser truculenta. Em 1999, tínhamos 35 homicídios por 100 000 habitantes. Hoje estamos com 8,46. (3) Naquele ano, morreram 13 100 pessoas. No ano passado foram 3 700. O ex-prefeito do Rio Cesar Maia chamou a atenção para um aspecto importante: alguns dizem que não há relação entre criminalidade e número de prisões. Mas, engraçado, São Paulo é o estado em que houve maior diminuição no número de assassinatos, e também é o que mais prende. O que é preciso fazer? Tirar criminoso da rua. Nós temos 23% da população brasileira, mas 38% da população carcerária, 233 000 presos.

No ano passado, a polícia paulista matou 848 pessoas, mais de duas por dia. Isso é razoável? (4) Temos um trabalho permanente para para reduzir esse número. Mas há algumas explicações: primeiro, é na hora da prisão que existe mais confronto. Como São Paulo é o estado que mais prende, acaba ocorrendo mais confronto. Segundo, o nível de armamento dos criminosos, com fuzis. Infelizmente, também perdemos policiais em serviço. No primeiro semestre, foram 43. E procuramos treinar ao máximo a nossa polícia, além de ter uma corregedoria muito séria. Nos seis primeiros meses do ano, 149 policiais foram presos, 39 foram demitidos e 91 foram expulsos. Temos 130 000 policiais na ativa. Se houver 1% que represente problema são 1 300. Não existe tolerância com abuso.

O ex-presidente do Tribunal de Justiça Ivan Sartori afirmou que as mortes no Carandiru não foram um massacre, mas legítima defesa. Qual a sua opinião? Tem dois aspectos que chamam atenção. Primeiro, o tempo que levou para essa decisão, quase um quarto de século. E pelo jeito o caso vai se prolongar. Segundo, não estudei os autos. O Carandiru era um contrassenso, com 8 000 presos. Nós o desativamos e construímos unidades menores, mantendo os presos próximos da família e trabalhando. Carandiru, hoje, só no filme do Hector Babenco.

Hoje é Dia de Finados, faz um ano e sete meses que o senhor perdeu um filho. Como está sua vida? A minha vida e a da Lu, tenho certeza, apesar de a gente falar pouco sobre isso, são marcadas por antes de 2 de abril de 2015 e depois de 2 de abril de 2015. Você acorda cedo e vai dormir de noite pensando no filho, porque é uma inversão da ordem natural das coisas. Os filhos devem enterrar os pais. Um pai enterrar um filho é uma dor que não passa. Quando o Thomaz faleceu, eu disse: nunca mais vou deixar de ir à missa e vou oferecer todo domingo ou dia santo. Comungo e ofereço ao Thomaz, peço a Deus que ele esteja nos braços de Jesus. Pode fazer chuva, sol, estar no interior, fora. E também guardo as boas lembranças. Ele deixou duas menininhas queridíssimas, a Isabelinha, que já está com 13 anos, e a Julinha, que tinha 30 dias quando ele faleceu. Mas tenho boas recordações. Você imagine um menino de coração bom, generoso. Há um fato interessante. Um dia, ele foi a Pinda, era menino, e esteve com meu pai. Tinha uns 13 anos. Meu pai perguntou: "Thomaz, tudo bem?". Ele falou: "Olha, vô, minhas notas na escola não estão muito boas, por isso meu pai e minha mãe estão meio bravos". Então papai disse: "Thomaz, você gosta de cachorro, gosta de gente, põe Dona Margarida (mãe de uma irmã de criação nossa que ficou cega) no colo. Guarde o seguinte: na vida, o importante não é ser o primeiro. O importante é ser bom". E o Thomaz era um menino bom. Faleceu fazendo o que mais amava, que era voar. (5)

FIM



 Notas do Tio Celo:





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